
Da afinação de minha vitrola (III, final)
Jornal de 1 artigo só, Edição 173
©Holbein Menezes
Alguns devem
saber que ao longo dos muitos anos que mexo com áudio de reprodução, tenho
nutrido particular e peculiar xodó com alto-falantes eletrostáticos; cuja
técnica, junto com a técnica “ribbon”, na minha experiência são as únicas
que podem reproduzir de forma pronta e nítida a fugacidade de alguns sutis
sinais gravados, chamados na gíria eletrônica de “transitórios”; tais os
débeis sinais dos sons da celesta – instrumento de teclado usado pela
primeira vez por Tchaikovsky no balé O quebra-nozes –, do pandeiro,
do triângulo, das castanholas etc. E isso ocorre na reprodução eletrônica do
som musical por razões ligadas ao fenômeno da massa; nenhum diafragma de
alto-falante dinâmico consegue ter a leveza dos diafragmas dos
eletrostáticos e “ribbon”, e vibrar com os débeis sinais de alguns
transitórios.
Mas todos os
alto-falantes eletrostáticos, na contramão da qualidade ótima para detalhes,
padecem de dois males inevitáveis: debilidade nos “tutti” e deficiência –
por serem painéis finitos – na replicação dos “graves porofundis”, de 100 Hz
abaixo.
Assim, pois,
Leitores, abandonei os eletrostáticos aí pelo ano de 1974, já na
“sand-filled” de Floripa; renunciei porque a empresa QUAD descontinuou os
antigos “quadinhos” de 1955, e o Ross Walker sucessor do pai Peter
informou-me que uma dada peça do ELS-55, o seu exclusivo fabricante na face
da Terra houvera falecido... e ele Ross não encontrara fabricante
substituto. Pelo que, minhas órfãs quatro unidades dos “quadinhos” de 1955
foram envelhecendo mais rápidas do que eu, até morrerem de morte morrida
poucos anos depois; e eu ainda não... (Há! Há! Há!)
De
lá para cá foi a “loucura mansa” de buscar encontrar sonofletores a altura
da sonoridade diáfana dos meus inesquecíveis eletrostáticos QUAD, de
saudosa..., pois é, de saudosa saudade. Até que, eu já aqui em Fortaleza,
alguém ofereceu-me um par dos híbridos (urgh!) Martin Logan, o modelo “Clarity”,
técnica eletrostática de 400 Hz acima, e dinâmica (pô!) de 400 Hz abaixo.
Comprei-os sem
pestanejar mas... poxa! se houvera pestanejado talvez tivesse descoberto que
as “Clarity”, se claras mas não diáfanas de 400 Hz arriba, escureciam ao
ponto de obumbrar com ressonâncias intoleráveis,
abaixo dos 400
Hz!
E agora, José?
Botaram uma pedra no meu caminho!...
É verdade que
teimoso que nem um jumento xucro, tentei “sartar’ sobre a pedra que botaram
no meu caminho, trabalhando feito doido meses seguidos nas diabo das câmaras
de graves das Martin Logan – as quais eu achava serem as responsáveis pelas
inconfortáveis ressonâncias. Tirei e botei de dentro dessas câmaras, ene
vezes, absorvedores de diferentes características: desde os vários tipos de
espuma de náilon aos vários tipos de lã; até procurei lã de rocha na praça
de Fortaleza mas não encontrei. (Lã de rocha, saibam os Leitores, se com
certa densidade e espessura, e se posta com determinada técnica quer dentro
das caixas, quer nos cantos dos ambientes de escuta, É O ÚNICO absorvedor
eficaz para ressonâncias de baixas freqüências.)
Além disso,
baralhei cabos de caixa e interconexão, com suas “curvas de resposta”
específicas e seus peculiares desempenhos, baralhei como se baralha cartas
em jogo de “poker” a valer dinheiro... estando à mesa valentões tipo Bat
Masterson... E NADA! Permaneciam os incômodos nódulos.
Nessa altura, já
algo abilolado, retirei os “woofer” originais das “Clarity” made in China,
substituindo-os, pô!, pelos Fostex 308 também made in China, merda!
