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a aida de maria callas |
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12/01/12 |
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A Aida é celeste, mas Callas é divina
©Sidney Romano dos Reis
É mesmo exaltar MARIA CALLAS, mas não por suas apresentações e criações mais congênitas, como TOSCA, NORMA ou VIOLETA. Prefiro situar minha enorme admiração por essa verdadeira Diva, talvez a última dessa dimensão, por uma de suas personagens menos conhecidas: AIDA, na ópera epônima de Giuseppe Verdi. Só que não vou escrever nada acerca da famosa gravação de estúdio, em 1955, com Richard Tucker, Tito Gobbi, Fedora Barbieri, Nicola Zaccaria e Giuseppe Modesti nos papéis principais, sob a regência do saudoso Túlio Serafin, à frente da Orquestra e Coro do Allá Scala di Milano, lançada pela EMI. Minhas considerações cercarão uma récita que se tornou lendária por causa de uma única nota que ela “deu” no fim do segundo ato, que não era inédita para ela, posto que já a havia executado um ano antes, em 1950, também no México. E nessa mesma récita teve para alguns, equivocadamente, o começo dos desentendimentos entre Callas e Mario Del Mônaco, grande tenor dramático italiano, que supostamente a teria agredido com as cortinas baixadas, justamente porque na época ele era mais famoso que ela e a tal nota o teria humilhado. Isso não somente jamais existiu, bastando a leitura da própria biografia de Del Mônaco a respeito, como a verdade é que um certo mal estar foi causado para outro tenor, o germânico Kurt Baum. A respeito disso, veja-se aqui. Nessa página, verificaremos que a tal nota agudíssima, na verdade um MI BEMOL, já havia sido introduzida por um soprano mexicano durante o Século XIX, e que outras cantoras se atreveram e conseguiram imitá-la, mas me arrisco a dizer, sem o mesmo brilho, firmeza, técnica e raça com que a Callas o fez. Embora essa nota tenha realmente ficado famosa, não apenas pela força e controle com que foi lançada, cobrindo todos os demais solistas, coro e orquestra em fortíssimo, com oito (08) segundos de duração, o que, evidentemente, não é pouco, o que vale mais ressaltar é a maestria de Callas na construção de uma personagem envolvente, sensual, porém ao mesmo tempo desprotegida e insegura, como efetivamente se havia de esperar de uma jovem princesa etíope tornada escrava e refém na corte do Faraó do Egito. Não é surpresa para ninguém que Maria Callas tinha um timbre até feio, se comparado, por exemplo, com os de Renata Tebaldi, Mafalda Favero, Magda Olivero, Zinka Milanov e um pouco mais adiante Montserrat Caballé, contemporâneas dela. Isso ela mesmo o admitia, conforme pode ser visto nas páginas iniciais do livro escrito em sua homenagem por John Ardoin, numa entrevista que lhe concedeu, fazendo ela uma pergunta assaz inesperada, no sentido de que ele, provavelmente, não teria gostado do seu timbre quando a ouviu pela primeira vez. Ninguém desconhece, também, a vida conturbada que sempre levou, com infância difícil nos Estados Unidos, onde nasceu, sendo posta em segundo plano pela mãe, em razão de ser gordinha, mas guardando surpresa de ter sido aquinhoada com uma voz de expressão inigualável, já detectada com apenas oito anos de idade, num programa de rádio, quando executou a ária da Butterfly, Um bel di vedremo.
