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Enologia do diletantismo
©Ricardo Labuto Gondim
(nova versão do artigo publicado no
velho audiodicas)
Existe um
estilo antiquado de se fazer crítica (anterior a Schumann, que era um mau
escritor) que os europeus insistem em preservar, talvez por tradição, gosto
ou pedantismo. Refiro-me àquele rebuscamento requintado, que se por um lado
ornamenta a grandeza inatingível de um Balzac, exige - para ser grandioso e
requintado - um Balzac. Falo de críticas que tratam gravações como perfumes
ou vinhos. Onde os limites teóricos do autor evaporam prematuramente,
fazendo a discussão transbordar da música para a insubstância.
Um exemplo emblemático desse modelo empoeirado é a revista
Diapason. Como meu francês é pior que meu hindustâni não lia a edição
francesa, mas divertia-me com a saudosa e (ai!) salgada versão brasileira -
que infelizmente desapareceu. Boa parte dos seus críticos incorporavam o
estilo com brilho e sabedoria. Outros, mostravam-se ébrios de um vazio
diletante. Mas todos competiam para edificar o bouquet característico que
tornava a leitura da Diapason uma degustação inteligente e agradável.

Guardo até
hoje o quarto número (setembro de 2006) que embutiu o vigoroso “Dossiê
Beethoven”. Nessa edição um crítico lamentou que o allegro non troppo
da Segunda de Brahms com Michael Gielen fosse um “estudo sonoro severamente
controlado, mais que deambulação poética”. Outro, a respeito de um CD de
Felicity Lott, dizia que o soprano “não apóia [os compositores] Hahn,
Roussel ou Grand com piscadelas que os diminuiriam”. E completou: “seus
Strauss são arrogantes”.
Gosto muito de vinhos e, se beber demais, posso passar a
noite inteira procurando deambulações poéticas nos lugares mais inesperados.
Se tivesse lido na Vinho Magazine que um honesto Valpolicella tem
“piscadelas frutadas” não me espantaria. E afirmo com vigorosa ênfase, o
Syrah
australiano dos meus sonhos é excepcionalmente “arrogante”, pois custa mais
do que posso pagar e traz muito menos do que desejaria beber. Mas daí a ler
que uma cantora não apóia Fulano e Sicrano “com piscadelas que os
diminuiriam” é assombroso. Ainda que a notícia tenha agradado ao marido da
respeitável senhora, certamente não trouxe surpresas: a reputação de Madame
Lott jamais esteve em jogo.
Na mesma edição – lá se vão quatro anos – uma breve
entrevista com o regente francês Marc Minkowski discutiu sua desconcertante
interpretação das Sinfonias 40 e 41 de Mozart. O repórter, um cavalheiro
chamado Gaëtan Naulleau cometeu uma das maiores pérolas que já li num artigo
sobre música. A respeito do finale da 41, Minkowski disse que enxergava no
movimento “um quadro de Bosch. Superposições de imagens inquietantes, pouco
agradáveis, mas curiosamente evidentes”. E explicou que perseguia a
materialização dessa idéia regulando o andamento. Foi quando Monsieur
Naulleau se deixou “arrebatar” pela visão:
-
O finale da Júpiter como um jardim de suplícios? E eu que pensava numa
apoteose dionisíaca!
Pobre Mozart. Esmerou-se para encerrar a Júpiter com uma
dissonância espetacular e uma das fugas mais arrebatadoras que um sinfonista
já concebeu, sem imaginar que, séculos depois, a obra alimentaria o fogo
fátuo de uma discussão pictórica.
O texto, é claro, me divertiu. Eu estava sob o impacto de um
doutíssimo artigo sobre Beethoven escrito pelo Prof. Rodolfo Coelho de
Souza, e essa brusca mudança de tom e andamento cristalizou o conceito de
sedução da Diapason: sua alteridade; a abertura para diferentes
concepções dos ilimitados efeitos que a música é capaz de provocar no
ouvinte. Essa amplitude é o que assegura a abrangência e a permanência da
música ao longo da história – e o prazer que eu tinha em ler a revista.
Brincadeiras e saudosismos à parte, na partida travada entre
Monsieur Naulleau e seu entrevistado – pois toda entrevista é um jogo de
espelhos chamado “Aparência e Realidade” – quem ganhou fui eu, pois comprei
o CD de Minkowski. Sob o título “Furtwängler barroco?”, a matéria embutia o
sedutor impacto de uma tese: as interpretações de Minkowski com instrumentos
antigos supostamente teriam “uma surpreendente e indisfarçável liberdade
romântica”.
Teriam?
Regentes de orquestras com instrumentos originais costumam –
de modo geral – abdicar da subjetividade em detrimento da revelação de
caracteres estruturais e sonoros essencialmente entrelaçados. Se a idéia é
reproduzir o que se supõe o modo de execução da música num dado momento
histórico, uma interpretação subjetiva poderia comprometer irreparavelmente
a ansiada “autenticidade”. Foi justamente a negação radical da interpretação
- o que é humanamente impossível, pois negar a interpretação é interpretar –
o que revelou a estatura de regentes notáveis e radicais como Franz Brüggen.
