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Espelho meu
Wozzeck, de Alban Berg
©Ricardo Labuto Gondim
A primeira coisa que você vai fazer antes de continuar este texto é esquecer
tudo o que leu ou ouviu dizer sobre o Wozzeck. Sim, musicalmente
a obra é prodigiosamente complexa. Para estreá-la em 1925 o regente Erich
Kleiber precisou de 110 ensaios. Mas a complexidade é tão sublinhada pelos críticos
que, ao invés de nos conduzirem à obra-prima de Berg, eles nos mantém longe
dela. Acredite, a sublimação da intrincada estrutura do Wozzeck era a última
coisa que Alban Berg desejava. Ele não compôs a ópera para os “eleitos”, mas
para ouvintes como eu e você.
Em 1929 Berg pronunciou uma célebre Conferência sobre Wozzeck. Como
escreveu Fernando Peixoto (Ópera e encenação, Paz e Terra, 1985), a
Conferência é um documento de...
“...auto-análise e
exposição de princípios e intenções: [Berg] afirma que não pretendeu
escrever uma obra revolucionária e que o resultado não deve servir de modelo
para outros nem para ele mesmo. E acaba, com lucidez, pedindo ao público
que, ao assistir ao espetáculo, esqueça suas explicações teóricas e
estéticas, para assim desfrutar de confronto artístico verdadeiro.”
(Grifei)
Mais tarde o próprio Berg (George Perle, Segunda escola vienense,
L&PM, 1990) diria:
“...desde o momento
em que a cortina se abre, até que se fecha pela última vez, não há ninguém
no público que preste atenção às várias fugas, invenções, suítes, movimentos
de sonata, variações e passacaglias – ninguém que repare em qualquer
coisa a não ser nos problemas sociais dessa ópera que transcendem de longe o
destino pessoal de Wozzeck.”
Você deve estar se perguntando: se Berg não queria chamar atenção para a
construção da música, por que a fez tão difícil?
Nessa
pergunta residem a grandeza e a relevância do Wozzeck como um dos grandes
patrimônios culturais da humanidade. Para respondê-la, inicialmente devemos
considerar a chamada “Segunda Escola de Viena”, que reuniu Berg e Anton
Webern em torno da figura metódica, polêmica e magnética de Arnold
Schöenberg.
No início do século XX Schöenberg cumpriu aquilo que o cromatismo do
Tristão e Isolda de Wagner quase havia precipitado: a ruptura com o
sistema tonal.
Será que podemos entender a questão sem recorrer à teoria musical?
Falando grosso modo, no sistema tonal apenas os “sons” próprios da
escala musical adotada pelo compositor em uma determinada peça podem ser
empregados. Exemplificando: se você escrever uma peça para piano em dó
maior, em quanto se mantiver nessa tonalidade só poderá utilizar as teclas
brancas. Para incluir bemóis ou sustenidos será preciso fazer uma
“modulação”, ou seja, trocar – mesmo que por um instante – de tonalidade.
Considere que toda a música européia do Século XVII à primeira experiência
atonal de Schöenberg (por volta de 1909) obedece ao sistema tonal. Por quê?
Porque o sistema tonal soa “confortável” e “natural” ao ouvido, e desde o
fim da Idade Média foi gradualmente se firmando como o fundamento da música
no ocidente.
Contudo, depois de séculos de uso por uma longa dinastia de gênios, na segunda metade
do século XIX o sistema tonal estava praticamente esgotado - ameaçando
restringir o poder expressivo da música. Bach, Mozart e Beethoven em mais de
uma obra já haviam resolvido problemas harmônicos inerentes à tonalidade sem
recorrer a modulações: simplesmente esmagaram as regras com dissonâncias
tremendas, agressivas e espetaculares, que se tornam mais evidentes quando a
música é tocada em instrumentos autênticos (experimente a fuga da 41
e a Heróica em gravações com “prática de época”).
