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Wahn
©Ricardo Labuto Gondim
(versão revista)
Alguém já disse que, muitas
vezes, as grandes ocasiões da vida começam por parecer incidentes. Pois foi
assim que começou. Eu estava em frente ao Paço Imperial, no Centro do Rio,
completamente absorvido pelo mais banal dos pensamentos. Mecanicamente
estendi a mão para que uma van parasse e pararam três. Uma delas exatamente
diante de mim. Entrei, cumprimentei as pessoas e sentei atrás do motorista.
Ela estava sentada ao lado dele, e percebi, sem dar muita importância, que
me olhava pelo retrovisor.
Não saberia dizer se
era bonita, as sombras da noite e as luzes da cidade projetavam um vitral
inconstante em seu rosto. Mas os meus pensamentos versavam sobre contas a
pagar, prazos de trabalho e todas essas pequenas coisas que dão substância
ao mundo visível – e que nos arrastam para longe dele. Então ela se voltou
para trás num movimento rápido e elegante, que dissimulava a ostensiva
intenção do gesto. Seus olhos tinham a cor do açúcar mascavo, e aquela chama
que só arde na inteligência. Era linda e loira, e por um ato divino voltava
um rosto de anjo para mim.
A van
sacolejou e arfou no adágio do trânsito. De vez em quando, uma fumaça
azulada de óleo queimado simulava uma atmosfera de sonho. Todos os lugares
estavam ocupados, toda gente conversava – exceto eu e ela.
Estávamos
chegando ao nosso destino e me obriguei a tomar uma atitude: eu quis aquela
mulher. Sem pudor, confesso que nem um único pensamento material me ocorreu.
Queria saber o seu nome, o que pensava sobre a vida e sobre as coisas, o que
tinha lido, que música ouvia, e conhecer a poderosa inteligência que volta e
meia brilhava no retrovisor. Exatamente por querê-la – tão intenso e tão
súbito – não quis arriscar-me a parecer frívolo. Por isso não busquei o
diálogo que no burburinho imperante não poderia prosperar. Pensei um
momento, abri minha pasta, escrevi meu nome e telefone num pedaço de papel e
acrescentei: “Achei você uma mulher muito atraente e gostaria de conhecê-la.
Ligue: muitas vezes, as grandes ocasiões da vida começam por parecer
incidentes”. Dobrei o papel e esperei.
Não acredito em
destino da mesma forma como não acredito no acaso. A van descreveu uma
curva oportunista e arriscada, e a mulher ao meu lado desceu. A loira
estendeu o dinheiro e apontou um edifício. Casualmente, disse ao motorista
que passaria para frente – e desci junto com ela: “Senhorita, isso caiu da
sua bolsa”. Ela sorriu mecanicamente, agradeceu e pegou o papel.
Usei
deliberadamente o arcaísmo “senhorita”. Era preciso – ainda que pelo
desespero de um anacronismo – parecer diferente da multidão dos sedutores
galantes ou grosseiros que espreitam em cada esquina.
O
motorista da van percebeu tudo. Quando sentei ao seu lado ele me encarou
firmemente, meneou a cabeça num gesto de aprovação e engatou a primeira
macha. Nem ele nem eu sorrimos, mas eu disse a meia voz: “Quem sabe?”.
Quando
enfiei a chave na porta ainda estava fascinado. Corri os dedos pela estante
e puxei um estojo ao acaso: Richard Wagner – Os mestres Cantores de
Nürenberg. Entrei direto no terceiro ato, puxei um banquinho na oficina e
sentei-me ao lado de Hans Sachs.
*
Quatro dias de
silêncio e, no outro, um número desconhecido no meu celular: “Olá. Meu nome
é S.”.
*
S. não me
conhecia, e embora morássemos no mesmo bairro não havia nenhuma referência
comum. Ela tinha nove anos a menos que eu, praticamente uma década de
assincronia. Foi assim que, depois de dois longos telefonemas, ela se
recusou a atender o meu.
