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16/04/13

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Natal a 20 dB

©Ricardo Labuto Gondim


Nos meus tempos de estudante, tive o privilégio de conversar sobre música com Mario Henrique Simonsen em breves encontros na FGV.  Numa dessas ocasiões, notei um CD lacrado na escrivaninha do professor. Naquele tempo o CD ainda era peça de joalheria, o estojo cercado pelos vestígios do papel de presente fulgurava como um diamante no tampo de mogno. O disco – perdoe o anacronismo, mas é que sou do tempo do disco – trazia highlights da música de Ravel.

Jamais saberei se o Professor Simonsen desprezava Ravel ou abominava highlights. Sei, pela expressão com que guardou o CD na gaveta, que a pessoa que o obsequiou errou tragicamente na escolha do mimo.

Quantas vezes isso aconteceu com você?

O erro é comum, a lógica é rara. No mundo dos clássicos existem vastos reinos e encruzilhadas, não vale a pena contar com o Papai Noel. É melhor acessar um site de compras, escolher a gravação, pedir embalagem para presente, aproveitar o prazo da entrega para esquecer a encomenda, abrir a caixa do correio, fazer cara de espanto, rasgar o papel com sofreguidão e descobrir o quanto você gosta de si mesmo. O efeito pode ser amplificado por uma surpresa genuína, basta optar por um CD só ouvido em resenhas.

Para auxiliá-lo no trabalho sujo de escolher gravações, fiz uma pequena lista. Estendi a mão às cegas na estante, puxei aleatoriamente alguns tesouros e me decidi por gravações intensas e emocionantes.

Vamos a elas. As imagens são links para lojas virtuais. Basta clicar.

SUGESTÃO ÚNICA PARA PURO-AUDIÓFILOS

Não compre um CD. Compre um cabo novo e dispendioso. Com liga de cromo saturado com carbono e azeite de dendê. Escolha um modelo de sólida embalagem. Afinal, quando a próxima edição de um desses catálogos de produtos disfarçados de revistas sair, você vai querer comprar um novo, não vai?

Ah, se vai!

SUGESTÕES PARA MELÔMANOS AUDIÓFILOS

Beethoven. IX Sinfonia. Staatskapelle Berlin. Otmar Suitner.

Considerando que a IX é a música da minha vida, arrisco dizer que esta é uma de suas maiores gravações. O maestro dominou a obra, a orquestra reagiu como um relógio e os engenheiros da Denon foram tocados pelos anjos. Desse encontro mágico surgiu uma rara fusão de arte e tecnologia. Como diriam os críticos ingleses, "um triunfo".
 

Beethoven. The late Strings Quartets (Op. 127, 130-133, 135 em 3 CDs). Melos-Quartett.

Você quer ouvir música de câmara mas não sabe por onde começar? Agora sabe. Penso que o Melos tem ainda mais fogo que o Quarteto Italiano. Os rapazes tocam Beethoven com ímpeto e clareza arquitetônica, construindo catedrais de cristal e pedra. A Grande Fuga já levou multidões aos céus e às lágrimas. Você precisa conhecê-la.
  

Beethoven. Sinfonias V e VII. Orquesta de la Juventud Venezolana Simón Bolívar. Gustavo Dudamel.

O jovem Gustavo Dudamel foi capaz de descobrir novidades na V Sinfonia 200 anos depois da conclusão da obra. A leitura da VII é mais tradicional, mas o último movimento também traz surpresas.

Aos 27 anos Dudamel é vinho novo, não é o “gênio” que a indústria tenta vender: não basta dominar uma orquestra com a ponta dos dedos para consagrar um regente. Consciente ou inconscientemente, é preciso entranhar-se no pathos das grandes obras afirmativas ou trágicas da nossa cultura; é preciso servir à musica e viver – viver uma vida real, feita de alegria e tristeza, de amor e de morte. Mesmo Toscanini (que saltou da estante do violoncelo para o pódio e a fama aos 19 anos) só atingiu a grandeza mitológica de fato depois dos 40.

Se a indústria não destruir Gustavo Dudamel – como fez com Ozawa, Abbado, Metha e outros músicos de talento excepcional, que jamais consumaram a grandeza de suas potencialidades –, quando atingir a maturidade ele poderá vir a medir-se ombro a ombro com gigantes, dolmens e colunas de mármore.

Dudamel é vinho novo, mas de uma cepa rara. Devemos rezar para que ele mantenha sua humildade sincera e cativante no mesmo nível do carisma e da ambição artística – como fez Toscanini, que a vida inteira se definiu como um contandino, um camponês. 

Rezo também para que Dudamel corte o cabelo antes que seja confundido com Simon Rattle.
 

Rimsky-Korsakov – Scheherazade Op. 35 e Antar, Op. 9. Orquestra da Suisse Romande. Ernest Ansermet.

Embora a experiência pessoal demonstre que atenienses e espartanos amam Scheherazade, desejo chamar sua atenção para o “Antar”. Alguns críticos ora apresentam o opus 9 de Rimsky-Korsakov como Sinfonia n. 1, ora como suíte sinfônica. Deixe a literatura de lado e ouça essa música de um orientalismo inebriante, que ensaia e consuma a estrutura e fluidez melódica de Scheherazade.

