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Elipses
©Ricardo Labuto Gondim
Foi por volta de 1988 ou 89, mas isso não importa. As lembranças mais suaves
são justamente as mais concretas e nítidas, e por isso mesmo, permanentes.
Foi há quase vinte anos, mas se ainda tivesse a inocência, o atrevimento e o
ímpeto de minha juventude, poderia ter sido ontem. Talvez amanhã.
Houve uma vez uma noite intoleravelmente quente de verão, em que havia uma
promessa de conforto além dos portões do Teatro Municipal do Rio. Eu estava
com pessoas que habitavam o Teatro com a mesma freqüência que eu, e só me
detive para cumprimentar os porteiros que me conheciam desde menino, embora
com pouco mais de vinte anos ainda parecesse um garoto. Não perdemos tempo
reverenciando a majestade dos mármores. Seguimos em linha reta para a
platéia em busca do ar frio das máquinas.
Ainda faltavam vinte minutos para que as mãos de Romano Gandolfi
ressuscitassem o Réquiem de Verdi. Havia grande expectativa, a reputação de
Gandolfi, um dos maiores preparadores de coro do Scala de Milão precedia
seus primeiros ensaios como regente de orquestra. O palco já estava lotado
de músicos que estudavam suas pautas, e temas conhecidos se articulavam e
fundiam. Já então sabia o que aquela disciplina significava.
É mais fácil subir ao púlpito ou à tribuna para inflamar multidões do que
arrojar-se no podium e impor-se a uma orquestra. Os músicos nas estantes são
instrumentistas de elite, conhecem e exercitam técnica e teoria em
profundidade – daí sua rebeldia natural. Não é fácil impressioná-los, mais
difícil ainda é conquistá-los. John Culshaw, um dos maiores produtores da
história do disco conviveu durante muitos anos com a Filarmônica de Viena –
e descreveu sua surpresa quando viu músicos chorando pela morte de Hans
Knappertsbusch. Ao longo de minha vida, mais de uma vez vi regentes
medíocres friamente desprezados durante os ensaios serem completamente
ignorados na execução. Evoluíram no podium como fantoches, assistidos apenas
pela multidão às suas costas - enquanto os músicos, concentrados nas notas,
nas “deixas” e nas contagens de tempo, jamais levantavam os olhos das
partituras: eram eles que puxavam os cordões para salvar a música ou atenuar
o desastre.
Naquela noite, minutos depois do terceiro sinal - o palco abarrotado de
músicos e cantores, o teatro impregnado daquela magia solene que antecede a
execução das obras grandiosas – eis que surgem Romano Gandolfi e os
solistas. Mas a primeira coisa que vi foram os olhos do mezzo-soprano; olhos
de cristal numa moldura de leite, ornada por cabelos negros, longos e
brilhantes. Reparei na silhueta esguia, rara mesmo entre as mulheres que
servem unicamente à própria beleza, e não às inclementes exigências da arte
mais difícil e ingrata, o canto. Ela não usava a fantasia de bombom com que
muitas cantoras supõem presentear o público, mas um vestido deslumbrante,
justo e ao mesmo tempo recatado, que revelava a cantora e insinuava a
mulher.
Eu havia lido sobre a beleza e a voz de Jadranka Jovanovic. Seus pés ainda
não haviam tocado o solo do aeroporto e os jornais já se ocupavam dela, a
fama da beldade de voz luminosa havia aterrissado antes. E enquanto os
tímidos primeiros compassos da arrebatadora música de Verdi não começavam -
naquele instante
tão
breve e permanente – a única luz na sala de concerto eram as espirais
incandescentes na vertigem dos seus olhos.
Uma das coisas mais atraentes numa mulher bonita é justamente a sua vaidade
– ou a ausência dela. Existem mulheres cuja beleza é capaz suportar a
negligência. Bastam um arco ou uma faixa abrupta no cabelo, uma camiseta
banal e uma calça surrada para que a inconsciência do seu poder de atração –
real ou premeditada, não importa – seduza ao primeiro olhar. Mas existem as
que edificam seus atributos com minúcias quase invisíveis - e por isso mesmo
mais evidentes num conjunto harmonioso. Jadranka era assim, e lamentei não
estar mais perto para experimentar o seu perfume.