Compreenda-se que no início da década de 50, não se sentia, como hoje, a necessidade originada pela crescente importância da mídia visual, de os cantores serem bons atores ou bonitos aos olhos. Beniamino Gigli é dono, sem dúvida, de uma das mais belas vozes tenorís de todos os tempos, mas muitos o julgavam no palco como pouco mais que um pezzo di legno, e absolutamente isso não importava a ninguém, pois o que era realmente importante era a beleza da voz e a técnica de sua emissão. Se a isso se somassem sensibilidade e destreza interpretativa tais que fizessem com que o cantor passasse realmente ao público toda a psique das personagens, se alcançava praticamente a perfeição. E é nisso, justamente, que se constitui a maior expressão da Aida de Callas, no Bellas Artes da Cidade do México, em 1951. Com os parcos conhecimentos que obtive a muito custo, mercê de quase três décadas de interesse pela ópera, posso dizer sem medo de errar que a estatura psicológica por força da interpretação de Callas dessa Aida ainda não encontrou paralelo, e nisso incluo sopranos do calibre de uma Tebaldi, de uma Price, de uma Freni ou de uma Caballé. Por amor à organização, deve ser transcrita a ficha técnica completa dessa interpretação genial e arrebatadora:
Para quem não sabe, apesar das montagens quase sempre serem hollywoodianas e gigantescas, muitas vezes esbarrando no kistch, AIDA é uma das óperas mais intimistas de Giuseppe Verdi. Nela a chamada parola scenica que o fenomenal compositor de Busseto introduziu em seu universo musical com Don Carlo alça vôos mais grandiosos e se estabelece definitivamente como uma válida e eficaz forma de teatralização musical. Alia a declamação musical, a entonação, o canto, enfim, aos propósitos cênicos, visando-se maior interação e coadunação, sem o que uma não se completa sem a outra. É a união da palavra com o sentido musical-dramático. Para melhor compreensão acerca do libreto da Aida (fonte: Wikipédia):
Nenhuma outra ópera como AIDA exige o uso da parola scenica, justamente porque suas personagens realmente mostram quem são e o que sentem não nos fabulosos ensembles, mas precipuamente na árias e nos duetos, possibilitando ao público mais atento a imersão no caleidoscópio emocional que está sempre latente e a ponto de vibrar em toda sua extensão. Daí a razão de ter escolhido essa récita do México, em 1951. Não porque nela está registrada de forma mais clara e precisa aquele monstro de nota que a Callas emitiu, mas porque como em nenhuma outra versão percebi de forma tão clara os sentimentos das personagens e em nenhuma outra seus intérpretes, segundo meu modestíssimo aviso, conseguiram amealhar tão detalhadamente essa paleta rica e profunda de sensações, de emoções. É nela que vemos uma princesa/escrava dividida entre o amor paternal, o patriotismo, a saudade da terra natal e do aconchego materno e o amor carnal, a atração física e sentimental pelo comandante que conduz o exército inimigo à vitória sobre seus compatriotas etíopes. E nela que percebemos de maneira mais patente, como na cena do Nilo, no início do terceiro ato, como é tornada um joguete nas mãos do pai autoritário e sedento de vingança, como é convencida a trair seu amor. E então entoa uma das árias mais lindas e tocantes de todo o repertório sopranístico, O patria Mia, reveladora de todas essas nuances, de execução sempre temida em virtude de não apenas se dever dar prosseguimento à construção da personagem, mas porque ali se tem outra passagem de terrível dificuldade vocal, que é um Dó em pianíssimo, que Callas nos entrega com uma riqueza sem sombra ou paralelo. Mais do que nessa ária, contudo, é no início, em outra ária, Ritorna Vincitor, que se estabelece a fragilidade psíquica da escrava do Faraó, pois exulta ao saber que seu amado Radamés será o comandante das hostes egípcias, o que lhe trará, sem dúvida, muita honra e prestígio, a ponto de poder, quem sabe, libertá-la da condição em que se encontra, para no momento seguinte cair em si e perceber que isso somente pode ocorrer se ele derrotar o exército de seu pai, o Rei Amonasro, culminando por clamar aos deuses que dela tenham compaixão. Callas logo ali já nos demonstra a que veio, como construirá sua personagem, como a tornará frágil e dividida entre o amor e o dever. Mas