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Parsifal: a
Crucificação no Venusberg
©Ricardo Labuto Gondim
Ao Prof. Dr. José
Silveira da Costa
Ao Prof. Dr. Frei William Batista
Parsifal,
o último drama musical de Wagner está baseado em narrativas medievais que os
comentadores classificam como “mito de caráter cristão”. Sintético, o
conceito permite aos musicólogos evitarem as armadilhas que a antropologia e
a psicologia de Jung representam para os não-especialistas, saltando para
questões mais palpáveis como acordes, tonalidades flutuantes e
instrumentação. O problema é que o mito de caráter cristão tecnicamente não
poderia existir: a pré-condição do surgimento do mito é o politeísmo.
Mitologia é paganismo
O mito é uma
expressão de natureza genuinamente pagã. Culturas monoteístas como as do
antigo Israel não produziram mitos, mas incontáveis gêneros literários de
diferenciação complexa e sutil. No Pentateuco e demais livros do Antigo
Testamento o que há de supostamente mitológico foi gerado num período
anterior ao próprio judaísmo. Ou absorvido por Israel dos povos com quem
travou íntimo contato, como cananeus – que cederam aos hebreus a palavra “El”,
“Deus” – assírios, babilônios, egípcios, etc.
Tome-se o caso da
narrativa de Jonas, onde o profeta rebelde é engolido por um grande peixe: a
experiência ictiológica do protagonista pode induzir a classificação da
narrativa como mitológica, quando na verdade – em termos puramente
exegéticos – é uma simples novela. Os elementos pagãos foram
assimilados e alterados sob a ótica monoteísta do autor sagrado.
Considerando que para
os cristãos Jesus é o herdeiro do monoteísmo judaico, como fica o “mito
cristão”?
Logus Spermaticus
Gerada no ventre da
cultura greco-romana, durante a Idade Média a Igreja tomou como base a
filosofia pagã para sistematizar uma reflexão inteiramente nova: a teologia.
Afiançando coerência ao método, os pais da Igreja cunharam a expressão
Logus Spermaticus (Sementes do Verbo): por obra divina, os filósofos
politeístas – pois entre os socráticos não houve um único ateu –
intuíram a novidade do Cristo séculos antes da Encarnação. O Logus
Spermaticus justificou o uso embaraçoso de Platão e Aristóteles na
delicada instituição da doutrina do Deus Único, que encarnou, sofreu, morreu
e ressuscitou dos mortos – fenômeno inconcebível para muitos, que dirá aos
gregos e gnósticos.
As versões primitivas
do mito do graal também surgiram na Idade Média – mas sem escândalo ou
alarde, pois não tinham ligações sequer remotas com o cristianismo,
nem uma definição do objeto em si. A origem etimológica da palavra graal
é provavelmente o latim medieval gradale, que significa terrina,
prato, travessa, e que gerou o francês graal. Isso pode ser
confirmado pela popularidade da versão francesa do mito, mais difundida que
a alemã embora não existam diferenças gritantes entre elas.
Este graal impreciso
e mágico só se tornou um cálice ou vaso sagrado no início do século XIII por
obra do poeta borgonhês Roberto de Borond. E aqui encontramos a natureza do
que Albert Schweitzer chamou de mito religioso (A Busca do Jesus
Histórico, Novo Século, 2003): “...nada mais [...] do que as
idéias religiosas vestidas em uma forma histórica, modeladas pelo
inconsciente poder inventivo da lenda, e corporificada numa personalidade
histórica.” Em outras palavras: existe material mítico tanto nas
narrativas cristianizadas do graal quanto nos próprios Evangelhos, mas a
conexão entre o graal e o Cristo por Roberto de Borond já não é a ação
inconsciente da lenda – que de modo imponderável seleciona, cria e agrupa
incidentes – mas o ato seguro e racional de um autor monoteísta, com
propósitos dogmáticos e apologéticos específicos. O poeta apropriou-se do
mito assim como os primeiros teólogos se apropriaram da filosofia pagã.
