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música: o neutrino |
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05/09/10 |
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O Neutrino ©Ricardo Labuto Gondim
O telefone apagou o fogo. Sem procurá-la, apertei a pausa no controle remoto. A súbita imobilidade de Herr Karajan aperfeiçoou a imprecisão borrada do laserdisc, transformando um registro histórico numa abstração. - Alô. Francisco Joffily, um dos maiores críticos de música do Brasil. O único convidado das Américas para as comemorações do sesquicentenário da Filarmônica de Viena em 1992. Um homem radicalmente culto, versado em não sei quantos idiomas, capaz de narrar mil anos de história européia sem hesitar em um único nome ou data.
Paul Dukas, compositor francês celebrizado pela menos ambiciosa de suas peças, O Aprendiz de Feiticeiro. Amigo de Debussy, professor de Messiaen, crítico influente e erudito, Dukas perseguiu um ideal de perfeição tão elevado e inflexível que não poupou a si mesmo: numa noite fria de 1935 - pouco antes de morrer aos 69 anos – atiçou a lareira com a maior parte de sua obra. - Eu mesmo,
respondi. - Gosto muito de Dukas. Adoro aquela sinfonia, uma sólida construção em três movimentos na tradição cerebral e grandiosa de César Franck. O primeiro e o último andamento são leves, agitados e brilhantes, separados por um tocante Andante espressivo. Uma complexidade peculiar disfarçada por temas ecléticos e melódicos. Contudo, a obra permanece subestimada. As versões que conheço em disco são precisas, mas de uma assepsia burocrática. Os regentes não se esforçam por enxergar ou simplesmente recusam as potencialidades dramáticas da partitura. Em mais de uma ocasião tentei impor ritardandos, fortes, pianos e crescendos, solfejando firmemente a música numa voz acima dos alto-falantes.
Hesitei por um momento: - Não seria
“Gondin”? A conversa varou três séculos. Francisco é um homem para ser ouvido, de modo que não me distraí pensando no Gondim regente. Aliás, se eu não tivesse tantos homônimos, meu amigo teria provocado a desejada surpresa. Mas não, não dei nenhuma importância ao fato. Esse foi o meu primeiro erro.
Fiquei sem entender. Poucos dias depois, Holbein Menezes, o decano e mestre da audiofilia brasileira me enviou um artigo inédito partilhando novas experiências com a ambiência de sua invejada sala de música, a sand-filled. Testando um divisor de freqüências com um corte de 48 dB por oitava, o Velho Leão descreveu as dificuldades que a instrumentação da Sinfonia em Ré menor de Franck impõe à reprodução “da música em conserva”. Emulando pesados acordes de órgão, a sinfonia é um desafio à articulação dos graves e uma ameaça de reverberação permanente. Num parágrafo qualquer - entre dois hífens – Holbein mencionou que o regente da estréia da sinfonia era o tal Ricardo Gondim. - Ah, não! - pensei em voz alta. – Nessa o Velho Leão escorregou.
O belga César Franck trabalhou na composição de 1886 a 1888, preparando a estréia em 1889 - quase 30 anos depois da Guerra Franco-Prussiana, cujas memórias ainda nutriam o rancor anti-germânico de cada coração francês: além de imputar à França requintadas humilhações, a guerra fora induzida por uma traição. Um estratagema tão simples e tão abominável que passou à história. Eis os fatos: embora sob uma ótica política e estratégica a guerra parecesse mais desejável aos dois países do que propriamente inevitável, tanto o rei prussiano quanto o imperador francês tentavam embargá-la. Num último esforço de paz, Guilherme I da Prússia enviou um extenso telegrama a Napoleão III.
O conflito se estendeu de 1870 a 1871. Napoleão III perdeu a coroa - e a França, Metz e boa parte da Lorena, a Alsácia e cinco bilhões de francos em ouro a título de indenização de guerra. Já o povo ganhou três anos de opressão: os alemães só deixaram o país com o último cêntimo pago em setembro de 1873. A derrota fortaleceu o articulado projeto de Bismark que o desastrado Napoleão III tentara sabotar por todos os meios: a unificação alemã. Para a vergonha dos franceses, Guilherme I foi proclamado Kaiser do Segundo Reich em pleno Palácio de Versalhes, em janeiro de 1871. Nesse ambiente de nacionalismo dilacerado, César Franck compôs uma obra que funde a estrutura cíclica francesa a um sinfonismo essencialmente germânico, sob a ostensiva influência de Wagner e Liszt. O tema principal e cíclico é na verdade uma frase cromática que se estende por quatro infinitos compassos. A instrumentação grandiosa inclui o odiado corne-inglês utilizado por Haydn e Beethoven: bastava a grade da partitura para despertar uma xenofobia destilada pela memória, pela humilhação e pelo ódio.
