música: wahn

05/09/10

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Wahn

©Ricardo Labuto Gondim
(versão revista)


Alguém já disse que, muitas vezes, as grandes ocasiões da vida começam por parecer incidentes. Pois foi assim que começou. Eu estava em frente ao Paço Imperial, no Centro do Rio, completamente absorvido pelo mais banal dos pensamentos. Mecanicamente estendi a mão para que uma van parasse e pararam três. Uma delas exatamente diante de mim. Entrei, cumprimentei as pessoas e sentei atrás do motorista. Ela estava sentada ao lado dele, e percebi, sem dar muita importância, que me olhava pelo retrovisor.  

Não saberia dizer se era bonita, as sombras da noite e as luzes da cidade projetavam um vitral inconstante em seu rosto. Mas os meus pensamentos versavam sobre contas a pagar, prazos de trabalho e todas essas pequenas coisas que dão substância ao mundo visível – e que nos arrastam para longe dele. Então ela se voltou para trás num movimento rápido e elegante, que dissimulava a ostensiva intenção do gesto. Seus olhos tinham a cor do açúcar mascavo, e aquela chama que só arde na inteligência. Era linda e loira, e por um ato divino voltava um rosto de anjo para mim. 

A van sacolejou e arfou no adágio do trânsito. De vez em quando, uma fumaça azulada de óleo queimado simulava uma atmosfera de sonho. Todos os lugares estavam ocupados, toda gente conversava – exceto eu e ela. 

Estávamos chegando ao nosso destino e me obriguei a tomar uma atitude: eu quis aquela mulher. Sem pudor, confesso que nem um único pensamento material me ocorreu. Queria saber o seu nome, o que pensava sobre a vida e sobre as coisas, o que tinha lido, que música ouvia, e conhecer a poderosa inteligência que volta e meia brilhava no retrovisor. Exatamente por querê-la – tão intenso e tão súbito – não quis arriscar-me a parecer frívolo. Por isso não busquei o diálogo que no burburinho imperante não poderia prosperar. Pensei um momento, abri minha pasta, escrevi meu nome e telefone num pedaço de papel e acrescentei: “Achei você uma mulher muito atraente e gostaria de conhecê-la. Ligue: muitas vezes, as grandes ocasiões da vida começam por parecer incidentes”. Dobrei o papel e esperei. 

Não acredito em destino da mesma forma como não acredito no acaso.  A van descreveu uma curva oportunista e arriscada, e a mulher ao meu lado desceu. A loira estendeu o dinheiro e apontou um edifício. Casualmente, disse ao motorista que passaria para frente – e desci junto com ela: “Senhorita, isso caiu da sua bolsa”. Ela sorriu mecanicamente, agradeceu e pegou o papel.  

Usei deliberadamente o arcaísmo “senhorita”. Era preciso – ainda que pelo desespero de um anacronismo – parecer diferente da multidão dos sedutores galantes ou grosseiros que espreitam em cada esquina. 

O motorista da van percebeu tudo. Quando sentei ao seu lado ele me encarou firmemente, meneou a cabeça num gesto de aprovação e engatou a primeira macha. Nem ele nem eu sorrimos, mas eu disse a meia voz: “Quem sabe?”. 

Quando enfiei a chave na porta ainda estava fascinado. Corri os dedos pela estante e puxei um estojo ao acaso: Richard Wagner – Os mestres Cantores de Nürenberg. Entrei direto no terceiro ato, puxei um banquinho na oficina e sentei-me ao lado de Hans Sachs. 

Quatro dias de silêncio e, no outro, um número desconhecido no meu celular: “Olá. Meu nome é S.”. 

S. não me conhecia, e embora morássemos no mesmo bairro não havia nenhuma referência comum. Ela tinha nove anos a menos que eu, praticamente uma década de assincronia. Foi assim que, depois de dois longos telefonemas, ela se recusou a atender o meu. 

