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Os Vizinhos que se danem
Introdução à música de Richard Wagner
©Ricardo Labuto Gondim
Mesmo sem saber você já ouviu
Richard Wagner (a pronúncia alemã é Rirrard Vagnar, mas você pode dizer
simplesmente "Vagner"). A música de abertura do filme Excalibur é
dele. A do ataque dos helicópteros em Apocalipse Now também. E se
você viu O Senhor dos Anéis, saiba que o universo mítico de Tolkien
deve muito ao texto do Anel do Nibeleungo, obra formada por
quatro dramas musicais que somam quatorze horas de música. Incluindo as de
Excalibur e Apocalipse.
Infelizmente, a trilha do Senhor dos
Anéis não inclui uma só nota do ciclo que Wagner levou 26 anos para
compor: esgotando todos os recursos musicais do seu tempo (a orquestra é
imensa), inventando alguns (as “tubas de Bayreuth”), e introduzindo recursos
extramusicais surpreendentes, como máquinas de vento, máquinas de trovão e
dezoito bigornas (isso mesmo, bigornas, daquelas que o Coiote arremessa no
Papa-Léguas).
E DAÍ?
Já que você usa o subwoofers como uma
arma de ar comprimido capaz de aperfeiçoar o horror da vida humana, pode
experimentar um novo tipo de barato: a porrada acústica.
Além de esgotar a reserva de potência do
seu equipamento, Wagner vai desafiar um dos itens da qualidade do sistema: a
capacidade de reproduzir massas de instrumentos com timbres diferentes
tocados ao mesmo tempo.
Tem mais: Wagner é uma forma altamente
sofisticada de incomodar a vizinhança, impressionar as garotas, e destacar
você da multidão que acha que o sintetizador e o sampler são a
culminância da música ocidental.
DESCOBRINDO WAGNER
Depois do sucesso de O Senhor dos
Anéis, a trilogia com prólogo do Anel do Nibelungo é uma ótima
introdução à música de Richard Wagner. A saga é formada por O Ouro do
Reno, A Valquíria, Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses.
A história inclui um anel mágico, uma espada invencível, um dragão, uma
“bela adormecida” numa montanha cercada de fogo, as fiandeiras do destino,
gigantes, elfos, ninfas, cavalos voadores, virgens guerreiras, o fim do
mundo e os deuses imperfeitos e traiçoeiros da mitologia nórdico-germânica.
Uma versão alemã dos mitos que cercam o poderoso Thor - que no caso, com
martelo e tudo, se chama Donner.
Para que a sua entrada neste
universo aconteça sem traumas, convém dispensar as vozes. O canto lírico
costuma confundir e irritar os novatos. Além disso, alguém pode achar que
você está estrangulando o gato, o que seria trágico. Ou estrangulando a
gata, o que seria pior.
Vamos escolher uma versão totalmente
instrumental para que nada se interponha entre você e a orquestra bélica de
Wagner, que inclui flautim, 3 oboés, corne inglês, 3 clarinetas, clarinete
baixo, 3 fagotes, 8 trompas, 2 tubas de Bayreuth tenor, 2 baixos de tuba de
Bayreuth, 3 trompetes, trompete baixo, 4 trombones, 1 trombone contrabaixo,
contrabaixo de tuba, tímpanos, pratos, triângulo, gongo, 7 harpas, 16
primeiros-violinos, 16 segundos-violinos, 12 violas, 12 violoncelos, 8
contrabaixos, 1 martelo e 18 bigornas em três tamanhos diferentes (para
agudos, médios e graves).
O QUE OUVIR?
Existem muitas gravações de “trechos
orquestrais” do “Anel do Nibelungo”. Vou recomendar uma. Caso você tenha
acesso a outras, assinalo as “faixas” que aparecem com maior freqüência nas
seleções - e que podem desafiar o equipamento do seu carro. Existem
gravações ruins, com regentes de segunda e orquestras de terceira. Mas
Wagner é como pizza: mesmo quando é ruim, é bom.
Cavalgada das Valquírias.
É a música tocada pelos helicópteros do filme “Apocalipse”, uma descrição da
marcha aérea das virgens guerreiras. Simplesmente alucinante.
Entrada dos Deuses no Walhalla.
A música começa com notas impetuosas e obstinadas nos violinos com o suporte
das cordas graves. Sobre esta base irrompem as oito trompas com um tema
belíssimo. Quando a massa vai atingir o clímax ocorre um súbito e inesperado
silêncio. É quando o martelo de Donner choca-se contra uma rocha. Aí, velhão,
vêm o relâmpago, o trovão, os tímpanos e uma carga pesadíssima nos
violoncelos e contrabaixos. Se o som não embolar nem distorcer aqui, você
deve estar muito bem equipado.
Marcha Fúnebre de Siegfried.
É a música que abre Excalibur. Tímpanos, trombones e trompas se
alternam em frases lentas e escuras, criando um clima de profundo mistério.
De repente as cordas graves como que “riscam” a música num crescendo. A
orquestra explode. Cai por alguns instantes com temas belos e tristes. E
volta a explodir numa grande marcha.

Cena da Imolação
ou Imolação dos deuses. É a cena final do ciclo do Anel. Uma
marcha intensa, que descreve a destruição do mundo e seu renascimento com
todos os recursos da orquestra. O tema melódico que você vai ouvir antes do
acorde final é o da “redenção pelo amor”. Segundo Wagner, o amor é a única
forma de redimir o mundo. Uma bela idéia vinda de um homem que passou a vida
buscando paixões, traindo amigos e colecionando inimigos. Acredite, um cara
pior que o namorado da sua irmã.
GRAVAÇÃO RECOMENDADA
Experimente a gravação digital da
London (410 137-2[10]) com o maestro Georg Solti e a Filarmônica de
Viena: “Wagner, Solti: De Ring des Nibelungen - Orchestral Excerpts”. Sir
Georg era um especialista em Wagner. Um regente de “mão pesada”, que extraía
sons da orquestra capazes de envergonhar metaleiros.
Se o som em casa não estiver afinado,
ele vai envergonhar você também.
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