alguns tempos

05/09/10

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A Aida de Maria Callas

 

 


Prelúdio

Se pouca gente ouviu falar de Poliuto, menos gente ainda ouviu o drama lírico de Donizzeti. Mesmo em seu tempo Poliuto não foi exatamente popular. Terminada em 1838 – anos depois de L'elisir d'amore e Lucia di Lammermoor – a obra só estreou uma década mais tarde, e sua forma original só foi conhecida depois da morte do compositor.

Se não fosse pelas mãos do Mestre Sidney Romano dos Reis, provavelmente eu jamais teria contato com Poliuto, essa pequena obra-prima de melodia e de forma. Para me convencer a experimentar a música, Mestre Sidney não mencionou as erudições do mundo lírico que domina completamente. Nem teceu conexões entre o drama, a História, e a vida breve e abrupta de Donizzeti. Em resumo, ele disse apenas que eu deveria ouvir Poliuto porque essa ópera... é muito bonita.

Esse é o método de Mestre Sidney: do coração para o coração da questão.

Mestre Sidney é dono de um arquivo de gravações invejável e de uma biblioteca sem fins decorativos (coisa rara nesse país). É o pesquisador insaciável de um repertório vastíssimo de muitos idiomas, e conhecedor profundo da arte mais humana, difícil, ingrata e volátil: o canto lírico.

Tenho certeza que, acompanhando seus artigos, vou aprender algo que sempre me assombrou e fascinou por suas altas exigências, sutilezas e complexidades: a arte de ouvir vozes.

Obrigado, Mestre Sidney. Bem-vindo ao site com os melhores leitores da web.

Ricardo Gondim
 

Alguns tempos, algumas vozes e muitas óperas
 

©Sidney Romano dos Reis


Meu dileto amigo Gondim fez convite para que eu passe a escrever sobre Ópera neste nosso querido e necessário Logos Eletrônico.

E logo (desculpem, não resisti ) me faz isso, autor que é, e inspiradíssimo, de diversos escritos sobre a arte lírica. A amizade nunca foi levada tão longe, porém não sou de refugar diante de pedidos tão sinceros e, em razão disso, não apenas acedi, com muita honra, como pensei em escrever sem floreios ou precisões estilísticas, dando vazão apenas àquilo que o coração pede.

E  meu coração determina que se lembre e se preste homenagens a algumas vozes, de alguns tempos, em muitas óperas.

Explico o porque.

Cada um tem na vida um primeiro contato com esta ou aquela arte, e essa memória cala fundo na nossa alma. Passam anos, crises, sucessos, fracassos, vêm esperanças renascidas, mas nunca nos esquecemos de como tudo começou. No meu caso foi em decorrência direta de um pedido paterno. Quando completavam bodas de prata, indagado sobre o que gostaria receber de presente, meu saudoso genitor disse que quando se preparava para ir à igreja, na data do casamento, ouvia, na Rádio Gazeta de São Paulo a uma transmissão da Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, com elenco do qual não se lembrava. Queria reviver aquele sentimento. Afirmava que a música daquela ópera era maravilhosa, intensa, emocional e, sobretudo, de uma beleza difícil de definir.

Como bom filho, corri para comprar e, como costume naquela época, abri as páginas amarelas. Após várias ligações, somente duas Lojas em São Paulo possuíam LP’s de Ópera para vender, ambas já fechadas, infelizmente, e que causam saudade para os que as frequentavam: Bruno Blois e Brenno Rossi.

Nesta última encontrei a Cavalleria Rusticana, com Elena Obraztsova, Placido Domingo e Renato Bruson, encarnando as personagens principais, sob regência de Georges Prêtre à frente da Orquestra e Coro do Alla Scala de Milão.

Óbvio que apressei-me em levar o presente, para que meu pai pudesse ouvir antes de ir para a cerimônia de Bodas. Ele me fez a gentileza de mandar eu abrir a caixa com os dois LP’s e colocar na Taterka antiga que possuíamos. Aos primeiros acordes fiquei impressionado. Quando o coro e Santuzza entoaram Innegiamo, il Signor non è morto, não contive a emoção, ficando com os olhos marejados. Quando explodiu o dueto entre Santuzza e Turiddu, fiquei sobressaltado com a pletora de emoções fortes que brotavam. No Intermezzo simplesmente chorei, tamanha a beleza daquela página imortal. Tive vontade de entornar um bom Chianti ao ouvir Viva il vino spumeggiante e fiquei arrebatado com o avassalador final, após Turiddu dizer Addio alla Madre. Só então lembrei de olhar o rosto do meu pai, de tão absorto que havia ficado, e não sem surpresa vi que ele tinha os olhos vermelhos também. Nada foi necessário dizer. Abraçamo-nos e uma vez mais, no meu interior, eu agradeci a Deus por ter me dado aquela alma generosa como genitor.