Cristianizada, a
narrativa do graal não é um mito, ainda que haja mito nela – assim como o
Parsifal de Wagner não é um mito, mas um drama musical com base em
elementos míticos. Embora a antropologia estrutural de Lévi-Strauss pregue a
imanência perpétua dos arquétipos, veremos que a massa mítica foi utilizada
por Wagner com consciência e lógica.
O duplo cálice
Dependendo da versão
da narrativa, o graal de Roberto de Borond ora é o cálice da Última Ceia,
ora é o vaso com que José de Arimatéia recolheu o sangue do Cristo na cruz –
gesto cuja descrição não consta
nos Evangelhos canônicos: vivendo cinco
séculos antes da Teologia Liberal, Borond não hesitou em transformar José de
Arimatéia – homem mencionado em apenas duas passagens dos Evangelhos (Mt
27:57ss e Lc 23:50ss) – na eminência parda da Redenção.
Em carta a Mathilde
Wesendonk, Wagner afirmou que o graal era o relicário do sangue do Salvador.
Dualista de coração e mente, anos mais tarde escreveu o libreto utilizando o
mesmo método dos autores bíblicos: entre escolher uma versão ou outra, ficou
com as duas. O seu cálice, utilizado por Jesus na Páscoa final, também
serviu de recipiente para o sangue do Crucificado.
Apesar da dupla
cristianização do graal por Wagner, o drama exalta a origem pagã da
narrativa nos personagens de Kundry e Klingsor. Kundry é ou foi muitas
mulheres, entre as quais a Lilith judaica. O feiticeiro Klingsor –
personagem histórico, poeta do Wartburgo, suposto opositor do verdadeiro
Tannhäuser – é a última expressão de um paganismo incinerado pela moral
cristã.
Duas versões de Deus
No drama de Wagner, o
caráter cristão de Parsifal está muito mais próximo da doutrina católica do
“sofrimento purificador” do que da visão evangélica, cuja
ênfase está na ressurreição, não na crucificação. O desconcertante é que
Wagner, como muitos intelectuais alemães do século XIX nutria forte
antipatia contra o que chamava grosseiramente de romanismo.
Os leitores de Ernest
Newman podem objetar citando a clássica análise do Tannhäuser no
primeiro volume da História das Grandes Óperas (Editora Globo, 1954):
“...por essa época [da estréia do Tannhäuser], se agitava na
Alemanha a controvérsia religiosa, tornando-se corrente que, assim como
Meyerbeer nos Huguenotes tinha glorificado o Protestantismo, a
intenção de Wagner no Tannhäuser era a de exaltar o Catolicismo.
Chegaram mesmo a acusá-lo de se ter deixado subornar pelo partido
católico!”
A acusação é
totalmente equivocada: ao invés de revelar as inclinações católicas ou
protestantes do compositor, a análise mais profunda do Tannhäuser
descobre uma refutação ao catolicismo e a velada apologia do paganismo. A
tese – inédita – é um presente do logos eletrônico.
Wagner contra o Papa
É fácil supor que
Tannhäuser seja uma epopéia católica: a. todos os personagens são
devotos da Virgem Maria e a ela rogam pela redenção de Tannhäuser; b. todos
os pecadores arrependidos devem peregrinar até Roma em busca da benção do
Papa e da absolvição da Igreja. Acontece que as preces de Elizabeth e
Wolfram von Eschenbach à Théotokos (Mãe de Deus) não são respondidas.
Elizabeth morre para interceder junto ao Altíssimo, e não junto à Virgem
como poderia pretender uma nova Gretchen. Cantam os homens ao redor do
esquife: “Abençoada seja a pura donzela que agora, com os santos, cerca o
trono do Senhor”.
Além disso, o pobre e
compungido Tannhäuser peregrinou inutilmente à Cidade Eterna. Por seu
intercurso com Vênus está condenado ao Hades, cristão ou pagão pouco
importa: o poeta foi destinado ao Círculo Nono pela Igreja, a
despeito de todos os textos bíblicos que afirmam a salvação como ato
exclusivo de Deus. São Paulo prega em Romanos 3,23-24 que: “... todos
pecaram, estão privados da glória de Deus, mas são gratuitamente
justificados por sua graça, em virtude da libertação realizada em Jesus
Cristo”. Na cena final do Tannhäuser, Wagner prega: “Salve,
salve! Milagre da Graça salve! Redenção foi dada ao mundo!”.
