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As Garotas que se cuidem
Concerto n. 2 de Rachmaninov
©Ricardo Labuto Gondim
(publicado na revista Som & Carro)
Meu amigo, pare de
sofrer: aquela morena linda, saborosa, nutritiva e turbinada agora está ao
seu alcance. Você só precisa fazer ela entrar no carro e seguir
rigorosamente os três passos deste pequeno manual. Só isso. Deixe o resto
por conta do seu tio Sergei Vassilyevich Rachmaninov.
Pronto? Respire fundo,
pense positivamente e concentre-se. Imagine que a garota aceitou a carona ou
o convite para um passeio inocente. Abra a porta pra ela, dê a partida e
ligue o tocador de CD do seu carro. Quando as primeiras notas da gravação
recomendada soarem, ela invariavelmente perguntará: “Que música linda é
essa?”. Esse é o sinal. Como diria Sherlock Holmes, “o jogo está em
andamento, Watson!”.
1. Pronunciando "Rachmaninov"
Supondo que o seu
russo esteja tão afiado quanto o seu cingalês arcaico, convém treinar a
pronúncia um pouco antes. Você precisa responder à menina no instante exato,
sem hesitações: “Esse é o Concerto n. ° 2 para piano e orquestra de –
atenção agora – Raquimanínoff.” De modo geral, no ocidente a gente escreve o
final do nome com “v”. Mas a grafia e a pronúncia adotadas pela Rachmaninoff
Society internacional é com “ff”. Portanto, não hesite: mostre a sua
elegância, a sua pronúncia e o seu pedantismo. Repita comigo: Raquimanínoff,
com “ventinho” no final.
2. Conte a história
da música
Agora você vai
demonstrar que por trás dessa sua aparência... Como direi sem chocar? Sem
criar traumas? Bem, esqueça essa parte: é hora de demonstrar que você é um
camarada sensível, de sentimentos delicados. De maneira casual, conte pra
ela a história do Concerto n.° 2.
A música começa com
acordes lentos, crescentes e firmes do piano solista, como se emergisse das
trevas para a luz. Uma luz melancólica, é verdade, mas consistente. Isso tem
uma relação direta com as próprias circunstâncias da composição da obra.
Em 1897, pouco antes
de completar 24 anos, Rachmaninov estreou sua primeira Sinfonia, que estava
há dois anos na gaveta esperando uma oportunidade. A obra foi vaiada pelo
público e triturada pela crítica. Mesmo reconhecendo que o regente, um
famoso compositor chamado Glazunov interpretara a peça de modo errado,
Rachmaninov entrou numa depressão aguda, sentindo que nunca mais voltaria a
compor. Fazendo de tudo para ajudá-lo, seus amigos chegaram ao Dr. Nikolai
Dahl, que aplicava métodos baseados em sugestão, auto-sugestão e hipnotismo.
O Dr. Dahl ajudou
Rachmaninov, que lhe dedicou a primeira obra que escreveu depois de três
anos de depressão e silêncio: o Concerto n.° 2 para piano e orquestra em dó
menor, opus 18. O médico fez mesmo um ótimo trabalho, pois até hoje a
crítica despreza, contesta e rejeita o conteúdo altamente emocional da
música de Rachmaninov – a despeito de todas as belezas que você vai ouvir.
Os grandes intérpretes o adoram: a execução de suas obras para piano –
especialmente dos seus quatro concertos – é uma das mais difíceis e
complexas desde a invenção do instrumento. O Concerto n.° 2, por exemplo,
resume todas as dificuldades técnicas possíveis. Só os virtuoses – os
verdadeiros mestres – podem tocá-lo.
Ao mencionar a
depressão aguda de Rachmaninov experimente levar as costas da mão aos olhos,
como se você detivesse uma lágrima. Acredite, sempre funciona. Se quiser dar
uma esnobada, explique delicadamente que “opus” é latim e quer dizer “obra”.
Opus 18 indica a 18ª. obra do compositor.
3. Fale sobre o
compositor
Agora que ela já sabe
que você é um homem sensível, é hora de demonstrar erudição. Afinal, se leu
o artigo até aqui você está pesquisando, não está? E pra quê? Impressionar
garotas, fazer amigos, influenciar pessoas e brilhar em festas e coquetéis?
Não! Você quer conquistar algo mais alto que o topo gelado do Everest: quer
conquistar o coração gelado daquela morena monumental, que até hoje de manhã
não estava nem aí pra você.
Leia o parágrafo
abaixo e repita as informações de um modo didático, como se estivesse se
esforçando para simplificar conhecimentos vastíssimos. Não esqueça de
franzir a testa e estreitar ligeiramente os olhos.
A formação musical de
Sergei Vassilyevich Rachmaninov (1783-1943) se deve essencialmente a um dos
mais excêntricos e competentes professores russos, Nikolai Zveref, que
mantinha os discípulos em sua própria casa num ambiente de elegância,
rigidez e austeridade moral. Por motivos nunca esclarecidos, mestre e
discípulo brigaram. Rachmaninov foi morar com a tia e a prima Natália Satina,
com quem se casou em 1902. Formando-se pelo Conservatório de Moscou,
embarcou numa turnê pela Rússia como compositor, pianista e regente. Com a
revolução bolchevique de 1917, deixou o país levando a família inteira. Para
sustentá-la, dedicou-se à carreira de pianista. Embora as apresentações lhe
roubassem tempo para escrever música, é possível que isso não o afetasse
muito: Sergei Vassilyevich era famoso pela preguiça. Em 1918 os Rachmaninov
se instalaram nos Estados Unidos. Sabe qual foi a primeira coisa que ele
fez? Comprou um “automóvel”. Exatamente como você e os demais leitores da
SOM & CARRO, Rachmaninov era louco por eles.
Gravação
recomendada

Experimente a gravação
digital da Deutsche Grammophon (02894596432) com o pianista Krystian
Zimerman, o maestro Seiji Ozawa e a Orquestra Sinfônica de Boston. Figurinha
fácil, o CD inclui o Concerto n.° 1, uma obra-prima com um andante
extraordinário (faixa 2). Ouça, namore e seja feliz. |