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05/09/10

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Os Vizinhos que se danem
Introdução à música de Richard Wagner

©Ricardo Labuto Gondim
 

Mesmo sem saber você já ouviu Richard Wagner (a pronúncia alemã é Rirrard Vagnar, mas você pode dizer simplesmente "Vagner"). A música de abertura do filme Excalibur é dele. A do ataque dos helicópteros em Apocalipse Now também. E se você viu O Senhor dos Anéis, saiba que o universo mítico de Tolkien deve muito ao texto do Anel do Nibeleungo, obra formada por quatro dramas musicais que somam quatorze horas de música. Incluindo as de Excalibur e Apocalipse

Infelizmente, a trilha do Senhor dos Anéis não inclui uma só nota do ciclo que Wagner levou 26 anos para compor: esgotando todos os recursos musicais do seu tempo (a orquestra é imensa), inventando alguns (as “tubas de Bayreuth”), e introduzindo recursos extramusicais surpreendentes, como máquinas de vento, máquinas de trovão e dezoito bigornas (isso mesmo, bigornas, daquelas que o Coiote arremessa no Papa-Léguas).

E DAÍ?

Já que você usa o subwoofers como uma arma de ar comprimido capaz de aperfeiçoar o horror da vida humana, pode experimentar um novo tipo de barato: a porrada acústica.

Além de esgotar a reserva de potência do seu equipamento, Wagner vai desafiar um dos itens da qualidade do sistema: a capacidade de reproduzir massas de instrumentos com timbres diferentes tocados ao mesmo tempo.

Tem mais: Wagner é uma forma altamente sofisticada de incomodar a vizinhança, impressionar as garotas, e destacar você da multidão que acha que o sintetizador e o sampler são a culminância da música ocidental.

DESCOBRINDO WAGNER

Depois do sucesso de O Senhor dos Anéis, a trilogia com prólogo do Anel do Nibelungo é uma ótima introdução à música de Richard Wagner. A saga é formada por O Ouro do Reno, A Valquíria, Siegfried e O Crepúsculo dos Deuses. A história inclui um anel mágico, uma espada invencível, um dragão, uma “bela adormecida” numa montanha cercada de fogo, as fiandeiras do destino, gigantes, elfos, ninfas, cavalos voadores, virgens guerreiras, o fim do mundo e os deuses imperfeitos e traiçoeiros da mitologia nórdico-germânica. Uma versão alemã dos mitos que cercam o poderoso Thor - que no caso, com martelo e tudo, se chama Donner.

Para que a sua entrada neste universo aconteça sem traumas, convém dispensar as vozes. O canto lírico costuma confundir e irritar os novatos. Além disso, alguém pode achar que você está estrangulando o gato, o que seria trágico. Ou estrangulando a gata, o que seria pior.

Vamos escolher uma versão totalmente instrumental para que nada se interponha entre você e a orquestra bélica de Wagner, que inclui flautim, 3 oboés, corne inglês, 3 clarinetas, clarinete baixo, 3 fagotes, 8 trompas, 2 tubas de Bayreuth tenor, 2 baixos de tuba de Bayreuth, 3 trompetes, trompete baixo, 4 trombones, 1 trombone contrabaixo, contrabaixo de tuba, tímpanos, pratos, triângulo, gongo, 7 harpas, 16 primeiros-violinos, 16 segundos-violinos, 12 violas, 12 violoncelos, 8 contrabaixos, 1 martelo e 18 bigornas em três tamanhos diferentes (para agudos, médios e graves).        

O QUE OUVIR?

Existem muitas gravações de “trechos orquestrais” do “Anel do Nibelungo”. Vou recomendar uma. Caso você tenha acesso a outras, assinalo as “faixas” que aparecem com maior freqüência nas seleções - e que podem desafiar o equipamento do seu carro. Existem gravações ruins, com regentes de segunda e orquestras de terceira. Mas Wagner é como pizza: mesmo quando é ruim, é bom.

Cavalgada das Valquírias. É a música tocada pelos helicópteros do filme “Apocalipse”, uma descrição da marcha aérea das virgens guerreiras. Simplesmente alucinante.

Entrada dos Deuses no Walhalla. A música começa com notas impetuosas e obstinadas nos violinos com o suporte das cordas graves. Sobre esta base irrompem as oito trompas com um tema belíssimo. Quando a massa vai atingir o clímax ocorre um súbito e inesperado silêncio. É quando o martelo de Donner choca-se contra uma rocha. Aí, velhão, vêm o relâmpago, o trovão, os tímpanos e uma carga pesadíssima nos violoncelos e contrabaixos. Se o som não embolar nem distorcer aqui, você deve estar muito bem equipado.

Marcha Fúnebre de Siegfried. É a música que abre Excalibur. Tímpanos, trombones e trompas se alternam em frases lentas e escuras, criando um clima de profundo mistério. De repente as cordas graves como que “riscam” a música num crescendo. A orquestra explode. Cai por alguns instantes com temas belos e tristes. E volta a explodir numa grande marcha.

Cena da Imolação ou Imolação dos deuses. É a cena final do ciclo do Anel. Uma marcha intensa, que descreve a destruição do mundo e seu renascimento com todos os recursos da orquestra. O tema melódico que você vai ouvir antes do acorde final é o da “redenção pelo amor”. Segundo Wagner, o amor é a única forma de redimir o mundo. Uma bela idéia vinda de um homem que passou a vida buscando paixões, traindo amigos e colecionando inimigos. Acredite, um cara pior que o namorado da sua irmã.

GRAVAÇÃO RECOMENDADA

Experimente a gravação digital da London (410 137-2[10]) com o maestro Georg Solti e a Filarmônica de Viena: “Wagner, Solti: De Ring des Nibelungen - Orchestral Excerpts”. Sir Georg era um especialista em Wagner. Um regente de “mão pesada”, que extraía sons da orquestra capazes de envergonhar metaleiros.

Se o som em casa não estiver afinado, ele vai envergonhar você também.

 

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Este site foi atualizado em 31/12/06