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05/09/10

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O Segredo dos Goliardos
Carmina Burana, de Carl Orff

©Ricardo Labuto Gondim

Benediktbeuren

Você está diante do sólido edifício da biblioteca do monastério bávaro de Benediktbeuren. É o ano de 1803, mas sua busca é de um passado mais remoto, eternizado na fragilidade incerta de um códice do século XIII. Um livro considerado herético, supostamente purificado pelo fogo.

O vento dos Alpes é como um lamento nesta noite densa. Mas não tenha medo. Benediktbeuren é um lugar de devoção, de paredes brancas, de abóbadas sucessivas, amplos jardins e alamedas, incontáveis janelas e corredores infinitos.

Supere os sólidos degraus, empurre vigorosamente as portas de carvalho maciço e entre no scriptorium. Atravesse o planalto das escrivaninhas e estantes, penetre os recessos mais profundos da biblioteca, avance entre a poeira e a treva enclausurada em pedra. Vasculhe nas últimas estantes, procure entre nichos tão antigos quanto o monastério.

Ah!, eis um manuscrito cujo pergaminho e a caligrafia trazem as marcas da época. Foi escrito em alto alemão vernacular, com passagens em latim e vestígios de frâncico, o dialeto das tribos germânicas que se arrojaram nos territórios do Império Romano. Uma escrita erudita, com sentenças memoráveis:

Nobilitas hominis mens est, deitatis imago.
(A nobreza do homem é a mente, imagem do divino)

Nobilis est ille quem virtus nibilitavit
(Nobre é quem enobreceu pela virtude.)

Degener est ille quem virtus nulla beavit
(Vil é aquele à quem a nobreza em nada logrou fazer ditoso)

Há mais.

O texto não faz distinção entre o sagrado e o profano. Celebra a liberdade, a plenitude, e principalmente a inconstância da Vida: é a Fortuna – a Sorte – a grande imperatriz do mundo, um signo de realeza, ouro, amor, sexo e juventude.

Existe também uma crítica aguda à severidade opressiva da disciplina eclesiástica medieval, à hipocrisia de certas tradições, e a denúncia da corrupção dos círculos mais altos da Igreja. Ao mesmo tempo, a afirmação de que, mesmo na vida sensual e dissipada das tabernas pode brilhar a chama incontestável da dignidade humana - a virtude que se faz nobre.

OS GOLIARDOS

Sim, você encontrou o Codex latinus monacensis dos Goliardos, uma ordem de irreverentes clérigos errantes, eruditos e anticlericais, que se autoproclamavam descendentes do gigante Golias. Denunciados como hereges, foram perseguidos enquanto suas obras eram lançadas ao fogo.

Felizmente, em 1847, pela autoridade de Johann Andreas Schmeller, um douto especialista em dialetos bávaros, o Codex sobrevivente será traduzido e publicado sob o título “Carmina Burana”(“Canções dos Beurens”, a região do monastério).

Missão cumprida.

Carl Orff

Na primeira metade do século XX, a tradução de Schmeller encontrou um hávido leitor no Professor Carl Orff, um pedagogo alemão nascido em 1895, mais conhecido pelo desenvolvimento de um método para o ensino musical baseado em percurssão do que por seu magro catálogo de composições.

Para Orff, a poesia goliarda era “a celebração do triunfo do espírito humano pelo equilíbrio holístico e sexual”. Selecionando textos entre centenas de poemas e canções, o compositor empreendeu a cantata cênica Carmina Burana para solistas, chorus e orquestra (1937). A obra é a primeira peça de uma trilogia denomindada Trionfi, formada por Catulli Carmina (1943, com textos de Catulo e do próprio Orff) e Triunfo de Afrodite (1952, sobre textos de Catulo, Sapho e Eurípedes).

Orff jamais repetiu o sucesso de Carmina Burana. E nunca se livrou da acusação de ter colaborado com o nazismo, embora o negasse até à morte em 1982.

MATRACA, tam-tam E TAMBORIM

Carmina Burana é um dos hits mais populares da música coral. Do ponto de vista estrutural a obra é relativamente simples. Seu poder expressivo está baseado em súbitas variações de tempo e numa orquestração altamente percussiva: a música não é predominantemente harmônica ou melódica, mas acima de tudo rítmica.

A partitura exige recursos muito além das cordas de praxe:

Vozes - soprano, tenor e barítono solistas; breves solos para outros 3 tenores, barítono e 2 baixos; grande coro misto; coro de meninos.

Madeiras - três flautas, 2 flautins, 3 oboés, corne inglês, 4 clarinetes, clarinete baixo, 2 fagotes, contrafagote.

Metais: 4 trompas, 3 trompetes, 3 trombones e tuba.

Percussão: tímpanos, glockenspiel, xilofone, castanholas, diversos tipos de pequenos sinos, sinos tubulares, diversos tipos de gongos, gongo suspenso, matraca, triângulo, tam-tam, tamborim, diversos tipos de tambores, um grande tambor baixo, celesta e dois pianos.

GRAVAÇÃO RECOMENDADA

Como toda obra de farto colorido instrumental, Carmina Burana não cria grandes dificuldades para regentes e orquestras. Por quê? Porque além de não existirem sutilezas formais a serem expostas, a massa sonora costuma escamotear deslizes nas estantes ou no podium. 

O célebre e ao mesmo tempo subestimado Eugen Jochum não se deixa seduzir pelo exibicionismo latente da partitura, controlando o arsenal vulcânico de Orff com precisão, equilíbrio e - acima de tudo - beleza. As vozes são de altíssimo nível, e os solos do grande barítono Dietrich Fischer-Dieskau permanecem insuperáveis.

Quem gosta de fazer barulho deve recorrer ao ímpeto da versão de James Levine com a Sinfônica de Chicago. Quem prefere mais cor e menos força pode experimentar sem riscos a versão de Seiji Ozawa com a Sinfônica de Boston.

Escolha a sua versão e celebre a Vida, a Criação e o reflexo da divindade que só pode existir no Amor e na Virtude.

CARMINA BURANA
Gundula Janowitz, Gerhard Stolze, Dietrich Fischer-Dieskau
Orchester des Deutschen Opernhauses Berlin
Eugen Jochum
Deutsche Grammophon, 1968
 

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Este site foi atualizado em 07/03/07