audições: rachmaninov

01/09/13

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As Garotas que se cuidem
Concerto n. 2 de Rachmaninov

©Ricardo Labuto Gondim
(publicado na revista Som & Carro)

Meu amigo, pare de sofrer: aquela morena linda, saborosa, nutritiva e turbinada agora está ao seu alcance. Você só precisa fazer ela entrar no carro e seguir rigorosamente os três passos deste pequeno manual. Só isso. Deixe o resto por conta do seu tio Sergei Vassilyevich Rachmaninov.

Pronto? Respire fundo, pense positivamente e concentre-se. Imagine que a garota aceitou a carona ou o convite para um passeio inocente. Abra a porta pra ela, dê a partida e ligue o tocador de CD do seu carro. Quando as primeiras notas da gravação recomendada soarem, ela invariavelmente perguntará: “Que música linda é essa?”. Esse é o sinal. Como diria Sherlock Holmes, “o jogo está em andamento, Watson!”.

1. Pronunciando "Rachmaninov"

Supondo que o seu russo esteja tão afiado quanto o seu cingalês arcaico, convém treinar a pronúncia um pouco antes. Você precisa responder à menina no instante exato, sem hesitações: “Esse é o Concerto n. ° 2 para piano e orquestra de – atenção agora – Raquimanínoff.” De modo geral, no ocidente a gente escreve o final do nome com “v”. Mas a grafia e a pronúncia adotadas pela Rachmaninoff Society internacional é com “ff”. Portanto, não hesite: mostre a sua elegância, a sua pronúncia e o seu pedantismo. Repita comigo: Raquimanínoff, com “ventinho” no final.

2. Conte a história da música

Agora você vai demonstrar que por trás dessa sua aparência... Como direi sem chocar? Sem criar traumas? Bem, esqueça essa parte: é hora de demonstrar que você é um camarada sensível, de sentimentos delicados. De maneira casual, conte pra ela a história do Concerto n.° 2.

A música começa com acordes lentos, crescentes e firmes do piano solista, como se emergisse das trevas para a luz. Uma luz melancólica, é verdade, mas consistente. Isso tem uma relação direta com as próprias circunstâncias da composição da obra.

Em 1897, pouco antes de completar 24 anos, Rachmaninov estreou sua primeira Sinfonia, que estava há dois anos na gaveta esperando uma oportunidade. A obra foi vaiada pelo público e triturada pela crítica. Mesmo reconhecendo que o regente, um famoso compositor chamado Glazunov interpretara a peça de modo errado, Rachmaninov entrou numa depressão aguda, sentindo que nunca mais voltaria a compor. Fazendo de tudo para ajudá-lo, seus amigos chegaram ao Dr. Nikolai Dahl, que aplicava métodos baseados em sugestão, auto-sugestão e hipnotismo.

O Dr. Dahl ajudou Rachmaninov, que lhe dedicou a primeira obra que escreveu depois de três anos de depressão e silêncio: o Concerto n.° 2 para piano e orquestra em dó menor, opus 18. O médico fez mesmo um ótimo trabalho, pois até hoje a crítica despreza, contesta e rejeita o conteúdo altamente emocional da música de Rachmaninov – a despeito de todas as belezas que você vai ouvir. Os grandes intérpretes o adoram: a execução de suas obras para piano – especialmente dos seus quatro concertos – é uma das mais difíceis e complexas desde a invenção do instrumento. O Concerto n.° 2, por exemplo, resume todas as dificuldades técnicas possíveis. Só os virtuoses – os verdadeiros mestres – podem tocá-lo.

Ao mencionar a depressão aguda de Rachmaninov experimente levar as costas da mão aos olhos, como se você detivesse uma lágrima. Acredite, sempre funciona. Se quiser dar uma esnobada, explique delicadamente que “opus” é latim e quer dizer “obra”. Opus 18 indica a 18ª. obra do compositor.

3. Fale sobre o compositor

Agora que ela já sabe que você é um homem sensível, é hora de demonstrar erudição. Afinal, se leu o artigo até aqui você está pesquisando, não está? E pra quê? Impressionar garotas, fazer amigos, influenciar pessoas e brilhar em festas e coquetéis? Não! Você quer conquistar algo mais alto que o topo gelado do Everest: quer conquistar o coração gelado daquela morena monumental, que até hoje de manhã não estava nem aí pra você.

Leia o parágrafo abaixo e repita as informações de um modo didático, como se estivesse se esforçando para simplificar conhecimentos vastíssimos. Não esqueça de franzir a testa e estreitar ligeiramente os olhos.

A formação musical de Sergei Vassilyevich Rachmaninov (1783-1943) se deve essencialmente a um dos mais excêntricos e competentes professores russos, Nikolai Zveref, que mantinha os discípulos em sua própria casa num ambiente de elegância, rigidez e austeridade moral. Por motivos nunca esclarecidos, mestre e discípulo brigaram. Rachmaninov foi morar com a tia e a prima Natália Satina, com quem se casou em 1902. Formando-se pelo Conservatório de Moscou, embarcou numa turnê pela Rússia como compositor, pianista e regente. Com a revolução bolchevique de 1917, deixou o país levando a família inteira. Para sustentá-la, dedicou-se à carreira de pianista. Embora as apresentações lhe roubassem tempo para escrever música, é possível que isso não o afetasse muito: Sergei Vassilyevich era famoso pela preguiça. Em 1918 os Rachmaninov se instalaram nos Estados Unidos. Sabe qual foi a primeira coisa que ele fez? Comprou um “automóvel”. Exatamente como você e os demais leitores da SOM & CARRO, Rachmaninov era louco por eles.

Gravação recomendada

Experimente a gravação digital da Deutsche Grammophon (02894596432) com o pianista Krystian Zimerman, o maestro Seiji Ozawa e a Orquestra Sinfônica de Boston. Figurinha fácil, o CD inclui o Concerto n.° 1, uma obra-prima com um andante extraordinário (faixa 2). Ouça, namore e seja feliz.

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Este site foi atualizado em 16/11/06