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05/09/10

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Da afinação de minha vitrola (III, final)
J
ornal de 1 artigo só, Edição 173

©Holbein Menezes


Alguns devem saber que ao longo dos muitos anos que mexo com áudio de reprodução, tenho nutrido particular e peculiar xodó com alto-falantes eletrostáticos; cuja técnica, junto com a técnica “ribbon”, na minha experiência são as únicas que podem reproduzir de forma pronta e nítida a fugacidade de alguns sutis sinais gravados, chamados na gíria eletrônica de “transitórios”; tais os débeis sinais dos sons da celesta – instrumento de teclado usado pela primeira vez por Tchaikovsky no balé O quebra-nozes –, do pandeiro, do triângulo, das castanholas etc. E isso ocorre na reprodução eletrônica do som musical por razões ligadas ao fenômeno da massa; nenhum diafragma de alto-falante dinâmico consegue ter a leveza dos diafragmas dos eletrostáticos e “ribbon”, e vibrar com os débeis sinais de alguns transitórios.

Mas todos os alto-falantes eletrostáticos, na contramão da qualidade ótima para detalhes, padecem de dois males inevitáveis: debilidade nos “tutti” e deficiência – por serem painéis finitos – na replicação dos “graves porofundis”, de 100 Hz abaixo.

Assim, pois, Leitores, abandonei os eletrostáticos aí pelo ano de 1974, já na “sand-filled” de Floripa; renunciei porque a empresa QUAD descontinuou os antigos “quadinhos” de 1955, e o Ross Walker sucessor do pai Peter informou-me que uma dada peça do ELS-55, o seu exclusivo fabricante na face da Terra houvera falecido... e ele Ross não encontrara fabricante substituto. Pelo que, minhas órfãs quatro unidades dos “quadinhos” de 1955 foram envelhecendo mais rápidas do que eu, até morrerem de morte morrida poucos anos depois; e eu ainda não... (Há! Há! Há!)

De lá para cá foi a “loucura mansa” de buscar encontrar sonofletores a altura da sonoridade diáfana dos meus inesquecíveis eletrostáticos QUAD, de saudosa..., pois é, de saudosa saudade. Até que, eu já aqui em Fortaleza, alguém ofereceu-me um par dos híbridos (urgh!) Martin Logan, o modelo “Clarity”, técnica eletrostática de 400 Hz acima, e dinâmica (pô!) de 400 Hz abaixo.

Comprei-os sem pestanejar mas... poxa! se houvera pestanejado talvez tivesse descoberto que as “Clarity”, se claras mas não diáfanas de 400 Hz arriba, escureciam ao ponto de obumbrar com ressonâncias intoleráveis,

abaixo dos 400 Hz!

E agora, José? Botaram uma pedra no meu caminho!...

É verdade que teimoso que nem um jumento xucro, tentei “sartar’ sobre a pedra que botaram no meu caminho, trabalhando feito doido meses seguidos nas diabo das câmaras de graves das Martin Logan – as quais eu achava serem as responsáveis pelas inconfortáveis ressonâncias. Tirei e botei de dentro dessas câmaras, ene vezes, absorvedores de diferentes características: desde os vários tipos de espuma de náilon aos vários tipos de lã; até procurei lã de rocha na praça de Fortaleza mas não encontrei. (Lã de rocha, saibam os Leitores, se com certa densidade e espessura, e se posta com determinada técnica quer dentro das caixas, quer nos cantos dos ambientes de escuta, É O ÚNICO absorvedor eficaz para ressonâncias de baixas freqüências.)

Além disso, baralhei cabos de caixa e interconexão, com suas “curvas de resposta” específicas e seus peculiares desempenhos, baralhei como se baralha cartas em jogo de “poker” a valer dinheiro... estando à mesa valentões tipo Bat Masterson... E NADA! Permaneciam os incômodos nódulos.

Nessa altura, já algo abilolado, retirei os “woofer” originais das “Clarity” made in China, substituindo-os, pô!, pelos Fostex 308 também made in China, merda! Quase o mesmo que trocar seis por meia dúzia... As ressonâncias de baixa freqüência permaneciam; o que, pelo menos, queria significar que era a  câmara de graves das “Clarity” a culpada...

