audições: bach

05/09/10

Home
audições: berg
audições: orff
audições: wagner
audições: chopin
audições: rimsky-korsakov
audições: brahms
audições: beethoven
audições: berlioz
audições: Holst
audições: bach
audições: stravinsky
audições: mahler
audições: tchaikovsky
audições: rachmaninov

 

 


O Gênio da Música.


Geometria do Sentimento
Toccata e Fuga em ré menor de Bach

©Ricardo Labuto Gondim
(publicado na revista Som & Carro em fevereiro de 2005)

 

A MATEMÁTICA DA BELEZA

As obras de Johann Sebastian Bach (Iôrran Sebastian Bar) têm um desenvolvimento tão complexo e lógico que existe a tendência de esvaziá-las de qualquer emoção ou sentimento, apresentando-as como “música pura” – expressão de idéias estritamente musicais, que tenderiam mais à matemática do que à própria arte. Suas estruturas são tão coerentes e rigorosas que foi possível desenvolver um software capaz de imitar o seu modo de compor. Para gerar uma partitura para teclado de apenas quatro minutos, um mainframe processou cerca de três bilhões de operações.

Contudo, a paixão que Bach despertou em seus maiores intérpretes é o indício de que essa fria suposição pode estar errada. O caso mais impressionante é o de Albert Schweitzer (1875-1965).

Schweitzer: a humanidade como profissão.Teólogo de reputação internacional, filósofo, escritor, antropólogo, explorador e médico, Schweitzer foi um grande humanista. Conquistando o Nobel da Paz de 1952, aplicou os US$ 33.000,00 do Prêmio na construção de um leprosário no Lambaréné, África francesa, onde já havia erguido um hospital com o dinheiro dos seus concorridos concertos: além de biógrafo do compositor, Schweitzer foi o maior intérprete de órgão de Bach na primeira metade do século XX. Um músico tão completo que em 1909 apresentou suas próprias teorias para a construção do instrumento num congresso internacional em Viena.

No prefácio da versão alemã de 1908 da biografia de Bach escrita por Schweitzer, o lendário compositor e organista Charles-Marie Widor explicou que foi seu genial discípulo quem lhe desvendou o significado oculto dos Prelúdios Corais. Schweitzer demonstrou ao mestre que tais peças tão alardeadas como exemplo de música pura... são baseadas em poemas alemães.

UMA VIDA SIMPLES

Por trás de Johann Sebastian Bach se erguem 22 fantasmas, o número dos seus antepassados que também foram compositores e intérpretes. Ele nasceu no leste da Alemanha em 1685 com a música nos genes. Ainda menino começou a estudar canto, órgão e violino. Aos 9 anos perdeu a mãe. Aos 10, o pai. Foi criado afetuosamente por Cristoph, o irmão mais velho que era organista. Aos 18, com sua própria reputação estabelecida, Bach assumiu o órgão da Nova Igreja da cidade de Arnstad.

A  Alemanha do tempo de Bach.Naquele tempo, o grande nome do instrumento era Dietrich Buxtehude. Alguns anos depois de empossado, Bach obteve uma licença de quatro semanas para estudar com o mestre. A viagem durou quatro meses. Voltou completamente mudado, com idéias e práticas tão arrojadas que teve de procurar outro emprego. Rapidamente contratado para Mühlhausen, em 1707 casou com sua prima distante, Maria Bárbara, transferindo-se para a corte de Weimar. Por quase dez anos trabalhou como compositor, organista e violinista em conflito permanente com o príncipe local, que podia se mostrar tão difícil quanto ele.

Trocando Weimar por Köthen, encontrou uma personalidade musical profunda no príncipe Leopold von Anhalt-Köthen. Como a austeridade calvinista local o impedia de compor música religiosa, o fervoroso luterano Bach começou a explorar novas formas, tonalidades e harmonias, escrevendo os Concertos de Brandenburgo, incontáveis peças de câmara, as suítes para orquestra e o Cravo Bem-Temperado. Sua música para órgão levou a escola alemã à máxima grandeza.

