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Paráfrases
da Einfühlung
©Ricardo Labuto Gondim
(previamente publicado em Áudio & Vídeo Maganize)
Certos espíritos penetrantes celebram a
internet como o triunfo da palavra escrita. O equívoco beira a utopia:
ninguém lê – digo, ninguém lê de fato. O primeiro item das técnicas de
redação para a rede é “seja breve”; o segundo, “não aprofunde”. O ardil
meia-bomba que os preguiçosos e blefadores do passado chamavam “leitura
dinâmica” tornou-se o padrão. Não é um fenômeno da internet, mas a prática
de uma civilização de matriz audiovisual. Multidões incapazes de entender
nossa paixão por CDs e LPs que só comportam imagens na capa.
Como minha falta de
talento não é falta de lucidez, sou grato àqueles que esquiam por um texto
em lugar de escalá-lo. Paulo Coelho também. Se não fosse assim – para ganhar
a vida – ao invés de escrever teríamos que trabalhar.
Meu pai dizia que o
melhor negócio do mundo é o tobogã, onde você ganha dinheiro com a bunda dos
outros. Já que o tobogã saiu de moda e não sei fazer absolutamente nada
direito, redigi, reciclei, plagiei e adulterei esta série de sentenças de
grande apelo popular para a versão impressa da Áudio & Vídeo Magazine – em
nome das virtudes do ócio, dos declínios de uma maturidade galopante e de
uma requisitada prudência de caráter pecuniário.
Espero sinceramente
que seus olhos escorreguem por elas.
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Comecemos pela
maledicência, postulando o sucesso na academia e na manicure: para manchar
a reputação de Richard Wagner não é preciso citar os infinitos exemplos do
seu mau-caratismo. A castanhola na Música do Venusberg é suficiente.
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O cinema não foi o
primeiro empreendimento a explorar os efeitos especiais como atração para
o grande público. A idéia surgiu por volta de 1820 com os exageros
extraordinários da Grande Ópera francesa. Numa perspectiva histórica
podemos dizer que os franceses inventaram a Broadway e que os
estadunidenses tiveram o mau gosto de importá-la. Jamais foram perdoados.
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Wagner foi o
opositor mais bem armado e virulento da tradição da Grande Ópera francesa.
Contudo e com razão, no instigante “O Dramaturgo como pensador”
(Civilização Brasileira, 1987) Eric Bentley afirma que nenhum outro
compositor foi mais influenciado pelo gênero que o próprio Wagner. Nesse
campo, receio, a trilogia com prólogo do Anel do Nibelungo – que exigiu
seu próprio teatro para ser encenada – é uma penosa evidência.
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Se você acha que o
Anel não sustenta a tese, considere o que Wagner escreveu em 1861 sobre
uma temporada em Paris vinte anos antes: “a perfeição musical e plástica
da mise-em-scène a que assisti no Grand Opera não poderia deixar de causar
a impressão mais estimulante e deslumbrante”.
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O problema, meu
caro, é que Wagner – como todo mundo – nada queria dever aos seus
contemporâneos. No caso, o berlinense Giacomo Meyerbeer, um lacaio do
grande público que tudo submeteu ao gosto popular (a exemplo do que tento
fazer com esta crônica, escrita para agradar multidões). A obra de
Meyerbeer é a prova da burlesca e voraz ironia do tempo, que nos empurra
para a cova e para o esquecimento enquanto eleva e consagra o oportunismo
tradicional.
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Em novembro de
1861, ano em que registrou as reminiscências francesas, Wagner voltou a
Paris e lá permaneceu até janeiro de 1862. Nesse breve período escreveu o
libreto d’Os Mestres Cantores. É forçoso admitir que o exaltado
nacionalismo da ópera deve tanto aos ideais políticos de Wagner quanto a
exigências pecuniárias. O compositor empobrecido – que a despeito de ser
um canalha foi uma das maiores culturas humanísticas de seu tempo – estava
farto de ver os Andrew Lloyd Webber da época conquistando aplausos e
vertigens de ouro e prata. Particularmente inspirado pela invejada
prosperidade de Meyerbeer, Wagner concebeu os Mestres Cantores como uma
comédia para fazer dinheiro. Mas nem por um compasso traiu seus idéias
artísticos: Os Mestres tem quatro horas de duração e cenas de rigorosa
escrita polifônica – que distanciam a obra de todas as óperas de Meyerbeer
juntas.
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Todo ser humano é
trágico, patético e eventualmente ridículo. Não vale a pena a gente se
levar muito a sério. Se Wagner realmente acreditasse que suas obras eram
mais importantes que ele mesmo, teria sido um homem melhor e mais feliz.
