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05/09/10

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Não tenha medo de viver
IV Sinfonia de Tchaikovsky

©Ricardo Labuto Gondim
(publicado na revista Som & Carro)

É espantoso, mas o senhor na foto tem 53 anos: o Egito em seu rosto é o resultado de uma vida atormentada, mas como fazem os artistas verdadeiramente grandes, Tchaikovsky transformou sua dor em beleza.

O Primeiro amor de Édipo

Piotr Ilyich Tchaikovsky (Piôtre Ilítchi Tchaicóvsqui) nasceu na Rússia em 1840 com uma sensibilidade monstruosa, uma inclinação natural para a música, uma sensação de desamparo permanente e uma atração doentia pela mãe, Alexandra Andreyevna d'Assier.

Quando Piotr Ilyich tinha 14 anos, Alexandra Andreyevna contraiu a doença mais temida pelos russos: o cólera. Houve uma recuperação milagrosa, mas uma súbita recaída traiu as esperanças da família e levou ao tratamento final: imersão em água fervente. Tchaikovsky nunca superou a morte da mãe.

Formado em direito aos 19 anos, Piotr Ilyich tornou-se um dos piores burocratas do Ministério da Justiça. Com as pessoas murmurando abertamente sobre a homossexualidade que ele tentava negar até para si mesmo, cedeu ao impulso de abandonar a carreira e dedicar-se exclusivamente à música. Em 1862 ingressou no conservatório de São Petersburgo. Formando-se, foi nomeado professor do recém-fundado Conservatório de Moscou. Com o tempo, fez tanto sucesso como compositor que pode viver exclusivamente de suas obras.

Tchaikovsky conheceu fases de privação e prosperidade. Viveu, como todos nós, momentos felizes e amargos. Em 1893, no auge do sucesso, logo depois de concluir a Sexta Sinfonia, bebeu voluntariamente uma taça de água suspeita de contaminação por cólera. Morreu exatamente como sua mãe, imerso em água fervente.

Novas e estranhas paixões

Tchaikovsky e Alexandra AndreyevnaA paixão de Tchaikovsky por Alexandra Andreyevna provocou divagações. A hipótese mais comum é o clássico complexo de Édipo. Herbert Weinstock, um dos maiores biógrafos do compositor arriscou outra hipótese: a de que o pequeno Piotr Ilyich achava o mundo psiquicamente intolerável, experimentando um desejo inconsciente de regredir ao útero materno. Seja como for, existe uma ligação entre as relações emocionais com Alexandra e a homossexualidade que ele não conseguia entender e aceitar.

Tchaikovsky e Antonina MiliukovaEm 1877, tentando calar rumores escandalosos, Tchaikovsky casou com Antonina Ivanovna Miliukova, uma oportunista desequilibrada. Tentou suicídio semanas mais tarde, entrando nas águas geladas do rio Moscou para contrair pneumonia. Alguns dias depois voltou a si – mas não para Antonina Ivanovna que o atormentou por um longo tempo, mesmo depois do divórcio no ano seguinte. A ironia é que foi justamente uma mulher quem desempenhou um papel decisivo em sua vida.

Nadezhda von MeckDurante aquele período conturbado de 1877, Nadezhda Filaretovna von Meck, uma viúva reclusa, excêntrica e imensamente rica ofereceu uma quantia mensal respeitável para que ele se dedicasse à composição de novas obras sem preocupações materiais. Havia uma condição: que eles jamais se encontrassem pessoalmente. Mãe de 12 filhos, a morte do marido no ano anterior havia despertado em Nadezhda Filaretovna sentimentos contraditórios: de um lado, um verdadeiro pesar; do outro, alívio pelo fim das exigências sexuais. A música de Tchaikovsky lhe trouxe um novo alento e o mecenato era uma forma de retribuição. Quatorze anos depois, por motivos jamais esclarecidos satisfatoriamente, von Meck encerrou o “romance” de modo irreversível.

A Quarta Sinfonia

O estranho relacionamento entre Tchaikovsky e Nadezhda von Meck produziu mais de mil cartas e a Sinfonia N° 4 em Fá menor, Op. 36, dedicada “Ao meu melhor amigo” – a própria viúva. Numa carta de 1878, Piotr Ilyich explicou cuidadosamente o “programa” da música – aquilo que ele pretende “narrar”. Ouvir a Quarta com as indicações de Tchaikovsky em mente pode ser um consolo nos dias em que o Universo parece conspirar contra você.

O primeiro movimento é puro Heavy Metal sinfônico. Começa com o tema do “destino”, que segundo o compositor é “a força fatal que impede o nosso impulso para a felicidade”. O motivo é apresentado pelas quatro trompas dividas em pares que tocam em uníssono, ou seja, que tocam a mesma nota. Como é virtualmente impossível uma trompa afinar com outra, a sonoridade é espetacular. O efeito fica mais impressionante com a entrada dos trompetes e trombones interrompida pela percussão. Há uma breve introdução com motivos lentos, sonhadores e tristes. Segue-se o embate pesado entre um tema alegre mas solene e a erupção implacável do destino, que tenta esmagá-lo. “Não há porto”, escreveu Tchaikovsky: “Somos batidos pelas ondas de um lado para o outro até o mar nos tragar”. As “tempestades” orquestrais são típicas do compositor, com instrumentação vibrante, colorida, de alto impacto. Depois de cada furacão, o motivo “consolador” nas madeiras (fagotes, clarinetas, flautas e oboés) vai fazer você sentir que Piotr Ilyich é boa companhia.

O segundo movimento é uma pausa para meditação. Descreve “o sentimento de melancolia que te envolve à tardinha, quando você se senta só e fatigado... Surge um mundo de memórias, e você se sente triste porque muita coisa já passou.”

Para Tchaikovsky “o terceiro movimento não exprime sensações definidas”, mas visões extravagantes, exóticas, incoerentes, estimuladas por algumas taças de vinho. O movimento é um pizzicatto ostinato (beliscado obstinado): as cordas – violinos, violas, violoncelos e baixos – são beliscadas com o dedo ao invés de tocadas com o arco. Quando os baixos entrarem...

O quarto movimento é uma música tipicamente russa orquestrada para uma “banda” gigantesca, histérica e desesperada: “se você não pode descobrir em si mesmo razões para ser feliz, olhe para os outros. Saia e misture-se com o povo... Aprenda a extrair felicidade da alegria dos outros”. Com uma grande orquestra, um teste de resistência para tweeters, woofers, vidros e pára-brisas, que eventualmente podem rachar. O risco vale a pena: a esta altura você já está se sentindo melhor.

Gravação recomendada

Experimente a furiosa versão de Herbert von Karajan com a Filarmônica de Berlim. O álbum é duplo e traz interpretações espetaculares das Sinfonias 5 e 6. O melhor de tudo é que está ao alcance do mouse em edição nacional.

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Este site foi atualizado em 31/10/06