
O Clube dos sistemas high
end e
o músico Ademar Cassol
Jornal de 1 artigo só, Edição 174
©Holbein Menezes
O HTForum é um
saite invulgar; não sei se incomum; navego pouco na Internet, não domino com
propriedade a técnica como também receio criar problema para meu computador
com o qual materializo minhas idéias esdrúxulas sobre o áudio para a
reprodução do som musical e no qual armazeno meus pensamentos anarquistas.
Descobri recente que no HTForum há distinção entre a condição de
tópico e clube; nos tópicos discute-se tudo, até o mote
central do tópico, e discute-se com alguma liberdade, até a liberdade de não
dizer nada ou de dizer asneiras; nos clubes não, porque ali se cultua
os equipamentos e pratica-se o culto com algum grau de intolerância. Um é
uma espécie de grêmio acadêmico em que todos falam (escrevem) e poucos
escutam (leem); o outro é uma “seita”, uma “comunidade fechada, de cunho
radical”, como define o AURÉLIO. Ainda que a seita high end esteja fora do
mundo real majoritário, quem desobedece os dogmas da seita pode vir a ser
convidado a cair fora.
No
“Clube dos Sistemas High-end” do HTForum adota-se a fantasia de que
há o sistema de áudio “o céu é o limite” (tradução psicanalítica da
expressão inglesa “high-end”, isto é, céu para high e end para
limite, porém este com forte tendência para ilimitado). Mas
não é um sem limite da... pois é, da capacidade criativa do audiófilo; é um
sem limite pecuniário, restrito a poucos, pouquíssimos. Tal como acontece
nas grifes de roupa: valor de uma marca de casta, não da utilidade do
produto; o direito autoral exacerbado sem correlação com a finalidade da
obra.
Por isso, quanto mais dispendioso o aparelho de áudio, mais “high end”. Ou
seja – e em consequência – quanto mais “high end” mais exclusivo. E assim se
cria uma elite, a qual professa a fé e pratica a crença do quanto mais caro
melhor. Por cuja fantasia o substantivo “melhor” transmuda-se no adjetivo do
superlativo de bem. E assim adjetivo, passa a ter conotação de
perfeito sobre todos os demais afins; não o perfeito com relação a uma dada
situação concreta – a reprodução do som musical na condição doméstica – mas
o “mais-que-perfeito” sem ser verbo e muito menos o “verbo” que se faz
música...
Ora, uma vez que o objeto primário (o processo de gravação) não é perfeito,
para os raiendistas há que, obrigatoriamente, ser sua replicação doméstica.
A qualquer custo. Portanto, sentimento reativo. E tome nomes
estrambóticos para justificá-lo, assinaturas renomadas, preços astronômicos,
“reviewers” bem remunerados, periódicos venais. Um “hobby” que no princípio
era um vir a ser passa a ser uma coisa absoluta, pronta e acabada; é só
ligar!
O diabo é que essa incelência, como todos os objetos da Natureza, é
composta de partes – e há o princípio filosófico que se tem mostrado
verdadeiro de que um todo terá sempre o caráter de sua parte
fraca. Quer isso dizer, que aos aparelhos high end não basta a
assinatura do projetista para se tornar o céu é o limite; um simples
resistor que venha a mudar de valor na continuidade do uso, um reles
capacitor que se permita vazar corrente, um fio interno de ligação cuja
solda fez-se fria no processo de montagem, um transformador que no
calor do uso dilatou o espaço dos entreferros e passou a vibrar; plugues e
knobs que se oxidaram pela proximidade do mar que ladeia a maioria das
megalópoles brasileiras, etc., qualquer desses fatores tão comuns pode
trazer o aparelho high end para categoria menos high end. Porque não há o
absoluto na Natureza.
Ainda
que esse “estado de espírito” absolutista seja contra minha natureza
relativista, ainda que a metafísica do pronto e acabado esbarre na minha
firme convicção dialética do vir a ser, ainda que eu tenha adotado na minha
vida o fazer como principal e não o comprar como fundamental porquanto eu
entendo que o som musical doméstico seja mais suor do que pecúnia, mais
gosto pessoal do que parâmetros alhures estabelecidos, mais prática do que
teoria, ainda assim, meu leitor amigo, dinheiro eu tivesse minha sala
de música seria equipada com aparelhos high end.