Existe um
atalho para o coração de uma mulher: o riso. Numa dessas tardes vermelhas e
quentes que te reconciliam com a vida, liguei para S. e me atirei à
caixa-postal: “S., sou eu. Eu não quero só rever os seus olhos de açúcar
mascavo. Eu também quero que eles me enxerguem. Por isso vou fazer a lista
de todas as razões que conheço pra você ligar pra mim”. Existe um limite de
tempo na caixa-postal. Se a memória não trai ou sublima meu relato, liguei
cerca de vinte vezes. Nunca pensei tanto e tão rápido, criando uma piada
atrás da outra para trocar o som gostoso de uma risada pelo toque de um
celular.
*
Marcamos nosso encontro perto
do lugar onde nos vimos pela primeira vez. Era a hora do rush. Disputando
passageiros, os ônibus e as vans aperfeiçoavam o caos e inspiravam buzinas.
Tudo parecia irreal, as lanternas na rua escura eram como manchas num quadro
expressionista. Um torpedo antecipou o atraso, S. só chegou uma hora depois.
Foi fácil assumir um aspecto grave: “Você está muito atrasada”. S. era
transparente e, constrangida, se escondeu atrás da menina que morava dentro
dela: “Me desculpe”. Balancei a cabeça: “Não sei se dá pra desculpar,
quarenta anos é muito tempo”. Então um sorriso expandiu a simetria e a
proporção mozartiana do marfim do seu rosto. Descobri que ela tinha
covinhas.
Levei-a ao
restaurante que gostava de freqüentar com o meu pai quando íamos juntos à
cidade. Fiz sinal para o garçom, mas ele estava olhando para ela – e como
eu, se deixando fascinar. Quando saiu do transe e se voltou para mim,
entendeu que o meu sorriso honesto evidenciava compreensão. Ele se aproximou
com irrepreensível cortesia profissional – mas, sem que ela percebesse, me
felicitou com dois tapinhas discretos às costas. Não o vi antes nem depois,
mas jamais esquecerei essa amabilidade.
Como todas
as pessoas que moram sozinhas e dormem pouco – o que é exatamente o meu caso
– S. gostava de tagarelar. Naquela noite, até então eu permanecia mudo, e
acho que surdo também, pois só ouvia uma canção que me persegue, me agita e
comove desde a juventude – que não parava de tocar dentro de mim. Interrompi
o que ela dizia bruscamente: “S., você é linda”.Ela assumiu o rubor do sol
da tarde em que a muralha da sua vontade foi desintegrada pelo riso. Seus
olhos baixaram um instante. Quando voltaram, ela entendeu e retribuiu o meu
sorriso. Há muito, há muito tempo não me sentia tão leve e tão feliz. Na
medida em que a noite avançou, conheci a mulher mais inteligente que já
cruzou a minha vida.
*
Querendo permanecer
mais tempo juntos, não voltamos de táxi, mas de van. Nos aproximávamos do
apartamento dela, mas estava claro que aquela atmosfera delicada não ia
avançar além do portão. “Olha, eu disse, podia te roubar um beijo. Mas
acontece que eu não sou ladrão. E não vou tirar de você o que você pode me
dar – e que espero receber quando chegar a hora”. E lhe dei o beijo de boa
noite mais suave de que fui capaz. Seu rosto era delicado como uma fruta
madura.
*
A canção
que ouvi no restaurante me perseguiu até em casa. Mas o que busquei na
estante foi o Concerto n. 3 de Rachmaninov. Hesitando entre as nove
interpretações diferentes que tenho dessa música, puxei ao acaso a versão de
Gieseking e Mengelberg. Tive a sensação de que ouvia o concerto pela
primeira vez. Rachmaninov disse tudo o que eu sentia, revelou o que eu não
sabia, e anunciou o que haveria de vir. Pois estava claro para mim e para
S., aquele encontro incidental eras uma dessas grandes ocasiões da vida.
*
Já fiz muita gente
chorar com meu discman. Inclusive um amigo marcadamente austero e sólido,
que desabou na mesa do bar onde a chuva nos detinha ouvindo pela primeira
vez a Sinfonia n. 7 de Dvorak: “Meu Deus, meu Deus, que coisa mais linda...
Isso não existe...”.
Num dos momentos inesquecíveis que tive com S. – pois agora nos víamos todos
os dias, ainda que fosse apenas para trocar um beijo – pedi que ela ouvisse
um trechinho do III movimento do Concerto n. 3. Estávamos vindo de algum
lugar numa van, e em seus olhos reencontrei a mesma expressão do meu amigo.