Já em vias de ser mandado para um hospício, alucinado pensei – se é que tresloucado pensa – em algumas soluções radicais, como por exemplo, revestir por fora as câmaras de graves das Martin Logan com manta de chumbo de 1/8 de espessura, para minimizar as vibrações da madeira; com tal macete, a recorrer à solução que os Irmãos Garrott, nos velhos e maus tempos do “long playing”, deram a um “shell” do meu toca-discos Garrard 301, cabeçote que vibrava qual vara verde sob o efeito da pressão “air-borne” da sala de 50 m2 do ambiente de música da Praça Dr. Del Vecchio, no Rio; vibração que desapareceu com uma fina capa de chumbo revestindo todo o corpo do “shell”!

Ou pôr no interior das câmaras – outra alucinação! –, em pontos variados, pequenos sacos de areia de rio, seca e peneirada. Isso com dois objetivos: 1) compatibilizar a área de cada câmara às características das marcas dos alto-falantes em uso, e 2) quebrar os nódulos ressonantes internos.

Mas minha “loucura mansa” não se desenvolveu a tanto embora tenha chegado muito perto, pois mandei fabricar em serralheiro duas caixas de chapa de ferro de 1/8, na forma triangular com dois ângulos retos na frente, área de cada caixa aí pelos 3 pés cúbicos; e nesses “bunker” instalei os Fostex 308.

Em verdade, verdade lhes digo, senhores, foram para os quintos as protuberâncias de baixa freqüência, a reprodução dos “graves profundus” ganhou uma articulação jamais ouvida por mim cá na “gesso-filled”. Porém...

Ora, não percam de vista que acima de 400 Hz eram os elementos eletrostáticos das Martin Logan; e como se alterou a geometria entre esses elementos e os “woofer” instalados nas caixas de ferro – porque pus as “Clarity” sobre as caixas de ferro –, aconteceu o conjunto passar a exibir “descontinuidade” de fase acústica. Essa descontinuidade de fase manifesta-se por sutil desnível na intensidade dos sons na região do corte; no caso das “Clarity”, 400 Hz.

Não vou descrever aqui em detalhes as “manobras” eletrônicas que usei para minorar essa descontinuidade de fase acústica. Mas manobrei muito, acreditem, desde a biamplificação a circuitos inversores de fase de graus 90 e 180, ou seja, com um ou dois componentes. Melhorava a sensação de descontinuidade mas não a eliminava.

Resolvi pôr de parte as Martin Logan e trabalhar com a caixa de ferro cuja performance de 400 Hz abaixo mostrara-se soberba. Retirei, pois, os “woofer” das “Clarity” e instalei-os nas caixas de ferro, com suave corte em 400 Hz, (3dB/oitava); e de 400 Hz acima, usei os “Fostex 308” com seu leves diafragmas de fibra de bananeira e sua elevada densidade de fluxo (Gauss), corte também de 3 dB/oitava; instalei-os virados para cima, na técnica de painel aberto, “baffle” de 45 cm de diâmetro para anular freqüências abaixo do ponto de corte; e reforcei com dois doces “tweeter” húngaros, a resposta de freqüências acima dos 10KHz. Deu muito trabalho mas o sistema de som ficou bom ou muito bom. Tanto que um experimentado audiófilo daqui de Fortaleza, que já estivera cá em casa mais de uma vez, ao ouvir esse sistema holbeiniano exclamou alto e bom som: “- É o melhor som que já ouvi aqui em sua sala!”

Portanto, fim de papo... Fim de papo? Para um melófilo em fase terminal? Pois sim!

Eis que apareceu o competente Audio Designer, Paulo Ramos, da Akronaudiotec; que me sugeriu experimentar no lugar dos “woofer” made in China das “Clarity”, um par dos alto-falantes de bobina móvel projetados por ele e fabricados pela KeyBass, de Santo André. Ora, em matéria de alto-falantes acostumei-me a respeitar as opiniões do Paulo, que sabe desses misteres.

