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16/04/13

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OSB, Kleiber e Karajan

©Ricardo Labuto Gondim

 

Postulando uma orquestra de “nível internacional”, a alta direção da OSB escolheu a senda do ineditismo: criou um teste para reavaliar os músicos com os quais seu diretor artístico e regente titular trabalha há cerca de seis anos. Se nesse período o maestro não soube identificar os algozes do som internacional que persegue, não deveria reavaliar-se?
 

Existe uma tradição autocrática no pódio. Sobre cada regente que se alça diante da orquestra, erguem-se os fantasmas de Furtwängler, Toscanini, Klemperer, Kleiber e outros leões dessa mesma raça. Mas até onde sabemos, nenhum deles trocou a batuta pela foice, a despeito da glória perpétua que consagra seus nomes.
 

Depois da Guerra, quando Erich Kleiber tornou a pisar em Viena, declarou que voltara “para limpar a vida musical da cidade”. Kleiber, cuja trajetória diagnostica um caso raro de integridade medular (o laudo está aqui), tinha uma visão de excelência a ser conquistada no pódio – não nos tribunais de uma Justiça que se arrasta em adagio, em langsam, favorecendo a iniqüidade, que ataca em presto.
 

Herbert von Karajan assumiu a Filarmônica de Berlim de fato nos primeiros meses de 1955. Ele amava a orquestra, que regera pela primeira vez em 1938. Mas a Filarmônica estava aquém dos seus próprios ideais artísticos – ancorados na tradição de Arthur Nikisch – que colidiam com a escola que Furtwängler havia criado. Eis dois trechos das longas entrevistas que concedeu a Richard Osborne (“Conversando com Karajan”, Editora Siciliano, 1992):

“Em Vancouver, começamos com uma abertura de Beethoven, e o primeiro acorde saiu completamente sem consistência na harmonia. Por mim, eu teria me esgueirado do pódio e desaparecido”.

Mais à frente, prossegue HvK:

“O fato é que muitos músicos estavam chegando à idade de se aposentar, de modo que seria possível deixar a orquestra jovem de novo num período de seis ou sete anos”.

Ao invés de reger a degola de seus músicos; ao invés de tentar revogar um direito arduamente adquirido, que consagra cada estante em Berlim e em todas as orquestras do mundo, Karajan - que já era uma lenda em toda a Europa e não um nome obscuro - refreou as ambições que seu talento insofismável prometia consumar e preservou-lhes a dignidade: o trabalho, ensina a sociologia, é a categoria fundante do ser social.
 

Parafraseando o teólogo Carlos Mesters, se a música tem compromisso com tudo o que é humano, tem compromisso também com o erro. Mas – Graças a Deus – alguns erros podem ser desfeitos com humildade, a maior expressão da autêntica grandeza.
 

Humildade é elemento do que Sócrates denominava "aretê": excelência moral, que está acima de qualquer pódio.
 

Como nossas elites não estão à altura do país, o Brasil é perverso e desdenhoso com os que devotam suas vidas à cultura. Mas sempre há esperança. Um exemplo emocionante foi a heróica resistência dos membros da OSB Jovem, que mesmo à mercê de forças poderosas dignamente recusaram a traição aos seus mestres: abandonaram suas estantes e negaram ao maestro o seu instrumento - expondo-o à dissonância das vaias e, depois, ao silêncio.

Haydn teria aprovado.
 

A Justiça brasileira também tem seus virtuoses. Ainda que se mova melancólica, atormentada e abatida como um vasto Adagio de Mahler, nem sempre deságua numa tríade. Aos que ainda se comovem em exaltada indignação contra o arbítrio da injustiça, recomendo a esperançosa leitura de uma sentença jurídica. Onde o magistrado, o Exmo. Sr. Juiz de Direito Rafael Gonçalves de Paula – num episódio completamente diferente –, ensina com brilhantismo, amplitude de visão e força de caráter que nem mesmo a Justiça está acima da Ética. Leia e não perca a fé. Clique aqui.




 

 

     

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Este site foi atualizado em 19/05/11