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Otto Klemperer
©Ricardo Labuto Gondim
Consagrado no palco e no fosso, o polonês de nascimento Otto Klemperer é um
dos expoentes da tradição alemã. Aluno de Hans Pfitzner, foi protegido de
Mahler, que o recomendou para o posto de
Kapellmeister
da
Ópera Alemã de Praga em 1907. Assim começou uma carreira de ousadias e
êxitos, que explorou o repertório de Bach a Schönberg.
Como todos os grandes regentes da escola alemã, Klemperer extraía
intensidade e peso da orquestra, embora não fosse particularmente
interessado na beleza das sonoridades: sua obsessão era a clareza
estrutural. Para alcançá-la, dedicava esmerada atenção ao balanço dos
instrumentos.
Na quase totalidade de suas gravações em estéreo podemos ouvir a divisão dos
primeiros e segundos violinos respectivamente à esquerda e à direita do
podium. A dinâmica peculiar que impunha às madeiras é uma de suas
assinaturas, assim como inclementes vibratos nas cordas graves e uma
força estupenda nos metais.
Muitos ouvintes podem achar que tais efeitos eram obtidos artificialmente
pela manipulação dos recursos da engenharia. Klemperer, contudo, era
abertamente contrário à pós-produção das gravações, tendo degladiado com
engenheiros e produtores. A audição dos registros ao vivo - captados nas
mais diversas circunstâncias – confirmam o dado histórico.
O controle absolutista de Klemperer sobre a orquestra era estabelecido em
ensaios implacavelmente disciplinados, árduos e autocráticos: a batuta
empunhada por uma mão de aço, temperada por uma língua afiada e um senso de
humor mordaz.
Embora servo das partituras que abordava, Klemperer tinha inclinação para o
monumental. As gravações sugeridas estão entre os incontáveis registros clássicos do grande
regente. Note que os textos somam fatos que ampliam este breve perfil
biográfico.
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BRAHMS: QUATRO SINFONIAS (1&2 [1956];
3&4[1957]) |
A
perspectiva monolítica de Klemperer provavelmente teria agradado Brahms.
Nos momentos mais líricos o maestro não se deixa arrastar para aquela
expansão emocional que conquista a gratidão das platéias - que Brahms
repudiava como “burguesa”. O exemplo mais evidente é o andamento
marcato do
Poco Allegretto
da Terceira, que desdenha os açucarados rubatos já então em moda.
Da marcha implacável da Primeira à passacalha que encerra a
Quarta, Klemperer encontra o sentido de arco do ciclo sem corromper os
caracteres individuais de cada peça - e de cada movimento isoladamente. Um
dos mais belos e mais equilibrados ciclos das sinfonias de Brahms, que
deve ser posto ao lado
do Réquiem Alemão (1961)
com a
Philharmonia,
Elisabeth Schwarzkopf, Dietrich Fischer-Dieskau
e Ralph Downes
- cuja omissão seria indesculpável.
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MAHLER: II SINFONIA (1961) |
O encontro
entre Otto Klemperer e Gustav Mahler aconteceu em 1905 em razão de uma
performance da Sinfonia n. 2 regida pelo compositor. Klemperer fora
encarregado dos metais que tocam atrás do palco. Na ocasião não poderia
imaginar que viria a ser um dos intérpretes supremos da obra.
A excelência de Klemperer se estabelece no primeiro
compasso pela projeção das violas e o controle dinâmico do trêmulo nos
violinos. Violoncelos e contrabaixos expõem o tema com as virtudes
raramente conciliadas de vibrato extremo e articulação precisa. Uma
exibição do poder expressivo da frutífera relação entre Klemperer e a
Philharmonia, que durou de 1959 até a 1971, com concertos eventuais até
sua morte em 1973.
A forma retórica e segmentada da obra é sublinhada por
Klemperer. O som da gravação da EMI é suntuoso. Elisabeth Schwarzkopf é
uma beleza a mais.