A  Alemanha do tempo de Bach.Bach enterrou a esposa em Köthen, casando-se pouco depois com Maria Magdalena, uma cantora da corte e sua primeira biógrafa. Em 1723 conquistou o cargo de Kantor (professor e diretor musical) na Igreja de São Tomás de Leipizig, onde compôs suas obras religiosas mais célebres: a Paixão Segundo São Mateus, a Paixão Segundo São João e a Missa em Si Menor.

Bach ficou cego em 1750. Desesperado, tentou duas operações com um famoso cirurgião inglês chamado John Taylor, que lhe minou a saúde e o levou à morte naquele mesmo ano. Homem de intensa devoção religiosa, em seu leito de morte ditou o coral “Perante o Teu trono me apresento”.

UM GÊNIO COMO QUALQUER OUTRO

A escrita de Bach: precisa e simétrica.Johann Sebastian Bach foi um compositor de grande capacidade de trabalho, chegando a escrever uma cantata por semana. Organizando as bases da música ocidental, estabeleceu normas permanentes. É conhecido não só como o “Gênio do Barroco” mas também como o “Gênio da Música”. Ainda assim teve uma vida simples, doméstica, devotada a Deus, à família e à música. Foi um autêntico “profissional”, que acreditava tanto no trabalho quanto na inspiração.

Agora você pode tirar suas próprias conclusões sobre lógica, emoção e sentimento numa das obras mais grandiosas de Bach para o instrumento mais grandioso, o órgão que o consagrou: a Som & Carro convida você a transformar sua máquina na majestosa nave de uma catedral barroca.

TOCCATA E FUGA EM RÉ MENOR BWV 565

Bach e Schweitzer: devoção. Esta é a mais famosa peça de Bach para órgão. A soberba introdução original de sete notas é uma das mais célebres de todos os tempos, abrindo o desenho de longa-metragem “Fantasia” de 1940 num arranjo para orquestra de Leopold Stokowski.

Seria impossível explicar essa música nos limites deste artigo. Vale a pena mencionar que o termo “toccata” indica uma peça virtuosística, geralmente escrita para teclado onde as técnicas de execução, improvisação e o próprio instrumento atingem seus limites. Sim, eu disse “improvisação”, embora muito pouca gente tenha coragem de acrescentar o que quer que seja à complexa geometria da partitura original, com exceção dos ornamentos que a tradição incorporou aos primeiros acordes.

Fuga” é a mais alta manifestação técnica do contraponto. Ela se baseia num tema (ou sujeito) que é imitado em diversas tonalidades. Depois vem o episódio contrapontístico, que faz a ponte contrastante ou modulatória entre as aparições do tema principal. Em geral as fugas se escrevem a três ou quatro vozes que se desenvolvem ao mesmo tempo e harmonicamente.

Entendeu? Não tenha medo. Só não deixe de testemunhar a fusão – em alta temperatura – das emoções conflitantes da arte com a abstração e a pureza da matemática.  

GRAVAÇÃO RECOMENDADA

Como as gravações de Schweitzer têm som compreensivelmente datado e são difíceis de conseguir, experimente o CD “Organ in Splendor and Majesty” da série Royal Philharmonic, que traz peças de diversos períodos, inclusive modernas. Além de custar uma pechincha e vender na esquina, a interpretação do jovem organista James Parsons alcança o vigoroso equilíbrio entre a arte e a técnica. A gravação é surpreendente, registrando as freqüências abissais do órgão.  Se você não cortar a equalização, vai trincar os dentes e todas as soldas do carro.
 

Home audições: berg audições: orff audições: wagner audições: chopin audições: rimsky-korsakov audições: brahms audições: beethoven audições: berlioz audições: Holst audições: bach audições: stravinsky audições: mahler audições: tchaikovsky audições: rachmaninov

Este site foi atualizado em 09/07/07