Depois desse episódio, ocorrido em 1982, nunca mais parei de comprar discos de Ópera. Nunca mais deixei de procurar ler a respeito. Nunca mais deixei de procurar amigos que compartilhem do mesmo prazer. E jamais regateei em prestar informações acerca de Ópera, in questo popoloso deserto che apellano... Brasil, pedindo escusas a Violeta por ter-lhe roubado a frase.

De tudo isso decorreu que, num belo dia, de forma mais que natural, passei a me interessar não apenas sobre os discos atuais e bem gravados de arte lírica mas, sobretudo, por discos antigos, das vozes do passado, dos maestros dos primórdios da gravação, procurando e pesquisando toda literatura a que tivesse acesso, simplesmente porque foi com eles que, pelo milagre do disco, milhões de pessoas como eu, que nunca tinham pisado num Teatro, podiam ouvir aquela música, aquele canto, aquela magia.

Foi assombroso perceber que as vozes de então eram fabulosas. Conjugavam arte, técnica, beleza, força, requinte, pureza, porém eram “feias” quando necessário e, acima de tudo, como sabiam passar pelo som toda a gama de sentimentos que suas personagens exigiam. E isso, meus amigos, é toda a essência, segundo meu pobre aviso, do que seja efetivamente o Teatro da Ópera.

Atento a isso escreverei acerca dessas vozes do passado e, principalmente, das suas grandes personagens, destacando as gravações que, mesmo falhas tecnicamente, sem nenhum esmero em termos de acústica ou ambiência, podem nos passar, ainda hoje, a emoção que elas causavam para as platéias da época, conjugando beleza, lirismo, força interpretativa e, sobretudo, teatralidade.

Procurarei pinçar vozes cujos documentos discográficos possam ser encontrados.

É óbvio que aqueles que se debruçarem sobre a deliciosa tarefa de ouvir essas vozes deverão ter paciência, porque nem sempre elas correspondem àquilo que nos emociona, por exemplo, no que se refere à beleza do timbre, mas mesmo assim foram cantores históricos, que marcaram seu lugar definitivamente no panteão das lendas da ópera. Cito apenas dois exemplos e, por favor, situem-se tão só nos timbres de ambos: MARIA CALLAS e AURELIANO PERTILE. Foram dois monstros sagrados da arte lírica, mas que se analisados tão apenas sob enfoque de beleza de timbre, certamente não seriam elogiados.

Isso só vem demonstrar que, para além da simples beleza de timbre, um cantor de estatura histórica deveria possuir um algo a mais que o diferenciasse, que o colocasse acima dos apenas bons, e para meu aviso, tal só era conseguido através da mais difícil das habilidades canoras: transmitir, por palavras cantadas, o perfil psicológico de cada personagem, mediante as inflexões corretas, sabendo dosar o peso da voz, seu volume, até mesmo tornando-a feia quando necessário. Exemplo muito claro disso está no Otello verdiano, no segundo ato, quando Jago diz ao mouro que o lenço com que ele havia presenteado Desdemona fora visto em mãos de Cassio. Um barítono como o Tito Gobbi o fazia peremptoriamente, a fim de insular no ânimo de Otello o mais completo desequilíbrio nascido do ciúme. Já Leonard Warren, barítono de levadura histórica do velho Met, preferia sussurrar a frase lo vidi in man di Cassio. E com isso causava um efeito devastador.

Levarei adiante, portanto, como homenagem de reconhecimento e gratidão a essas vozes, a cada mês, o exame de uma gravação, discutindo as vozes, sem esquecer das origens da ópera, apresentando biografias e discografia.

O tempo dirá se terei sucesso, ou seja, até que o Gondim me mande parar de escrever. [Nota do Gondim: quem sou eu?]

Não quero terminar antes de dedicar este despretensioso escrito a três pessoas: ao meu Genitor JOSE CID DOS REIS, de quem me espelho em tudo, certo de que jamais o ombrearei, e ao nosso querido HOLBEIN MENEZES, Decano da audiofilia nacional, de quem me julgo sempre um eterno e humilíssimo aprendiz, e ao meu dileto amigo e irmão RICARDO LABUTO GONDIM, que sempre me incentiva, sem que eu saiba, na verdade, se tenho tanta coisa assim pra falar.

Até o Mês que vem, quando iniciarei minhas aventuras comentando a AIDA, de Giuseppe Verdi, de 1951, na Cidade do México, com MARIA CALLAS, MARIO DEL MONACO, ORALIA DOMINGUEZ, GIUSEPPE TADDEI e outros, sob a regência do Maestro OLIVIERO DE FABRITIS, à frente da Orquestra e Coro do Palácio das Belas Artes da capital mexicana.

 

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Este site foi atualizado em 01/01/10