













|
|
|

A Origem da tragédia
VI Sinfonia de Gustav Mahler
©Ricardo Labuto Gondim
(publicado na revista Som & Carro)
Você tem seis ou sete anos de idade e mora no alto de um edifício sombrio e
gasto. Neste exato momento seus pais discutem furiosamente. A coisa vai mal
e agora piorou: a mão de seu pai estala no rosto de sua mãe. Você entra em
pânico e se atira escada abaixo, sem saber se abriu a porta ou se passou por
ela. Os degraus de madeira racham sob os pés, o corredor que dá para a rua
surge séculos depois. Atravessando o portão, ao invés de se ver longe dali
você se depara com um... realejo: um velho indiferente gira a manivela,
contaminando o ar com as notas metálicas e ingênuas da grande caixa de
música. Uma melodia mecânica e vulgar, que se mistura ao som irrevogável do
tapa e aos clarins da guarnição militar da cidade.
Desculpe o mau jeito, mas escrevi o texto com a firme intenção de fazê-lo
experimentar as mesmas sensações do episódio que marcou para sempre a vida e
a obra do menino, o compositor Gustav Mahler.
Instante perpétuo
Em suas sinfonias e oratórios gigantescos, Mahler reproduz e recicla
interminavelmente o episódio, alternando-se entre cataclismos musicais e
cantigas de roda, entre o trágico e o patético, entre o monumental e o
vulgar. Essa não é a fantasia de um crítico, mas o diagnóstico de Sigmund
Freud com quem Mahler foi buscar tratamento para suas crises neuróticas em
1910. Sobre o paciente, Freud escreveu que “essa súbita conjunção de alta
tragédia e divertimento de baixo nível desde então ficaria definitivamente
fixada em seu espírito. No futuro, cada um desses sentimentos provocaria
invariavelmente o outro”.
Uma vida entre lápides
Já que você perguntou, a resposta é “não”, as neuroses não foram curadas.
Desde o nascimento em 1860 houve sofrimento demais na vida de Mahler:
família excessivamente pobre; oito irmãos mortos na infância; uma irmã
falecida aos 26 anos vítima de tumor cerebral; um irmão que se matou aos 22;
origem judaica discriminada sistematicamente; perda da filha mais velha,
Maria, de apenas 4 anos, vítima de escarlatina e difteria. No dia do funeral
da menina em 1908, Mahler recebeu o diagnóstico de uma doença cardíaca
incurável, que o consumiu até matá-lo aos 50 anos, em 1911.
Gustav Mahler foi o regente mais importante e mais tirânico da transição
entre os séculos XIX e XX. Mas ele queria ser lembrado como o compositor de
uma música épica, original, majestosa, de furiosa paixão, escrita para uma
orquestra monumental. Uma música para esquentar capacitores e desintegrar
fusíveis.
Morte e ressurreição
Além da alternância entre o trágico e o patético, outros elementos marcam as
obras de Mahler, como as fanfarras e marchas militares. Na cidade onde
cresceu na Morávia, porção católica do Império Austro-Húngaro, havia uma
guarnição permanente do exército, com clarins chamando dia e noite. Nesse
ambiente, Mahler começou a experimentar uma das mais antigas tradições
européias: o anti-semitismo. Talvez em reação a isso utilizou
sistematicamente temas folclóricos judaicos. Embora os oratórios e cantatas
sejam uma parte importante da sua obra, Mahler é basicamente um sinfonista.
Para experimentar o seu estilo mais emblemático – o das sagas de heroísmo
trágico, morte e Ressurreição – ouviremos a Sexta Sinfonia em Lá menor,
conhecida justamente como “Trágica”. Por ironia, composta num dos momentos
mais tranqüilos de sua vida. Como uma terrível profecia.
Sexta Sinfonia de Mahler
Estruturalmente a Sexta é a sinfonia mais clássica de Mahler. Por incrível
que pareça, para os seus padrões a instrumentação também é comportada:
violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, um quinteto de cordas, flautim,
4 Flautas, 4 oboés, corne-inglês, 4 clarinetes, clarinete baixo, 4 fagotes, contrafagote, 8 trompas, 6 trompetes, 3 trombones, trombone baixo, tuba, 2
conjuntos de tímpanos, címbalos, 2 tambores, tambor baixo, glockenspiel
(espécie de lira de banda marcial montada horizontalmente), 2 ou mais
celestas (espécie de glockenspiel com teclado), sinos tubulares, xilofone,
triângulo, tam-tam, pratos, caixa clara, tamborim, gongo, 2 harpas, sinos de
vaca, um feixe de gravetos batido sobre a borda do tambor baixo e um
gigantesco martelo de madeira maciça brandido três vezes no andamento final.
O primeiro movimento começa com uma marcha pesada e obstinada nas cordas
graves, em franco desafio à integridade física dos seus woofers. A marcha é
entrecortada pela caixa clara e pelos violinos, que desenham o motivo
“trágico”. Sempre que este tema principal aparece é seguido por variações de
complexidade crescente, formando “sessões” pontuadas por massas de metal e
percussão. O motivo apaixonado é o famoso “tema de Alma Mahler”, esposa do
compositor.
O início do segundo movimento é semelhante ao primeiro. Segundo Alma, “no
scherzo ele pinta as brincadeiras arrítmicas das crianças, a voz delas cujo
acento – coisa horrível – revela-se cada vez mais trágico...” Se isso é
verdade as crianças deviam estar brincando de soldado, pois a música – muito
empolgante – tem caráter marcial. Há mudanças de ânimo ao longo do
movimento. E algumas visões de terror.
O terceiro movimento soa como uma valsa triste e sombria – e ainda assim –
plena de verdadeira beleza. Uma das páginas mais melódicas do compositor.
O quarto movimento é uma das obras-primas de Mahler: são cerca de 35 minutos
de instabilidade melódica, violentíssimas transformações no clima da música,
intensa mobilidade sonora e rítmica. Uma batalha colossal marcada pelos três
inexoráveis “golpes do destino”, o último deles assinalando a morte do herói
e dos seus fusíveis.
Gravação Recomendada
![Mahler: Symphony No. 6 [Remastered] [Japan]](http://ecx.images-amazon.com/images/I/313WAHE0MDL._SL500_AA170_.jpg)
Na primeira publicação
deste artigo pela revista Som&Carro, ao invés de recomendar uma gravação específica, ofereci uma
lista de ousados regentes que enfrentaram a Sexta com beleza e ímpeto:
Barbirolli, Bernstein, Michael Gielen, Jansons, Kubelik, Thomas
Sanderling, Szell e Antoni Wit. O texto incluía uma advertência: "se o som do carro está bem instalado,
o fusível derreterá a tempo. Procure relaxar". Relaxar é última coisa que
você conseguirá fazer ao ouvir a VI de Tennstedt. Na opinião deste crítico,
ela supera todas as outras - também em impacto sonoro.
|