Vieram de Santo André os falantes KB-6 AKRON. Segui as recomendações do Paulo Ramos quanto ao exato espaço interno das câmaras e o diâmetro e comprimento dos dutos; pus em paralelo com a bobina dos falantes o circuito Zoebel calculado pelo Paulo, e “queimei” as unidades por no mínimo 50 horas. A sensibilidade entre a parte eletrostática e a dinâmica evidenciou-se compatível. Após alguns dias e a cada dia que se passava os KB-6 AKRON desempenhavam melhor. As “Clarity” pareciam ter sido feitas para casar com os KB-6. Mas... os senhores capitalistas Martin & Logan preferem favorecer o comunismo chinês e não aos trabalhadores de Santo André. Como diria o personagem do Jô Soares, “... há gente que é cega!”.

Juro por alma de madrinha: nunca mais vou mexer nas “Clarity”; porque tudo agora ficou no lugar! TUDO!

* * *

 Mas a este ponto permitam-me tentar uma explicação para o aborrecido fato de uma caixa da grife Martin Logan, tão afamada quão bem aceita pela coletividade audiófila internacional ser ressonante.

O “fenômeno” tem que ver com o destino das caixas, isto é, para quais audiófilos é ela preferencialmente fabricada. Respondo: para os proprietários de amplificadores transistorizados; e eu sou valvular. Vejam, o uso de um “woofer” com imã de médio para baixo fluxo magnético – como é o caso do “woofer” das “Clarity” – requer amplificadores de alto fator de “damping”; e o “damping factor” da média dos amplificadores valvulados não vai além 150; enquanto os transistorizados passam de 1.000. E ensinou Gilbert Briggs em seu livro “A to Z in Audio”: “a good damping factor is useful in absorbing resonance…”.

Quer isso dizer: as desconfortáveis ressonâncias que eu ouvia com as “Clarity” na “gesso-filled”, decorriam do baixo fator de “damping” dos meus amplificadores 300B “singled-end”, de 8 watts de potência. Porém, se eu usasse um amplificador transistorizado de 100 watts, “damping factor” acima de 2.000, é quase certo que não as ouviria. Mas, ora bolas! e por que tais ressonâncias cessaram com a simples troca dos “woofer” das ML “made in China” pelos alto-falantes KB-6 AKRON, feitos em Santo André, ambos os falantes instalados nas câmaras das “Clarity” e alimentados pelos 300B?

Esse é outro “fenômeno” e decorre da diferença entre o baixo fluxo magnético (Gauss) dos “woofer” Martin Logan versus o alto fluxo magnético dos alto-falantes KB-6 AKRON. Porquanto, o tanto maior da excursão do cone de alto-falantes dinâmicos provém do impulso primário (sinal de áudio) mas em consequência da massa diafragmática dos dinâmicos, o impulso primário pode exceder a amplitude do sinal, gerando ressonâncias. É verdade que tanto o fluxo magnético dos falantes dinâmicos quanto o fator de amortecimento dos amplificadores podem reprimir essa “sobre” amplitude.

E foi o que acontecia e aconteceu.

Uma pergunta final remanesce: por que a importante empresa Martin Logan utiliza-se de “woofer” de baixo fluxo magnético? Resposta através da pena de Gilbert Briggs: “Jamais poderá ser demasiado enfatizado a verdade absoluta de que a eficiência de um alto-falante de bobina móvel está na dependência da qualidade do seu magneto (imã), que custa dinheiro...”. (Grifo meu, HM). E a escala do custo, informa Briggs em outra passagem de um dos seus livros, é geométrica; isto é, se, digamos, 10 reais custaria um imã de 5.000 Gauss, para fazê-lo em 6.000 Gauss o custo talvez fosse de 50 reais (!), e em 7.000 Gauss etc... o escambau! Daí porque o extraordinário Goodmans Axion 80, de 17.000 Gauss, custava, 50 anos atrás, centenas de libras esterlinas a unidade!

Fui claro? Então, adeus; não escrevinho mais artigos sobre áudio; vou tentar escrever um livro sobre alta-fidelidade.

     

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Este site foi atualizado em 07/07/09