Existe um atalho para o coração de uma mulher: o riso. Numa dessas tardes vermelhas e quentes que te reconciliam com a vida, liguei para S. e me atirei à caixa-postal: “S., sou eu. Eu não quero só rever os seus olhos de açúcar mascavo. Eu também quero que eles me enxerguem. Por isso vou fazer a lista de todas as razões que conheço pra você ligar pra mim”. Existe um limite de tempo na caixa-postal. Se a memória não trai ou sublima meu relato, liguei cerca de vinte vezes. Nunca pensei tanto e tão rápido, criando uma piada atrás da outra para trocar o som gostoso de uma risada pelo toque de um celular.  

Marcamos nosso encontro perto do lugar onde nos vimos pela primeira vez. Era a hora do rush. Disputando passageiros, os ônibus e as vans aperfeiçoavam o caos e inspiravam buzinas. Tudo parecia irreal, as lanternas na rua escura eram como manchas num quadro expressionista. Um torpedo antecipou o atraso, S. só chegou uma hora depois. Foi fácil assumir um aspecto grave: “Você está muito atrasada”. S. era transparente e, constrangida, se escondeu atrás da menina que morava dentro dela: “Me desculpe”. Balancei a cabeça: “Não sei se dá pra desculpar, quarenta anos é muito tempo”. Então um sorriso expandiu a simetria e a proporção mozartiana do marfim do seu rosto. Descobri que ela tinha covinhas. 

Levei-a ao restaurante que gostava de freqüentar com o meu pai quando íamos juntos à cidade. Fiz sinal para o garçom, mas ele estava olhando para ela – e como eu, se deixando fascinar. Quando saiu do transe e se voltou para mim, entendeu que o meu sorriso honesto evidenciava compreensão. Ele se aproximou com irrepreensível cortesia profissional – mas, sem que ela percebesse, me felicitou com dois tapinhas discretos às costas. Não o vi antes nem depois, mas jamais esquecerei essa amabilidade. 

Como todas as pessoas que moram sozinhas e dormem pouco – o que é exatamente o meu caso – S. gostava de tagarelar. Naquela noite, até então eu permanecia mudo, e acho que surdo também, pois só ouvia uma canção que me persegue, me agita e comove desde a juventude – que não parava de tocar dentro de mim. Interrompi o que ela dizia bruscamente: “S., você é linda”.Ela assumiu o rubor do sol da tarde em que a muralha da sua vontade foi desintegrada pelo riso. Seus olhos baixaram um instante. Quando voltaram, ela entendeu e retribuiu o meu sorriso. Há muito, há muito tempo não me sentia tão leve e tão feliz. Na medida em que a noite avançou, conheci a mulher mais inteligente que já cruzou a minha vida. 

Querendo permanecer mais tempo juntos, não voltamos de táxi, mas de van. Nos aproximávamos do apartamento dela, mas estava claro que aquela atmosfera delicada não ia avançar além do portão. “Olha, eu disse, podia te roubar um beijo. Mas acontece que eu não sou ladrão. E não vou tirar de você o que você pode me dar – e que espero receber quando chegar a hora”. E lhe dei o beijo de boa noite mais suave de que fui capaz. Seu rosto era delicado como uma fruta madura.  

A canção que ouvi no restaurante me perseguiu até em casa. Mas o que busquei na estante foi o Concerto n. 3 de Rachmaninov. Hesitando entre as nove interpretações diferentes que tenho dessa música, puxei ao acaso a versão de Gieseking e Mengelberg. Tive a sensação de que ouvia o concerto pela primeira vez. Rachmaninov disse tudo o que eu sentia, revelou o que eu não sabia, e anunciou o que haveria de vir. Pois estava claro para mim e para S., aquele encontro incidental eras uma dessas grandes ocasiões da vida.  

Já fiz muita gente chorar com meu discman. Inclusive um amigo marcadamente austero e sólido, que desabou na mesa do bar onde a chuva nos detinha ouvindo pela primeira vez a Sinfonia n. 7 de Dvorak: “Meu Deus, meu Deus, que coisa mais linda... Isso não existe...”.  

