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Não tenha medo de viver
IV Sinfonia de
Tchaikovsky
©Ricardo Labuto Gondim
(publicado na revista Som & Carro)
É espantoso, mas o
senhor na foto tem 53 anos: o Egito em seu rosto é o resultado de uma vida
atormentada, mas como fazem os artistas verdadeiramente grandes, Tchaikovsky
transformou sua dor em beleza.
O Primeiro amor de
Édipo
Piotr Ilyich
Tchaikovsky (Piôtre Ilítchi Tchaicóvsqui) nasceu na Rússia em 1840 com uma
sensibilidade monstruosa, uma inclinação natural para a música, uma sensação
de desamparo permanente e uma atração doentia pela mãe, Alexandra Andreyevna
d'Assier.
Quando Piotr Ilyich
tinha 14 anos, Alexandra Andreyevna contraiu a doença mais temida pelos
russos: o cólera. Houve uma recuperação milagrosa, mas uma súbita recaída
traiu as esperanças da família e levou ao tratamento final: imersão em água
fervente. Tchaikovsky nunca superou a morte da mãe.
Formado em direito aos
19 anos, Piotr Ilyich tornou-se um dos piores burocratas do Ministério da
Justiça. Com as pessoas murmurando abertamente sobre a homossexualidade que
ele tentava negar até para si mesmo, cedeu ao impulso de abandonar a
carreira e dedicar-se exclusivamente à música. Em 1862 ingressou no
conservatório de São Petersburgo. Formando-se, foi nomeado professor do
recém-fundado Conservatório de Moscou. Com o tempo, fez tanto sucesso como
compositor que pode viver exclusivamente de suas obras.
Tchaikovsky conheceu
fases de privação e prosperidade. Viveu, como todos nós, momentos felizes e
amargos. Em 1893, no auge do sucesso, logo depois de concluir a Sexta
Sinfonia, bebeu voluntariamente uma taça de água suspeita de contaminação
por cólera. Morreu exatamente como sua mãe, imerso em água fervente.
Novas e estranhas
paixões
A paixão de
Tchaikovsky por Alexandra Andreyevna provocou divagações. A hipótese mais
comum é o clássico complexo de Édipo. Herbert Weinstock, um dos maiores
biógrafos do compositor arriscou outra hipótese: a de que o pequeno Piotr
Ilyich achava o mundo psiquicamente intolerável, experimentando um desejo
inconsciente de regredir ao útero materno. Seja como for, existe uma ligação
entre as relações emocionais com Alexandra e a homossexualidade que ele não
conseguia entender e aceitar.
Em 1877, tentando
calar rumores escandalosos, Tchaikovsky casou com Antonina Ivanovna
Miliukova, uma oportunista desequilibrada. Tentou suicídio semanas mais
tarde, entrando nas águas geladas do rio Moscou para contrair pneumonia.
Alguns dias depois voltou a si – mas não para Antonina Ivanovna que o
atormentou por um longo tempo, mesmo depois do divórcio no ano seguinte. A
ironia é que foi justamente uma mulher quem desempenhou um papel decisivo em
sua vida.
Durante aquele período
conturbado de 1877, Nadezhda Filaretovna von Meck, uma viúva reclusa,
excêntrica e imensamente rica ofereceu uma quantia mensal respeitável para
que ele se dedicasse à composição de novas obras sem preocupações materiais.
Havia uma condição: que eles jamais se encontrassem pessoalmente. Mãe de 12
filhos, a morte do marido no ano anterior havia despertado em Nadezhda
Filaretovna sentimentos contraditórios: de um lado, um verdadeiro pesar; do
outro, alívio pelo fim das exigências sexuais. A música de Tchaikovsky lhe
trouxe um novo alento e o mecenato era uma forma de retribuição. Quatorze
anos depois, por motivos jamais esclarecidos satisfatoriamente, von Meck
encerrou o “romance” de modo irreversível.
A Quarta Sinfonia
O estranho relacionamento entre Tchaikovsky e Nadezhda von Meck produziu
mais de mil cartas e a Sinfonia N° 4 em Fá menor, Op. 36, dedicada “Ao meu
melhor amigo” – a própria viúva. Numa carta de 1878, Piotr Ilyich explicou
cuidadosamente o “programa” da música – aquilo que ele pretende “narrar”.
Ouvir a Quarta com as indicações de Tchaikovsky em mente pode ser um consolo
nos dias em que o Universo parece conspirar contra você.
O primeiro movimento é
puro Heavy Metal sinfônico. Começa com o tema do “destino”, que segundo o
compositor é “a força fatal que impede o nosso impulso para a felicidade”. O
motivo é apresentado pelas quatro trompas dividas em pares que tocam em
uníssono, ou seja, que tocam a mesma nota. Como é virtualmente impossível
uma trompa afinar com outra, a sonoridade é espetacular. O efeito fica mais
impressionante com a entrada dos trompetes e trombones interrompida pela
percussão. Há uma breve introdução com motivos lentos, sonhadores e tristes.
Segue-se o embate pesado entre um tema alegre mas solene e a erupção
implacável do destino, que tenta esmagá-lo. “Não há porto”, escreveu
Tchaikovsky: “Somos batidos pelas ondas de um lado para o outro até o mar
nos tragar”. As “tempestades” orquestrais são típicas do compositor, com
instrumentação vibrante, colorida, de alto impacto. Depois de cada furacão,
o motivo “consolador” nas madeiras (fagotes, clarinetas, flautas e oboés)
vai fazer você sentir que Piotr Ilyich é boa companhia.
O segundo movimento é
uma pausa para meditação. Descreve “o sentimento de melancolia que te
envolve à tardinha, quando você se senta só e fatigado... Surge um mundo de
memórias, e você se sente triste porque muita coisa já passou.”
Para Tchaikovsky “o
terceiro movimento não exprime sensações definidas”, mas visões
extravagantes, exóticas, incoerentes, estimuladas por algumas taças de
vinho. O movimento é um pizzicatto ostinato (beliscado obstinado): as cordas
– violinos, violas, violoncelos e baixos – são beliscadas com o dedo ao
invés de tocadas com o arco. Quando os baixos entrarem...
O quarto movimento é
uma música tipicamente russa orquestrada para uma “banda” gigantesca,
histérica e desesperada: “se você não pode descobrir em si mesmo razões para
ser feliz, olhe para os outros. Saia e misture-se com o povo... Aprenda a
extrair felicidade da alegria dos outros”. Com uma grande orquestra, um
teste de resistência para tweeters, woofers, vidros e pára-brisas, que
eventualmente podem rachar. O risco vale a pena: a esta altura você já está
se sentindo melhor.
Gravação
recomendada
Experimente a furiosa
versão de Herbert von Karajan com a Filarmônica de Berlim. O álbum é duplo e
traz interpretações espetaculares das Sinfonias 5 e 6. O melhor de tudo é
que está ao alcance do mouse em edição nacional.
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