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BRUCKNER: SINFONIA N. 4 (1963) |
A
interpretação embaça o brilho da notável versão de Günther Wand, que lhe
deve muito mais do que a comprometida polidez da crítica internacional se
atreve a sugerir. Klemperer dá uma aula de regência à posteridade,
permitindo aos trombones tocarem num fortissimo de proporções
bíblicas sem esmagar as madeiras e cordas da Philharmonia. A pastoral
de Bruckner torna-se uma dilatada tempestade, salvo o suntuoso
Andante
Quasi Allegretto.
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MAHLER: VII SINFONIA (1968) |
Os críticos que não foram arrebatados pela monumentalidade
desta versão atribuem os andamentos dilatados à velhice e à debilidade
física de Otto Klemperer.
É verdade que ao longo da vida o maestro enfrentou um
tumor cerebral, paralisia parcial, uma provável desordem bipolar,
queimaduras muito graves decorrentes de um incêndio absurdo (causado pelo
cachimbo e aperfeiçoado por uma garrafa de gim confundida com água), uma cectomia
geriátrica, e - quando atingia o profundo dos
vales de uma depressão maníaca regular como um metrônomo - crises de satirismo. A questão é que
a versão ao vivo da “Escocesa” - gravada no ano seguinte e incluída
nesta lista – é a antítese da debilidade. Além disso, a abordagem da VII
mantém estreitas relações com o estilo "blocado" da II de 1961 com a mesma
Philharmonia.
A Sétima Sinfonia foi concluída no mesmo ano do encontro
entre Mahler e Klemperer. A obra não tem um programa, é uma divagação
sombria e - é forçoso admitir - desigual, com os quatro últimos movimentos
gradualmente inferiores ao primeiro.
O regente
nos coloca diante de uma leitura didática, que reconstrói a
criação da música sublinhando o seu caráter épico, trágico e
descobrindo-lhe novas idéias.
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WAGNER: O NAVIO FANTASMA (1968) |
Otto Klemperer
foi um compositor relativamente fecundo, mas não escapou da maldição que
assola maestros que ousam escrever música: sua obra, que inclui 6
sinfonias, é um pastiche de tudo o que regeu – e que impregnou o seu
espírito.
O próprio protetor de Klemperer, Gustav Mahler, é um
exemplo desse mal infausto e inevitável. Não fosse um mestre do
desenvolvimento sinfônico – um construtor de catedrais -, Mahler seria
considerado um compositor menor. Já no início da Primeira Sinfonia, por
exemplo, reproduz com variações meramente instrumentais um contemplativo
interlúdio do último movimento da Segunda de Brahms.
Richard Wagner é o um dos fantasmas que assombram a obra do
compositor Otto Klemperer, wagneriano até a medula. Sua gravação do Navio
Fantasma com a Philharmonia, Theo Adam e Anja Silja, Talvela e James
King reflete essa paixão. O CD traz a inscrição “Versão de Dresden,
1843”: a partitura restaurada pelo próprio Klemperer.
As diferenças não são alarmantes. Aqui e ali, temas que
ouvimos habitualmente pelos metais são tocados por contrabaixos,
vice-versa e assim por diante.
Relevante é a leitura intensa e articulada de
Klemperer.
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MENDELSSOHN: SINFONIA N. 3, “ESCOCESA”
(1969) |
A gravação ao
vivo com a Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara é uma das maiores da vida
de Klemperer. Um bilhete de primeira classe para quem não conhece ou
subestima uma das obras mais comoventes e rigorosas de Mendelssohn.
Poucos regentes enxergaram as sutilezas surpreendentes que
Klemperer descobriu na partitura. E menos ainda conseguiram demonstrá-las
num concerto ao vivo.
Um monumento de profunda humanidade, em que um regente
sofrido e entrado em anos supera as mazelas do tempo pelo vigor moral,
pela paixão e por uma técnica insuperável.
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