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05/09/10

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Jadranka Jovanovik por Prudnikov, 1997.

Elipses

©Ricardo Labuto Gondim


Foi por volta de 1988 ou 89, mas isso não importa. As lembranças mais suaves são justamente as mais concretas e nítidas, e por isso mesmo, permanentes. Foi há quase vinte anos, mas se ainda tivesse a inocência, o atrevimento e o ímpeto de minha juventude, poderia ter sido ontem. Talvez amanhã.

Houve uma vez uma noite intoleravelmente quente de verão, em que havia uma promessa de conforto além dos portões do Teatro Municipal do Rio. Eu estava com pessoas que habitavam o Teatro com a mesma freqüência que eu, e só me detive para cumprimentar os porteiros que me conheciam desde menino, embora com pouco mais de vinte anos ainda parecesse um garoto. Não perdemos tempo reverenciando a majestade dos mármores. Seguimos em linha reta para a platéia em busca do ar frio das máquinas.

Ainda faltavam vinte minutos para que as mãos de Romano Gandolfi ressuscitassem o Réquiem de Verdi. Havia grande expectativa, a reputação de Gandolfi, um dos maiores preparadores de coro do Scala de Milão precedia seus primeiros ensaios como regente de orquestra. O palco já estava lotado de músicos que estudavam suas pautas, e temas conhecidos se articulavam e fundiam. Já então sabia o que aquela disciplina significava.  

É mais fácil subir ao púlpito ou à tribuna para inflamar multidões do que arrojar-se no podium e impor-se a uma orquestra. Os músicos nas estantes são instrumentistas de elite, conhecem e exercitam técnica e teoria em profundidade – daí sua rebeldia natural. Não é fácil impressioná-los, mais difícil ainda é conquistá-los. John Culshaw, um dos maiores produtores da história do disco conviveu durante muitos anos com a Filarmônica de Viena – e descreveu sua surpresa quando viu músicos chorando pela morte de Hans Knappertsbusch. Ao longo de minha vida, mais de uma vez vi regentes medíocres friamente desprezados durante os ensaios serem completamente ignorados na execução. Evoluíram no podium como fantoches, assistidos apenas pela multidão às suas costas - enquanto os músicos, concentrados nas notas, nas “deixas” e nas contagens de tempo, jamais levantavam os olhos das partituras: eram eles que puxavam os cordões para salvar a música ou atenuar o desastre.

Naquela noite, minutos depois do terceiro sinal - o palco abarrotado de músicos e cantores, o teatro impregnado daquela magia solene que antecede a execução das obras grandiosas – eis que surgem Romano Gandolfi e os solistas. Mas a primeira coisa que vi foram os olhos do mezzo-soprano; olhos de cristal numa moldura de leite, ornada por cabelos negros, longos e brilhantes. Reparei na silhueta esguia, rara mesmo entre as mulheres que servem unicamente à própria beleza, e não às inclementes exigências da arte mais difícil e ingrata, o canto. Ela não usava a fantasia de bombom com que muitas cantoras supõem presentear o público, mas um vestido deslumbrante, justo e ao mesmo tempo recatado, que revelava a cantora e insinuava a mulher.

Eu havia lido sobre a beleza e a voz de Jadranka Jovanovic. Seus pés ainda não haviam tocado o solo do aeroporto e os jornais já se ocupavam dela, a fama da beldade de voz luminosa havia aterrissado antes. E enquanto os tímidos primeiros compassos da arrebatadora música de Verdi não começavam - naquele instante Jadranka Jovanovik por Prudnikov, 1997  (detalhe).tão breve e permanente – a única luz na sala de concerto eram as espirais incandescentes na vertigem dos seus olhos.

Uma das coisas mais atraentes numa mulher bonita é justamente a sua vaidade – ou a ausência dela. Existem mulheres cuja beleza é capaz suportar a negligência. Bastam um arco ou uma faixa abrupta no cabelo, uma camiseta banal e uma calça surrada para que a inconsciência do seu poder de atração – real ou premeditada, não importa – seduza ao primeiro olhar. Mas existem as que edificam seus atributos com minúcias quase invisíveis - e por isso mesmo mais evidentes num conjunto harmonioso. Jadranka era assim, e lamentei não estar mais perto para experimentar o seu perfume.

O concerto começou, a música foi crescendo em espirais. Já nos primeiros compassos impôs-se uma sonoridade fora do comum. Então, a primeira frase do mezzo-soprano se projetou no tempo e no espaço; grave, mas ascendente; uma elipse que conduziu o público para muito além da cúpula do Teatro.

Da primeira à última nota a performance foi uma comunhão inesquecível entre o palco, a platéia e o insondável. Um desses eventos raros, cuja verdadeira dimensão eu viria a compreender ainda naquela semana. Na saída, nos corredores, o público comentava a transcendência da noite. Acima de tudo, homens e mulheres falavam da voz de Jadranka, digna de sua rara beleza. No período das cinco récitas do Réquiem ela seria fotografada e comentada intensamente. Sei que foram cinco porque consegui assistir a quatro. Na segunda, a miragem de uma idéia absurda me ocorreu. Na terceira, o jogo estava em andamento.

