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05/09/10

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O Terceiro B
Concerto para violino de Brahms
 

©Ricardo Labuto Gondim


O MAL-HUMOR DE HERR BRAHMS

Para os que não o conheciam intimamente, o senhor Johannes Brahms (Iôrrãnes Brâms) era um homem feroz. Quando alguém observou que o movimento final da sua Primeira Sinfonia era “parecido” com o da IX de Beethoven, ele não hesitou: “Qualquer burro pode ver isso”. Quando o compositor Max Bruch terminou a apresentação do seu próprio concerto para violino, as únicas palavras que ouviu de Brahms foram: “Onde você compra o seu papel de música? É de primeira qualidade!”. Certa vez, ele abandonou um salão de jantar dizendo: “Se existe alguém a quem eu tenha esquecido de ofender, queira aceitar minhas desculpas”.

Ao que consta, a pergunta era totalmente desnecessária.

O Revolucionário conservador

O cortiço onde Brahms nasceuFilho do trompista da Guarda Municipal e de uma costureira, Brahms nasceu na cidade alemã de Hamburgo em 1833. Aos 20 anos, com duas composições para piano debaixo do braço, foi recebido em Weimar por Franz Liszt, um dos maiores concertistas de todos os tempos, íntimo amigo de Richard Wagner e defensor da música revolucionária. Num salão repleto de bajuladores e ostensivas riquezas, Liszt tocou as obras do jovem compositor a primeira leitura de modo assombroso, como se as estudasse há anos. Chamou a música de “revolucionária”, coisa que definitivamente não era – aliás, a vida inteira Brahms foi chamado de reacionário, o que também não é exatamente verdade. Seja como for, o julgamento leviano e a atmosfera de sofisticação puseram o retraído e sempre sincero Brahms em guarda contra Liszt, que executou sua obra mais recente, a interminável Sonata em si menor. Brahms dormiu, foi delicadamente acordado, despediu-se e nunca mais voltou.

Vício e virtude

Pouco depois, o rapaz foi recebido em Düsseldorf pelo compositor Robert Schumann, cuja vida e sanidade estavam com os dias contados. Brahms identificou-se imediatamente com a sincera recepção de Schumann, que mandou chamar a esposa para ouvir a excelente música do jovem visitante.

Clara SchumannQuando Clara Schumann entrou na sala, Brahms conheceu a mulher da sua vida. As relações entre eles formam o romance mais misterioso da história da música, embora biógrafos excessivamente românticos insistam em dizer que esse amor jamais se consumou. O fato é que a discreta, íntima e nebulosa ligação durou até a morte de Clara em 1896. A tragédia de Schumann – que afundou num caso raro e pouco documentado de múltipla personalidade, morrendo tragicamente menos de três anos depois daquele encontro – aproximou os dois.

Discutindo o caso, biógrafos sublinham as dificuldades de Brahms no relacionamento com mulheres. Observam que, nascido numa família muito pobre, ele foi pianista numa espécie de bordel quando ainda estava entrando na puberdade. Ou seja, teve seu primeiro contato com o universo feminino – fora daquele representado pela mãe – num cenário de decadência e exploração sexual. Considerando a sociedade puritana e altamente ritualizada do seu tempo, a experiência pode ter arranhado a imagem que Brahms fazia das mulheres. Em sua maturidade ele diria: “Infelizmente nunca me casei. Mas graças a Deus continuo solteiro”.

O Terceiro B

Robert Schumann Pouco depois da visita, Robert Schumann publicou na imprensa um famoso artigo chamado “Novos Caminhos”, onde – numa linguagem rebuscada, bem ao gosto da época – profetizou o futuro brilhante de Brahms. Os ouvidos e esperanças dos que se opunham à música revolucionária de Wagner, Liszt e seus partidários se voltaram para o jovem compositor. Em 1863, aos 30 anos, ele se mudou para Viena. Em 1868 já era um nome conhecido em praticamente toda Europa, e pouco a pouco o mundo da música de tradição austro-alemã se polarizou entre ele e Wagner. Em 1897 – meses depois da morte de Clara – Brahms também deixou este mundo, consagrado como um dos três “B” da música alemã ao lado de Bach e Beethoven (para conhecê-los, clique nos links).

Cumpriu-se a profecia de Schumann.   

Concerto em ré maior para violino e orquestra, opus 77

Johannes BrahmsO Concerto para violino de Brahms foi escrito sob o olhar atento de um dos seus mais íntimos amigos, o célebre violinista Joseph Joachim. Brahms chegou a dizer que a composição de um concerto para violino deveria ter sido confiada “a alguém que entendesse mais de rabecas do que eu”.

Joachim cuidou para que as partes mais difíceis fossem “executáveis”. Isso não limitou ousadias como as que obrigam o solista a atacar três cordas ao mesmo tempo num dos concertos mais difíceis e originais do repertório romântico. Uma obra digna de estar ao lado do Concerto para violino de Beethoven, carinhosamente chamado de “Concerto contra o violino”.

O primeiro movimento é um tour de force. Uma introdução de caráter pastoral é entrecortada por uma massa de sons nas cordas que elevam a música a uma esfera ardente e arrebatadora. Há uma distensão seguida por uma passagem breve e complexa. O violino solista irrompe com fúria, oscilando entre o ímpeto e a melancolia romântica ao longo de todo o movimento.

Antes da conclusão acontece a tradicional “cadenza”: a orquestra pára num ponto da partitura para que o músico exiba a sua técnica de modo radical, improvisando a partir dos temas principais do movimento. Este é o último concerto romântico a permitir essa improvisação.

O segundo movimento é lento e lírico, revelando mais sobre o caráter de Brahms do que ele teria desejado exibir. O fato é que a música e seu espírito acabaram impondo-se por si mesmos. Como todos os movimentos lentos das obras orquestrais de Brahms, este também é uma obra-prima.

O terceiro movimento é veloz e dançante. Há passagens flamejantes e selvagens, de tremenda dificuldade técnica sob uma aparência ligeira e rústica. Um dos momentos mais empolgantes da obra.

GRAVAÇÃO RECOMENDADA

Experimente a versão de Anne-Sophie Mutter com Filarmônica de Berlim e Hebert von Karajan. Lançada com diversas capas a gravação é única. Se quiser experimentar uma alternativa mais barata, não se acanhe. Existem versões excelentes: somente os violinistas verdadeiramente grandes ousam tocar este concerto desafiante e maravilhoso.
 

 

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Este site foi atualizado em 29/11/06