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Segundo Alfred
Newman, Os Mestres Cantores tem um único sucessor, a obra-prima de
Strauss, O Cavaleiro da Rosa. Bernstein – sobre quem falaremos mais à
frente na vã tentativa de traçar uma ligadura sobre estas divagações
staccato – foi, em minha opinião, um dos grandes intérpretes da obra – e
sua gravação, provavelmente a de melhor som.
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Dizem que Strauss
apresentou-se como “o autor de O Cavaleiro da Rosa” aos militares que
foram interrogá-lo durante os processos de desnazificação. Segundo o
cineasta Billy Wilder, que na juventude entrevistou o compositor, esse
envolvimento era bastante improvável: Strauss não parecia interessar-se
por nada além de sua própria música.
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Em A Guerra de
Alan, excelente novela gráfica recém saída do forno (Zarabatana Books,
Campinas, 2010), o narrador, soldado Alan Ingram Cope cita o testemunho de
seu amigo, o compositor e pianista Gerhart Münch, que conheceu Strauss em
1930: “aquele homem não conhecia nada além de música. Ele deveria ter
ficado com sua grande boca fechada quando o assunto era política, pois ele
não entendia nada”. |

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Ainda a respeito
de Wagner Eric Bentley tem outra instigante teoria, que enxerga a
impossibilidade da ópera verdadeiramente trágica com que o compositor
sonhava: “[a ópera] conta histórias que serviriam a propósitos trágicos; e
os libretos, se estudados separadamente, revelam alegorias conscientes e
inconscientes. Mas, sabendo que um libreto não é uma tragédia e esperando
o momento de transformar uma ópera em uma tragédia através da dramatização
da partitura, Wagner escreveu libretos mais curtos e repetitivos do que os
outros compositores. O resultado conseguido é que o final de seus dramas
apresentam uma conclusão para a história, mas não um encerramento trágico.
Para suplantar ou disfarçar essa dificuldade, Wagner acostumou-se a
terminar seus trabalhos com um virtuosismo maior que o apresentado durante
as obras. Temos então [...] o entrelaçado de todos os ‘motivos principais’
no final de O Anel.” Agora vem a melhor parte: “isso evidencia gênio
musical, mas não é uma tragédia. Para investigar a intenção trágica, não
devemos só assistir a ópera, mas estudar o libreto como foi elaborado por
Wagner e pelos wagnerianos”. Grifei.
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Wagner foi um
grande poeta, mas em minha dissipada juventude não pude deixar de notar
que, ao menos no Anel ele realmente fatigava a repetição, com personagens
recontando uns aos outros tudo o que havia sido representado – e também
repetido – na noite anterior. Fui severamente repreendido por torcedores
do Wagner F. C., que entendem que a devoção ao gênio implica na supressão
do senso crítico.
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Aliás, me permita,
mas a supressão do senso crítico em caso de amor à Arte é uma triste
manifestação de estreiteza, pois vem sempre entrelaçada à ruminados e
frios argumentos de algibeira – que lhe emprestam aquela máscara de
ponderação onde todo espírito fatigado ou embotado se esconde.
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Ao defender o seu
Amor, seja germânico como Willian Shakespeare: traga a espada em uma mão e
o incêndio em outra, como cães atados!
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Nada neste mundo
pode crescer e estratificar-se sem oposição, de modo que toda discordância
– quando praticada com respeito e inteligência – engrandece. Não sei se as
razões de Bentley são reais, mas tem fundamento. |

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Certos espíritos
penetrantes afirmam que a versão de Georg Solti para o ciclo do Anel do
Nibelungo está “superada”. Como gostam de repetir, “Wagner não era tão
wagneriano assim”. Num certo sentido é verdade. As interpretações de
Karajan, Boulez e Janowski são mais claras, mais refinadas e, me parecem,
mais autênticas – a julgar pelo que sabemos sobre Hans Richter, que
ensaiou e estreou a obra sob a supervisão pessoal de Wagner. Mas quem é
capaz de deter um arrepio quando, em meio a um escuro, baixo e estático
acorde nos trombones, a voz de Eberhard Wächter emerge cautelosamente
dizendo “Schwüles Gedünst schwebt in der Luft...”? Como não exaltar-se com
o maelstrom de fogo nos violinos da Filarmônica de Viena, elevando-se na
vertigem de um céu imaginário saturado de metais sobre o pecado de um deus
traiçoeiro e pagão?
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Amo tanto o
martelo nas mãos de Solti quanto o bisturi de Boulez, e por isso mesmo
prefiro Solti na edição mais antiga do CD. Purificando a gravação das
mazelas de sua própria época e do tempo, acho que a versão reprocessada
diluiu o fogo original.
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Tão
características quanto o Anel de Solti são as sinfonias de Mahler por
Bernstein. O ciclo tem momentos de arrepiante beleza, como a I e a V
tocadas em Cinemascope. Mas convêm lembrar, são versões muito, muito, mas
muito pessoais – embora, creio, o amor de Bernstein pela obra de Mahler
lhe desse o direito de tocar a música do jeito que a sentia.
