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Acenda a Imaginação
"O Pássaro de Fogo" de Stravinsky
©Ricardo Labuto Gondim
(publicado na revista Som & Carro)
DESENCONTROS...
Filho de um cantor de
ópera, Igor Fyodorovich Stravinsky seria o orgulho de seus pais se tivesse
seguido a carreira de pianista. Ele começou a estudar ainda menino, mas a
coisa não foi muito bem: em 1902, aos 20 anos de idade, Igor Fyodorovich era
um entediado estudante de direito na Universidade de São Petersburgo. Os
estudos musicais continuavam, mas somente em aulas particulares de harmonia
e contraponto.
...E ENCONTROS
Nas
férias de verão daquele ano de 1902, Stravinsky conheceu Nicolay
Rimsky-Korsakov, um dos maiores compositores russos, famoso pelo colorido
instrumental de suas obras. Ao mostrar as primeiras composições para piano
ao mestre, Igor Fyodorovich esperava um impulso para trocar a Universidade
pelo Conservatório. Ao invés disso, Rimsky-Korsakov o estimulou a seguir com
o direito, manter os estudos particulares de música e continuar compondo. E
mais: recomendando que o trabalho de composição fosse supervisionado,
ofereceu-se como orientador. Como o pai de Stravinsky faleceu pouco depois
do encontro, uma relação paternal uniu mestre e discípulo até a morte de
Rimsky-Korsakov seis anos depois.
OS OLHOS DO MESTRE
Rimsky-Korsakov não
teceu comentários, mas é óbvio que enxergou a centelha de autêntica
originalidade nas pequenas peças para piano de Stravinsky. Por isso o
manteve longe do Conservatório: seguindo normas rígidas e invariavelmente
tradicionais, o ensino acadêmico tende à “conformação”. Não foi isso o que a
escola tentou fazer com você? Lembra?
Com um mestre da
estatura de Rimsky-Korsakov e seu potencial de originalidade devidamente
estimulado, poucos anos depois o Dr. Igor Stravinsky – que se formou em
direito sem jamais exercer o nobre ofício – conquistou fama internacional. E
durante 88 anos experimentou todas as formas de composição.
O PÁSSARO DE FOGO
O
Pássaro de Fogo
estreou na Ópera de Paris na noite de 25 de julho de 1910.
Quando o dia amanheceu Stravinsky era o mais talentoso compositor russo de
sua geração. O autor da partitura mais original da história do balé.
Encenado pela célebre
companhia Ballets Russes de Diaghliev, uma das principais atrações no
mundo da cultura parisiense, o libreto
– o roteiro da obra – é uma lenda russa
popular: o feiticeiro Katschei rapta lindas princesas e as mantém
prisioneiras num jardim secreto cercado por maçãs de ouro. Com a ajuda do
Pássaro de Fogo o príncipe Ivan derrota o bruxo, seu exército monstruoso e
conquista a princesa mais bela.
A partir desta
aventura infantil Stravinsky constrói uma partitura de beleza e mistério
incomuns, repleta de nuances brumosas, sombrias e dissonantes, com rasgos de
uma instrumentação exuberante e melodias arrebatadoras. Parte da música pode
ser ouvida em Fantasia 2000 dos estúdios Disney, que trocou o
argumento original pela seqüência espetacular do cervo, da fada verde e do
monstruoso pássaro de fogo e lava.
ESQUEÇA TUDO QUE
APRENDEU
Agora
que você conhece o libreto e a versão da Disney, esqueça tudo. Ouça a música
do seu próprio jeito. Deixe a imaginação voar livremente a partir do
estranho mundo de sons de Stravinsky. Esqueça até mesmo o título, ponha
aves, bruxos e princesas de lado. Concentre-se no início misterioso e
escuro. Acompanhe as longas frases nas cordas graves – que dependendo do seu
subwoofer vão impor ao carro uma vibração baixa, constante e
perturbadora. Deixe a música fluir, hipnótica e lenta. Sinta as madeiras
ameaçando romper a linha das sombras. E seja arrebatado quando os
tweeters cintilarem sob o trêmulo dos violinos, uma vertigem
elíptica, complexa e fantasmagórica. Atravesse dimensões misteriosas, às
vezes impetuosas, selvagens e até mesmo bizarras. Emocione-se com os
momentos de vasta, triste e incontida paixão. Deixe-se imergir nesse
universo musical diferente de tudo que você conhece, criado há quase um
século pela originalidade, coragem e também pelas imperfeições de um rapaz
de 28 anos. Um jovem arrojado, ambicioso, que queria assombrar o mundo – e
que definitivamente conseguiu em 29 de Maio de 1913 com a “A Sagração da
Primavera”.
A SAGRAÇÃO DO
ESCÂNDALO
É costume – como na
gravação recomendada – O Pássaro de Fogo vir acompanhado do balé A
Sagração da Primavera, utilizado por Disney no Fantasia de
1940 para descrever a origem e evolução da Terra. Na verdade o balé retrata
rituais de sedução e sacrifício numa Rússia primitiva e pagã, com ritmos
agressivos, mudanças bruscas de andamento e tonalidade, harmonias estranhas,
arbitrárias e dissonantes. Em sua estréia, A Sagração provocou uma
reação violenta, com espectadores atirando objetos uns contra os outros,
contra os bailarinos e contra a orquestra. A partitura é musicalmente muito
mais importante que a do Pássaro, mas exige algum esforço e paciência
do ouvinte para ser entendida e devidamente apreciada. Não hesite em ouvi-la
com a mesma liberdade sugerida para O Pássaro de Fogo. Esteja onde
estiver, Stravinsky não vai se importar, pois é o autor de uma das
afirmações mais polêmicas e discutidas da história da arte: a de que a
música não pode expressar nada além de música.

GRAVAÇÃO RECOMENDADA
A gravação de Yuri
Simonov com a Royal Philharmonic Orchestra traz a suíte
preparada por Stravinsky em 1945 com os melhores e mais célebres momentos do
balé. O CD é o volume 19 da "Coleção Folha de Música Clássica".
Não é a melhor versão, mas tenho fortes razões para recomendá-la. Simonov
foi extremamente corajoso e original, deixando que a “pulsação” interior da
música determinasse os andamentos. Você vai entender quando ouvir. Embora
mais lento e fantasmagórico, o resultado é fascinante. O CD original foi
gravado em 20 Bits e remasterizado em 32 Bits DSP. Não ouvi na edição da
Folha. Mas pelo precinho, não há razão para hesitar.
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