O concerto começou, a música foi crescendo em espirais. Já nos primeiros
compassos impôs-se uma sonoridade fora do comum. Então, a primeira frase do
mezzo-soprano se projetou no tempo e no espaço; grave, mas ascendente; uma
elipse que conduziu o público para muito além da cúpula do Teatro.
Da primeira à última nota a performance foi uma comunhão inesquecível entre
o palco, a platéia e o insondável. Um desses eventos raros, cuja verdadeira
dimensão eu viria a compreender ainda naquela semana. Na saída, nos
corredores, o público comentava a transcendência da noite. Acima de tudo,
homens e mulheres falavam da voz de Jadranka, digna de sua rara beleza. No
período das cinco récitas do Réquiem ela seria fotografada e comentada
intensamente. Sei que foram cinco porque consegui assistir a quatro. Na
segunda, a miragem de uma idéia absurda me ocorreu. Na terceira, o jogo
estava em andamento.
Na última récita, a do sábado à noite, o plano tramado e firme se consumou.
Às sete horas da manhã bati à casa dos meus avós como fazia habitualmente
aos sábados. Dessa vez, trazia um maço de papéis pautados e amarelados
repleto de anotações a lápis. Beijei meus amados velhos e sentei no
piano para confirmar e corrigir o que já havia rascunhado nos dois dias
anteriores. Com muita pressa - e muito lentamente – escrevi um “lacrimosa”
para mezzo-soprano, quarteto de cordas, duas trompas e trombone – cujos
rascunhos mais tarde alimentariam uma modesta fogueira.
A “obra” – tosco esboço de música cometido por alguém que estudara teoria,
trompa e piano durante pouco mais de três anos – não era tão ruim quanto
você pode imaginar. Era pior. O tema principal, de um caráter
melancolicamente eslavo tinha lá o seu encanto. Mas devia algo a Wagner,
muito a Dvorak e ao próprio Verdi - mais do que eu gostaria de ter pago.
Tinha, contudo, virtudes que a desculpavam em parte. Era sincera, sentida e
eu era jovem, tinha posto meu coração naquilo.
A última coisa a que poderia aspirar era debruçar-me sobre uma das mais
elevadas formações da história da música, o quarteto de cordas. Mas naquela
noite havia me imposto um desafio maior. Tinha tudo planejado – embora não
pudesse prever que as coisas escapariam ao controle para um desfecho
surpreendente. Tinha também, numa pauta imensa, o pretexto. Bastava passar a
limpo a última parte depois do trio que a pretensão arriscara... mas
não havia mais tempo.
Foi fácil arregimentar meus cúmplices. Bastaram dois telefonemas, uma
confissão, a citação do número preciso de uma página de jornal - que
estampava a foto de uma mulher deslumbrante sobre quem a cidade comentava -
e é claro, o patrocínio dos ingressos. Naquela tarde me encontrei
criteriosamente emplumado com dois grandes amigos: Guilherme Werner e
Marcelo Enes de Souza (que carinhosamente chamávamos de Big Foot). O
tempo mudara ao longo da semana e entramos no ônibus sob os augúrios de um
céu cinzento e chuva fina.
O concerto aconteceu com a grandeza previamente consumada. Guilherme e
Marcelo se emocionaram. Nunca tinham ido ao Municipal, nem jamais haviam
visto uma orquestra sem a enganosa intermediação de alto-falantes. Passei
praticamente o concerto inteiro de cabeça baixa, copiando a última parte do lacrimosa
com a pauta apoiada entre os joelhos.
Sentia os olhares curiosos de um ou outro membro da platéia, e não escrevia
nas pausas e partes em piano para evitar que a aspereza da caneta
arranhasse o silêncio. Fatiguei os meus olhos na penumbra da sala de
concerto, mas quando o público e os aplausos se levantaram, tinha em minhas
mãos um rolo de papel amarado com fita vermelha: a segunda parte do projeto
estava concluída.