Na última récita, a do sábado à noite, o plano tramado e firme se consumou.

Às sete horas da manhã bati à casa dos meus avós como fazia habitualmente aos sábados. Dessa vez, trazia um maço de papéis pautados e amarelados repleto de anotações a lápis. Beijei meus amados velhos e sentei no piano para confirmar e corrigir o que já havia rascunhado nos dois dias anteriores. Com muita pressa - e muito lentamente – escrevi um “lacrimosa” para mezzo-soprano, quarteto de cordas, duas trompas e trombone – cujos rascunhos mais tarde alimentariam uma modesta fogueira.

A “obra” – tosco esboço de música cometido por alguém que estudara teoria, trompa e piano durante pouco mais de três anos – não era tão ruim quanto você pode imaginar. Era pior. O tema principal, de um caráter melancolicamente eslavo tinha lá o seu encanto. Mas devia algo a Wagner, muito a Dvorak e ao próprio Verdi - mais do que eu gostaria de ter pago. Tinha, contudo, virtudes que a desculpavam em parte. Era sincera, sentida e eu era jovem, tinha posto meu coração naquilo.

A última coisa a que poderia aspirar era debruçar-me sobre uma das mais elevadas formações da história da música, o quarteto de cordas. Mas naquela noite havia me imposto um desafio maior. Tinha tudo planejado – embora não pudesse prever que as coisas escapariam ao controle para um desfecho surpreendente. Tinha também, numa pauta imensa, o pretexto. Bastava passar a limpo a última parte depois do trio que a pretensão arriscara... mas não havia mais tempo.

Foi fácil arregimentar meus cúmplices. Bastaram dois telefonemas, uma confissão, a citação do número preciso de uma página de jornal - que estampava a foto de uma mulher deslumbrante sobre quem a cidade comentava - e é claro, o patrocínio dos ingressos. Naquela tarde me encontrei criteriosamente emplumado com dois grandes amigos: Guilherme Werner e Marcelo Enes de Souza (que carinhosamente chamávamos de Big Foot). O tempo mudara ao longo da semana e entramos no ônibus sob os augúrios de um céu cinzento e chuva fina.

O concerto aconteceu com a grandeza previamente consumada. Guilherme e Marcelo se emocionaram. Nunca tinham ido ao Municipal, nem jamais haviam visto uma orquestra sem a enganosa intermediação de alto-falantes. Passei praticamente o concerto inteiro de cabeça baixa, copiando a última parte do lacrimosa com a pauta apoiada entre os joelhos. Sentia os olhares curiosos de um ou outro membro da platéia, e não escrevia nas pausas e partes em piano para evitar que a aspereza da caneta arranhasse o silêncio. Fatiguei os meus olhos na penumbra da sala de concerto, mas quando o público e os aplausos se levantaram, tinha em minhas mãos um rolo de papel amarado com fita vermelha: a segunda parte do projeto estava concluída.

Foi fácil guiar-me aos bastidores do Teatro que conhecia tão bem. Mas foi difícil encontrar o elemento essencial à execução do plano, um barítono do coro que eu identificara já na primeira récita: o Prof. Francisco Werner, que apesar do mesmo sobrenome sequer conhecia o Guilherme. Historiador e egiptólogo, Francisco era um barítono amador de voz imensa e regularmente fazia pequenos papéis nas produções do Municipal. Eu o conheci no tempo em que estudava desenho no Liceu de Artes e Ofícios com outro camarada de nome alemão, Walter Schurer. O professor organizava um museu para aquela escola, mas deixava de almoçar duas vezes por semana somente para conversar conosco sobre histórias em quadrinhos - e nos ensinar a ouvir ópera.

- Professor Francisco! – gritei quando o identifiquei de fraque entre cinqüenta outros homens de fraque – Graças a Deus!
- Rapaz, há quanto tempo...
- Preciso de um favor – interrompi: - Escrevi um lacrimosa para a Jadranka Jovanovic.
- Depois do lacrimosa que você ouviu aqui teve coragem de escrever outro?
- Nem só de Verdi vive a música, professor.
- Sim, mas existem Verdis e “Verdis”.
Engoli em seco. Ele estendeu a mão para receber a pauta, desfez o laço cerimonioso e abriu a partitura. Senti que me partiam em dois. Não quero descrever o olhar que saltou da pauta para mim e vice-versa meia dúzia de vezes.
- Você sabe que eu não sei ler música muito bem, mas isso aqui me parece...
- É muito moderno, sabe? Os metais tocam o tempo todo em piano, duplicando a viola ou formando pedais quando as cordas graves tocam nos registros agudos.
Ele balançou a cabeça:
- A teoria é boa, mas a prática... – deu de ombros: - Tenho certeza que já ouvi coisa pior, mas, mesmo assim, você quer entregar isso a ela?
- Quero.
Ele me estudava:
- Por que não pede somente um autógrafo?
Só então verbalizei o conceito do plano, levando Guilherme, Marcelo e o barítono a arregalarem os olhos:
- Porque aí eu seria mais um.
Francisco balançou positivamente a cabeça:
- Amarra isso e me espera aqui. Você vai entregar em grande estilo.

