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Prelúdio
Se pouca gente ouviu falar de
Poliuto, menos gente ainda ouviu o drama lírico de Donizzeti. Mesmo em
seu tempo Poliuto não foi exatamente popular. Terminada em
1838 – anos depois de L'elisir d'amore e Lucia di Lammermoor – a
obra só estreou uma década mais tarde, e sua forma original só foi
conhecida depois da morte do compositor.
Se não fosse pelas mãos do
Mestre Sidney Romano dos Reis, provavelmente eu jamais teria contato com
Poliuto, essa pequena obra-prima de melodia e de forma. Para me
convencer a experimentar a música, Mestre Sidney não mencionou as erudições do mundo lírico que domina completamente.
Nem teceu conexões
entre o drama, a História, e a vida breve e abrupta de Donizzeti. Em resumo,
ele disse apenas que eu deveria ouvir Poliuto porque essa ópera... é muito
bonita.
Esse é o método de Mestre
Sidney: do coração para o coração da questão.
Mestre Sidney é dono de um
arquivo de gravações invejável e de uma biblioteca sem fins decorativos
(coisa rara nesse país). É o pesquisador insaciável de um repertório
vastíssimo de muitos idiomas, e conhecedor profundo da arte mais humana,
difícil, ingrata e volátil: o canto lírico.
Tenho certeza que, acompanhando
seus artigos, vou aprender algo que sempre me assombrou e fascinou por suas
altas exigências,
sutilezas e complexidades: a arte de ouvir vozes.
Obrigado, Mestre Sidney.
Bem-vindo ao site com os melhores leitores da web.
Ricardo Gondim

Alguns tempos, algumas vozes e muitas óperas
©Sidney Romano dos Reis
Meu dileto amigo Gondim fez convite para que eu passe a escrever sobre Ópera
neste nosso querido e necessário Logos Eletrônico.
E logo (desculpem, não resisti ) me faz
isso, autor que é, e inspiradíssimo, de diversos escritos sobre a arte
lírica. A amizade nunca foi levada tão longe, porém não sou de refugar
diante de pedidos tão sinceros e, em razão disso, não apenas acedi, com
muita honra, como pensei em escrever sem floreios ou precisões estilísticas,
dando vazão apenas àquilo que o coração pede.
E meu coração determina
que se lembre e se preste homenagens a algumas vozes, de alguns tempos, em
muitas óperas.
Explico o porque.
Cada um tem na vida um primeiro contato com
esta ou aquela arte, e essa memória cala fundo na nossa alma. Passam anos,
crises, sucessos, fracassos, vêm esperanças renascidas, mas nunca nos
esquecemos de como tudo começou. No meu caso foi em decorrência direta de um
pedido paterno. Quando completavam bodas de prata, indagado sobre o que
gostaria receber de presente, meu saudoso genitor disse que quando se
preparava para ir à igreja, na data do casamento, ouvia, na Rádio Gazeta de
São Paulo a uma transmissão da Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, com
elenco do qual não se lembrava. Queria reviver aquele sentimento. Afirmava
que a música daquela ópera era maravilhosa, intensa, emocional e, sobretudo,
de uma beleza difícil de definir.
Como bom filho, corri para comprar e, como
costume naquela época, abri as páginas amarelas. Após várias ligações,
somente duas Lojas em São Paulo possuíam LP’s de Ópera para vender, ambas já
fechadas, infelizmente, e que causam saudade para os que as frequentavam:
Bruno Blois e Brenno Rossi.
Nesta última encontrei a Cavalleria
Rusticana, com Elena Obraztsova, Placido Domingo e Renato Bruson, encarnando
as personagens principais, sob regência de Georges Prêtre à frente da
Orquestra e Coro do Alla Scala de Milão.
Óbvio que apressei-me
em levar o presente, para que meu pai pudesse ouvir antes de ir para a
cerimônia de Bodas. Ele me fez a gentileza de mandar eu abrir a caixa com os
dois LP’s e colocar na Taterka antiga que possuíamos. Aos primeiros
acordes fiquei impressionado. Quando o coro e Santuzza entoaram Innegiamo,
il Signor non è morto, não contive a emoção, ficando com os olhos
marejados. Quando explodiu o dueto entre Santuzza e Turiddu, fiquei
sobressaltado com a pletora de emoções fortes que brotavam. No Intermezzo
simplesmente chorei, tamanha a beleza daquela página imortal. Tive
vontade de entornar um bom Chianti ao ouvir Viva il vino spumeggiante
e fiquei arrebatado com o avassalador final, após Turiddu dizer Addio
alla Madre. Só então lembrei de olhar o rosto do meu pai, de tão absorto
que havia ficado, e não sem surpresa vi que ele tinha os olhos vermelhos
também. Nada foi necessário dizer. Abraçamo-nos e uma vez mais, no meu
interior, eu agradeci a Deus por ter me dado aquela alma generosa como
genitor.
Depois desse episódio, ocorrido em 1982,
nunca mais parei de comprar discos de Ópera. Nunca mais deixei de procurar
ler a respeito. Nunca mais deixei de procurar amigos que compartilhem do
mesmo prazer. E jamais regateei em prestar informações acerca de Ópera,
in questo popoloso deserto che apellano... Brasil, pedindo escusas a
Violeta por ter-lhe roubado a frase.
De tudo isso
decorreu que, num belo dia, de forma mais que natural, passei a me
interessar não apenas sobre os discos atuais e bem gravados de arte lírica
mas, sobretudo, por discos antigos, das vozes do passado, dos maestros dos
primórdios da gravação, procurando e pesquisando toda literatura a que
tivesse acesso, simplesmente porque foi com eles que, pelo milagre do disco,
milhões de pessoas como eu, que nunca tinham pisado num Teatro, podiam ouvir
aquela música, aquele canto, aquela magia.
Foi assombroso perceber que as vozes de então eram fabulosas. Conjugavam
arte, técnica, beleza, força, requinte, pureza, porém eram “feias” quando
necessário e, acima de tudo, como sabiam passar pelo som toda a gama de
sentimentos que suas personagens exigiam. E isso, meus amigos, é toda a
essência, segundo meu pobre aviso, do que seja efetivamente o Teatro da
Ópera.
Atento a isso escreverei acerca dessas vozes
do passado e, principalmente, das suas grandes personagens, destacando as
gravações que, mesmo falhas tecnicamente, sem nenhum esmero em termos de
acústica ou ambiência, podem nos passar, ainda hoje, a emoção que elas
causavam para as platéias da época, conjugando beleza, lirismo, força
interpretativa e, sobretudo, teatralidade.
Procurarei pinçar vozes cujos documentos
discográficos possam ser encontrados.
É óbvio que aqueles que se debruçarem sobre
a deliciosa tarefa de ouvir essas vozes deverão ter paciência, porque nem
sempre elas correspondem àquilo que nos emociona, por exemplo, no que se
refere à beleza do timbre, mas mesmo assim foram cantores históricos, que
marcaram seu lugar definitivamente no panteão das lendas da ópera. Cito
apenas dois exemplos e, por favor, situem-se tão só nos timbres de ambos:
MARIA CALLAS e AURELIANO PERTILE. Foram dois monstros sagrados da arte
lírica, mas que se analisados tão apenas sob enfoque de beleza de timbre,
certamente não seriam elogiados.