Em resumo, na cena
final do Tannhäuser Wagner nega a fé na Virgem, revoga o poder da
Igreja, desdenha a autoridade papal e – aparentemente – sublima o poder da
fé: na verdade, sublima o poder do casto amor de Elizabeth em direta
oposição à materialidade do amor de Vênus. Este amor schopenhaueriano será
consumado vinte anos mais tarde com a estréia de Tristão e Isolda.
Wagner o Anticristo
As teses do jovem
compositor do Tannhäuser poderiam conquistar exaltados aliados e
nobres inimigos. Gênio em período integral, Wagner foi além. Ao mesmo tempo
em que negou o amor sensual de Vênus, afirmou um panteísmo pagão e
germânico: existem duas sutilezas perversamente traiçoeiras no
Tannhäuser. A primeira, apontada por Ernest Newman, foi indicada pelo
próprio Wagner num opúsculo sobre a encenação do drama; a segunda é outra
novidade do logos eletrônico.
Deixando o colo
úmido e sedoso de Vênus, Tannhäuser descobre-se num ensolarado vale à esquerda do
Wartburgo junto ao altar da Virgem. Num rochedo, um jovem pastor de cabras
toca pífaro e canta uma pequena melodia em louvor a Holda, que como observa
Newman, é “a velha deusa germânica da bondade, da doçura e da graça, cuja
vinda anual trazia prosperidade à terra. As intenções de Wagner são aqui
demasiado sutis para a vulgar compreensão dramática. Holda, diz-nos ele
[...], como outros deuses pagãos, foi banida para o interior da terra com
o advento do Cristianismo e, de deusa benfazeja, transformaram-na em
malévola. Figurava como símbolo de prazeres grosseiros e, de fato, chegaram
a identificá-la com Vênus [...]. Wagner [...] parece querer
dar-nos a impressão de que, aquilo que Vênus era para Tannhäuser, [...]
agora, depois que voltou a si, no ar puro do vale,
o é a doce e benfazeja Holda.
Se considerarmos a
sutileza seguinte, podemos estender a conclusão de Newman numa direção
insuspeitada. Eis o ponto: enquanto aguarda o retorno de Tannhäuser, o nobre
e leal Wolfram von Eschenbach – outro personagem histórico embebido em
mitologia, autor do Parzival, a principal fonte do Parsifal de
Wagner – pois bem, Wolfram canta a célebre elegia da chamada “Estrela
Vespertina”. Que estrela é essa? Os gregos a chamavam de Hésperos, e
a representavam como uma criança que a noite precedia a Lua erguendo um
archote. Para os romanos ela era Vesper – ou Lucifer. Nós que
– como Wagner – vivemos depois de Copérnico e Galileu, sabemos que não é uma
estrela, mas o planeta Vênus: na apaixonada homilia de Wolfram,
Wagner vela e ao mesmo tempo exalta o seu panteísmo, estendendo a
intolerância do Papa que condenou Tannhäuser à essência da religião cristã;
estende-a à fé que transformou a bondosa Holda numa Vênus material e
perigosa, banindo-a para o Hades com todo o séqüito de Wotan. Tannhäuser
é a mais irônica apologia ao paganismo que um artista jamais produziu.
A intolerância do
cristianismo é bíblica. Com duas linhas São Paulo enviou todas as entidades
pagãs para junto de Holda (I Cor 10,19-20). Em João 14,6 temos a questão
fundamental: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a
vida, ninguém vem ao Pai senão por mim”. A frase de Jesus tornou
impossível a tolerância e a alteridade religiosa em cinco continentes.
Felizmente, o extraordinário teólogo católico Karl Rahner resolveu a questão
formulando o conceito de cristianismo anônimo: em qualquer religião
todos são salvos por Jesus, quer O conheçam ou não. Em outras palavras: os
budistas, os mulçumanos, os apaches e os papuas da Nova Guiné dignos de
salvação serão salvos por Jesus – mesmo que nunca tenham ouvido falar Nele.
