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12/01/12

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Estudo revolucionário de Chopin por Witold Markiewicz


Pelas mãos de Nelson Freire
A música de Chopin

©Ricardo Labuto Gondim
Para Orlando Labuto

OPUS 2

Numa tarde ociosa de 1831, o compositor Robert Schumann – um dos nomes mais respeitados da música austro-alemã – distraía-se numa livraria musical de Leipzig quando se deparou com a partitura das “Variações em Si Bemol Maior para Piano e Orquestra sobre o Tema  de 'Là ci darem la mano'”. Como indicado pelo título, alguém escrevera variações sobre uma das árias mais célebres da ópera Don Giovanni, de Mozart.

Três fatos intrigaram Herr Schumann, transformando uma tarde banal num evento histórico. Em primeiro lugar, o nome do compositor das Variações, um tal de Fryderyk Fanciszek Chopin (pronuncie Chopã, sem inclinar-se ao “n”), de quem jamais ouvira falar. Em segundo, o “Opus 2” ao lado do título, indicando que as Variações eram a segunda peça escrita pelo compositor. Em terceiro e mais importante: como alguém inexperiente tivera o atrevimento de escrever variações sobre uma obra considerada perfeita e por isso mesmo intocável?

Schumann (sobre quem você pode ler mais aqui) comprou a partitura e nos dois meses seguintes foi hipnotizado por ela. Descobriu que sua execução exigia técnica e conhecimento pianístico em alto nível, e que o resultado era a síntese perfeita da obra de Mozart. Fosse quem fosse o misterioso Chopin, Schumann o identificou como a personificação do compositor romântico ideal. Entusiasmado, publicou o artigo chamado “Um Opus 2”, onde lapidou a célebre frase: “descobri-vos, senhores, eis aqui um gênio!”.

um polonês em paris

Mais de 150 anos depois, o que Schumann ignorava pode ser resumido em poucas linhas: Chopin nasceu na Polônia em 1810, filho de um francês que chegou ao país aos 16 anos casando mais tarde com a criada de uma nobre família.

Varsóvia, como no tempo de ChopinNa idade em que os homens são ainda meninos, Chopin já era um gênio freqüentando os salões mais aristocráticos da Polônia como convidado de honra. Apesar da ascendência paterna e de ter passado metade da vida na França, Fryderyk foi educado como polonês – e como polonês conquistou Paris. Embora o seu conservadorismo político o mantivesse a margem dos debates do seu tempo, jamais renunciou à condição de refugiado, sendo impedido de voltar à Polônia quando Varsóvia caiu sob o poder dos russos. 

A obra de Chopin tem forte caráter nacionalista, impregnada pelo folclore das zonas rurais, pelas danças populares e gêneros de ascendência eslava e centro-europeu. Como seu pai foi professor de literatura francesa e diretor de um pensionato freqüentado pelos filhos da alta burguesia, ele também cresceu cercado por estímulos culturais cosmopolitas, que despertaram seu interesse pelas artes clássicas.

Amor e morte

Em 1837 o compositor conheceu uma artista extraordinária e excêntrica chamada Aurore Dudevant, que se vestia como homem e assinava sua obra literária com o pseudônimo masculino de George Sand. Com personalidade relativamente mais forte que seu companheiro, George Sand protegeu-o, amparou-o e mimou-o como um filho, desempenhando ao mesmo tempo os papéis de amante, mãe e – num certo sentido – de figura referencial masculina. O estranho e profundo romance durou oito anos, os mais fecundos na vida de Chopin. Infelizmente, os entraves entre o casal e os filhos do primeiro casamento de Sand contaminaram o relacionamento, levando a uma separação definitiva em julho de 1847.

Em 17 de outubro de 1849 Chopin faleceu aos 39 anos, devastado pela solidão e pela tuberculose. Uma morte anunciada por muitos anos de agonia, falsas esperanças e dor.

OBRA AMEAÇADA PELOS INTÉRPRETES

Os maiores inimigos da obra de Chopin foram os intérpretes. Durante décadas eles não enxergaram nesta vasta obra – constituída especialmente de peças breves – nada além de melodias brilhantes, ritmos dançantes e oportunidades para a exibição de malabarismos virtuosísticos. Contudo, em toda sua carreira Chopin não deu mais que trinta concertos públicos. Introspectivo na vida e na arte, era um pianista de som “pequeno”, discreto e inadequado para as grandes salas de concerto, preferindo muito mais a intimidade dos salões da aristocracia. Esse dado histórico, claro indício de que o compositor se concentrava mais no caráter íntimo das obras do que no brilho da superfície produziu um efeito inverso: por muitos anos Chopin foi tido como compositor de “música de salão”.

NELSON FREIRE

Estudando esta herança como Schumann fez com as “Variações em Si Bemol Maior”, os grandes intérpretes desvendaram um compositor de estruturas vigorosas, intrincadas, complexas, que somente o tríplice equilíbrio entre emoção, razão e técnica poderia revelar. O primeiro grande nome a renovar a obra foi Rachmaninov, que tocava Chopin melhor que sua própria música. Depois vieram pianistas geniais como Alfred Cortot e o intérprete supremo, o também polonês Arthur Rubinstein, que estabeleceu uma referência absoluta para a abordagem da obra de Fryderyk Fanciszek Chopin.

Entre os mestres do nosso tempo é obrigatório citar o brasileiro Nelson Freire, tema do emocionante documentário de João Moreira Salles disponível em DVD – e da gravação altamente recomendada pelo logos eletrônico. A abordagem de Nelson Freire nasce de uma compreensão do caráter chopiniano forjada pela fusão entre o intuitivo, o racional e uma emoção profunda e controlada. Você vai ouvir a clareza estrutural, o vigor e a beleza de som que tornaram Nelson Freire um dos maiores pianistas do mundo. 

GRAVAÇÃO RECOMENDADA

O CD Chopin – Nelson Freire pode ser adquirido pelo site CDCclassic por uma bagatela. A gravação digital é ótima, o repertório é amplo e eclético, e o texto do produtor Lauro Henrique Alves Pinto é minucioso. Quero destacar as faixas 1 (Fantasia Improviso n.° 4 Op. 66) e 5 (Polonaise n.° 6 Op. 53). Serão momentos inesquecíveis na história de amor entre você e o piano de dois mestres.
 

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Este site foi atualizado em 25/12/06