Quase o mesmo que trocar seis por meia dúzia... As ressonâncias de baixa
freqüência permaneciam; o que, pelo menos, queria significar que era a
câmara de graves das “Clarity” a culpada...
Já em vias de ser
mandado para um hospício, alucinado pensei – se é que tresloucado pensa – em
algumas soluções radicais, como por exemplo, revestir por fora as câmaras de
graves das Martin Logan com manta de chumbo de 1/8 de espessura, para
minimizar as vibrações da madeira; com tal macete, a recorrer à solução que
os Irmãos Garrott, nos velhos e maus tempos do “long playing”, deram a um
“shell” do meu toca-discos Garrard 301, cabeçote que vibrava qual vara verde
sob o efeito da pressão “air-borne” da sala de 50 m2 do ambiente de música
da Praça Dr. Del Vecchio, no Rio; vibração que desapareceu com uma fina capa
de chumbo revestindo todo o corpo do “shell”!
Ou pôr no
interior das câmaras – outra alucinação! –, em pontos variados, pequenos
sacos de areia de rio, seca e peneirada. Isso com dois objetivos: 1)
compatibilizar a área de cada câmara às características das marcas dos
alto-falantes em uso, e 2) quebrar os nódulos ressonantes internos.
Mas minha “loucura
mansa” não se desenvolveu a tanto embora tenha chegado muito perto, pois
mandei fabricar em serralheiro duas caixas de chapa de ferro de 1/8, na
forma triangular com dois ângulos retos na frente, área de cada caixa aí
pelos 3 pés cúbicos; e nesses “bunker” instalei os Fostex 308.
Em verdade,
verdade lhes digo, senhores, foram para os quintos as protuberâncias de
baixa freqüência, a reprodução dos “graves profundus” ganhou uma articulação
jamais ouvida por mim cá na “gesso-filled”. Porém...
Ora, não percam
de vista que acima de 400 Hz eram os elementos eletrostáticos das Martin
Logan; e como se alterou a geometria entre esses elementos e os “woofer”
instalados nas caixas de ferro – porque pus as “Clarity” sobre as caixas de
ferro –, aconteceu o conjunto passar a exibir “descontinuidade” de fase
acústica. Essa descontinuidade de fase manifesta-se por sutil desnível na
intensidade dos sons na região do corte; no caso das “Clarity”, 400 Hz.
Não vou descrever
aqui em detalhes as “manobras” eletrônicas que usei para minorar essa
descontinuidade de fase acústica. Mas manobrei muito, acreditem, desde a
biamplificação a circuitos inversores de fase de graus 90 e 180, ou seja,
com um ou dois componentes. Melhorava a sensação de descontinuidade mas não
a eliminava.
Resolvi pôr de
parte as Martin Logan e trabalhar com a caixa de ferro cuja performance de
400 Hz abaixo mostrara-se soberba. Retirei, pois, os “woofer” das “Clarity”
e instalei-os nas caixas de ferro, com suave corte em 400 Hz, (3dB/oitava);
e de 400 Hz acima, usei os “Fostex 308” com seu leves diafragmas de fibra de
bananeira e sua elevada densidade de fluxo (Gauss), corte também de 3
dB/oitava; instalei-os virados para cima, na técnica de painel aberto,
“baffle” de 45 cm de diâmetro para anular freqüências abaixo do ponto de
corte; e reforcei com dois doces “tweeter” húngaros, a resposta de
freqüências acima dos 10KHz. Deu muito trabalho mas o sistema de som ficou
bom ou muito bom. Tanto que um experimentado audiófilo daqui de Fortaleza,
que já estivera cá em casa mais de uma vez, ao ouvir esse sistema
holbeiniano exclamou alto e bom som: “- É o melhor som que já ouvi aqui em
sua sala!”
Portanto, fim de
papo... Fim de papo? Para um melófilo em fase terminal? Pois sim!
Eis que apareceu
o competente Audio Designer, Paulo Ramos, da Akronaudiotec; que me sugeriu
experimentar no lugar dos “woofer” made in China das “Clarity”, um
par dos alto-falantes de bobina móvel projetados por ele e fabricados pela
KeyBass, de Santo André. Ora, em matéria de alto-falantes acostumei-me a
respeitar as opiniões do Paulo, que sabe desses misteres.
