audições: berlioz

05/09/10

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Paixão e Terror
Sinfonia Fantástica, de Hector Berlioz

©Ricardo Labuto Gondim
 

PAIXÕES

Como tudo na vida, os eventos que desesperaram Louis Hector Berlioz começaram de modo banal. Foi em 1827, na noite de estréia de mais uma companhia teatral inglesa em Paris. Berlioz tinha 24 anos e estava sentado na platéia do Teatro Odéon. Enquanto as cortinas permaneceram fechadas, ele se manteve na completa ignorância de que aquela era a noite fundamental da sua vida – o primeiro elo numa cadeia de causas e efeitos que culminaram na sua obra-prima.

Quando as cortinas se abriram, o jovem culto e sensível foi arrebatado por duas paixões: a fascinação pela grandeza mitológica do maior escritor de todos os tempos, William Shakespeare; e o súbito amor pela atriz irlandesa Harriet Smithson.

DEVANEIOS

A paixão por Shakespeare foi consumada na livraria da esquina. Já a paixão por Harriet se mostrou mais complicada. Berlioz afundou num estado miserável de esgotamento nervoso, esmagado por aquela dor que a gente começa a sentir lá pela 5a. série  (se você ainda não passou por isso, decididamente não vai entender este artigo). O rapaz vagava pelas ruas e pelos campos nos arredores de Paris até cair exausto, sugado pela dimensão abismal dos pesadelos – um universo de visões macabras, velado pela sombra inatingível da beldade irlandesa.

O MUNDO ASSOMBRADO POR DEMÔNIOS

As tentativas de Berlioz para conquistar sua musa foram tão desesperadas que assustaram a garota ao invés de atraí-la. Como enfrentar a rejeição num estado próximo da demência?

A geração anterior a Berlioz recorria ao suicídio, moda inaugurada em 1784 pela publicação de Werther, romance do alemão Johann Wolfgang von Goethe. Neste livro minuciosamente tedioso, o jovem Werther se mata com um tiro de pistola ao ser desprezado pela bela Charlotte. Sem querer, Goethe desencadeou uma epidemia de suicídios que se alastrou por toda a Europa. A ironia é que foi justamente a sua obra-prima que levou Berlioz a trocar o silêncio perpétuo da morte por uma música grandiosa.

Com base no Fausto de Goethe – e influenciado por Shakespeare, Byron e pelas sinfonias de Beethoven – Berlioz compôs uma sinfonia em cinco movimentos descrevendo os delírios de uma paixão que, para muitos, foi doentia – mas para outros, verdadeira. Uma obra que rompeu com todos os limites da forma sinfônica para exorcizar os fantasmas e demônios que o atormentavam.

SINFONIA FANTÁSTICA

Completada em 1830, a “Sinfonia Fantástica, Episódio da vida de um artista” introduz uma célebre inovação, a “Idéia Fixa”: um longo tema melódico que representa o amor do protagonista – e que se transforma de acordo com o contexto de cada um dos cinco movimentos. Como Berlioz é um dos maiores orquestradores da história da música, as transformações da Idéia Fixa foram aperfeiçoadas por uma instrumentação sofisticada, que combina os sons da orquestra em contrastes inéditos. Certos timbres são tão sutis que você só poderá diferenciá-los se num sistema de áudio com boa resposta em todas as freqüências – o desafio do mês do logos eletrônico.

Conheça o programa da sinfonia do delírio e da morte:

I. Devaneios e Paixões. No início lento e nebuloso, o jovem músico sonha com a mulher ideal... que subitamente aparece diante dele: ela existe! A paixão que o arrebata toma forma na Idéia Fixa, que oscila  progressivamente entre a melancolia sonhadora e os impulsos mais intensos do delírio e do ciúme – passando por uma alegria breve e injustificável, por momentos de ternura e lágrimas... impossível descrever. Ouvindo, você vai ter a nítida visão da dissolução emocional de Berlioz, que afundou num vórtice de beleza e dor.

II. Um Baile. Uma introdução espetacular nos contrabaixos culmina na intervenção luminosa das harpas, que nos levam para um baile em algum lugar fora deste mundo. Durante a valsa que domina o movimento, a amada se deixa conduzir de mão em mão para escapar do Artista e atormentá-lo.  

III. Cena Campestre. Em busca de alento, o Artista vai ao encontro da Natureza. Inspirado na Sinfonia Pastoral de Beethoven, o movimento tem um caráter estático que anuncia os longos adágios de Gustav Mahler. Em dado momento a ausência da amada perturba o Artista. O que ela faz agora? Pensa nele ou está à mercê da sedução de incontáveis pretendentes? Essa mistura de esperança e temor – paz breve e frágil, manchada por sentimentos obscuros – forma o contexto melancólico da Cena Campestre.

IV. Marcha ao Suplício. Convicto de que seu amor não será correspondido, o Artista recusa a realidade e foge para a droga do seu tempo, o ópio. Mergulhando num transe de horrendas visões, sonha que matou a amada, foi condenado à morte e agora caminha para o cadafalso – onde será decapitado pela percussão. É extraordinário o modo como Berlioz utiliza violoncelos e contrabaixos para estabelecer o caráter marcial deste movimento carregado de metais.

V. Sonho de uma noite de Sabá. Em seu funeral, a alma condenada do Artista é invocada numa Missa Negra. O espírito agora errante mistura-se às feiticeiras e entidades sobrenaturais. A variação da Idéia Fixa não deixa dúvida: o espírito da Amada assassinada paira sobre o Sabá, testemunhando e delirando com o seu sofrimento. Para forjar a visão de um inferno particular, Berlioz utiliza todos os instrumentos que reuniu em sua grande orquestra – e outros, que guardou para o final. Depois da introdução sombria e bizarra, o tema implacável nos baixos de tuba – o Dies Irae – soará familiar: é a música da abertura de O Iluminado, o filme de Stanley Kubrick. A Sinfonia termina com a “dança da morte”.

O QUE ACONTECEU A BERLIOZ?

Cuidado com o que deseja, pois você pode conseguir: três anos depois da estréia da Sinfonia Fantástica, o compositor finalmente conquistou a mão de Harriet. A única alegria que ela lhe deu foi seu filho, Louis. Com saúde frágil, mau gênio e nervos a flor da pele, a pobre mulher transformou a vida de Berlioz num inferno. Ele a abandonou em 1840, unindo-se em 1842 a Maria Recio, uma obscura cantora espanhola. Por volta de 1848 Harriet teve um ataque de apoplexia e ficou paralítica, morrendo em 1854. Berlioz se casou com Maria, que morreu em 1862.

Tentando extinguir uma solidão incômoda e permanente, voltou-se – sem sucesso – para Estelle Dubouef, oito anos mais velha e primeiro amor da sua adolescência. Em junho de 1867 foi dilacerado pela morte do filho. Em 8 de março de 1869, seu coração insaciado finalmente descansou. Sua obra foi praticamente esquecida, sendo resgatada a partir da celebração do centenário em 1969. Hoje, os grandes músicos da nossa época consideram Berlioz um gênio muito à frente do seu tempo.

GRAVAÇÃO RECOMENDADA

Existem dezenas de gravações excelentes da Sinfonia Fantástica. Um de seus grandes intérpretes foi Charles Munch, que gravou a obra pelo menos cinco vezes - se considerarmos o registro em filme disponível em DVD. A versão mais célebre é a de 1963 pelo selo Living Stereo da RCA. Mas todas são notáveis, pegue a que estiver mais perto. 

 

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Este site foi atualizado em 29/11/06