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OSB, Kleiber e Karajan
©Ricardo Labuto Gondim
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Postulando uma orquestra de “nível
internacional”, a alta direção da OSB escolheu a senda do
ineditismo: criou um teste para reavaliar os músicos com os quais seu
diretor artístico e regente titular trabalha há cerca de seis anos. Se nesse
período o maestro não soube identificar os algozes do som internacional que
persegue, não deveria reavaliar-se?
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Existe uma
tradição autocrática no pódio. Sobre cada regente que se alça diante da
orquestra, erguem-se os fantasmas de Furtwängler, Toscanini, Klemperer,
Kleiber e outros leões dessa mesma raça. Mas até onde sabemos, nenhum
deles trocou a batuta pela foice, a despeito da glória perpétua que
consagra seus nomes.
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Depois da
Guerra, quando Erich Kleiber tornou a pisar em Viena, declarou que voltara
“para limpar a vida musical da cidade”. Kleiber, cuja trajetória
diagnostica um caso raro de integridade medular (o
laudo está aqui), tinha uma visão de
excelência a ser conquistada no pódio – não nos tribunais de uma Justiça
que se arrasta em adagio, em langsam, favorecendo a
iniqüidade, que ataca em presto.
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Herbert von
Karajan assumiu a Filarmônica de Berlim de fato nos primeiros meses de
1955. Ele amava a orquestra, que regera pela primeira vez em 1938. Mas a
Filarmônica estava aquém dos seus próprios ideais artísticos – ancorados
na tradição de Arthur Nikisch – que colidiam com a escola que Furtwängler
havia criado. Eis dois trechos das longas entrevistas que concedeu a
Richard Osborne (“Conversando com Karajan”, Editora Siciliano, 1992): |
“Em Vancouver,
começamos com uma abertura de Beethoven, e o primeiro acorde saiu
completamente sem consistência na harmonia. Por mim, eu teria me
esgueirado do pódio e desaparecido”.
Mais à frente,
prossegue HvK:
“O fato é que
muitos músicos estavam chegando à idade de se aposentar, de modo que seria
possível deixar a orquestra jovem de novo num período de seis ou sete
anos”.
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Ao invés de
reger a degola de seus músicos; ao invés de tentar revogar um direito
arduamente adquirido, que consagra cada estante em Berlim e em todas as
orquestras do mundo, Karajan - que já era uma lenda em toda a Europa e não
um nome obscuro - refreou as ambições que seu talento insofismável prometia
consumar e preservou-lhes a dignidade: o trabalho, ensina a sociologia, é a categoria fundante do ser social.
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Parafraseando o
teólogo Carlos Mesters, se a música tem compromisso com tudo o que é
humano, tem compromisso também com o erro. Mas – Graças a Deus – alguns
erros podem ser desfeitos com humildade, a maior expressão da
autêntica grandeza.
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Humildade é
elemento do que Sócrates denominava "aretê": excelência moral,
que está acima
de qualquer pódio.
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Como nossas elites não estão à altura
do país, o Brasil é perverso e desdenhoso com os que devotam suas vidas à
cultura. Mas sempre há esperança. Um exemplo emocionante foi a heróica
resistência dos membros da OSB Jovem, que mesmo à mercê de forças
poderosas dignamente recusaram a traição aos seus mestres: abandonaram
suas estantes e negaram ao maestro o seu instrumento - expondo-o à
dissonância das vaias e, depois, ao silêncio.
Haydn teria aprovado.
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A Justiça brasileira também tem seus
virtuoses. Ainda que se mova melancólica, atormentada e abatida como um
vasto Adagio de Mahler, nem sempre deságua numa tríade. Aos que
ainda se comovem em exaltada indignação contra o arbítrio da injustiça,
recomendo a esperançosa leitura de uma sentença jurídica. Onde o
magistrado, o Exmo. Sr. Juiz de Direito Rafael Gonçalves de Paula – num episódio
completamente diferente –, ensina com brilhantismo, amplitude de visão e
força de caráter que nem mesmo a Justiça está acima da Ética. Leia e
não perca a fé.
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