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Ataúlfo Argenta
©Ricardo Labuto Gondim
Em
Trem desgovernado você leu o relato do heróico e do trágico na vida do
espanhol Ataúlfo Argenta, um pianista excepcional alçado ao podium
pelo acaso e pela fatalidade, e elevado ao pantheon dos gigantes da
regência pelo virtuosismo consumado.
A locomotiva da morte o alcançou
traiçoeiramente aos 44 anos, em 1958: em apenas dez anos de carreira Argenta
estabeleceu uma reputação internacional. Para compreender a dimensão do
triunfo, considere que na primeira metade do século XX a maturidade
artística se sustentava pelo talento genuíno, não pelo marketing e pela
publicidade.
Com a
morte de Furtwängler em 1954, de Guido Cantelli em 56 e Toscanini em 57,
Ataúlfo haveria de conquistar o mundo se não tivesse conquistado a
eternidade. Naquele tempo os olhos e ouvidos de boa parte da crítica se
estreitavam sobre as trajetórias de Cantelli e Argenta, chamado não sem
razão de “o Guido Cantelli da Espanha”.
A vida e a carreira de ambos têm muitos
pontos em comum - incluindo a intimidade com a tragédia. Cantelli enfrentou
graves provações durante a guerra, e morreu com apenas 36 anos num desastre
aéreo no Aeroporto de Orly.
Enquanto Cantelli era declaradamente o
sucessor de Toscanini – que morreu dois meses depois do discípulo sem que
ninguém tivesse coragem de lhe contar a verdade – Argenta era um mestre da
mesma tradição. Um crítico o definiu como um maestro de “formação e
temperamento latinos com a compreensão do repertório germânico”. A
mesma epígrafe poderia ser atribuída a Toscanini – mas não à Cantelli, que
era um regente mais equilibrado, mais contido, e em certo sentido inclinado
a alguns refinamentos que Toscanini esmagava com uma sonoridade monumental.
Note que a epígrafe fala em “compreensão
do repertório germânico”, mas não insere Argenta na tradição alemã. Por quê?
Porque em nome da subjetividade a tradição germânica admite flutuações de
tempo que muito raramente você encontra em Toscanini e Argenta. Ao
contrário, a base da regência do espanhol é a articulação de temas,
frases e contrapontos, o que exige uma marcação de tempo praticamente
inflexível.
Para saber mais sobre o estilo
latino-teutônico de Ataúlfo Argenta, leia agora os comentários sobre as
interpretações excepcionais do regente espanhol reunidas em dois álbuns.
ORIGINAL MASTERS -
ATAÚLFO ARGENTA: COMPLETE DECCA RECORDINGS 1953-1957 (5 CD)
Não se alarme com o volume de 5
Compact Disc. No momento (junho de 2007), o box set é vendido na
Amazon por preço inferior a US$ 25,00 (eis
o link).
Rica e variada, a edição da DECCA
traz a mesma versão da sinfonia “Fausto” de Liszt incluída na série Great
Conductors of the 20Th Century, da EMI – infelizmente, sem a IX
de Schubert sobre a qual conversaremos mais tarde.
Vamos nos debruçar sobre as performances
mais significativas.
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LISZT: UMA SINFONIA
PARA O FAUSTO (1955) |
A
música de Liszt nunca me convenceu, mas sempre me atraiu. O compositor era
capaz de criar atmosferas e momentos de grande intensidade, embora os
“resolvesse” de modo decepcionante. Eu já havia experimentado sem sucesso
a sinfonia “Fausto”, mas só descobri suas belezas quando descobri o
próprio Argenta, que optou pela versão original da partitura, sem coro e
sem solista.
O maestro recusou a diluição em
largo dos tempi que a tradição wagneriana incorporou às obras
de Liszt – com as quais tem afinidade limitada e parcial – tornando sua
leitura a antítese das versões mais consagradas.
O registro é um monumento à
articulação. As cordas da insípida Orquestra do Conservatório de Paris são
desafiadas a tocarem cada nota com ímpeto veloz e abruptas variações de
dinâmica. É um prazer superlativo observar com que força e precisão
ocorrem os súbitos ataques.
O ponto fraco são os metais duros e
estridentes, versão flácida e volátil do bélico estilo russo. Alguns
críticos atribuem a proeza exclusivamente às “qualidades intrínsecas” da
orquestra do Conservatório. Contudo, a mesma característica de força e
dureza pode ser observada com sucesso nas gravações de Argenta com
orquestras mais requintadas, como a da Suisse Romande. É lícito
especular que ao regente não desagradava essa rude aspereza – similar em
sua impetuosidade à sonoridade pesada que Toscanini extraia dos metais.
