|

Geometria do Sentimento
Toccata e Fuga em ré menor de Bach
©Ricardo Labuto Gondim
(publicado na revista Som & Carro em fevereiro de 2005)
A MATEMÁTICA DA BELEZA
As obras de Johann Sebastian Bach (Iôrran Sebastian Bar) têm um
desenvolvimento tão complexo e lógico que existe a tendência de esvaziá-las
de qualquer emoção ou sentimento, apresentando-as como “música pura” –
expressão de idéias estritamente musicais, que tenderiam mais à matemática
do que à própria arte. Suas estruturas são tão coerentes e rigorosas que foi
possível desenvolver um software capaz de imitar o seu modo de
compor. Para gerar uma partitura para teclado de apenas quatro minutos, um
mainframe processou cerca de três bilhões de operações.
Contudo, a paixão que Bach despertou em seus maiores intérpretes é o indício
de que essa fria suposição pode estar errada. O caso mais impressionante é o
de Albert Schweitzer (1875-1965).
Teólogo de reputação internacional, filósofo, escritor, antropólogo,
explorador e médico, Schweitzer foi um grande humanista. Conquistando o
Nobel da Paz de 1952, aplicou os US$ 33.000,00 do Prêmio na construção de um
leprosário no Lambaréné, África francesa, onde já havia erguido um hospital
com o dinheiro dos seus concorridos concertos: além de biógrafo do
compositor, Schweitzer foi o maior intérprete de órgão de Bach na primeira
metade do século XX. Um músico tão completo que em 1909 apresentou suas
próprias teorias para a construção do instrumento num congresso
internacional em Viena.
No prefácio da versão alemã de 1908 da biografia de Bach escrita por
Schweitzer, o lendário compositor e organista Charles-Marie Widor explicou
que foi seu genial discípulo quem lhe desvendou o significado oculto dos
Prelúdios Corais. Schweitzer demonstrou ao mestre que tais peças tão
alardeadas como exemplo de música pura... são baseadas em poemas alemães.
UMA VIDA SIMPLES
Por trás de Johann Sebastian Bach se erguem 22 fantasmas, o número dos seus
antepassados que também foram compositores e intérpretes. Ele nasceu no
leste da Alemanha em 1685 com a música nos genes. Ainda menino começou a
estudar canto, órgão e violino. Aos 9 anos perdeu a mãe. Aos 10, o pai. Foi
criado afetuosamente por Cristoph, o irmão mais velho que era organista. Aos
18, com sua própria reputação estabelecida, Bach assumiu o órgão da Nova
Igreja da cidade de Arnstad.
Naquele tempo, o grande nome do instrumento era Dietrich Buxtehude. Alguns
anos depois de empossado, Bach obteve uma licença de quatro semanas para
estudar com o mestre. A viagem durou quatro meses. Voltou completamente
mudado, com idéias e práticas tão arrojadas que teve de procurar outro
emprego. Rapidamente contratado para Mühlhausen, em 1707 casou com sua prima
distante, Maria Bárbara, transferindo-se para a corte de Weimar. Por quase
dez anos trabalhou como compositor, organista e violinista em conflito
permanente com o príncipe local, que podia se mostrar tão difícil quanto
ele.
Trocando Weimar por Köthen, encontrou uma personalidade musical profunda no
príncipe Leopold von Anhalt-Köthen. Como a austeridade calvinista local o
impedia de compor música religiosa, o fervoroso luterano Bach começou a
explorar novas formas, tonalidades e harmonias, escrevendo os Concertos
de Brandenburgo, incontáveis peças de câmara, as suítes para orquestra e
o Cravo Bem-Temperado. Sua música para órgão levou a escola alemã à
máxima grandeza.
Bach enterrou a esposa em Köthen, casando-se pouco depois com Maria
Magdalena, uma cantora da corte e sua primeira biógrafa. Em 1723 conquistou
o cargo de Kantor (professor e diretor musical) na Igreja de São
Tomás de Leipizig, onde compôs suas obras religiosas mais célebres: a
Paixão Segundo São Mateus, a Paixão Segundo São João e a Missa
em Si Menor.
Bach ficou cego em 1750. Desesperado, tentou duas operações com um famoso
cirurgião inglês chamado John Taylor, que lhe minou a saúde e o levou à
morte naquele mesmo ano. Homem de intensa devoção religiosa, em seu leito de
morte ditou o coral “Perante o Teu trono me apresento”.
UM GÊNIO COMO QUALQUER OUTRO
Johann Sebastian Bach foi um compositor de grande capacidade de trabalho,
chegando a escrever uma cantata por semana. Organizando as bases da música
ocidental, estabeleceu normas permanentes. É conhecido não só como o “Gênio
do Barroco” mas também como o “Gênio da Música”. Ainda assim teve uma vida
simples, doméstica, devotada a Deus, à família e à música. Foi um autêntico
“profissional”, que acreditava tanto no trabalho quanto na inspiração.
Agora você pode tirar suas próprias conclusões sobre lógica, emoção e
sentimento numa das obras mais grandiosas de Bach para o instrumento mais
grandioso, o órgão que o consagrou: a Som & Carro convida você
a transformar sua máquina na majestosa nave de uma catedral barroca.
TOCCATA E FUGA EM RÉ MENOR BWV 565
Esta é a mais famosa peça de Bach para órgão. A soberba introdução original
de sete notas é uma das mais célebres de todos os tempos, abrindo o desenho
de longa-metragem “Fantasia” de 1940 num arranjo para orquestra de Leopold Stokowski.
Seria impossível explicar essa música nos limites deste artigo. Vale a pena
mencionar que o termo “toccata” indica uma peça virtuosística,
geralmente escrita para teclado onde as técnicas de execução,
improvisação e o próprio instrumento atingem seus limites. Sim, eu disse
“improvisação”, embora muito pouca gente tenha coragem de acrescentar o que
quer que seja à complexa geometria da partitura original, com exceção dos
ornamentos que a tradição incorporou aos primeiros acordes.
“Fuga” é a mais alta manifestação técnica do contraponto. Ela
se baseia num tema (ou sujeito) que é imitado em
diversas tonalidades. Depois vem o episódio contrapontístico, que faz
a ponte contrastante ou modulatória entre as aparições do tema
principal. Em geral as fugas se escrevem a três ou quatro vozes que
se desenvolvem ao mesmo tempo e harmonicamente.
Entendeu? Não tenha medo. Só não deixe de testemunhar a fusão – em alta
temperatura – das emoções conflitantes da arte com a abstração e a pureza da
matemática.
GRAVAÇÃO RECOMENDADA
Como as gravações de
Schweitzer têm som compreensivelmente datado e são difíceis de conseguir,
experimente o CD “Organ in Splendor and Majesty” da série Royal
Philharmonic, que traz peças de diversos períodos, inclusive modernas.
Além de custar uma pechincha e vender na esquina, a interpretação do jovem
organista James Parsons alcança o vigoroso equilíbrio entre a arte e a
técnica. A gravação é surpreendente, registrando as freqüências abissais do
órgão. Se você não cortar a equalização, vai trincar os dentes e todas as
soldas do carro.
|