O CD é garantido. A Scheherazade de Ansermet é das mais espetaculares, tão impetuosa quanto a de Karajan, tão vertiginosa quanto a de Kiril Kondrashin – talvez  mais. A vantagem adicional é que os registros são do tempo em que engenheiros de gravação eram engenheiros de gravação: 1961 (Op. 35) e 1954 (Op. 9), remasterizados em 96 KHz/24 bit na série Eclipse, que reprocessa tesouros de uma saudosa DECCA.

Vale comentar que Ansermet foi regente de primeira divisão – e um dos poucos a desdenhar o hermetismo da música contemporânea com argumentos intelectualmente consistentes. O homem era versado em filosofia e matemática, e rebaixava as estruturas musicais mais “vanguardistas” a expressões de mero oportunismo ou elitismo. É uma pena: regente de sonoridades elaboradas, frases amplas e firmes, sutilezas delicadas ou acordes esmagadores, Ansermet era talhado para uma das três óperas de minha vida: o Wozzeck. Até onde eu sei, dessa obra ele nem chegou perto.
 

César Franck – O Caçador maldito. Royal Philharmonic Orchestra e Raymond Leppard.

Descobri essa peça pelas mãos de André Cluytens que, como diria meu amigo Donald Jhin, “é um regentaço”. Contudo, o irregular Raymond Leppard saiu-se melhor, favorecido por uma gravação em 20 bit masterizada em 32 DSP (é rapaz, isso acontece muito, o microfone pode chegar até os sons que não chegam à platéia).

Leppard expressa o terror e a violência da obra com fogo, sombras espessas, dinâmica pesada, exposição de timbres sutis (de caráter genuinamente francês), metais fundidos em paredes de acordes e uma força estupenda nos contrabaixos. Quanto ao resto do programa, não vale a pena considerar. Se quiser ouvir a Sinfonia de Franck com a mesma força, fique com Paul Paray, orquestra de Detroit e o som datado e querido da Mercury.

Clicando na imagem, você acessa a versão em SACD híbrido por uma pechincha.
 

César Franck – Complete organ works. Jean Guillou ao órgão da Catedral de Santo Eustáquio, Paris. Brilliant Classics.

Você gosta do Grande órgão de catedral? Para conhecer toda a extensão e poder desse instrumento romântico ouça o melhor do período com Widor e César Franck. O álbum duplo da Brilliant é bilhete de primeira classe: som grandioso, interpretações idem. Existe uma versão com o mesmo repertório produzida pela Telarc que não merece comentários. Não se deixe seduzir pelo marketing do selo, fique com Jean Guillou.
 

Bruckner – VII Sinfonia. Filarmônica de Viena. Karajan.

Tive pelo menos umas dez versões da VII que nunca me satisfizeram. “Por que esse cara não subiu as trompas aqui? Por que os violoncelos não vibram com mais força? Onde esconderam as violas?”. Meu amigo Alexandre Santangelo curou-me desse estado patológico com o CD da série Karajan Gold. Se você gosta da VII, vai amar a gravação; se não conhece a música, vai amar a ambas.
 

Wagner – Orchestral Music. National Philharmonic Orchestra. Charles Gerhardt.

O álbum traz uma belíssima síntese de 24 minutos dos II e III atos do Tristão; o “Adeus de Wotan” e a música do fogo mágico; o Idílio de Siegfried; 17 minutos da morte e marcha fúnebre de Siegfried; e é claro, a Cavalgada das Valquírias.

Se você contar para um wagneriano ortodoxo que comprou esse disco, ele tentará interceptar o carteiro e impedir a entrega: para não quebrar a harmonia, as linhas vocais foram substituídas por instrumentos como trompas e violoncelos. Em compensação, se você odeia canto lírico vai descobrir algumas das páginas mais intensas e melódicas de Wagner; se não tem nada contra, vai ouvir os detalhes que as vozes escondem.

Charles Gerhardt é figurinha fácil para os amantes do cinema. O homem é um especialista em trilhas, arranjos e, acredite, gravações. Um tipo como Erich Kunzel, mas que sabe ler música. Como Wagner é muito mais fácil de reger que Beethoven (ainda mais sem acompanhamento), o resultado é muito excitante. Realizadas entre 1985 e 1995, as gravações são registros analógicos de alto nível reprocessados pela Chesky Records em 128 times oversampling. Como quase tudo que é tocado pela Chesky, o resultado é em Cinemascope. Tire as crianças da sala para ouvir a “Cavalgada”, abaixe a cabeça quando o cavalo de Waltraute passar. 
 

Coro e Banda do Exército Vermelho. Victor Fedorov.

Este CD alterna o bélico, o solene e o nostálgico em canções divididas em quatro grupos: velhas canções de soldados, canções de guerra, canções patrióticas e folclóricas. As obras são tão bonitas quanto os títulos: “Nós somos a Cavalaria Vermelha”, “Guerra Sagrada”, “O Sol põe-se além da montanha”, a celebrada “Canção dos burlack do Volga”, “Olhos negros”, etc. O coro masculino, os solistas eventuais e a banda são modelos legítimos da velha escola russa. O que deixa um pouco a desejar é o som ligeiramente morno da Naxos, em guerra pela preservação da faixa dinâmica stalinista da banda e do coro (por volta de 20 dB ou mais!). Diversão e encantamento garantidos.   

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O responsável pelo sucesso do logos eletrônico é você. Entendendo que não é preciso circunspecção para falar de música e áudio levados a sério, você consolidou o site com os melhores leitores da web.

Feliz Natal. Feliz 2011. Muito obrigado por tudo.
Gondim
 

     

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Este site foi atualizado em 13/01/11