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BERLIOZ: SINFONIA
FANTÁSTICA (1957) |
A paixão e o
ópio da Sinfonia Fantástica permitem todo tipo de leitura (leia
mais aqui). Mas não são poucos os regentes que venderam discos
aos milhões optando por interpretar a obra como uma sinfonia de Mahler. É
válido, belo e aceitável considerando-se o espírito que embala a obra e o
modo como foi escrita - mas não é Berlioz.
Ataúlfo Argenta renegou esse caminho
seguro para a gratidão das massas produzindo a performance mais articulada
que essa música já teve. As cordas e madeiras da Orquestra do
Conservatório de Paris tocam com uma energia impressionante, estabelecendo
relações temáticas que revelam o poderoso arco da composição e uma
insuspeitada simetria.
O resultado é completamente diferente
da beleza fluída de Münch, Beecham, Monteux e Celibidache. Não há diluição
nem andamentos dançantes, flutuantes, mas uma marcação de tempo quase
inflexível, clara e ao mesmo tempo impregnada de força e de paixão: esta é
uma das versões mais originais e vigorosas que a Fantástica já
teve.
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TCHAIKOVSKY: IV
SINFONIA (1955) |
Para
os fãs de Tchaikovsky, esta IV com a Orquestra da Suisse Romande justifica
a compra do box set da DECCA. Nem mesmo a desastrada
desafinação de uma das trompas na exposição do tema do Destino, nem o som
mono relativamente opaco roubam da gravação o mérito de ser uma das
maiores interpretações desta sinfonia.
A performance é espetacular. Mesmo na
explosão de histeria patológica do último movimento você vai ouvir os
rigores da construção sinfônica de Tchaikovsky, mestre subestimado da
harmonia e do contraponto.
Esta IV é digna de estar ao lado das
interpretações de Mravinsky, Böhm e Karajan.
GREAT CONDUCTORS
OF THE 20TH CENTURY: ATAÚLFO ARGENTA (2 CD)
Além da gravação da sinfonia Fausto
incluída no estojo da DECCA, o álbum da EMI traz versões
preciosas do “Amor Brujo” e da Alborada del Gracioso, cujo colorido,
clareza e dinâmica certamente teriam agradado Ravel.
A peça mais importante do álbum é também
uma aula de regência.
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SCHUBERT: SINFONIA
N.° 9, “A GRANDE” (1957) |
Em
minha opinião, as três leituras fundamentais da IX de Schubert são as de
Szell, Solti e Böhm. Me perdoem os torcedores do Furtwängler Futebol
Clube, mas particularmente acho a célebre Nona do grande regente alemão
velada e desigual.
Szell sublinhou a monumentalidade da
obra e seu heroísmo contrito. Solti, a complexidade e o arco da longa
estrutura. Böhm operou uma versão tão transparente, tão minuciosamente
analítica que gerou um iceberg colossal - ainda assim, colossal.
A leitura de Argenta não procura a
subjetividade atípica de Szell, soa mais como a síntese das versões de
Solti e Böhm. Lá estão os sentidos arquitetônico e de arco, a exposição
das sutilezas estruturais e harmônicas e uma subordinação mais firme às
indicações de tempo anotadas por Schubert. A música é conduzida com tanto
vigor e clareza, que se eu tivesse de escolher uma única versão ficaria
com esta.
A pouco conhecida Orchestre des
Cento Cento Soli combina músicos das orquestras do Conservatório de
Paris e de Concertos Lamoreux. É curioso mas é fato: reunidos numa
orquestra episódica, os músicos franceses estabeleceram uma relação de
conjunto muito mais firme do que em suas lamentáveis orquestras de origem.
Isso os absolve em parte.
*
Que os puro-audíófilos não se iludam com
os selos DECCA e EMI nos álbuns: o som é datado. As
performances são musicais e não podem saciar os que só querem ouvir
equipamentos.
As gravações de Ataúlfo Argenta são o
registro vivo do seu virtuosismo ao podium, de onde mantinha um
repertório grandioso nos trilhos da articulação com alta energia,
força de ataque e clareza arquitetônica.
Com a batuta, esse homem cuja vida foi
um trem desgovernado era o maquinista.
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