Isso só vem demonstrar que, para além da
simples beleza de timbre, um cantor de estatura histórica deveria possuir um
algo a mais que o diferenciasse, que o colocasse acima dos apenas bons, e
para meu aviso, tal só era conseguido através da mais difícil das
habilidades canoras: transmitir, por palavras cantadas, o perfil psicológico
de cada personagem, mediante as inflexões corretas, sabendo dosar o peso da
voz, seu volume, até mesmo tornando-a feia quando necessário. Exemplo muito
claro disso está no Otello verdiano, no segundo ato, quando Jago diz ao
mouro que o lenço com que ele havia presenteado Desdemona fora visto em mãos
de Cassio. Um barítono como o Tito Gobbi o fazia peremptoriamente, a fim de
insular no ânimo de Otello o mais completo desequilíbrio nascido do ciúme.
Já Leonard Warren, barítono de levadura histórica do velho Met, preferia
sussurrar a frase lo vidi in man di Cassio. E com isso causava um
efeito devastador.
Levarei adiante, portanto,
como homenagem de reconhecimento e gratidão a essas vozes, a cada mês, o
exame de uma gravação, discutindo as vozes, sem esquecer das origens da
ópera, apresentando biografias e discografia.
O tempo dirá se terei sucesso, ou seja, até
que o Gondim me mande parar de escrever. [Nota do Gondim: quem sou
eu?]
Não quero terminar antes de dedicar este
despretensioso escrito a três pessoas: ao meu Genitor JOSE CID DOS REIS, de
quem me espelho em tudo, certo de que jamais o ombrearei, e ao nosso querido
HOLBEIN MENEZES, Decano da audiofilia nacional, de quem me julgo sempre um
eterno e humilíssimo aprendiz, e ao meu dileto amigo e irmão RICARDO LABUTO
GONDIM, que sempre me incentiva, sem que eu saiba, na verdade, se tenho
tanta coisa assim pra falar.
Até o Mês que vem, quando iniciarei minhas
aventuras comentando a AIDA, de Giuseppe Verdi, de 1951, na Cidade do
México, com MARIA CALLAS, MARIO DEL MONACO, ORALIA DOMINGUEZ, GIUSEPPE
TADDEI e outros, sob a regência do Maestro OLIVIERO DE FABRITIS, à frente da
Orquestra e Coro do Palácio das Belas Artes da capital mexicana.

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