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05/09/10

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Ataúlfo Argenta

©Ricardo Labuto Gondim
 

Em Trem desgovernado você leu o relato do heróico e do trágico na vida do espanhol Ataúlfo Argenta, um pianista excepcional alçado ao podium pelo acaso e pela fatalidade, e elevado ao pantheon dos gigantes da regência pelo virtuosismo consumado.

A locomotiva da morte o alcançou traiçoeiramente aos 44 anos, em 1958: em apenas dez anos de carreira Argenta estabeleceu uma reputação internacional. Para compreender a dimensão do triunfo, considere que na primeira metade do século XX a maturidade artística se sustentava pelo talento genuíno, não pelo marketing e pela publicidade.

Com a morte de Furtwängler em 1954, de Guido Cantelli em 56 e Toscanini em 57, Ataúlfo haveria de conquistar o mundo se não tivesse conquistado a eternidade. Naquele tempo os olhos e ouvidos de boa parte da crítica se estreitavam sobre as trajetórias de Cantelli e Argenta, chamado não sem razão de “o Guido Cantelli da Espanha”.

A vida e a carreira de ambos têm muitos pontos em comum - incluindo a intimidade com a tragédia. Cantelli enfrentou graves provações durante a guerra, e morreu com apenas 36 anos num desastre aéreo no Aeroporto de Orly.

Enquanto Cantelli era declaradamente o sucessor de Toscanini – que morreu dois meses depois do discípulo sem que ninguém tivesse coragem de lhe contar a verdade – Argenta era um mestre da mesma tradição. Um crítico o definiu como um maestro de “formação e temperamento latinos com a compreensão do repertório germânico”. A mesma epígrafe poderia ser atribuída a Toscanini – mas não à Cantelli, que era um regente mais equilibrado, mais contido, e em certo sentido inclinado a alguns refinamentos que Toscanini esmagava com uma sonoridade monumental.

Note que a epígrafe fala em “compreensão do repertório germânico”, mas não insere Argenta na tradição alemã. Por quê? Porque em nome da subjetividade a tradição germânica admite flutuações de tempo que muito raramente você encontra em Toscanini e Argenta. Ao contrário, a base da regência do espanhol é a articulação de temas, frases e contrapontos, o que exige uma marcação de tempo praticamente inflexível.

Para saber mais sobre o estilo latino-teutônico de Ataúlfo Argenta, leia agora os comentários sobre as interpretações excepcionais do regente espanhol reunidas em dois álbuns.

ORIGINAL MASTERS - ATAÚLFO ARGENTA: COMPLETE DECCA RECORDINGS 1953-1957 (5 CD)

Não se alarme com o volume de 5 Compact Disc. No momento  (junho de 2007), o box set é vendido na Amazon por preço inferior a US$ 25,00 (eis o link).

Rica e variada, a edição da DECCA traz a mesma versão da sinfonia “Fausto” de Liszt incluída na série Great Conductors of the 20Th Century, da EMI – infelizmente, sem a IX de Schubert sobre a qual conversaremos mais tarde.

Vamos nos debruçar sobre as performances mais significativas.

LISZT: UMA SINFONIA PARA O FAUSTO (1955)

A música de Liszt nunca me convenceu, mas sempre me atraiu. O compositor era capaz de criar atmosferas e momentos de grande intensidade, embora os “resolvesse” de modo decepcionante. Eu já havia experimentado sem sucesso a sinfonia “Fausto”, mas só descobri suas belezas quando descobri o próprio Argenta, que optou pela versão original da partitura, sem coro e sem solista.

O maestro recusou a diluição em largo dos tempi que a tradição wagneriana incorporou às obras de Liszt – com as quais tem afinidade limitada e parcial – tornando sua leitura a antítese das versões mais consagradas.

O registro é um monumento à articulação. As cordas da insípida Orquestra do Conservatório de Paris são desafiadas a tocarem cada nota com ímpeto veloz e abruptas variações de dinâmica. É um prazer superlativo observar com que força e precisão ocorrem os súbitos ataques.

O ponto fraco são os metais duros e estridentes, versão flácida e volátil do bélico estilo russo. Alguns críticos atribuem a proeza exclusivamente às “qualidades intrínsecas” da orquestra do Conservatório. Contudo, a mesma característica de força e dureza pode ser observada com sucesso nas gravações de Argenta com orquestras mais requintadas, como a da Suisse Romande. É lícito especular que ao regente não desagradava essa rude aspereza – similar em sua impetuosidade à sonoridade pesada que Toscanini extraia dos metais.

