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música: sacrilégios |
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12/01/12 |
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©Ricardo Labuto Gondim
Num artigo chamado “Digressões” declarei meu amor à IX Sinfonia. Tenho amigos que deploram essa partitura com base em observações acuradas, pertinentes, pois não faltam argumentos contra Beethoven. Gostaria de citar alguns invocando a autoridade de Leonard Bernstein (Diálogo na Montanha in “O mundo da Música”, Livros do Brasil, Lisboa, 1954).
A lucidez de Bernstein aperfeiçoou seu amor por Beethoven “de alma e coração”, assim como as teses de Freud enriqueceram minha fé. Por mais inspiradas que sejam – ainda que sua Luz venha do Alto – Arte, Ciência e Religião são expressões humanas, e tudo que tem compromisso com o humano tem compromisso com o erro. Essa é a nossa natureza. Toda obra do Homem é intrinsecamente imperfeita. A cicatriz no joelho de Moisés é uma distração que subtrai outros vestígios do cinzel de Michelangelo, nos levando a temer que o mármore se erga e nos acuse com o fogo iridescente dos seus olhos brancos. Perfeição é atributo divino. A distinção entre sagrado e profano é um evento da cultura, um signo da peregrinação do Homem sobre a Terra em busca do Criador. Por isso não há sentido na idéia da sinfonia sagrada, do romance sagrado, da pintura sagrada, da escultura sagrada... O que é sagrado para mim pode não ser pra você e vice-versa. Se você não gosta da minha música favorita, significa apenas que ela não foi escrita pra você. E não existe uma só razão pra você se esforçar em entendê-la ou entender-me, porque – como dizia Borges – a felicidade não pode exigir esforço. Você tem sua música favorita – que te consola, te engrandece e te faz saltar obstáculos – e isso é tudo o que importa. Pessoalmente, durante anos deplorei as 104 ou 106 sinfonias de Haydn, como queira, por achá-las todas iguais e igualmente tediosas. Hoje tenho todas, e não há uma só que eu não saiba apreciar. Não foi preciso ler tratados sobre Haydn para amá-lo, viver foi suficiente. Tudo amadurece e frutifica ao seu tempo, o Homem é mudança e eu mudei. Um dia, ouvindo a Sinfonia 93 Haydn falou comigo – e nunca mais deixei de escutá-lo. O que li sobre Haydn, li depois, e o fiz espontaneamente, com ilimitada alegria. Tudo isso para negar a idéia de uma “discoteca básica” no campo da música clássica; para dizer que você não tem que gostar de Beethoven, de Mozart, de Haydn – e até mesmo de Bach, que para mim é a Voz de Deus neste mundo. Ninguém pode descobrir os compositores que escreveram pra você. Só você. A idéia de que a música clássica é algo “superior” é desmentida pela própria biografia dos compositores – ou pelo comportamento dos críticos. Houve um ou outro anjo, é verdade, mas de resto eram gente tão falível quanto eu e você. Claro que em seu íntimo também queriam tornar-se pessoas melhores, tendo muitas coisas em comum comigo e com você. E eis aqui a verdade: a única razão para se ouvir música clássica é gostar de música clássica. O resto é vaidade, somente vaidade.
Um erro ainda maior é insistir na velha cantilena de que esse tipo de
arranjo ajuda a popularizar a obra dos compositores “eruditos”. Isso é
elitismo de baixo-nível; é pressupor que o iniciante não tem capacidade para
apreciar aquilo que você aprecia. A “Sinfonia dos Mil” de Mahler é uma obra
de fôlego, difícil e complexa, mas quando levada às areias de Copacabana
pelo Projeto Aquarius reconciliou milhares de pessoas com a Vida.
Entre elas, gente muito simples, que nunca tinha visto uma orquestra de
perto. Revogando a afetada expressão “música erudita”, cuja pretensão é inaceitável, gostaria de ajudá-lo a dar os primeiros passos no mundo da música clássica sugerindo algumas obras. Elas estão aqui, na seção Audições do seu logos eletrônico. Experimente. Muitas
vezes, as grandes ocasiões da vida começam por parecer incidentes. |
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Este site foi atualizado em 06/12/10