música: sacrilégios

05/09/10

Home
música: sugestões
música: enologia
música: o eleito
música: conserto com s
música: sacrilégios
música: digressões
música: aforismos
música: argenta
música: wahn
música: o neutrino
música: bayreuth
música: a IX de Beethoven
música: beethoven i
música: beethoven ii
música: elipses
música: Kleiber
música: parsifal
música: Deus no labirinto I

 

 





O Sagrado e o Profano

©Ricardo Labuto Gondim
Nova versão do artigo publicado
no Audiodicas original


Poucos homens se arrojaram contra a idéia de religião tão bem armados quanto Freud. Na faculdade de teologia, eu e meus colegas o estudamos ao longo de quatro anos – não para refutá-lo mas para entender suas razões. Não há sabedoria sem oposição. Aliás, essa é a essência da teologia, que nasceu para contestar as hostilidades dos pensadores do mundo antigo contrários à novidade do Cristo. Com amor e ardor, os veneráveis luminares da aurora da igreja – o período que chamamos de patrístico – empreenderam a obra de sistematizar suas doutrinas a partir de categorias filosóficas, reafirmando a fé em Jesus na douta linguagem dos seus opositores.

Num artigo chamado “Digressões” declarei meu amor à IX Sinfonia. Tenho amigos que deploram essa partitura com base em observações acuradas, pertinentes, pois não faltam argumentos contra Beethoven. Gostaria de citar alguns invocando a autoridade de Leonard Bernstein (Diálogo na Montanha in “O mundo da Música”, Livros do Brasil, Lisboa, 1954).

Bernstein escreveu que o gênio do classicismo vienense “...não é particularmente brilhante como melodista.” Sua harmonia é “...apenas limitada e, portanto, menos interessante do que a harmonia que se seguiu ao seu período.” Seu contraponto “...é, geralmente, digno de um menino de escola. Ele tentou durante toda a sua vida escrever uma fuga realmente boa. E a orquestração? Por vezes é verdadeiramente má, especialmente no último período, quando já estava surdo.”

A lucidez de Bernstein aperfeiçoou seu amor por Beethoven “de alma e coração”, assim como as teses de Freud enriqueceram minha fé. Por mais inspiradas que sejam – ainda que sua Luz venha do Alto – Arte, Ciência e Religião são expressões humanas, e tudo que tem compromisso com o humano tem compromisso com o erro. Essa é a nossa natureza. Toda obra do Homem é intrinsecamente imperfeita. A cicatriz no joelho de Moisés é uma traição que subtrai outros vestígios do cinzel de Michelangelo, nos levando a temer que o mármore se erga e nos acuse com o fogo iridescente dos seus olhos brancos.

Perfeição é atributo divino. A distinção entre sagrado e profano é um evento da cultura, um signo da peregrinação do Homem sobre a Terra em busca do Criador. Por isso não há sentido na idéia da sinfonia sagrada, do romance sagrado, da pintura sagrada, da escultura sagrada... O que é sagrado para mim pode não ser pra você e vice-versa. Se você não gosta da minha música favorita, significa apenas que ela não foi escrita pra você. E não existe uma só razão pra você se esforçar em entendê-la ou entender-me, porque – como dizia Borges – a felicidade não pode exigir esforço. Você tem sua música favorita – que te consola, te engrandece e te faz saltar obstáculos – e isso é tudo o que importa.

Pessoalmente, durante anos deplorei as 104 ou 106 sinfonias de Haydn, como queira, por achá-las todas iguais e igualmente tediosas. Hoje tenho todas, e não há uma só que eu não saiba apreciar. Não foi preciso ler tratados sobre Haydn para amá-lo, viver foi suficiente. Tudo amadurece e frutifica ao seu tempo, o Homem é mudança e eu mudei. Um dia, ouvindo a Sinfonia 93 Haydn falou comigo – e nunca mais deixei de escutá-lo. O que li sobre Haydn, li depois, e o fiz espontaneamente, com ilimitada alegria.

Tudo isso para negar a idéia de uma “discoteca básica” no campo da música clássica; para dizer que você não tem que gostar de Beethoven, de Mozart, de Haydn – e até mesmo de Bach, que para mim é a Voz de Deus neste mundo. Ninguém pode descobrir os compositores que escreveram pra você. Só você.

A idéia de que a música clássica é algo “superior” é desmentida pela própria biografia dos compositores – ou pelo comportamento dos críticos. Houve um ou outro anjo, é verdade, mas de resto eram gente tão falível quanto eu e você.  Claro que em seu íntimo também queriam tornar-se pessoas melhores, tendo muitas coisas em comum comigo e com você. E eis aqui a verdade: a única razão para se ouvir música clássica é gostar de música clássica. O resto é vaidade, somente vaidade.

Agora, me perdoe, mas quando o assunto é música sou radical. Creio que cada coisa encontra o seu lugar neste mundo, e que esses arranjos que se costumam fazer a partir dos clássicos são deformações. Villa-Lobos, por exemplo, é uma grande vítima dessas tentações audaciosas e burlescas, o que é uma pena: essencialmente harmônica, sua música orquestral é destruída quando reduzida à limitada dimensão de teclados ou pequenas formações instrumentais.

Um erro ainda maior é insistir na velha cantilena de que esse tipo de arranjo ajuda a popularizar a obra dos compositores “eruditos”. Isso é elitismo de baixo-nível; é pressupor que o iniciante não tem capacidade para apreciar aquilo que você aprecia. A “Sinfonia dos Mil” de Mahler é uma obra de fôlego, difícil e complexa, mas quando levada às areias de Copacabana pelo Projeto Aquarius reconciliou milhares de pessoas com a Vida. Entre elas, gente muito simples, que nunca tinha visto uma orquestra de perto.

Se você quer experimentar a obra rica, variada e – é forçoso admitir – extremamente irregular de Villa-Lobos, não se contente com sua sombra: ouça o original e descubra se ele escrevia pra você.

Revogando a afetada expressão “música erudita”, cuja pretensão é inaceitável, gostaria de ajudá-lo a dar os primeiros passos no mundo da música clássica sugerindo algumas obras.

Elas estão aqui, na seção Audições do seu logos eletrônico.

Experimente.

Muitas vezes, as grandes ocasiões da vida começam por parecer incidentes.
 

     

Home música: sugestões música: enologia música: o eleito música: conserto com s música: sacrilégios música: digressões música: aforismos música: argenta música: wahn música: o neutrino música: bayreuth música: a IX de Beethoven música: beethoven i música: beethoven ii música: elipses música: Kleiber música: parsifal música: Deus no labirinto I

Este site foi atualizado em 03/07/07