Só que o conceito de high end para mim representa o aparelho bem-acabado,
desde o chassi bloco sólido fresado menos sujeito a vibrações, tipo os
chassi nos aparelhos da marca Jeff Rowland, ao extremo cuidado com o caminho
do sinal de áudio nos intestinos da aparelhagem como sói acontecer com os
prés e amplificadores com a marca brasileira irw do Ricardo Pereira
de BH. Portanto, nem cosmopolitismo nem xenofobia. O adaptável sobre todas
as outras qualidades.
Porque a arte da boa reprodução doméstica considera em primeiro lugar o
indivíduo ouvinte e suas concretas condições de escuta; o gosto pessoal do
indivíduo ouvinte e não os critérios propagativos dos reviewers
situados em campânulas de... de papel. Ou no éter ilimitado da Internet dos
saites e blogues. Assim, pois, experimentação e não palavras e
fotografias... Invenção, se possível.
Que “invenção” é o que faz o Arquiteto Ademar Cassol, empresário
bem-sucedido e, nas horas de deleite, primeiro viola da temporariamente
inativa Orquestra de Cordas de Florianópolis. Seu toca-discos com braço
radial é uma obra do high end tupiniquim. Leiam como ele o descreve:
“Todos
os audiófilos concordam que a leitura do vinil deve ser realizada
segundo seu raio, somente possível com um braço de leitura radial. O
braço tradicional apresenta um considerável erro de leitura. Por outro
lado, a leitura radial permite a redução do comprimento nominal do braço
que, com baixa inércia de massa, evita a constante oscilação do
cantilever. Os braços de leitura radial “high end” atualmente aprovados,
são os que se deslocam sobre apoio magnético ou sobre colchão de ar.'
'Hà alguns anos venho experimentando um sistema em que
esse apoio se faz sobre um artefato que “navega” livremente em água
contida numa calha. O braço pode oscilar livremente sobre um pino na
parte inferior do estribo o qual se fixa ao flutuador. A fim de permitir
a total liberdade de deslocamento do braço, um mecanismo independente
com motor auxiliar transporta um porta-cabos, peça que conecta os fios
elétricos da cápsula (cartridge) com os cabos de interconexão ao
pré-aplificador. Este mecanismo de transporte deve estar na velocidade
aproximada dos sulcos do vinil, determinada para a agulha. A velocidade
do transporte é controlada pela variação da corrente (VDC) que alimenta
o motor auxiliar. Os dois motores do prato (table) e o mecanismo de
transporte do porta-cabos estão fixados numa estrutura independente da
base em acrílico do toca-discos, evitando que vibrações se transmitam ao
eixo do prato.'
'A calha é elevada ou baixada pelo macaco hidráulico (Lift),
criando espaço para colocarmos ou retirarmos o vinil. Quando acionamos o
giro do prato, o motor auxiliar é acionado, mas o mecanismo de
transporte só entra em ação quando baixamos a tecla que acopla a
embreagem. Esta, girando, faz um fio de linha deslocar o porta-cabos.”
A “invenção” do Ademar, à qual ele vem devotando grande parte de seu talento
inventivo e muitas horas de ensaio e erro, cria uma situação quase perfeita
para a leitura da conserva em vinil, embora a conserva em vinil esteja em
fase terminal... Mas isso importa nada para o músico Ademar. Seus ouvidos
experimentados para o som musical elegeram a conserva em vinil como o modo
mais próximo de ter-se a sonoridade original. Para ele, não são prés nem
amplificadores, e nem sequer caixas de sons de grife; cabos, muito menos,
ele não dança essa dança... High end para ele é o modo da leitura do vinil!




High end é pois um resultado; talvez muito mais ligado à criatividade do que
à conta bancária. Mais afeito aos que sabem fazer do que aos que podem
comprar. O silêncio do anonimato contra a vozearia dos marqueteiros.