Foi fácil guiar-me aos bastidores do Teatro que conhecia tão bem. Mas foi
difícil encontrar o elemento essencial à execução do plano, um barítono do
coro que eu identificara já na primeira récita: o Prof. Francisco Werner,
que apesar do mesmo sobrenome sequer conhecia o Guilherme. Historiador e
egiptólogo, Francisco era um barítono amador de voz imensa e regularmente
fazia pequenos papéis nas produções do Municipal. Eu o conheci no tempo em
que estudava desenho no Liceu de Artes e Ofícios com outro camarada de nome
alemão, Walter Schurer. O professor organizava um museu para aquela escola,
mas deixava de almoçar duas vezes por semana somente para conversar conosco
sobre histórias em quadrinhos - e nos ensinar a ouvir ópera.
- Professor Francisco! – gritei quando o identifiquei de fraque entre
cinqüenta outros homens de fraque – Graças a Deus!
- Rapaz, há quanto tempo...
- Preciso de um favor – interrompi: - Escrevi um lacrimosa para a
Jadranka Jovanovic.
- Depois do lacrimosa que você ouviu aqui teve coragem de escrever outro?
- Nem só de Verdi vive a música, professor.
- Sim, mas existem Verdis e “Verdis”.
Engoli em seco. Ele estendeu a mão para receber a pauta, desfez o laço
cerimonioso e abriu a partitura. Senti que me partiam em dois. Não quero
descrever o olhar que saltou da pauta para mim e vice-versa meia dúzia de
vezes.
- Você sabe que eu não sei ler música muito bem, mas isso aqui me parece...
- É muito moderno, sabe? Os metais tocam o tempo todo em piano,
duplicando a viola ou formando pedais quando as cordas graves tocam nos
registros agudos.
Ele balançou a cabeça:
- A teoria é boa, mas a prática... – deu de ombros: - Tenho certeza que já
ouvi coisa pior, mas, mesmo assim, você quer entregar isso a ela?
- Quero.
Ele me estudava:
- Por que não pede somente um autógrafo?
Só então verbalizei o conceito do plano, levando Guilherme, Marcelo e o
barítono a arregalarem os olhos:
- Porque aí eu seria mais um.
Francisco balançou positivamente a cabeça:
- Amarra isso e me espera aqui. Você vai entregar em grande estilo.
Não esperamos cinco minutos, a pessoa que Francisco procurava passava por
ali naquele momento, cumprimentando e sendo cumprimentado até ser
interceptado pelo barítono. Reconheci o homem imediatamente. Todos os
jornais especulavam sobre um provável romance entre Fernando Bicudo - o
polêmico promotor cultural que havia legado ao Teatro Municipal do Rio
alguns dos seus melhores eventos - e Jadranka Jovanovic.
Bicudo não era alto, mas tinha o porte, a desenvoltura e a simplicidade
elegante dos bem-nascidos - tão à vontade em seu terno caríssimo como se
caminhasse no calçadão de Ipanema. Ele se dirigiu ao nosso grupo
antecipando-se ao professor Francisco, a mão estendida e um sorriso franco:
- Quem é o compositor?
Guilherme e Big Foot me apontaram ao mesmo tempo:
- Ele!
Francisco nos apresentou formalmente, balançou a cabeça, mas me concedeu um
sorriso. Desejou boa sorte e partiu.
Fernando Bicudo nos tratou como velhos conhecidos e nos deixou totalmente à
vontade. Lançou os olhos à partitura enrolada, recusou muito delicadamente
uma “inspeção” e foi nos conduzindo em direção ao camarim:
- Foi muito legal você ter feito isso. É uma prova de carinho do público
carioca. A Jadranka vai adorar. Vamos lá que eu vou apresentar vocês.
Pelo menos cinqüenta pessoas faziam fila no corredor que levava ao camarim
do mezzo-soprano. E a fila não parava de crescer. A porta estava aberta, era
possível ver parte de um piano, uma pesada cortina e gente entrando e saindo
em grupos. Fernando demonstrava uma natureza extremamente afável. Naquele
tempo ele era um tipo requintado de celebridade, de modo que devolvia todos
os sorrisos que lhe eram dirigidos enquanto... furava a fila:
- A senhora me permite? O rapaz é compositor e escreveu uma música para a
Jadranka.