não é só. Todo o segundo ato é uma proeza de interpretação músico-teatral, primeiro na grande primeira cena, em que é enganada por Amneris, que a induz pensar que Radamés havia sucumbido em batalha, vindo, então, a se tornar alvo de cólera e ameaça pela Filha do Faraó. Dueto ricamente engrandecido pela excepcional cantora e intérprete que foi Oralia Dominguez, mezzo-soprano de cor escura, voz pastosa, tecnicamente invejável e teatralmente eficacíssima. Segue-se a monumental cena da Marcha Triunfal, durante a qual temos a primeira aparição de Amonasro, vestido como mero oficial e escondendo sua real identidade, passando-se pela preocupação de Radamés em conseguir a libertação dos etíopes capturados, certamente para conseguir definitivamente o amor de Aida, enfrentando a reação antagônica de Ramfis, Supremo Sacerdote de Fthá vindo a aparecer, no final, aquele tão decantado Mi Bemol, de duração fantástica pelo volume e ênfase com que executado, podendo-se, para se ter uma idéia, ouvi-lo no seguinte vídeo: Em verdade, nesse verdadeiro manancial de sons que é o famoso site mencionado, encontrar-se-ão todas as principais passagens dessa récita de 03 de julho de 1951, facilitando, e muito, as coisas para quem pretenda apenas conhecer essa maravilhosa versão, mas que vale muito adquirir, para se ouvir em melhores condições. Ainda em atenção somente à interpretação histórica e mágica de Callas, impossível deixar de referir o lindíssimo dueto da cena final do terceiro ato, Pur ti riveggo mia dolce Aida, em que Mario Del Mônaco se mostra cantor de notáveis dotes, especialmente o fator heróico que deve ilustrar sua personagem como Radamés, mas sem olvidar o homem apaixonado e capaz de tudo deixar para conseguir apenas o que mais deseja: a mulher que ama. Para tanto, é de emocionar a Celeste Ainda que entrega com brilhantismo e panache no início do primeiro ato. O dueto de ambos ao final, O terra, addio não apenas é tocante na beleza imperecível de sua linha canora, mas em razão mesma da sensibilidade do momento produzido por dois cantores em seu auge, ainda mais qualificada a oitiva dessa maravilha com a voz de fundo da Amneris intensamente comovida de Oralia Dominguez, a qual, aliás, é digna de menção também por seu magistral dueto e cena na primeira parte do quarto ato, primeiro com Del Mônaco, em Giá Il sacerdoti adunansi, e depois na imprecação que faz contra os sacerdotes que condenam Radamés a ser emparedado sob os pés da divindade em seu Templo. De Giuseppe Taddei se lembra, com muito carinho e admiração, da voz pastosa, de barítono nobile, de extensão mais do que inesperada, com saltos aos agudos de fazerem parecer ser sua voz a de um tenor. Sua participação no concertato inteiro do segundo ato e na cena do Nilo com Aida é de uma beleza imperecível, devendo ser destacado, por absolutamente necessário, como se sai bem, em termos de fúria ao proferir para a filha a célebre frase Non sei mia figlia, dei Faraon tu sei La schiava. O Ramfis de Roberto Silva se mostra muito correto, porém sem ombrear a altíssima classe dos demais. O som, como de se esperar, não é dos mais felizes, de sorte que muito pouco se tem a falar do Coro e Orquestra do Palácio de Bellas Artes, mas cumpre ser registrado que a regência do Maestro Oliviero de Fabritiis, longe de ser daquelas de rotina somente profissional, demonstra escolha muito sensível de tempos, favorecendo demais os solistas, sempre se preocupando em não cobrir-lhes as vozes, pecado em que muitos regentes recaem. Espero, sinceramente, não ter cansado demais os leitores do querido Logos e prometo voltar a escrever sobre outras vozes, de outros tempos, se a razão e a bondade de todos assim permitir. Ouso sugerir possam ao menos recorrer ao You Tube ou outros meios que encontrarem para ouvir os principais trechos que destaquei, se não resolverem adquirir alguma gravação dessa récita. Para quem o quiser, as mais fáceis de encontrar são:
As de som mais palatável são as da EMI e da MYTO, sendo ainda de nível aceitável a da FONIT CETRA. Na próxima, se me deixarem, quero escrever sobre um certo Bordeaux muito famoso, que acabou sendo aproveitado por um ladino delicioso para mutá-lo em L’Elisir D’Amore.
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Este site foi atualizado em 08/12/10