O cristianismo
anônimo é tardio. Estratificou-se a partir do Concílio Vaticano II, mais
de cem anos depois da estréia do Tannhäuser. Na première de
1845, em lugar de uma Alemanha unificada havia
uma confederação germânica
cuja principal potência era a monarquia austríaca. Wagner, então um
revolucionário ultranacionalista de 32 anos, percebendo que a Alemanha se
formava mais sob a Bíblia luterana do que sob o Fausto de Goethe
soube velar suas teses. Mas é possível que acreditasse que o panteão da
mitologia nórdico-germânica seria mais adequado – mais “alemão” – que o
Cristo luterano para agir no inconsciente do povo como elemento unificador –
claro, não em caráter religioso, mas exatamente em caráter mítico: embora
estejamos falando de uma época décadas antes de Freud e Jung, Wagner havia
sido precedido pela filosofia de Hegel, pelo racionalismo teológico de
Schleiermacher e por David Friedrich Strauss, que aplicou a explicação
mitológica às Sagradas Escrituras. Lembre-se que os alemães são o povo que
cunhou a intraduzível e sonhadora palavra “Wahn” – núcleo dramático
d’Os Mestres Cantores, única obra não-mitológica do senhor de
Wahnfried. Entretanto, como escreveu o Prêmio Nobel da Paz Albert
Schweitzer, “... em nenhuma parte a não ser no temperamento alemão
pode-se encontrar com a mesma perfeição o complexo vivo de condições e
fatores – de pensamento filosófico, agudeza crítica, visão histórica e
sentimento religioso – sem os quais nenhuma teologia profunda é possível”.
Em outras palavras, Wotan jamais teve chance.
O “catolicismo” do
Parsifal
A partir da
interpretação dos enigmas do Tannhäuser podemos afirmar sem nenhuma
hesitação que o suposto “catolicismo” do Parsifal não é romano, mas
wagneriano: é muito mais a visão de Schopenhauer e outros trágicos
alemães por quem Wagner nutria profunda admiração. Conseqüentemente ele não
permaneceu imune ao neoplatonismo budista e brâmane de Schopenhauer, que via
no cristianismo um desdobramento do budismo. Wagner já havia intuído a mesma
tese, encontrando no Parsifal a oportunidade de dilatar a idéia. Numa
carta a Liszt, citou a “pesquisa moderna” como tendo estabelecido de
forma “conclusiva” que “o cristianismo era um ramo
daquela venerável religião budista” que a partir da campanha de
Alexandre na Índia teria encontrado o caminho para as águas do Mediterrâneo.
Concebendo a vida
como destinada ao fracasso, em sua Peça de Consagração de Festival Cênico
em três atos Wagner tentou justificar a humanidade, outorgando ao
sofrimento seu sentido mais elevado. A obra que Nietzsche chamou de “desmoronamento
de Wagner diante da cruz” é antes de tudo uma epopéia budista.
“Só isso eu
ensinei e ensino: a dor e o fim da dor”
O budismo em
Parsifal pressupõe o entendimento do nobre caráter de uma religião – ou
filosofia – que pode ser classificada academicamente como “ateísmo
pessimista”. Como Parsifal no Segundo Ato, o Buda atinge a Iluminação por
seus próprios meios, como faria um filósofo. Nenhum espírito superior o
iluminou. A idéia de um deus supremo é absolutamente estranha ao budismo
original. Existem deuses, mas como os do Anel; superiores aos homens,
mas mortais. A premissa fundamental é que todo viver é sofrer. Como a vida é
fonte de dor, a suprema ambição do budista é romper o ciclo das encarnações
extinguindo a vida num nível tão profundo que permita o repouso no êxtase
eterno. Em seu drama teatral Jesus von Nazareth – que trata do Cristo
como homem – Wagner escreveu que “a vida humana é um contínuo assassinato
do eu. A morte, a mais perfeita realização do amor”.
