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12/01/12

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A Origem da tragédia
VI Sinfonia de Gustav Mahler

©Ricardo Labuto Gondim
(publicado na revista Som & Carro)


Realejos: um dos fantasmas de Mahler.Você tem seis ou sete anos de idade e mora no alto de um edifício sombrio e gasto. Neste exato momento seus pais discutem furiosamente. A coisa vai mal e agora piorou: a mão de seu pai estala no rosto de sua mãe. Você entra em pânico e se atira escada abaixo, sem saber se abriu a porta ou se passou por ela. Os degraus de madeira racham sob os pés, o corredor que dá para a rua surge séculos depois. Atravessando o portão, ao invés de se ver longe dali você se depara com um... realejo: um velho indiferente gira a manivela, contaminando o ar com as notas metálicas e ingênuas da grande caixa de música. Uma melodia mecânica e vulgar, que se mistura ao som irrevogável do tapa e aos clarins da guarnição militar da cidade.

Desculpe o mau jeito, mas escrevi o texto com a firme intenção de fazê-lo experimentar as mesmas sensações do episódio que marcou para sempre a vida e a obra do menino, o compositor Gustav Mahler.

Instante perpétuo

Em suas sinfonias e oratórios gigantescos, Mahler reproduz e recicla interminavelmente o episódio, alternando-se entre cataclismos musicais e cantigas de roda, entre o trágico e o patético, entre o monumental e o vulgar. Essa não é a fantasia de um crítico, mas o diagnóstico de Sigmund Freud com quem Mahler foi buscar tratamento para suas crises neuróticas em 1910. Sobre o paciente, Freud escreveu que “essa súbita conjunção de alta tragédia e divertimento de baixo nível desde então ficaria definitivamente fixada em seu espírito. No futuro, cada um desses sentimentos provocaria invariavelmente o outro”.

O pequeno Gustav.Uma vida entre lápides

Já que você perguntou, a resposta é “não”, as neuroses não foram curadas. Desde o nascimento em 1860 houve sofrimento demais na vida de Mahler: família excessivamente pobre; oito irmãos mortos na infância; uma irmã falecida aos 26 anos vítima de tumor cerebral; um irmão que se matou aos 22; origem judaica discriminada sistematicamente; perda da filha mais velha, Maria, de apenas 4 anos, vítima de escarlatina e difteria. No dia do funeral da menina em 1908, Mahler recebeu o diagnóstico de uma doença cardíaca incurável, que o consumiu até matá-lo aos 50 anos, em 1911.

Gustav Mahler foi o regente mais importante e mais tirânico da transição entre os séculos XIX e XX. Mas ele queria ser lembrado como o compositor de uma música épica, original, majestosa, de furiosa paixão, escrita para uma orquestra monumental. Uma música para esquentar capacitores e desintegrar fusíveis.

Morte e ressurreição

Mengelberg foi um grande divulgador da música de Mahler.Além da alternância entre o trágico e o patético, outros elementos marcam as obras de Mahler, como as fanfarras e marchas militares. Na cidade onde cresceu na Morávia, porção católica do Império Austro-Húngaro, havia uma guarnição permanente do exército, com clarins chamando dia e noite. Nesse ambiente, Mahler começou a experimentar uma das mais antigas tradições européias: o anti-semitismo. Talvez em reação a isso utilizou sistematicamente temas folclóricos judaicos. Embora os oratórios e cantatas sejam uma parte importante da sua obra, Mahler é basicamente um sinfonista. Para experimentar o seu estilo mais emblemático – o das sagas de heroísmo trágico, morte e Ressurreição – ouviremos a Sexta Sinfonia em Lá menor, conhecida justamente como “Trágica”. Por ironia, composta num dos momentos mais tranqüilos de sua vida. Como uma terrível profecia.

Sexta Sinfonia de Mahler

Estruturalmente a Sexta é a sinfonia mais clássica de Mahler. Por incrível que pareça, para os seus padrões a instrumentação também é comportada: violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, um quinteto de cordas, flautim, 4 Flautas, 4 oboés, corne-inglês, 4 clarinetes, clarinete baixo, 4 fagotes, contrafagote, 8 trompas, 6 trompetes, 3 trombones, trombone baixo, tuba, 2 conjuntos de tímpanos, címbalos, 2 tambores, tambor baixo, glockenspiel (espécie de lira de banda marcial montada horizontalmente), 2 ou mais celestas (espécie de glockenspiel com teclado), sinos tubulares, xilofone, triângulo, tam-tam, pratos, caixa clara, tamborim, gongo, 2 harpas, sinos de vaca, um feixe de gravetos batido sobre a borda do tambor baixo e um gigantesco martelo de madeira maciça brandido três vezes no andamento final.

Alma Mahler foi uma das mulheres mais fascinantes de seu tempo.O primeiro movimento começa com uma marcha pesada e obstinada nas cordas graves, em franco desafio à integridade física dos seus woofers. A marcha é entrecortada pela caixa clara e pelos violinos, que desenham o motivo “trágico”. Sempre que este tema principal aparece é seguido por variações de complexidade crescente, formando “sessões” pontuadas por massas de metal e percussão. O motivo apaixonado é o famoso “tema de Alma Mahler”, esposa do compositor.

O início do segundo movimento é semelhante ao primeiro. Segundo Alma, “no scherzo ele pinta as brincadeiras arrítmicas das crianças, a voz delas cujo acento – coisa horrível – revela-se cada vez mais trágico...” Se isso é verdade as crianças deviam estar brincando de soldado, pois a música – muito empolgante – tem caráter marcial. Há mudanças de ânimo ao longo do movimento. E algumas visões de terror.

O terceiro movimento soa como uma valsa triste e sombria – e ainda assim – plena de verdadeira beleza. Uma das páginas mais melódicas do compositor.

O quarto movimento é uma das obras-primas de Mahler: são cerca de 35 minutos de instabilidade melódica, violentíssimas transformações no clima da música, intensa mobilidade sonora e rítmica. Uma batalha colossal marcada pelos três inexoráveis “golpes do destino”, o último deles assinalando a morte do herói e dos seus fusíveis.

Gravação Recomendada

Mahler: Symphony No. 6 [Remastered] [Japan]

Na primeira publicação deste artigo pela revista Som&Carro, ao invés de recomendar uma gravação específica, ofereci uma lista de ousados regentes que enfrentaram a Sexta com beleza e ímpeto: Barbirolli, Bernstein, Michael Gielen, Jansons, Kubelik, Thomas Sanderling, Szell e Antoni Wit. O texto incluía uma advertência: "se o som do carro está bem instalado, o fusível derreterá a tempo. Procure relaxar". Relaxar é última coisa que você conseguirá fazer ao ouvir a VI de Tennstedt. Na opinião deste crítico, ela supera todas as outras - também em impacto sonoro.

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Este site foi atualizado em 31/12/09