Vieram de Santo
André os falantes KB-6 AKRON. Segui as recomendações do Paulo Ramos quanto
ao exato espaço interno das câmaras e o diâmetro e comprimento dos dutos;
pus em paralelo com a bobina dos falantes o circuito Zoebel calculado pelo
Paulo, e “queimei” as unidades por no mínimo 50 horas. A sensibilidade entre
a parte eletrostática e a dinâmica evidenciou-se compatível. Após alguns
dias e a cada dia que se passava os KB-6 AKRON desempenhavam melhor. As
“Clarity” pareciam ter sido feitas para casar com os KB-6. Mas... os
senhores capitalistas Martin & Logan preferem favorecer o comunismo chinês e
não aos trabalhadores de Santo André. Como diria o personagem do Jô Soares,
“... há gente que é cega!”.
Juro por alma de
madrinha: nunca mais vou mexer nas “Clarity”; porque tudo agora ficou no
lugar! TUDO!
* * *

Mas
a este ponto permitam-me tentar uma explicação para o aborrecido fato de uma
caixa da grife Martin Logan, tão afamada quão bem aceita pela
coletividade audiófila internacional ser ressonante.
O “fenômeno” tem
que ver com o destino das caixas, isto é, para quais audiófilos é ela
preferencialmente fabricada. Respondo: para os proprietários de
amplificadores transistorizados; e eu sou valvular. Vejam, o uso de
um “woofer” com imã de médio para baixo fluxo magnético – como é o caso do
“woofer” das “Clarity” – requer amplificadores de alto fator de “damping”; e
o “damping factor” da média dos amplificadores valvulados não vai além 150;
enquanto os transistorizados passam de 1.000.
E
ensinou Gilbert Briggs em seu livro “A to Z in Audio”: “a good
damping factor is useful in absorbing resonance…”.
Quer isso dizer:
as desconfortáveis ressonâncias que eu ouvia com as “Clarity” na “gesso-filled”,
decorriam do baixo fator de “damping” dos meus amplificadores 300B “singled-end”,
de 8 watts de potência. Porém, se eu usasse um amplificador transistorizado
de 100 watts, “damping factor” acima de 2.000, é quase certo que não as
ouviria. Mas, ora bolas! e por que tais ressonâncias cessaram com a simples
troca dos “woofer” das ML “made in China” pelos alto-falantes KB-6
AKRON, feitos em Santo André, ambos os falantes instalados nas câmaras das
“Clarity” e alimentados pelos 300B?
Esse é outro
“fenômeno” e decorre da diferença entre o baixo fluxo magnético (Gauss) dos
“woofer” Martin Logan versus o alto fluxo magnético dos alto-falantes KB-6
AKRON. Porquanto, o tanto maior da excursão do cone de alto-falantes
dinâmicos provém do impulso primário (sinal de áudio) mas em consequência da
massa diafragmática dos dinâmicos, o impulso primário pode exceder a
amplitude do sinal, gerando ressonâncias. É verdade que tanto o fluxo
magnético dos falantes dinâmicos quanto o fator de amortecimento dos
amplificadores podem reprimir essa “sobre” amplitude.
E foi o que
acontecia e aconteceu.
Uma pergunta
final remanesce: por que a importante empresa Martin Logan utiliza-se de
“woofer” de baixo fluxo magnético? Resposta através da pena de Gilbert
Briggs: “Jamais poderá ser demasiado enfatizado a verdade absoluta de que
a eficiência de um alto-falante de bobina móvel está na dependência da
qualidade do seu magneto (imã), que custa dinheiro...”.
(Grifo meu, HM). E a escala do custo, informa Briggs em outra
passagem de um dos seus livros, é geométrica; isto é, se, digamos, 10 reais
custaria um imã de 5.000 Gauss, para fazê-lo em 6.000 Gauss o custo talvez
fosse de 50 reais (!), e em 7.000 Gauss etc... o escambau! Daí porque o
extraordinário Goodmans Axion 80, de 17.000 Gauss, custava, 50 anos atrás,
centenas de libras esterlinas a unidade!
Fui claro? Então,
adeus; não escrevinho mais artigos sobre áudio; vou tentar escrever um livro
sobre alta-fidelidade.