Num dos momentos inesquecíveis que tive com S. – pois agora nos víamos todos os dias, ainda que fosse apenas para trocar um beijo – pedi que ela ouvisse um trechinho do III movimento do Concerto n. 3. Estávamos vindo de algum lugar numa van, e em seus olhos reencontrei a mesma expressão do meu amigo. S. apertou o botão para voltar ao início e se afastou de mim, reclinando a cabeça no banco, me fixando com olhos muito abertos. Do início ao fim, as lágrimas desceram num rosto sereno e imóvel, que transformou a rosa da sua boca num rubi. Inclinei meu rosto no acento, decifrando nos olhos de açúcar mascavo a dialética de uma despedida. S. me dizia adeus. Rachmaninov estava lhe mostrando que na vida existem encontros e desencontros, mas alguns encontros não podem durar. Eles irrompem em nossas vidas como vendavais. Não surgem para nos provar ou induzir o sofrimento, mas para fazer emergir atributos da consciência que estavam adormecidos – ou  ainda por nascer. São marcos do ocaso de uma etapa da vida, ou da aurora de uma nova caminhada. 

Homero cantou a ousadia de Páris, que por amor à Helena de Esparta raptou-a, trancando-a por trás das muralhas de Tróia. Era um amor egoísta, um amor de Calibã que trouxe em seu rastro a morte, dez anos de guerra e um poema eterno. Apesar do horror e do sangue que tingiu o Mar Egeu, sobreviveu a idéia de que era uma vez um ser humano – condenado à individualidade – capaz de arriscar a vida e o Universo por amor. Essa idéia inspirou a felicidade ou a aniquilação de amantes ao longo de dois mil anos. Mas ela já não tem espaço em nossa época. Preterimos Homero em favor do cauteloso Virgílio: “Temo os gregos, mesmo que tragam presentes”. Em nosso tempo, o ethos primário, vil e falso das corporações que consumaram o último século – que mesmo a bom preço compram nossas almas – se faz ouvir nos shoppings, nas vans e nas esquinas, preenchendo o vazio e o desespero inerente à condição humana. Falamos em “desafios”, “carreiras”, “consumo”, “patrimônio” como se tudo isso fosse sólido. Mas a única verdade dessa vida é uma cova aberta, onde um dia vão colocar o meu nome e o teu. Não vemos nossos filhos crescerem, não amamos nossas mulheres, não olhamos a paisagem, não experimentamos nada e não arriscamos nada por ninguém. Passamos pelo mundo como cartas pelo correio. 

S. tinha ambições que consolidou na juventude, e uma coleção respeitável de títulos acadêmicos com os quais forjava sua carreira promissora. Tinha também – é óbvio – compromissos outros, que se entrelaçavam de modo mais coerente e mais íntimo ao caminho que escolheu para atingir seu horizonte. Eu, pobre de mim, nasci totalmente inadaptado a este mundo. Minhas ambições cabem todas na estante. Ao invés de buscar as planícies, embarquei na montanha-russa. Transpiro e tremo ao subir, mas vivo cada instante de vertigem, sorvendo o vento no rosto de braços abertos para o alto. Meus olhos insistem em negar o mundo visível. Todas essas coisas que as pessoas desejam imensamente me parecem miragens. 

A ruptura era esperada, mas foi cruel e áspera. Certos laços não podem ser desfeitos, precisam ser cortados.  

Não se passou um único dia sem que pensasse em S. 

Numa manhã, o reencontro. O tremor, o desejo, a mágoa, a razão – e a velha canção em língua inglesa disputando um instante de vida imaterial com a música sem palavras de um russo apaixonado. Houve um convite, houve um encontro num bar, e houve um passeio a pé numa noite de vento frio. S. caminhou o tempo todo com as mãos nos bolsos de trás do jeans, obrigando-se a deter o impulso que transbordava em seus olhos.  

Seguiram-se torpedos, telefonemas noturnos... E o riso espontâneo, a alegria de estar perto ainda que de longe. Então ela aceitou almoçar comigo. Fui buscá-la em seu apartamento e fiz um pedido: ao invés de levá-la ao restaurante, eu a levaria à minha casa, para cozinhar para ela.  