O homem era um diplomata, não encontrava oposição. Os murmúrios de
encantamento com o novo gênio da música se estendiam como numa fileira de
dominós - e ninguém além de mim sabia que eu era uma fraude. As pessoas me
olhavam como seu fosse um Brahms, como se trouxesse no embuste daquele maço
uma sinfonia indispensável ao futuro; uma arte tão confortadora quanto a que
havíamos partilhado: o Réquiem de Verdi. Gerado na dor, no medo, e na
esperança que resiste à Morte, a missa havia consolado a platéia dos seus temores,
e semeado a atmosfera de celebração e de vida que parecia irmanar as pessoas
numa ciranda elíptica e sem fim. Naquele momento entendi a profundidade da
obra de Verdi, sua beleza, sua vitalidade, sua essencialidade. Me senti
profundamente envergonhado, e só tive então um desejo: o de sair dali.
- Olha, Fernando, muito obrigado, mas eu não quero incomodar...
Virei
as costas e iniciei o que provavelmente teria se tornado uma corrida. Em
sincronia com o giro, meus dois amigos – que estavam adorando tudo aquilo –
formaram uma barreira, ao mesmo tempo em que Fernando estendeu a mão para me
segurar como pôde – no caso, pelo cós do cinto: voltei de ré, ao
mesmo tempo em que ele me cingia o ombro e segurava meu braço com a outra
mão. Ao redor, as pessoas gargalhavam. Lancei um olhar para trás, Guilherme
e Marcelo me escoltavam como mafiosos. Guilherme arreganhou os dentes numa
imitação acintosamente forçada e barata de James Cagney. Fernando
acenou-lhes como se dissesse “bom trabalho, rapazes”:
- Calma, Ricardo, calma. Você vai entender depois, esse é um momento
importante.
E recomeçou o discurso sobre o Mozart que amparava em seu abraço. Foi quando
nos detivemos junto à porta; foi quando eu a vi. Jadranka Jovanovic
iluminou-se e abriu um sorriso borbulhante de contentamento em minha
direção:
- Oh, Fernando! – disse com um acento delicioso.
O sorriso havia se extraviado, não era eu o destinatário. Mas isso não
impediu que me apaixonasse perdidamente pela segunda vez na mesma semana –
felizmente pela mesma mulher. Sua voz era delicadamente doce, diferente do
veludo suntuoso que a impostação, o ardor e o céu lhe concediam quando
cantava. Mas aquilo também fora um murmúrio, um pensamento que escapara num
suspiro.
Não entramos imediatamente, o camarim estava lotado. Fernando conversava com
o casal idoso que esperava à porta. O diplomata cuidava mais uma vez para
que o jovem Beethoven furasse a fila. Há poucos passos de nós, Jadranka
brilhava e queimava meus últimos escrúpulos. Valera a pena o esforço de
estar ali: eu já podia sentir o seu perfume.
Fernando me cutucou e rompeu o transe. A senhora falara comigo, mas eu não
ouvira. Rubro como um tomate, me desculpei e respondi suas perguntas sobre a
natureza da Décima Sinfonia enrolada com fita vermelha. O casal tinha me visto
escrevendo vigorosamente durante o concerto e a senhora estava encantada.
Muito gentil, ela se voltou para os meus amigos:
- Vocês também são músicos?
Guilherme é a simpatia em pessoa, e se permitiu um “não, madame”. Era a
minha deixa, a válvula de escape oferecida pelo acaso:
- Senhora - eu disse -, eles são muito modestos. Na verdade estamos formando
um trio: eu canto e eles pedem desculpas.
Todos riram. Eu, mais do que todos: o plano mirabolante dera certo. Lá
estava eu, um rapaz começando a vida a quatro metros de uma mulher
inatingível, uma estrela emergente do canto lírico europeu – e prestes a ser
apresentado a ela numa condição absolutamente especial.
