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Uma Odisséia no Espaço
Suíte "Os Planetas" de Gustav Holst
©Ricardo Labuto Gondim
(Atualização do artigo publicado na revista Som & Carro)
ASTRO SEM BRÍLHO
Não, não há nada de excepcional na vida de Gustav Holst. Ele nasceu em
Cheltenham, Inglaterra, no ano de 1874. Começou a compor ainda na escola
secundária, passou dois meses em Oxford aprendendo contraponto e seguiu para
o Royal College of Music onde estudou composição.
Não, ele não se destacou. Era só mais um aluno “esforçado”, que dividia seu
tempo de estudo entre música e sânscrito, a língua em que foram escritos os
livros sagrados hindus. Como por tradição todo inglês deve desenvolver ao
menos uma excentricidade, durante toda sua vida Holst foi um místico
interessado em ocultismo.
Não, ao terminar o Royal College em 1898 ele não compôs nada que o
tornasse um astro. Tendo que ganhar a vida, este homem que só encontrou o
sucesso vinte anos mais tarde foi tocar trombone na Carl Rose Opera Company,
transferindo-se em seguida para a Ópera Escocesa. Em 1901 casou-se com
Isobel Harrison. Quatro anos depois foi nomeado Diretor de Música da Escola
para Moças Saint Paul, dirigindo o coro e exercendo o sagrado ofício do
magistério até 1934, quando a morte arrebatou o giz da sua mão.
Isso é tudo.
NÃO SEJA UM SUCESSO
Os estudantes podem duvidar, mas como todo professor, Holst trabalhava
demais. Compondo em horários alternativos levou quase três anos para
escrever a suíte Os Planetas, e ainda teve que esperar cerca de dois
anos para ouvi-la. A estréia da suíte – no caso, um conjunto de peças de
andamentos contrastados – aconteceu em 29 de setembro de 1918. Para o
desespero de Holst, um triunfo tão espetacular que eclipsou todas as suas
outras obras. Segundo Imogen, sua filha e biógrafa, ele costumava dizer que
todo artista devia rezar... para não ser um sucesso.
O fato é que sem Os Planetas ninguém jamais teria ouvido falar em
Gustav Holst além do Canal da Mancha. A própria crítica inglesa considerava
seus outros trabalhos excessivamente “cerebrais”, mesmo aqueles baseados
exclusivamente no folclore britânico. Por outro lado, se não se sentisse
traído pelo sucesso da composição, Holst talvez pudesse reconhecer as
virtudes da obra que de certo modo desprezava: modelo de orquestração, a
suíte Os Planetas é um universo ardente, intenso e variado de ritmos,
melodias e timbres. Sem pretensões, uma pequena obra-prima.
OS PLANETAS DE HOLST
Os planetas do sistema solar de Holst têm atributos que combinam mitologia
na forma romana, astrologia e ocultismo. Para expressar o caráter particular
de cada astro ele utilizou uma grande orquestra, experimentando tudo que
aprendeu no Royal College e no fosso da Ópera Escocesa: flauta,
flauta baixo, 2 flautins, 2 oboés, 1 oboé baixo, corne-inglês, 3 clarinetes,
clarone, 3 fagotes, contrafagote, 6 trompas, 4 trompetes, 2 trombones
tenores, trombone baixo, 2 tubas, 6 timbales, triângulo, caixa, tamboril,
pratos, gongo, sinos, glockenspiel, xilofone, celesta, 2 harpas,
órgão, coro feminino e cordas (I e II violinos, violas, violoncelos e
contrabaixos). A obra tem sete movimentos, um para cada planeta. Plutão não
foi incluído porque só foi “descoberto” em 1930. Em 2006, varrendo Plutão do
sistema solar, os astrônomos legitimaram a Suíte.

I. Marte, o Portador da Guerra.
O movimento começa com uma figura rítmica de som peculiar, pois os músicos
batem os arcos contra as cordas ao invés de friccioná-las. Você já ouviu
isso na TV ou no cinema – repita: tá-tá-tá-tá, tá, tá-tá-tá. Sobre essa base
quase permanente entram os trombones alongando as notas. Depois, a massa de
metais e finalmente toda orquestra. Uma carga de sons bélicos e marciais.

II. Vênus, o Portador da Paz.
Em direta oposição a Marte, Vênus é sereno e melódico. Um tema
inicialmente
apresentado por violino solo é respondido e desenvolvido progressivamente
pelas sessões da orquestra: cordas, madeiras, metais em tonalidades que
simulam o som das madeiras e assim por diante, sempre com suavidade.

III. Mercúrio, o Mensageiro Alado.
Holst escamoteia os instrumentos mais pesados de sua grande orquestra para
estabelecer uma sensação permanente de velocidade e leveza, apropriada ao
deus de asas nos pés; um trapaceiro mentiroso que, ironicamente, era o
protetor dos comerciantes, oradores e – ai! – dos escritores.

IV. Júpiter, o Portador da Alegria.
Holst imaginou Júpiter como “uma dessas pessoas sempre bem humoradas,
gordas e joviais que sabem gozar a vida”. Essa idéia é obtida através de
acordes em tom maior de grande colorido orquestral, mas há breves
interlúdios solenes que expressam a majestade do senhor do Olimpo.

V. Saturno, o Portador da Velhice.
A primeira parte descreve obscuramente a misteriosa e inexorável aproximação
da velhice – há uma marcação de tempo permanente, lenta e compassada. Aos
poucos a música ganha um impulso bélico: o brutal Saturno, senhor do tempo e
dos antigos deuses, devorou todos os filhos com exceção de Júpiter, que lhe
tomou o poder. Holst muda a atmosfera de modo sutil, inspirando a idéia de
que é possível envelhecer com dignidade e beleza.

VI. Urano, o Mago.
Uma célula de quatro notas – apresentada por uma fanfarra imponente – é o
fio condutor do movimento. Urano é representado pelos três fagotes em
staccato (com notas “destacadas”) em torno dos quais a orquestra
progressivamente gravita de uma forma agitada e alegre.

VII. Netuno, o Místico.
O misticismo atribuído ao traiçoeiro deus dos mares e dos terremotos deve
ter alguma relação com os interesses ocultistas de Holst. Neste movimento
tudo é imprecisão. A música é quase extática, uma modulação permanente entre
dois acordes ligeiramente dissonantes e distanciados. As melodias se
insinuam, mas não se concretizam. O efeito é fantasmagórico, perturbador.
Este é o único momento da obra em que Holst utiliza o coro feminino, que se
junta à orquestra de modo quase imperceptível. Pouco a pouco os instrumentos
silenciam, e as vozes a capela encerram a obra num diminuendo
prolongado. Há uma impressão qualquer de deslocamento, como se as
relações entre tempo e espaço fossem alteradas. Música impressionante, para
ser apreendida no escuro, em absoluto silêncio. Aceite uma sugestão: dirija
a noite para algum lugar seguro, isolado, com uma paisagem bonita;
estacione, abrace a pessoa que você ama e escute baixinho, concentrando-se
nos acordes nebulosos e etéreos de Holst.
Depois você me agradece.
GRAVAÇÃO RECOMENDADA
Karajan fez a Filarmônica de Berlim tocar Os Planetas numa faixa
dinâmica de 20 dB, transformando a brilhante suíte de Gustav Holst no
espetáculo acrobático de sua grande orquestra. Corte a
equalização para não dar munição ao inimigo: já na abertura, Marte vai
querer destroçar os seus tweeters.
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