Para expressar suas idéias mais livremente, Wagner empregou no Tristão um método descrito pelo ensaísta Arnold Whittall como “dissonância
na consonância” (Wagner, um compêndio, Jorge Zahar, 1995). Em
outras palavras, Wagner abusou das dissonâncias dentro das infinitas regras
do sistema tonal empregando uma modulação atrás da outra. Ainda assim
– justamente por transitar em tonalidades definidas – Tristão e
Isolda soa melódico aos nossos ouvidos do século XXI. Mas saiba que em 1865
a obra causou um escândalo profundo, sendo taxada de “incompreensível” mesmo
por críticos autodenominados progressistas. Wagner chegou a ser acusado de
pretender destruir a própria noção do que a música representava em seu
tempo.
Debussy, trilhando um caminho diferente de Wagner contribuiu para a diluição
do sistema tonal através de peculiares métodos harmônicos. Stravinsky
enfrentou a questão pela perspectiva do ritmo. Mas foram precisos o bisturi
e o fórceps de Arnold Schöenberg para que o Século XX – o século das
trincheiras e da bomba atômica; das guerras intercontinentais e do
extermínio em massa – encontrasse uma linguagem musical capaz de expressar a
si mesmo.
Para impor método e substância à dimensão da atonalidade, os membros da
Segunda Escola de Viena recorreram aos rigores das formas musicais mais
altas, como a fuga, a passacalha e a forma sonata. Com o passar dos anos, a
busca permanente de Schöenberg o levaria ao dodecafonismo em 1920. Esse é um
dado importante: composto aproximadamente entre 1914 e 1922, Wozzeck
não é música serial, é meramente atonal – e, em momentos de
profundo lirismo, tonal como Mozart ou
Mendelssohn.
Daí mais uma vez a pergunta: porque o Wozzeck é musicalmente tão complexo?
Wozzeck funde música e drama numa unidade expressiva tão maciça e
compacta como ninguém jamais produziu – nem antes e, receio, nem depois.
Para forjar essa coesão, atingir tal unidade e - acredite - garantir sua
inteligibilidade, Berg recorreu às formas
musicais que melhor expressavam o drama no palco e além dele – isto é, que
melhor caracterizavam não só os aspectos sociais e psicológicos
da peça de Georg Büchner como também sua visão pessoal, sua leitura
particular do texto. A exemplo de Schöenberg, o compositor aplicou formas
musicais para impor método e substância à dimensão do drama. Cada
nota na partitura está a serviço da ação.
A música é complexa porque a complexidade foi entendida e exercida por Berg
como um elemento de profunda expressão e coesão dramáticas. Como escreveu
Ernest Newman (História das Grandes Óperas, Volume V, Editora Globo, 1952):
"O Wozzeck de Büchner é o mísero
humilhado da época, debaixo do aspecto mais deplorável. Oficialmente ele
é Johann Franz Wozzeck, com trinta anos, sete meses e doze dias de idade
por ocasião da sua morte; miliciano e fuzileiro no segundo regimento,
segundo batalhão, quarta companhia. Sem educação, incompreendido, é o
escravo e o alvo das brincadeiras de todos, não apenas do capitão de seu
regimento, de quem é ordenança, mas ainda do médico que se ri dele na
cara, olha-o apenas como um interessante objeto de experiências
científicas e o utiliza para fins de demonstrações aos estudantes. Seu
único e pálido raio de sol num mundo tão escuro é a mulher leviana de
quem teve um filho e essa mesma lhe foi roubada pelo jactancioso
tambor-mor, que emprega sua superioridade física sobre o desgraçado
Wozzeck para humilhá-lo aos olhos da soldadesca. Sobre quase todos e
quase tudo que tenha primordial importância no drama paira a sombra do
que quer que seja parecido com uma loucura incipiente; ninguém é
inteiramente normal. Seria impossível a qualquer compositor tratar tal
assunto no idioma tradicional da música; a tentativa só poderia ser
feita, pela natureza das coisas, quando muitas das velhas convenções da
ópera estivessem, até certo ponto, destruídas."