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Aliás, é por isso
que mortos tão empoeirados quanto Mozart e Beethoven passam bem, obrigado,
revigorados permanentemente por leituras personalistas ou pelos
anacronismos e modismos de cada época – como, por exemplo, a prática dos
“instrumentos originais” (há anos perseguia redigir um paradoxo desses).
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A “singularidade”
de uma interpretação é mais um item transitório que se justapõem ao
conjunto das variáveis de uma performance. Ainda que extravagante, não é
definitiva. Pode circunstancialmente afetar o caráter da obra... mas não o
mármore indelével da partitura.
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Acreditar na
fidelidade histórica da “prática de época” é aceitar a tese de que o
passado irrevogável e irrecuperável é moldado pelo presente. Essa
mistificação não deixa de ser atraente: cada um de nós deixou para traz
algo que adoraria incinerar.
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Bernstein dizia
que, em caso de divergência com a orquestra era “pago para ter razão”. Mas
o que não podemos aceitar é o marketing da indústria, que tenta vender
Bernstein como “O Grande” intérprete de Mahler. Não é. Aliás, nem chega
perto.
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Quando falamos em
Beethoven, dois nomes tempestuosos irrompem em sua magia perpétua:
Toscanini e Furtwängler. São duas visões paradigmáticas, monolíticas, tão
poderosas que raramente são conciliadas pelo mesmo ouvinte. Gosta-se
irresistivelmente de um ou de outro, raramente de ambos. Mas Mahler...
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Existem grandes
mahlerianos como Mengelberg (que o “legitimou” como compositor), Bruno
Walter (discípulo, amigo e biógrafo), Horenstein, Scherchen, Klemperer e
Tennstedt, para citar alguns. Mas nenhum foi senhor absoluto do exaltado
arco de Sermões, Salmos e Lamentações que Mahler legou à humanidade do
fundo de sua dilacerante intimidade com a tragédia: oito irmãos mortos na
infância; uma irmã falecida aos 26 anos vítima de tumor cerebral; um irmão
que se matou aos 22; origem judaica discriminada sistematicamente; perda
da filha mais velha, Maria, de apenas 4 anos vítima de escarlatina e
difteria; no dia do funeral da menina em 1908, Mahler recebeu o
diagnóstico de uma doença cardíaca incurável, que o consumiu até matá-lo
aos 50 anos, em 1911.
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Mesmo a IV
Sinfonia é uma suave e delicada mensagem do Reino dos Mortos, uma das
razões do fascínio hipnótico de suas obras longas e eventualmente
retóricas: ao ouvi-las, se não sentimos a Nostalgia do Infinito, buscamos
a mesma esperança de que a vida não acaba sob o mármore. Mahler tentou
rasgar o véu... |

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Gustav Mahler,
filho do crepúsculo prodigioso do século XIX, foi um regente e compositor
perseguido e discriminado por ser judeu. Bernstein, contemporâneo da
revolução dos direitos civis, foi um regente e compositor judeu engajado
na defesa das minorias. Mahler viveu esmagado por uma atormentada
inquietação espiritual, que não se saciou e tampouco se definiu
genuinamente entre judaísmo, cristianismo e um orientalismo
pós-Schopenhauer. Bernstein viveu uma angustiante indefinição entre a
hetero e a homossexualidade. Mesmo separados por muitas décadas, mesmo
vivendo uma ansiedade desigual e habitando um mundo distinto, a empatia de
Bernstein por Mahler é autêntica – legitimando as singularidades e as
liberdades interpretativas do regente.
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“Espera aí,
Gondim: você disse ‘legitimando as liberdades interpretativas?” Eis o
deslocado centro do meu relato: em termos filosóficos, esse é o aspecto
fenomenológico da música.
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A fenomenologia é,
grosso modo, uma metodologia para perceber e descrever a realidade pela
ótica da consciência do ser humano, em oposição à via dos dados
“objetivos” (aliás, o segredo para avaliações de áudio autênticas e
subjetivas). Einfühlung é a palavra de origem alemã aplicada para definir
a experiência de vivenciar os pensamentos, sentimentos e emoções do outro,
o processo empático.
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Por isso podemos
amar ou odiar a leitura que Solti fez de Wagner ou Bernstein fez de Mahler
com igual intensidade: arrebatado pela paixão, muitas vezes o intérprete
se deixa atraiçoar pela einfühlung, revelando a si mesmo quando pensava
revelar a obra; ou, ao contrário, revelando o compositor pela expressão do
seu próprio ardor. Às vezes isso é bom, às vezes não é, mas deve ser
assim: a einfühlung é a dádiva da música. A beleza e a dor que encontramos
em Mahler... é em nós que ela existe. |
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