enologia

16/04/13

Home
osb
além do véu...
vinhos, perfumes e sabores
sugestões
enologia
música: conserto com s
música: sacrilégios
música: digressões
música: aforismos
música: argenta
música: bayreuth
música: a IX de Beethoven
música: beethoven i
música: beethoven ii
música: Kleiber

 

 


Enologia beethoveniana

©Ricardo Labuto Gondim


Ludwig van Beethoven foi batizado na Bélgica em 5 de janeiro de 1712. Antes que você feche a página do logos, abra o programa de e-mail e proteste impetuosamente, apresso-me em dizer que não estamos falando do compositor alemão: estamos falando de seu avô, o cavalheiro de expressão inteligente aí em cima. Vovô Beethoven chegou a Bonn em 1733 fazendo conquistas decisivas, excelentes... e trágicas.

Dou a boa notícia primeiro: o velho – então um jovem músico ambicioso, organista de segunda e cantor de primeira – conquistou a cobiçada posição de Kapellmeister da corte. Tornou-se o responsável pela música na capela, no teatro, nos salões de baile e de concerto. Nada mal para quem literalmente fugira da Bélgica para escapar aos tribunais flamengos: seu pai estava falido e as dívidas da família chegavam a 10 mil florins, ainda hoje uma pequena fortuna.

Agora a má notícia: o jovem e fogoso kapellmeister apaixonou-se de um modo profundo, sublime, intenso e puro, exatamente como você se apaixonou aos 21, lembra? Pois bem, fraulein Maria Josepha Poll de apenas 19 anos correspondeu. O mestre-capela conduziu a noiva ao altar naquele mesmo ano pródigo de angústias, aventuras e infindáveis promessas.

Mas onde está a má notícia?

Sem metafísica a vida humana é uma corrente de causas e efeitos insondáveis. Uma linha suspensa entre o nada e a eternidade estendendo-se entre dois números, o nascimento e a morte. Atravessando a linha, muitas vezes chamamos nossas próprias paixões, escolhas, fracassos, encontros, desencontros e casualidades de “destino”. Embora “destino” seja algo duvidoso e sem significado preciso, o mais racional dos homens não está livre de – num momento atroz ou de banal felicidade – especular se de fato ele existe.

Ludwig van Beethoven prosperou. Em 1740, sete anos depois de empossado como kapellmeister e sem prejuízo de suas obrigações palacianas – provavelmente no mesmo ano em que nasceu Johann, o único dos três filhos que sobreviveu – o velho Ludwig estabeleceu o que já então era um próspero negócio: o nobre comércio de vinhos.

Foi quando descobriu que Maria Josepha era alcoólatra.

A pobre mulher afundou tão vertiginosamente no vício que foi preciso enclausurá-la num convento. A clausura durou até 1775, quando a morte libertou-a de todos os males. Vovô Beethoven nunca mais se casou. Provavelmente jamais se relacionou com outra mulher. Cuidou devotamente do pequeno Johann “der Läufer” (Johann o corredor), identificando precocemente seu espírito “volúvel e confuso”.

Na verdade, ainda que fosse muito estimado por seus alunos, o professor de música Johann van Beethoven tinha péssimo caráter e a indesejável herança do alcoolismo da mãe. A severa oposição do velho Ludwig ao seu casamento foi prudentemente partilhada pelos pais da noiva, Maria Magdalena, viúva de 21 anos que passou o resto da vida deplorando sua escolha. Há evidências de que Johann tenha aliviado a sogra de todas as economias quando se casou em 1767. Mais tarde, no fim da vida, envolveu-se numa tentativa de golpe fraudando a assinatura de um Conde. Não prestou contas à lei porque estava tão alquebrado e miserável que se viu deplorado pelas próprias vítimas. Com a morte do velho Ludwig em 1774, Johann viveu única e exclusivamente para esgotar garrafas, sacando a última rolha em fins de 1792. Na época disseram que sua morte havia causado imenso prejuízo na arrecadação do imposto sobre bebidas.