BERLIOZ: SINFONIA FANTÁSTICA (1957)

A paixão e o ópio da Sinfonia Fantástica permitem todo tipo de leitura (leia mais aqui). Mas não são poucos os regentes que venderam discos aos milhões optando por interpretar a obra como uma sinfonia de Mahler. É válido, belo e aceitável considerando-se o espírito que embala a obra e o modo como foi escrita - mas não é Berlioz.

Ataúlfo Argenta renegou esse caminho seguro para a gratidão das massas produzindo a performance mais articulada que essa música já teve. As cordas e madeiras da Orquestra do Conservatório de Paris tocam com uma energia impressionante, estabelecendo relações temáticas que revelam o poderoso arco da composição e uma insuspeitada simetria. 

O resultado é completamente diferente da beleza fluída de Münch, Beecham, Monteux e Celibidache. Não há diluição nem andamentos dançantes, flutuantes, mas uma marcação de tempo quase inflexível, clara e ao mesmo tempo impregnada de força e de paixão: esta é uma das versões mais originais e vigorosas que a Fantástica já teve.

TCHAIKOVSKY: IV SINFONIA (1955)

Para os fãs de Tchaikovsky, esta IV com a Orquestra da Suisse Romande justifica a compra do box set da DECCA. Nem mesmo a desastrada desafinação de uma das trompas na exposição do tema do Destino, nem o som mono relativamente opaco roubam da gravação o mérito de ser uma das maiores interpretações desta sinfonia.

A performance é espetacular. Mesmo na explosão de histeria patológica do último movimento você vai ouvir os rigores da construção sinfônica de Tchaikovsky, mestre subestimado da harmonia e do contraponto.

Esta IV é digna de estar ao lado das interpretações de Mravinsky, Böhm e Karajan.

GREAT CONDUCTORS OF THE 20TH CENTURY: ATAÚLFO ARGENTA (2 CD)

Além da gravação da sinfonia Fausto incluída no estojo da DECCA, o álbum da EMI traz versões preciosas do “Amor Brujo” e da Alborada del Gracioso, cujo colorido, clareza e dinâmica certamente teriam agradado Ravel.

A peça mais importante do álbum é também uma aula de regência.

SCHUBERT: SINFONIA N.° 9, “A GRANDE” (1957)

Em minha opinião, as três leituras fundamentais da IX de Schubert são as de Szell, Solti e Böhm. Me perdoem os torcedores do Furtwängler Futebol Clube, mas particularmente acho a célebre Nona do grande regente alemão velada e desigual.

Szell sublinhou a monumentalidade da obra e seu heroísmo contrito. Solti, a complexidade e o arco da longa estrutura. Böhm operou uma versão tão transparente, tão minuciosamente analítica que gerou um iceberg colossal - ainda assim, colossal.

A leitura de Argenta não procura a subjetividade atípica de Szell, soa mais como a síntese das versões de Solti e Böhm. Lá estão os sentidos arquitetônico e de arco, a exposição das sutilezas estruturais e harmônicas e uma subordinação mais firme às indicações de tempo anotadas por Schubert. A música é conduzida com tanto vigor e clareza, que se eu tivesse de escolher uma única versão ficaria com esta.

A pouco conhecida Orchestre des Cento Cento Soli combina músicos das orquestras do Conservatório de Paris e de Concertos Lamoreux. É curioso mas é fato: reunidos numa orquestra episódica, os músicos franceses estabeleceram uma relação de conjunto muito mais firme do que em suas lamentáveis orquestras de origem. Isso os absolve em parte.

*

Que os puro-audíófilos não se iludam com os selos DECCA e EMI nos álbuns: o som é datado. As performances são musicais e não podem saciar os que só querem ouvir equipamentos.

As gravações de Ataúlfo Argenta são o registro vivo do seu virtuosismo ao podium, de onde mantinha um repertório grandioso nos trilhos da articulação com alta energia, força de ataque e clareza arquitetônica.

Com a batuta, esse homem cuja vida foi um trem desgovernado era o maquinista.
 

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Este site foi atualizado em 11/06/07