S. apertou o botão para voltar ao início e se afastou de mim, reclinando a
cabeça no banco, me fixando com olhos muito abertos. Do início ao fim, as
lágrimas desceram num rosto sereno e imóvel, que transformou a rosa da sua
boca num rubi. Inclinei meu rosto no acento, decifrando nos olhos de açúcar
mascavo a dialética de uma despedida. S. me dizia adeus. Rachmaninov estava
lhe mostrando que na vida existem encontros e desencontros, mas alguns
encontros não podem durar. Eles irrompem em nossas vidas como vendavais. Não
surgem para nos provar ou induzir o sofrimento, mas para fazer emergir
atributos da consciência que estavam adormecidos – ou ainda por nascer. São
marcos do ocaso de uma etapa da vida, ou da aurora de uma nova caminhada.
*
Homero
cantou a ousadia de Páris, que por amor à Helena de Esparta raptou-a,
trancando-a por trás das muralhas de Tróia. Era um amor egoísta, um amor de
Calibã que trouxe em seu rastro a morte, dez anos de guerra e um poema
eterno. Apesar do horror e do sangue que tingiu o Mar Egeu, sobreviveu a
idéia de que era uma vez um ser humano – condenado à individualidade – capaz
de arriscar a vida e o Universo por amor.
Essa idéia inspirou a felicidade ou a aniquilação de amantes ao longo de
dois mil anos. Mas ela já não tem espaço em nossa época. Preterimos Homero
em favor do cauteloso Virgílio: “Temo os gregos, mesmo que tragam
presentes”. Em nosso tempo, o ethos primário, vil e falso das corporações
que consumaram o último século – que mesmo a bom preço compram nossas almas
– se faz ouvir nos shoppings, nas vans e nas esquinas, preenchendo o vazio e
o desespero inerente à condição humana. Falamos em “desafios”, “carreiras”,
“consumo”, “patrimônio” como se tudo isso fosse sólido. Mas a única verdade
dessa vida é uma cova aberta, onde um dia vão colocar o meu nome e o teu.
Não vemos nossos filhos crescerem, não amamos nossas mulheres, não olhamos a
paisagem, não experimentamos nada e não arriscamos nada por ninguém.
Passamos pelo mundo como cartas pelo correio.
S. tinha
ambições que consolidou na juventude, e uma coleção respeitável de títulos
acadêmicos com os quais forjava sua carreira promissora. Tinha também – é
óbvio – compromissos outros, que se entrelaçavam de modo mais coerente e
mais íntimo ao caminho que escolheu para atingir seu horizonte. Eu, pobre de
mim, nasci totalmente inadaptado a este mundo. Minhas ambições cabem todas
na estante. Ao invés de buscar as planícies, embarquei na montanha-russa.
Transpiro e tremo ao subir, mas vivo cada instante de vertigem, sorvendo o
vento no rosto de braços abertos para o alto. Meus olhos insistem em negar o
mundo visível. Todas essas coisas que as pessoas desejam imensamente me
parecem miragens.
*
A ruptura
era esperada, mas foi cruel e áspera. Certos laços não podem ser desfeitos,
precisam ser cortados.
Não se
passou um único dia sem que pensasse em S.
*

Numa
manhã, o reencontro. O tremor, o desejo, a mágoa, a razão – e a velha canção
em língua inglesa disputando um instante de vida imaterial com a música sem
palavras de um russo apaixonado. Houve um convite, houve um encontro num
bar, e houve um passeio a pé numa noite de vento frio. S. caminhou o tempo
todo com as mãos nos bolsos de trás do jeans, obrigando-se a deter o impulso
que transbordava em seus olhos.
Seguiram-se torpedos, telefonemas noturnos... E o riso espontâneo, a alegria
de estar perto ainda que de longe. Então ela aceitou almoçar comigo. Fui
buscá-la em seu apartamento e fiz um pedido: ao invés de levá-la ao
restaurante, eu a levaria à minha casa, para cozinhar para ela.