O
resultado é tão perfeito e acabado que, como o próprio compositor pôde
constatar, “não há ninguém no público que preste atenção às várias fugas,
invenções, suítes, movimentos de sonata, variações e passacalhas”. Nem mesmo
Wagner com todo o seu gênio conseguiu interação remotamente semelhante.
Se o encenador não tentar mostrar-se maior e mais genial que Berg, no palco
Wozzeck é a obra de arte integral. Embora proclamasse a “música do
futuro”, Richard Wagner – como todos os Homens em qualquer época – foi um
produto do seu tempo. Confinado ao labirinto do sistema tonal com o qual não
poderia romper por razões históricas, Wagner jamais poderia ter gerado uma
obra tão concentrada. Com suas dissonâncias terríveis, construções
minuciosamente intrincadas e bruscas alternâncias entre o camerístico e o
que poderíamos chamar de “arquisinfonismo”, Wozzeck é a imagem da
sociedade que vivenciou os horrores da I Grande Guerra. Onde aviões,
submarinos, canhões de longo alcance e metralhadoras de grosso calibre
coexistiram e se enfrentaram entre cavalos e baionetas; onde as últimas
luzes de um idealismo romântico foram sepultadas com sangue e cinzas no
fundo enlameado das trincheiras.
Sou wagneriano desde criancinha. Não estou absolutamente
“reduzindo” ou “embaçando” a importância da figura monumental de Richard
Wagner. Parafraseando Saint-Saens, qualquer tentativa nesse sentido teria os
mesmos efeitos “da respiração de uma criança sobre as pirâmides do Egito”.
Amo a música de Wagner e creio que humanidade seria mais pobre sem o Anel,
o Parsifal e o Tristão - sobre o qual Eric Bentley, no notável
O Dramaturgo como Pensador (Civilização Brasileira, 1991), escreveu:
“...Tristão
continua sendo um grande trabalho; grande, não como expressão da ‘verdade
eterna do mito’, mas como expressão do niilismo europeu, uma das tendências
mais profundas do pensamento e da sensibilidade do século XIX. Em seu
simbolismo (é uma longa representação do ato sexual), em sua equação do amor
e da morte, sua apoteose da escuridão e sua renúncia da luz, é o AntiFausto,
o poema decadente par excellence”.
Sem Tristão não haveria Segunda Escola de Viena nem Wozzeck. Mas o
que o jovem Wagner presenciou nas barricadas do Levante de Dresden em 1848
não fazem sombra às informações colhidas e à vivência subalterna e
humilhante que Berg colheu durante a I Grande Guerra. Um período em que – segundo
ele próprio – Berg foi Wozzeck, o que vem a ser outro ponto fundamental para
entender a obra: o que vemos no palco é muito mais a visão de Berg que a
visão de Georg Büchner, o autor da tragédia naturalista Woyseck.

Mas o que vemos no palco? A história de um soldado que, na manhã de hoje,
poderia estar na primeira página dos jornais populares. Mas para não roubar
a surpresa e o impacto de quem não conhece o drama, melhor mudar de assunto.
GRAVAÇÃO
RECOMENDADA
Existem versões espetaculares em CD, como as de Böhm, Boulez e Mitropoulos.
Mas o logos eletrônico recomenda a versão em DVD de Claudio Abbado,
um dos maiores divulgadores da música moderna. Abbado rege um elenco estelar
e a orquestra da Ópera de Viena – que você conhece como Filarmônica de Viena
(sim, são a mesma grande orquestra).
WOZZECK, de Alban
Berg
Franz Grundheber, Hildegard Behrens,
Walter Raffeiner, Philip Langridge e Heinz Zednik
Wiener Staatsoper
Claudio Abbado.
1987

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