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Paixão e Terror
Sinfonia Fantástica, de Hector Berlioz
©Ricardo Labuto Gondim
PAIXÕES
Como tudo na vida, os
eventos que desesperaram Louis Hector Berlioz começaram de modo banal. Foi
em 1827, na noite de estréia
de mais uma companhia teatral inglesa em Paris. Berlioz tinha 24 anos e
estava sentado na platéia do Teatro Odéon. Enquanto as cortinas permaneceram
fechadas, ele se manteve na completa ignorância de que aquela era a noite
fundamental da sua vida – o primeiro elo numa cadeia de causas e efeitos que
culminaram na sua obra-prima.
Quando as cortinas se
abriram, o jovem culto e sensível foi arrebatado por duas paixões: a
fascinação pela grandeza mitológica do maior escritor de todos os tempos,
William Shakespeare; e o súbito amor pela atriz irlandesa Harriet Smithson.
DEVANEIOS
A paixão por Shakespeare foi
consumada na livraria da esquina. Já a paixão por Harriet se mostrou mais
complicada. Berlioz afundou num estado miserável de esgotamento nervoso,
esmagado por aquela dor que a gente começa a sentir lá pela 5a. série (se
você ainda não passou por isso, decididamente não vai entender este artigo).
O rapaz vagava pelas ruas e pelos campos nos arredores de Paris até cair
exausto, sugado pela dimensão abismal dos pesadelos – um universo de visões
macabras, velado pela sombra inatingível da beldade irlandesa.
O
MUNDO ASSOMBRADO POR DEMÔNIOS
As tentativas de
Berlioz para conquistar sua musa foram tão desesperadas que assustaram a
garota ao invés de atraí-la. Como enfrentar a rejeição num estado próximo da
demência?
A geração anterior a Berlioz
recorria ao suicídio, moda inaugurada em 1784 pela publicação de Werther,
romance do alemão Johann Wolfgang von Goethe. Neste livro minuciosamente
tedioso, o jovem Werther se mata com um tiro de pistola ao ser desprezado
pela bela Charlotte. Sem querer, Goethe desencadeou uma epidemia de
suicídios que se alastrou por toda a Europa. A ironia é que foi justamente a
sua obra-prima que levou Berlioz a trocar o silêncio perpétuo da morte por
uma música grandiosa.
Com base no Fausto
de Goethe – e influenciado por Shakespeare, Byron e pelas sinfonias de
Beethoven – Berlioz compôs uma sinfonia em cinco movimentos descrevendo os
delírios de uma paixão que, para muitos, foi doentia – mas para outros,
verdadeira. Uma obra que rompeu com todos os limites da forma sinfônica para
exorcizar os fantasmas e demônios que o atormentavam.
SINFONIA FANTÁSTICA
Completada em 1830, a “Sinfonia
Fantástica, Episódio da vida de um artista” introduz uma célebre
inovação, a “Idéia Fixa”: um longo tema melódico que representa o amor do
protagonista – e que se transforma de acordo com o contexto de cada um dos
cinco movimentos. Como Berlioz é um dos maiores orquestradores da história
da música, as transformações da Idéia Fixa foram aperfeiçoadas por uma
instrumentação sofisticada, que combina os sons da orquestra em contrastes
inéditos. Certos timbres são tão sutis que você só poderá diferenciá-los se
num sistema de áudio com boa resposta em todas as freqüências – o desafio do
mês do logos eletrônico.
Conheça o programa da
sinfonia do delírio e da morte:
I. Devaneios e
Paixões.
No início lento e nebuloso, o jovem músico sonha com a mulher
ideal... que subitamente aparece diante dele: ela existe! A paixão que o
arrebata toma forma na Idéia Fixa, que oscila progressivamente entre a
melancolia sonhadora e os impulsos mais intensos do delírio e do ciúme –
passando por uma alegria breve e injustificável, por momentos de ternura e
lágrimas... impossível descrever. Ouvindo, você vai ter a nítida visão da
dissolução emocional de Berlioz, que afundou num vórtice de beleza e dor.