Algumas pessoas saíram do camarim e eu fui empurrado vigorosamente para
dentro. A sala continuava repleta. Fernando Bicudo não se dirigiu apenas a
Jadranka – que nos sorria amavelmente – mas a todos os presentes. Fez um
breve e inteligente discurso onde testemunhava que a beleza e a voz do
mezzo-soprano haviam inspirado um jovem compositor carioca, que lhe dedicava
sua arte: a fraude assumia uma dimensão política. Jadranka nascera em
Belgrado, mas Fernando discursou em português – o que me levou à conclusão
de que ela falava romeno, um quase-latim. Ela apertava os olhos magníficos
como se pudesse ouvir melhor. Era um encanto. Estava completamente absorvido
quando fui literalmente tangido para perto dela e tragado pelas espirais de
um perfume que ainda posso sentir. Jadranka abriu a partitura, passou os
olhos pela introdução e foi direto buscar a linha do canto. Ela parecia
verdadeiramente interessada, leu duas ou três páginas enquanto eu tentava
ler o seu rosto soberbo.
No início, notei um certo estranhamento. Depois, percebi um meneio de
aprovação no trecho em que surgia a melodia principal. Mas de novo o
estranhamento, as sobrancelhas se crispando ligeiramente, os lábios se
estreitando... E então, subitamente, um sorriso que eu jamais havia visto em
nenhuma outra mulher, pois ainda não tinha vivido o suficiente. Não era um
sorriso vasto nem exatamente luminoso. Mas nele encontrei uma vivacidade
peculiar, firme e secreta, direta e ao mesmo tempo velada.
Jadranka tinha entendido tudo. Eu havia sido decifrado pela esfinge. Já não
era mais uma fraude, mas alguém que enaltecera a mulher que ela era. Aquele
era o sorriso com que uma mulher retribui algo que a lisonjeia, envaidece e
a toca profundamente na sua feminilidade. Um homem pode saciar
simultaneamente os instintos, desejos e sentimentos de uma mulher - e ainda
assim não conquistar algo tão íntimo. Não, decididamente eu não era uma
fraude, a ousadia da minha juventude havia sido premiada com... maturidade.
Foi esse o presente que recebi de Jadranka.
Tenho certeza de que nada escapou ao Fernando Bicudo, que estendeu as mãos e
disse:
- Agora, o beijo...
Jadranka colocou a mão num lado do meu rosto e beijou o outro. Depois, fez
um gesto para que meus amigos se aproximassem e os beijou também. Fernando
incentivou os aplausos, disse que voltaria logo e nos conduziu para a porta.
Detive-me um instante e me voltei – ela já cumprimentava algumas pessoas,
mas me olhou divertida. Fiz uma vênia imitando o que aprendera com Gary
Cooper em um dos filmes de minha vida, Beau Gest. Desde menino havia
esperado um momento para aquela flexão. Mas não tive coragem de colher a
impressão que poderia ou não ter causado. Saí de olhos baixos.
Como o cavalheiro que era, Fernando Bicudo nos conduziu ao exato lugar onde
havíamos sido apresentados. Nos abraçou francamente, segurou-me pelo braço e
me deu uma tapa carinhoso no rosto:
- Tinham duzentas pessoas no palco, duas mil na platéia, mas a noite foi
sua, garoto. Você nunca vai esquecer.
Sorriu, acenou e nunca mais o vimos.
*
Saímos pelos bastidores. A chuva fina descia em espirais forjadas pela luz e
pelas sombras das árvores na calçada do Teatro, suavizando a noite de verão
carioca. Seguimos pela Rio Branco, ninguém disse nada até o Marcelo quebrar
o silêncio muito tempo depois:
- Vocês não se sentem mais leves?
- Sim, me sinto mais leve.
- Eu também - emendou o Guilherme. Marcelo completou:
- É o “Efeito Jadranka”. Nunca mais vou lavar o rosto.
Éramos amigos dos tempos de garoto, crescemos juntos. Até hoje, quando nos
reunimos, se algo de especial acontece alguém sugere o “Efeito Jadranka” – a
mulher que não tive, mas que me ensinou o que buscar nas que conheci depois.
Perfumes diferentes, um mesmo sorriso.
(Para K., que quando sorri, me torna alguém melhor.)
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