Existem muitas versões diferentes de uma ampla faixa do
repertório em instrumentos originais. Não é preciso ser gênio para entender
que se a forma e a sonoridade da música já foram exaustivamente exploradas,
o passo seguinte é a interpretação em seu caráter decisivo. Mas ao invés de
experimentar o que se pode fazer neste terreno sob a vigilância exclusiva
do metrônomo – e dos tratados e documentos que legitimam a prática de época
– Marc Minkowski assumiu publicamente o “instinto” como primeiro critério de
sua abordagem.
Minkowski
não foi o primeiro a dar o salto. Outros regentes puseram eventualmente o
fundamentalismo de lado e se arriscaram nesta senda, como o acrobático
Reinhard Goebel e o atrevido Nikolaus Harnoncourt, que dividiu a crítica com
suas versões desafiantes e irregulares das sinfonias de Mozart (algumas,
excepcionais). Mas nenhum deles se arriscou tanto, pois a perspectiva de
Minkowski é ousadamente anacrônica: ele se impõe como um regente do
século XXI interpretando uma orquestra com recursos e sonoridades do passado
– sobre a qual aplicou racionalmente as conquistas dos séculos posteriores,
tanto em relação à prática, disposição e número de instrumentos, quanto na
manipulação inteligente das tecnologias de gravação. Assim, tornou-se um
caso peculiar.
Portanto, a “surpreendente e indisfarçável liberdade
romântica” de que fala a entrevista da Diapason é de fato
surpreendente, indisfarçável, “romântica” até certo ponto e - ao menos no
ambiente mozartiano - legitimada pela história: em sua vasta correspondência
Mozart nunca omitiu a profunda alegria que experimentava ao ouvir sua música
executada por um contingente acima dos padrões da época. E sabia - de modo
muitas vezes velado, mas sempre eficaz e sublime - manobrar metais, madeiras
e tímpanos para favorecer o peso do conjunto harmônico. Logo, o “instinto”
que guia Minkowski brota de uma base teórica sólida - e de uma ampla
experiência como instrumentista de regentes do primeiro escalão.
Ninguém se
surpreendeu mais do que eu com o CD “Mozart: Júpiter”. Algum tempo antes,
seduzido pelos alardes da crítica internacional, experimentei a versão de
Minkowski da Sinfonia Fantástica com a Mahler Chamber Orchestra, que
granjeou aplausos dos dois lados do Canal da Mancha. Ouvi até sangrar, mas
não encontrei um só compasso que justificasse um entusiasmo que até hoje me
soa irracional. Não há nada demais nessa versão Prestobarba, totalmente
dispensável; não há nada substancialmente claro, revelador,
flexível
ou inflexível. Da primeira à última nota, uma desapaixonada marcação de
tempo... numa obra transbordante de ópio.
Foi por isso que – sentindo-me só e na contra-mão do mundo –
quis experimentar o Mozart gravado pela Archiv, com Minkowski e os
instrumentos originais dos seus excelentes Les Musiciens du Louvre, de
Grenoble.
A Sinfonia n. 40 é um modelo de execução. Talvez a mais
bonita que já ouvi: lirismo, melancolia, precisão, clareza, dinâmica, beleza
de sonoridades e, acima de tudo articulação. Considerando a proposta
original do regente, perfeita.
Os
primeiros compassos da Sinfonia Júpiter são os que ouvia em meus sonhos. A
marcação de tempo é segura, afirmativa e marcial. O regente não faz segredo
de que deve algo a Toscanini - mas fez melhor. Curiosamente, ao invés de
manter o mesmo pulso, Minkowski relaxa para tempos um pouco mais amplos,
mais “românticos”, que favorecem a nobreza do movimento... sem jamais perder
a tração e o controle permanente de tudo.
Os movimentos internos são mesmo surpreendentes. Sem
falsificar o documento, Minkowski descobriu possibilidades rítmicas
inovadoras na partitura, com marcações de tempo definidas e coerentes. O
último movimento é virtuosístico, mas não extrapola para a categoria dos
efeitos especiais ou das alegorias e adereços.
No quesito técnico, a gravação Archiv tem equilíbrio,
contraste e beleza de som. Tudo indica que os engenheiros tiveram de lutar
contra a reverberação impiedosa de uma sala onde os graves ressoam de
maneira indócil. Aqui e ali há uma perda de articulação, mas no geral o
resultado é ótimo.
Em resumo, o CD
“Mozart: Júpiter” merece a sua audição, enquanto a carreira de Minkowski
merece a nossa atenção. Tudo é muito musical – e de modo algum “arrogante”.
Em princípio, não creio que a perspectiva do maestro tenha muito a
acrescentar ao repertório romântico. Mas seu Haydn... Rapaz, ele não atinge
a beleza superlativa do Mozart. Mas suas deambulações poéticas são
arrebatadoras.

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