A doutrina budista da
metempsicose ou transmigração da alma – a reencarnação – é evidenciada no
drama pela jornada de vários séculos feita por Kundry que, segundo Klingsor,
foi a Gundrígia nórdica e a Herodíade bíblica. No Primeiro Ato, quando os
escudeiros especulam se ela é uma bruxa, Gurnemanz explica que talvez ela
esteja expiando os pecados cometidos numa vida anterior. Wagner sabe o que
faz ao dizer tais palavras por um dos Cavaleiros do Graal: para os cristãos,
o Cordeiro de Deus tirou os pecados do mundo. Por definição – em termos
teológicos – se existe reencarnação expiatória o sacrifício do Cristo não
teve valor. Em outras palavras: se é preciso reencarnar, Cristo não é Deus –
ou seja, é uma matéria mítica como qualquer outra.
Quanto ao
conceito budista de “renúncia”, considere que – pela mediação de
Schopenhauer – esta é uma idéia que impregna toda a obra de Wagner. Já a
renúncia à sexualidade é mera aparência e deve ser vista num contexto
filosófico. Parsifal não prega a abstinência, mas a libertação do Eu.
Ainda
que o exemplo seja grosseiro, Amfortas é filho de Titurel, Lohengrin é filho
de Parsifal. A renúncia – a autonegação – não é a castidade, mas a aceitação
da responsabilidade moral. Também é verdade que Parsifal rebaixa o
elemento erótico à fonte de tentação e do pecado – o que teria alegrado
Schopenhauer.
Wagner, a Quarta
Pessoa da Trindade
Do ponto de vista da
ortodoxia cristã, o sincretismo de Parsifal poderia ser interpretado como
misticismo ingênuo: Wagner fundiu as principais doutrinas do budismo com
materiais dos Evangelhos e transpôs o supremo sacramento cristão, a
Eucaristia, para o contexto cristianizado da lenda do graal – signo místico
desprezado por qualquer teólogo. A questão é que Richard Wagner foi uma das
maiores culturas humanísticas do seu tempo. O sincretismo do Parsifal
não é uma expressão de ingenuidade ou de processos mentais inconscientes: é
o ato racional de uma erudição madura no auge do seu poder criador.
Heterodoxo, Wagner
apregoava que a função da arte era salvar a essência da religião “apreendendo
o valor simbólico dos seus signos míticos”. Só assim as verdades que
se ocultavam no assentimento incondicional e literal da religião
poderiam ser reveladas. Eis porque a manipulação controlada da imagética
cristã em Parsifal. Para Wagner, o cálice, a lança, a Sexta-Feira Santa, o
batismo, a Eucaristia e a própria figura do Cristo não são signos de um
“mito religioso”: são signos míticos puros. Por isso a liberdade de fundir
tantos elementos contraditórios. No drama, o graal é a manifestação do
perdão pelo sangue do Cristo, mas também a promessa de vida eterna e
presença de Deus entre os Homens. Essa fé no poder redentor do Sangue do
Crucificado é o signo da adesão voluntária de Wagner à fusão das éticas
cristã e budista. Simbolicamente podemos dizer que o compositor transporta a
crucificação para o Venusberg, celebrando um rito eucarístico que derrama
panteísmo, paganismo, monoteísmo, filosofia alemã e oriental no mesmo
cálice.
Mas onde fica o
Venusberg? Onde está a Montanha Mágica de Wagner? Rejeitado pelo Papa, por
muito tempo o dilacerado Tanhaüser em vão o procurou. Para os iniciados não
há segredo, o Venusberg é uma colina em Bayreuth onde Wagner ergueu seu
Monsalvat, o Festspielhaus concebido como “um Castelo do graal
dedicado à arte” para “abrigar o segredo mais profundo do mundo”:
a religião essencialmente germânica que Wagner tentou fundar, tendo sua
Peça de Consagração de Festival Cênico em três atos como liturgia, um
palco como altar e o compositor como sacerdote. Restringindo as récitas
deste drama à Bayreuth, Wagner tinha fé que seu enigma seria decifrado mais
cedo ou mais tarde por seus contemporâneos.
O templo e a liturgia
permanecerão para sempre. Da fé exótica, pela graça de Deus só restam
cinzas.

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