Queria ter
uma orquestra, mas tenho um fogão industrial. Fiz um almoço simples e ela
disse que me saí bem. Não é verdade. Queria impressioná-la, queria
mostrar-me elegante, preciso e seguro, e essa pequena tensão causou alguns
erros pequenos e fatais. Levamos a mesa para a varanda, ela tomou uma taça
de vinho e eu venci a garrafa. Falamos sobre tudo – inclusive sobre nós. Ela
estava tão alarmada quanto eu de como uma semente plantada pelo acaso pôde
brotar tão rápida e tão viçosa em poucos meses – a ponto de encobrir o sol.
Descobri que as três vans que me cercaram haviam-na disputado também... mas
nos achamos no mesmo carro.
Contei a ela que a
palavra van existe em alemão, embora se escreva Wahn. Falei-lhe sobre Os
Mestres Cantores de Wagner, onde um sapateiro maduro e nobre chamado Hans
Sachs ajuda um jovem a conquistar a mocinha que ele, Hans, de certo modo
amava. Disse-lhe que Wahn é uma palavra tão exclusiva quanto “saudade”, e
que Os Mestres cantores é a “Comédia Humana do Wahn”: a expressão de estados
de espírito que emergem do irracional; uma ilusão, uma imaginação
fantástica, uma excitação, uma loucura momentânea; o embaçamento da
reflexão; o sonho, o delírio, tudo isso é Wahn.
Tomei S.
pela mão e a fiz sentar-se diante do equipamento de som. Mas Wagner é para
se ouvir sozinho, e mostrei-lhe as Variações Paganini de Rachmaninov – pois
do Concerto ela já tinha um exemplar – interpretadas por Lang Lang e
Gergiev. Depois, toquei a canção que me persegue desde a juventude: Sailing,
de Cristopher Cross.
Entre os
títulos e diplomas que S. colecionava havia o diploma de professora de
dança. Quando eu a puxei para dançar ela se mostrou surpresa, pois já tinha
reparado que eu mal consigo andar em linha reta. Enlacei o mármore da sua
cintura cinzelada por dez anos numa academia de balet e por horas diárias de
ginástica. Colei meu rosto ao dela: “Isso não é dançar. É só uma desculpa
para ficar juntinho”. Estreitei-a ainda mais e ficamos para lá e para cá,
muito suavemente. Não dissemos nada enquanto Cristopher Cross repetiu sua
canção cinco ou seis vezes.
Depois,
não pude mais contar...
*
Ela se foi
quase sem se despedir. E a história termina aqui. Nos vimos uma vez mais,
mas ela pediu que eu não a tocasse pois, se o fizesse, ela faria o que não
achava mais direito fazer. Não foi um ardil feminino, mas uma afirmação
segura e honesta – e eu não insisti.
Desde então a tenho
evitado, pois se não poso ter tudo, prefiro o nada às migalhas. De outro
modo, estaria aviltando a lembrança dos meses infinitos que passamos juntos.
E a razão do meu relato – sim, existe uma razão – perderia a sua beleza:
naquela noite, depois que S. me deixou, quando tirei o CD de Sailing da
bandeja achei que parecia mais pesado. Porque a todos os sentimentos,
lembranças e emoções que essa música renova em mim, aquela noite acrescentou
mais um. Descobri que, se a música pode enriquecer a minha vida, também a
minha vida pode enriquecer a música. Wagner, Rachmaninov, Cristopher Cross,
eu, S., você, tudo isso é Wahn; e por isso mesmo, muito mais permanente do
que as muralhas de Tróia – da qual não restam vestígios.
Sei que a
poesia de Virgílio não deixará S. voltar. Mas eu a amei, e rezo para que
seja feliz – que viva os seus sonhos e conquiste o seu horizonte. Mas a
música de Cristopher Cross é minha, e o que acrescentei a ela ninguém vai
tirar de mim. O que lembro, tenho.
Estou
terminando meu relato na varanda em que almocei com S. Lá fora, um sol
vermelho incendeia o mundo para que se renove pela manhã. Mas eu sou um
escritor e alimento as chamas com palavras.
O
prosaísmo das coisas já está voltando. Uma banalidade qualquer vai me levar
ao Centro quando o sol se levantar. Irei de van.
Eu não
tenho medo.
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