audições: stravinsky

05/09/10

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Acenda a Imaginação
"O Pássaro de Fogo" de Stravinsky

©Ricardo Labuto Gondim
(publicado na revista Som & Carro)

DESENCONTROS...

Filho de um cantor de ópera, Igor Fyodorovich Stravinsky seria o orgulho de seus pais se tivesse seguido a carreira de pianista. Ele começou a estudar ainda menino, mas a coisa não foi muito bem: em 1902, aos 20 anos de idade, Igor Fyodorovich era um entediado estudante de direito na Universidade de São Petersburgo. Os estudos musicais continuavam, mas somente em aulas particulares de harmonia e contraponto.

...E ENCONTROS

O compositor, já consagrado em 1930. Nas férias de verão daquele ano de 1902, Stravinsky conheceu Nicolay Rimsky-Korsakov, um dos maiores compositores russos, famoso pelo colorido instrumental de suas obras. Ao mostrar as primeiras composições para piano ao mestre, Igor Fyodorovich esperava um impulso para trocar a Universidade pelo Conservatório. Ao invés disso, Rimsky-Korsakov o estimulou a seguir com o direito, manter os estudos particulares de música e continuar compondo. E mais: recomendando que o trabalho de composição fosse supervisionado, ofereceu-se como orientador. Como o pai de Stravinsky faleceu pouco depois do encontro, uma relação paternal uniu mestre e discípulo até a morte de Rimsky-Korsakov seis anos depois.

OS OLHOS DO MESTRE

Rimsky-Korsakov não teceu comentários, mas é óbvio que enxergou a centelha de autêntica originalidade nas pequenas peças para piano de Stravinsky. Por isso o manteve longe do Conservatório: seguindo normas rígidas e invariavelmente tradicionais, o ensino acadêmico tende à “conformação”. Não foi isso o que a escola tentou fazer com você? Lembra?

Com um mestre da estatura de Rimsky-Korsakov e seu potencial de originalidade devidamente estimulado, poucos anos depois o Dr. Igor Stravinsky – que se formou em direito sem jamais exercer o nobre ofício – conquistou fama internacional. E durante 88 anos experimentou todas as formas de composição.

O PÁSSARO DE FOGO

A sedutora Karsavina criou o Pássaro de Fogo na estréia do balet.O Pássaro de Fogo estreou na Ópera de Paris na noite de 25 de julho de 1910.  Quando o dia amanheceu Stravinsky era o mais talentoso compositor russo de sua geração. O autor da partitura mais original da história do balé.

Encenado pela célebre companhia Ballets Russes de Diaghliev, uma das principais atrações no mundo da cultura parisiense, o libreto – o roteiro da obra – é uma lenda russa popular: o feiticeiro Katschei rapta lindas princesas e as mantém prisioneiras num jardim secreto cercado por maçãs de ouro. Com a ajuda do Pássaro de Fogo o príncipe Ivan derrota o bruxo, seu exército monstruoso e conquista a princesa mais bela. A partir desta aventura infantil Stravinsky constrói uma partitura de beleza e mistério incomuns, repleta de nuances brumosas, sombrias e dissonantes, com rasgos de uma instrumentação exuberante e melodias arrebatadoras. Parte da música pode ser ouvida em Fantasia 2000 dos estúdios Disney, que trocou o argumento original pela seqüência espetacular do cervo, da fada verde e do monstruoso pássaro de fogo e lava.

ESQUEÇA TUDO QUE APRENDEU

O Pássaro de Fogo na visão de Paul Cloutier.Agora que você conhece o libreto e a versão da Disney, esqueça tudo. Ouça a música do seu próprio jeito. Deixe a imaginação voar livremente a partir do estranho mundo de sons de Stravinsky. Esqueça até mesmo o título, ponha aves, bruxos e princesas de lado. Concentre-se no início misterioso e escuro. Acompanhe as longas frases nas cordas graves – que dependendo do seu subwoofer vão impor ao carro uma vibração baixa, constante e perturbadora. Deixe a música fluir, hipnótica e lenta. Sinta as madeiras ameaçando romper a linha das sombras. E seja arrebatado quando os tweeters cintilarem sob o trêmulo dos violinos, uma vertigem elíptica, complexa e fantasmagórica. Atravesse dimensões misteriosas, às vezes impetuosas, selvagens e até mesmo bizarras. Emocione-se com os momentos de vasta, triste e incontida paixão. Deixe-se imergir nesse universo musical diferente de tudo que você conhece, criado há quase um século pela originalidade, coragem e também pelas imperfeições de um rapaz de 28 anos. Um jovem arrojado, ambicioso, que queria assombrar o mundo – e que definitivamente conseguiu em 29 de Maio de 1913 com a “A Sagração da Primavera”.

A SAGRAÇÃO DO ESCÂNDALO

É costume – como na gravação recomendada – O Pássaro de Fogo vir acompanhado do balé A Sagração da Primavera, utilizado por Disney no Fantasia de 1940 para descrever a origem e evolução da Terra. Na verdade o balé retrata rituais de sedução e sacrifício numa Rússia primitiva e pagã, com ritmos agressivos, mudanças bruscas de andamento e tonalidade, harmonias estranhas, arbitrárias e dissonantes. Em sua estréia, A Sagração provocou uma reação violenta, com espectadores atirando objetos uns contra os outros, contra os bailarinos e contra a orquestra. A partitura é musicalmente muito mais importante que a do Pássaro, mas exige algum esforço e paciência do ouvinte para ser entendida e devidamente apreciada. Não hesite em ouvi-la com a mesma liberdade sugerida para O Pássaro de Fogo. Esteja onde estiver, Stravinsky não vai se importar, pois é o autor de uma das afirmações mais polêmicas e discutidas da história da arte: a de que a música não pode expressar nada além de música.

Sagração: orgia da carne e do rítmo.

GRAVAÇÃO RECOMENDADA

A gravação de Yuri Simonov com a Royal Philharmonic Orchestra traz a suíte preparada por Stravinsky em 1945 com os melhores e mais célebres momentos do balé. O CD é o volume 19 da "Coleção Folha de Música Clássica".

Não é a melhor versão, mas tenho fortes razões para recomendá-la. Simonov foi extremamente corajoso e original, deixando que a “pulsação” interior da música determinasse os andamentos. Você vai entender quando ouvir. Embora mais lento e fantasmagórico, o resultado é fascinante. O CD original foi gravado em 20 Bits e remasterizado em 32 Bits DSP. Não ouvi na edição da Folha. Mas pelo precinho, não há razão para hesitar.

19 - Stravinsky

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Este site foi atualizado em 30/10/06