Este homem trágico e patético gerou um dos maiores músicos de todos os tempos. O compositor que rompeu com os simétricos limites do classicismo para tornar a música austro-alemã uma arrojada expressão de sentimentos, uma revelação mais alta que qualquer filosofia. Podemos fatigar páginas e mais páginas do logos eletrônico sem descrever a verdadeira dimensão da vida e obra de Ludwig van Beethoven – o neto. Devo dizer que me debrucei sobre seus antecedentes familiares por dois motivos precisos.

Em primeiro lugar, Beethoven escapou do “destino” alcoólico da família e se interessou pelo vinho do mesmo modo que você e eu: com um prazer legítimo. Em segundo – ironicamente – Beethoven é um dos compositores que melhor convida a um bom vinho para a degustação das suas obras. Especialmente de suas sinfonias, as catedrais de cristal e aço: profundas, complexas, construídas com rigor e lógica implacáveis por uma razão ampla, por um intelecto sem concessões.

Expressões de coragem e heroísmo, de “tempestade e ímpeto”, estes arcos tão firmes – linhas misteriosas estendidas entre a vida e a eternidade – são modelos de construção sinfônica. Não é natural que tal música, que exige coração e cérebro para ser decifrada seja apreciada com as virtudes mais introspectivas do vinho?

Existem centenas de versões consagradas das sinfonias de Beethoven, mas quero te sugerir um ciclo de sabor mais leve e mais sutil, deliciosamente comportado. Erga a taça e experimente as notáveis leituras do regente húngaro Bela Drahos à frente da Nicolaus Esterházy Sinfonia. Drahos é flautista de formação e tem uma minuciosa preocupação – infelizmente rara – com a exposição e articulação das madeiras. Essa questão é essencial em Beethoven, como demonstrado nas versões antológicas de Bhöm e Frans Brüggen da Eroica, por exemplo.

Drahos tem mão firme e exige uma dinâmica controlada dos metais que ganham um certo caráter “híbrido”. Trompas e trombones podem soar de modo amplo, mas raramente atingem um timbre eminentemente “metálico”, colorido de harmônicos. Para Drahos o essencial é o equilíbrio, e nesse ideal ele é favorecido pelas dimensões, precisão, habilidade e unidade de som da Nicolaus Esterházy Sinfonia. Curioso é que chegando aos momentos em que a música exige uma certa “monumentalidade”, essa pequena orquestra de estúdio – criada especialmente para gravações – pode soar majestosa, favorecida por notáveis cordas graves que criam uma base firme e plana para a clareza de Drahos. É muito agradável, por exemplo, ouvir a textura produzida pelos metais, cordas e madeiras quando tocam em uma mesma dinâmica no allegro final da Quinta Sinfonia – sem comprometer o caráter "afirmativo" que animou Beethoven. Observe que não se trata de uma interpretação “de época”, mas de uma execução moderna com orquestra de câmara.

As gravações são da Naxos e não chegam a ser “modelos” de expressão sonora. Mas têm a correção necessária para fazer jus aos ideais do maestro e sua pequena grande orquestra. Pelo preço de um CD importado do Abbado – que é um beethoveniano primário –  você pode comprar o ciclo inteiro, distribuído em 5 volumes que merecem um lugar privilegiado em sua estante. Prove.

Deguste mais Beethoven no site com os melhores leitores da web:

O logos beethoveniano: a IX Sinfonia
O modo como hoje nos debruçamos sobre a IX revela nossa superficialidade, materialidade, individualismo e hedonismo.

Tema e variações: Beethoven (I)

Tema e variações: Beethoven (II)
Um auto-retrato do compositor com pinceladas de seus contemporâneos e desenhos de Jarina Menezes.

 

     

Home osb além do véu... vinhos, perfumes e sabores sugestões enologia música: conserto com s música: sacrilégios música: digressões música: aforismos música: argenta música: bayreuth música: a IX de Beethoven música: beethoven i música: beethoven ii música: Kleiber

Este site foi atualizado em 13/01/11