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05/09/10

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Otto Klemperer

©Ricardo Labuto Gondim
 

Consagrado no palco e no fosso, o polonês de nascimento Otto Klemperer é um dos expoentes da tradição alemã. Aluno de Hans Pfitzner, foi protegido de Mahler, que o recomendou para o posto de Kapellmeister da Ópera Alemã de Praga em 1907. Assim começou uma carreira de ousadias e êxitos, que explorou o repertório de Bach a Schönberg.

Como todos os grandes regentes da escola alemã, Klemperer extraía intensidade e peso da orquestra, embora não fosse particularmente interessado na beleza das sonoridades: sua obsessão era a clareza estrutural. Para alcançá-la, dedicava esmerada atenção ao balanço dos instrumentos. Na quase totalidade de suas gravações em estéreo podemos ouvir a divisão dos primeiros e segundos violinos respectivamente à esquerda e à direita do podium. A dinâmica peculiar que impunha às madeiras é uma de suas assinaturas, assim como inclementes vibratos nas cordas graves e uma força estupenda nos metais.

Muitos ouvintes podem achar que tais efeitos eram obtidos artificialmente pela manipulação dos recursos da engenharia. Klemperer, contudo, era abertamente contrário à pós-produção das gravações, tendo degladiado com engenheiros e produtores. A audição dos registros ao vivo - captados nas mais diversas circunstâncias – confirmam o dado histórico.

O controle absolutista de Klemperer sobre a orquestra era estabelecido em ensaios implacavelmente disciplinados, árduos e autocráticos: a batuta empunhada por uma mão de aço, temperada por uma língua afiada e um senso de humor mordaz.

Embora servo das partituras que abordava, Klemperer tinha inclinação para o monumental. As gravações sugeridas estão entre os incontáveis registros clássicos do grande regente. Note que os textos somam fatos que ampliam este breve perfil biográfico.

BRAHMS: QUATRO SINFONIAS (1&2 [1956]; 3&4[1957])

A perspectiva monolítica de Klemperer provavelmente teria agradado Brahms. Nos momentos mais líricos o maestro não se deixa arrastar para aquela expansão emocional que conquista a gratidão das platéias - que Brahms repudiava como “burguesa”. O exemplo mais evidente é o andamento marcato do Poco Allegretto da Terceira, que desdenha os açucarados rubatos já então em moda.

Da marcha implacável da Primeira à passacalha que encerra a Quarta, Klemperer encontra o sentido de arco do ciclo sem corromper os caracteres individuais de cada peça - e de cada movimento isoladamente. Um dos mais belos e mais equilibrados ciclos das sinfonias de Brahms, que deve ser posto ao lado do Réquiem Alemão (1961) com a Philharmonia, Elisabeth Schwarzkopf, Dietrich Fischer-Dieskau e Ralph Downes - cuja omissão seria indesculpável.

MAHLER: II SINFONIA (1961)

O encontro entre Otto Klemperer e Gustav Mahler aconteceu em 1905 em razão de uma performance da Sinfonia n. 2 regida pelo compositor. Klemperer fora encarregado dos metais que tocam atrás do palco. Na ocasião não poderia imaginar que viria a ser um dos intérpretes supremos da obra.

A excelência de Klemperer se estabelece no primeiro compasso pela projeção das violas e o controle dinâmico do trêmulo nos violinos. Violoncelos e contrabaixos expõem o tema com as virtudes raramente conciliadas de vibrato extremo e articulação precisa. Uma exibição do poder expressivo da frutífera relação entre Klemperer e a Philharmonia, que durou de 1959 até a 1971, com concertos eventuais até sua morte em 1973.

A forma retórica e segmentada da obra é sublinhada por Klemperer. O som da gravação da EMI é suntuoso. Elisabeth Schwarzkopf é uma beleza a mais.

BRUCKNER: SINFONIA N. 4 (1963)

A interpretação embaça o brilho da notável versão de Günther Wand, que lhe deve muito mais do que a comprometida polidez da crítica internacional se atreve a sugerir. Klemperer dá uma aula de regência à posteridade, permitindo aos trombones tocarem num fortissimo de proporções bíblicas sem esmagar as madeiras e cordas da Philharmonia. A pastoral de Bruckner torna-se uma dilatada tempestade, salvo o suntuoso Andante Quasi Allegretto.

MAHLER: VII SINFONIA (1968)

Os críticos que não foram arrebatados pela monumentalidade desta versão atribuem os andamentos dilatados à velhice e à debilidade física de Otto Klemperer.

É verdade que ao longo da vida o maestro enfrentou um tumor cerebral, paralisia parcial, uma provável desordem bipolar, queimaduras muito graves decorrentes de um incêndio absurdo (causado pelo cachimbo e aperfeiçoado por uma garrafa de gim confundida com água), uma cectomia geriátrica, e - quando atingia o profundo dos vales de uma depressão maníaca regular como um metrônomo - crises de satirismo. A questão é que a versão ao vivo da “Escocesa” - gravada no ano seguinte e incluída nesta lista – é a antítese da debilidade. Além disso, a abordagem da VII mantém estreitas relações com o estilo "blocado" da II de 1961 com a mesma Philharmonia.

A Sétima Sinfonia foi concluída no mesmo ano do encontro entre Mahler e Klemperer. A obra não tem um programa, é uma divagação sombria e - é forçoso admitir - desigual, com os quatro últimos movimentos gradualmente inferiores ao primeiro.

O regente nos coloca diante de uma leitura didática, que reconstrói a criação da música sublinhando o seu caráter épico, trágico e descobrindo-lhe novas idéias.

WAGNER: O NAVIO FANTASMA (1968)

Otto Klemperer foi um compositor relativamente fecundo, mas não escapou da maldição que assola maestros que ousam escrever música: sua obra, que inclui 6 sinfonias, é um pastiche de tudo o que regeu – e que impregnou o seu espírito.

O próprio protetor de Klemperer, Gustav Mahler, é um exemplo desse mal infausto e inevitável. Não fosse um mestre do desenvolvimento sinfônico – um construtor de catedrais -, Mahler seria considerado um compositor menor. Já no início da Primeira Sinfonia, por exemplo, reproduz com variações meramente instrumentais um contemplativo interlúdio do último movimento da Segunda de Brahms.

Richard Wagner é o um dos fantasmas que assombram a obra do compositor Otto Klemperer, wagneriano até a medula. Sua gravação do Navio Fantasma com a Philharmonia, Theo Adam  e Anja Silja, Talvela e James King reflete essa paixão. O CD  traz a inscrição “Versão de Dresden, 1843”: a partitura restaurada pelo próprio Klemperer.

As diferenças não são alarmantes. Aqui e ali, temas que ouvimos habitualmente pelos metais são tocados por contrabaixos, vice-versa e assim por diante.

Relevante é a leitura intensa e articulada de Klemperer.

MENDELSSOHN: SINFONIA N. 3, “ESCOCESA” (1969)

A gravação ao vivo com a Orquestra Sinfônica da Rádio Bávara é uma das maiores da vida de Klemperer. Um bilhete de primeira classe para quem não conhece ou subestima uma das obras mais comoventes e rigorosas de Mendelssohn.

Poucos regentes enxergaram as sutilezas surpreendentes que Klemperer descobriu na partitura. E menos ainda conseguiram demonstrá-las num concerto ao vivo.

Um monumento de profunda humanidade, em que um regente sofrido e entrado em anos supera as mazelas do tempo pelo vigor moral, pela paixão e por uma técnica insuperável.
 

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Este site foi atualizado em 07/06/07