II. Um Baile.
Uma
introdução espetacular nos contrabaixos culmina na intervenção luminosa das
harpas, que nos levam para um baile em algum lugar fora deste mundo. Durante
a valsa que domina o movimento, a amada se deixa conduzir de mão em mão para
escapar do Artista e atormentá-lo.
III. Cena Campestre.
Em busca de alento, o Artista vai ao encontro da Natureza. Inspirado na
Sinfonia Pastoral de Beethoven, o movimento tem um caráter estático que
anuncia os longos adágios de Gustav Mahler. Em dado momento a ausência da
amada perturba o Artista. O que ela faz agora? Pensa nele ou está à mercê da
sedução de incontáveis pretendentes? Essa mistura de esperança e temor – paz
breve e frágil, manchada por sentimentos obscuros – forma o contexto
melancólico da Cena Campestre.
IV. Marcha ao Suplício.
Convicto de que seu amor não será correspondido, o Artista recusa a
realidade e foge para a droga do seu tempo, o ópio. Mergulhando num transe
de horrendas visões, sonha que matou a amada, foi condenado à morte e agora
caminha para o cadafalso – onde será decapitado pela percussão. É
extraordinário o modo como Berlioz utiliza violoncelos e contrabaixos para
estabelecer o caráter marcial deste movimento carregado de metais.
V. Sonho de uma noite de Sabá. Em seu funeral, a alma condenada do
Artista é invocada numa Missa Negra. O espírito agora errante mistura-se às
feiticeiras e entidades sobrenaturais. A variação da Idéia Fixa não deixa
dúvida: o espírito da Amada assassinada paira sobre o Sabá, testemunhando e
delirando com o seu sofrimento. Para forjar a visão de um inferno particular, Berlioz utiliza todos os instrumentos que reuniu em sua grande orquestra – e
outros, que guardou para o final. Depois da introdução sombria e bizarra, o
tema implacável nos baixos de tuba – o Dies Irae – soará familiar: é
a música da abertura de O Iluminado, o filme de Stanley Kubrick. A
Sinfonia termina com a “dança da morte”.
O QUE
ACONTECEU A BERLIOZ?
Cuidado com o que deseja, pois
você pode conseguir: três anos depois da estréia da Sinfonia Fantástica, o
compositor finalmente conquistou a mão de Harriet. A única alegria que ela
lhe deu foi seu filho, Louis. Com saúde frágil, mau gênio e nervos a flor da
pele, a pobre mulher transformou a vida de Berlioz num inferno. Ele a
abandonou em 1840, unindo-se em 1842 a Maria Recio, uma obscura cantora
espanhola. Por volta de 1848 Harriet teve um ataque de apoplexia e ficou
paralítica, morrendo em 1854. Berlioz se casou com Maria, que morreu em
1862.
Tentando extinguir uma solidão
incômoda e permanente, voltou-se – sem sucesso – para Estelle Dubouef, oito anos mais
velha e primeiro amor da sua adolescência. Em junho de 1867 foi dilacerado
pela morte do filho. Em 8 de março de 1869, seu coração insaciado finalmente
descansou. Sua obra foi praticamente esquecida, sendo resgatada a partir da
celebração do centenário em 1969. Hoje, os grandes músicos da nossa
época consideram Berlioz um gênio muito à frente do seu tempo.
GRAVAÇÃO RECOMENDADA
Existem dezenas de
gravações excelentes da Sinfonia Fantástica. Um de seus grandes intérpretes
foi Charles Munch, que gravou a obra pelo menos cinco vezes - se
considerarmos o registro em filme disponível em DVD. A versão mais célebre é
a de 1963 pelo selo Living Stereo da RCA. Mas todas são notáveis,
pegue a que estiver mais perto.

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