A estréia em 17 de fevereiro de 1889 suscitou críticas de todos os lados - ácidas, ferinas e injustas. Os maiores nomes da música francesa se levantaram contra a Sinfonia em Ré menor. Franck morreu no ano seguinte, e nenhuma personalidade compareceu ao funeral. Sua reabilitação só ocorreu quatorze anos depois, quando um monumento foi plantado em seu túmulo. Tudo isso me veio à mente sem esforço, há muito sonhava escrever um artigo sobre a Sinfonia em Ré menor. A questão é que na mesma medida em que me assombra, a complexidade da sinfonia me intimida. Cada compasso do segundo movimento, por exemplo, tem uma relação direta com o compasso correspondente no terceiro. Por isso os tempos de execução dos dois andamentos são praticamente os mesmos nas melhores interpretações. Na maioria dos estudos que encontrei essa co-relação estrutural é levemente mencionada. Os poucos autores que se arriscaram a explorá-la o fizeram numa musicologia de alto nível, incompreensível para mim. Limitado ao aspecto histórico, não hesitei em enviar um e-mail ao Velho Leão mencionando o equívoco. A resposta - a primeira vertigem de assombro - chegou pelo correio. Holbein me enviou os fac-símiles de quatro ou cinco verbetes colhidos entre os 29 volumes do The New Grove Dictionary of Music and Musicians. Eles tratavam de não um, mas três – três Ricardo Gondim. Corri os olhos nos verbetes, desesperei, mas antes de me debruçar sobre eles abri a biografia de Franck por Achile de Leurre na edição de 1909. Para meu espanto, no texto lido a exaustão encontrei a novidade do meu próprio nome. “Não é possível”, pensei, sentindo o rosto enrubescer e latejar de calor. “Reli este livro não sei quantas vezes... De onde saiu esse Gondim?” Abri outro volume dedicado à música. E outro. E mais outro. Sôfrego, angustiado, não recolocava os livros na estante, mas deixava-os cair no assoalho erguendo uma pira involuntária para imolar minha razão. Os verbetes do New Grove foram ainda mais perturbadores. Não havia um verbete específico para “Gondim, Ricardo”, mas três cavalheiros homônimos eram mencionados em episódios dispersos em três séculos. O primeiro RG estava ligado a uma performance privada das Sinfonias 93 e 101 de Haydn. A execução supostamente aconteceu na passagem do Ano Novo de 1795, na propriedade de um aristocrático amigo do empresário Johann Peter Salomon, que levou Haydn para Londres. Quase cem anos depois, numa noite de março de 1886 em Moscou, um certo Ricardo Gondim regeu a estréia da Sinfonia Manfredo de Tchaikovsky. Senti uma náusea profunda ao ler a nota. Até onde sabia – e tinha certeza absoluta de sabê-lo – o regente da estréia de Manfredo era Max Erdmannsdörfer. Mas o texto me contradizia: Erdmannsdörfer fora substituído a pedido do próprio Tchaikovsky porque Gondim, “homem de aproximadamente 40 anos, implorou para reger um ensaio, demonstrando um conhecimento da obra como se a tivesse ouvido a vida inteira”. Consultar a biografia de Tchaikovsky estratificou o terror. Em 1889 o tal RG
reapareceu em Paris na estréia da sinfonia de Franck, desaparecendo
novamente para saltar das sombras ao pódio da Sinfonia de Dukas em 1896.
Nunca mais se ouviu falar nele. Havia algo de profundamente errado no mundo, pois até então tinha certeza de que todos os livros que atirei ao chão estavam errados; o New Grove estava errado; Francisco Joffily, Alexandre Santangelo e o Velho Leão estavam errados. Estavam errados porque estavam certos, confirmando-se mutuamente. Sem hesitar mais, consumido de dúvida e medo, acampei na Biblioteca Nacional. Esgotei enciclopédias, biografias, recortes de jornal e a paciência das bibliotecárias. Aqui e ali, em escamoteados registros, encontrei a descrição de um gesto, de uma forma de olhar, de um modo peculiar de falar à orquestra... Uni os fragmentos e obtive a imagem completa de três homens que eram o mesmo homem; formei a minha própria imagem. Questionei minha
sanidade, pois seria impensável supor que uma fraude Universal havia sido
urdida para enlouquecer um único indivíduo sem qualquer relevância
histórica: eu, Ricardo Gondim. Vinte horas doentias de sono não me
refizeram. Mas, como qualquer pessoa à beira de um colapso, puxei um último
e tênue fio de lógica e razão para tecer hipóteses: Segunda hipótese: você é louco. Não escrevi este relato - portanto, se você o lê, este é o seu delírio, não o meu. Você é quem está sonhando. Terceira hipótese: afetado por um intrincado fenômeno isquêmico, sofri um colapso mnemônico ridículo. Quarta hipótese: vítima de uma negação burlesca e patológica do Eu, abdiquei dos meus homônimos para não renunciar a mim mesmo. Quinta hipótese: impelido por um ego privado de humildade, engendrei o delírio narcisista que ora relato. Sexta hipótese: (não quero especular sobre o que não suportaria admitir). Sétima hipótese: viajei no tempo de um modo inexplicável para realizar fantasias. Embora absurda, à impossibilidade da sétima hipótese acrescentei o requinte de um paradoxo. Ei-lo em toda a sua complexidade, com seus absurdos e axiomas: se viajei ao passado e adulterei a história, sou o único ser humano sobre a Terra que não pode ser afetado pela mudança pois, se o fosse, não teria porque empreender o grotesco e irracional esforço de viajar no tempo – logo, não teria afetado a história.
Deixei correr o tempo. Num sábado, não muito tempo depois, tanto meu filho quanto a Senhorita K. estavam viajando, de modo que não podia partilhar a esplêndida manhã com ninguém. Como ainda era cedo, troquei a caminhada de praxe por um passeio ao Centro para garimpar livros e LPs. Desci do ônibus na Presidente Vargas e segui em direção ao Largo de São Francisco. Numa daquelas ruas machadianas estreitas e gastas, um homem saltou do vão de uma loja ainda fechada e se interpôs no meu caminho. Gelei. O sujeito era
eu: Assim dizendo, Ricardo Gondim se dirigiu apressadamente para a esquina que me mandara evitar. Hesitei, olhei para o relógio, para o céu e para a rua deserta, tremi, voltei apressado pelos meus próprios passos, tomei um táxi, girei a chave na porta e abri o livro de Achile de Leurre. A Sinfonia em Ré menor de César Franck estreou em 17 de fevereiro de 1889, sob a regência de Jules Garcin.
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Este site foi atualizado em 18/02/07