Queria ter uma orquestra, mas tenho um fogão industrial. Fiz um almoço simples e ela disse que me saí bem. Não é verdade. Queria impressioná-la, queria mostrar-me elegante, preciso e seguro, e essa pequena tensão causou alguns erros pequenos e fatais. Levamos a mesa para a varanda, ela tomou uma taça de vinho e eu venci a garrafa. Falamos sobre tudo – inclusive sobre nós. Ela estava tão alarmada quanto eu de como uma semente plantada pelo acaso pôde brotar tão rápida e tão viçosa em poucos meses – a ponto de encobrir o sol. Descobri que as três vans que me cercaram haviam-na disputado também... mas nos achamos no mesmo carro.  

Contei a ela que a palavra van existe em alemão, embora se escreva Wahn. Falei-lhe sobre Os Mestres Cantores de Wagner, onde um sapateiro maduro e nobre chamado Hans Sachs ajuda um jovem a conquistar a mocinha que ele, Hans, de certo modo amava. Disse-lhe que Wahn é uma palavra tão exclusiva quanto “saudade”,  e que Os Mestres cantores é a “Comédia Humana do Wahn”: a expressão de estados de espírito que emergem do irracional; uma ilusão, uma imaginação fantástica, uma excitação, uma loucura momentânea; o embaçamento da reflexão; o sonho, o delírio, tudo isso é Wahn. 

Tomei S. pela mão e a fiz sentar-se diante do equipamento de som. Mas Wagner é para se ouvir sozinho, e mostrei-lhe as Variações Paganini de Rachmaninov – pois do Concerto ela já tinha um exemplar – interpretadas por Lang Lang e Gergiev. Depois, toquei a canção que me persegue desde a juventude: Sailing, de Cristopher Cross. 

Entre os títulos e diplomas que S. colecionava havia o diploma de professora de dança. Quando eu a puxei para dançar ela se mostrou surpresa, pois já tinha reparado que eu mal consigo andar em linha reta. Enlacei o mármore da sua cintura cinzelada por dez anos numa academia de balet e por horas diárias de ginástica. Colei meu rosto ao dela: “Isso não é dançar. É só uma desculpa para ficar juntinho”. Estreitei-a ainda mais e ficamos para lá e para cá, muito suavemente. Não dissemos nada enquanto Cristopher Cross repetiu sua canção cinco ou seis vezes.  

Depois, não pude mais contar... 

Ela se foi quase sem se despedir. E a história termina aqui. Nos vimos uma vez mais, mas ela pediu que eu não a tocasse pois, se o fizesse, ela faria o que não achava mais direito fazer. Não foi um ardil feminino, mas uma afirmação segura e honesta – e eu não insisti. Desde então a tenho evitado, pois se não poso ter tudo, prefiro o nada às migalhas. De outro modo, estaria aviltando a lembrança dos meses infinitos que passamos juntos. E a razão do meu relato – sim, existe uma razão – perderia a sua beleza: naquela noite, depois que S. me deixou, quando tirei o CD de Sailing da bandeja achei que parecia mais pesado. Porque a todos os sentimentos, lembranças e emoções que essa música renova em mim, aquela noite acrescentou mais um. Descobri que, se a música pode enriquecer a minha vida, também a minha vida pode enriquecer a música. Wagner, Rachmaninov, Cristopher Cross, eu, S., você, tudo isso é Wahn; e por isso mesmo, muito mais permanente do que as muralhas de Tróia – da qual não restam vestígios. 

Sei que a poesia de Virgílio não deixará S. voltar. Mas eu a amei, e rezo para que seja feliz – que viva os seus sonhos e conquiste o seu horizonte. Mas a música de Cristopher Cross é minha, e o que acrescentei a ela ninguém vai tirar de mim. O que lembro, tenho. 

Estou terminando meu relato na varanda em que almocei com S. Lá fora, um sol vermelho incendeia o mundo para que se renove pela manhã. Mas eu sou um escritor e alimento as chamas com palavras.  

O prosaísmo das coisas já está voltando. Uma banalidade qualquer vai me levar ao Centro quando o sol se levantar. Irei de van.  

Eu não tenho medo.
 

     

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Este site foi atualizado em 08/02/07