Não esperamos cinco minutos, a pessoa que Francisco procurava passava por ali naquele momento, cumprimentando e sendo cumprimentado até ser interceptado pelo barítono. Reconheci o homem imediatamente. Todos os jornais especulavam sobre um provável romance entre Fernando Bicudo - o polêmico promotor cultural que havia legado ao Teatro Municipal do Rio alguns dos seus melhores eventos - e Jadranka Jovanovic.

Bicudo não era alto, mas tinha o porte, a desenvoltura e a simplicidade elegante dos bem-nascidos - tão à vontade em seu terno caríssimo como se caminhasse no calçadão de Ipanema. Ele se dirigiu ao nosso grupo antecipando-se ao professor Francisco, a mão estendida e um sorriso franco:
- Quem é o compositor?
Guilherme e Big Foot me apontaram ao mesmo tempo:
- Ele!
Francisco nos apresentou formalmente, balançou a cabeça, mas me concedeu um sorriso. Desejou boa sorte e partiu.

Fernando Bicudo nos tratou como velhos conhecidos e nos deixou totalmente à vontade. Lançou os olhos à partitura enrolada, recusou muito delicadamente uma “inspeção” e foi nos conduzindo em direção ao camarim:
- Foi muito legal você ter feito isso. É uma prova de carinho do público carioca. A Jadranka vai adorar. Vamos lá que eu vou apresentar vocês.

Pelo menos cinqüenta pessoas faziam fila no corredor que levava ao camarim do mezzo-soprano. E a fila não parava de crescer. A porta estava aberta, era possível ver parte de um piano, uma pesada cortina e gente entrando e saindo em grupos. Fernando demonstrava uma natureza extremamente afável. Naquele tempo ele era um tipo requintado de celebridade, de modo que devolvia todos os sorrisos que lhe eram dirigidos enquanto... furava a fila:
- A senhora me permite? O rapaz é compositor e escreveu uma música para a Jadranka.

O homem era um diplomata, não encontrava oposição. Os murmúrios de encantamento com o novo gênio da música se estendiam como numa fileira de dominós - e ninguém além de mim sabia que eu era uma fraude. As pessoas me olhavam como seu fosse um Brahms, como se trouxesse no embuste daquele maço uma sinfonia indispensável ao futuro; uma arte tão confortadora quanto a que havíamos partilhado: o Réquiem de Verdi. Gerado na dor, no medo, e na esperança que resiste à Morte, a missa havia consolado a platéia dos seus temores, e semeado a atmosfera de celebração e de vida que parecia irmanar as pessoas numa ciranda elíptica e sem fim. Naquele momento entendi a profundidade da obra de Verdi, sua beleza, sua vitalidade, sua essencialidade. Me senti profundamente envergonhado, e só tive então um desejo: o de sair dali.
- Olha, Fernando, muito obrigado, mas eu não quero incomodar...

Foto recente de Jadranka Jovanovic.Virei as costas e iniciei o que provavelmente teria se tornado uma corrida. Em sincronia com o giro, meus dois amigos – que estavam adorando tudo aquilo – formaram uma barreira, ao mesmo tempo em que Fernando estendeu a mão para me segurar como pôde – no caso, pelo cós do cinto: voltei de ré, ao mesmo tempo em que ele me cingia o ombro e segurava meu braço com a outra mão. Ao redor, as pessoas gargalhavam. Lancei um olhar para trás, Guilherme e Marcelo me escoltavam como mafiosos. Guilherme arreganhou os dentes numa imitação acintosamente forçada e barata de James Cagney. Fernando acenou-lhes como se dissesse “bom trabalho, rapazes”:
- Calma, Ricardo, calma. Você vai entender depois, esse é um momento importante.
E recomeçou o discurso sobre o Mozart que amparava em seu abraço. Foi quando nos detivemos junto à porta; foi quando eu a vi. Jadranka Jovanovic iluminou-se e abriu um sorriso borbulhante de contentamento em minha direção:
- Oh, Fernando! – disse com um acento delicioso.

O sorriso havia se extraviado, não era eu o destinatário. Mas isso não impediu que me apaixonasse perdidamente pela segunda vez na mesma semana – felizmente pela mesma mulher. Sua voz era delicadamente doce, diferente do veludo suntuoso que a impostação, o ardor e o céu lhe concediam quando cantava. Mas aquilo também fora um murmúrio, um pensamento que escapara num suspiro.

Não entramos imediatamente, o camarim estava lotado. Fernando conversava com o casal idoso que esperava à porta. O diplomata cuidava mais uma vez para que o jovem Beethoven furasse a fila. Há poucos passos de nós, Jadranka brilhava e queimava meus últimos escrúpulos. Valera a pena o esforço de estar ali: eu já podia sentir o seu perfume.

Fernando me cutucou e rompeu o transe. A senhora falara comigo, mas eu não ouvira. Rubro como um tomate, me desculpei e respondi suas perguntas sobre a natureza da Décima Sinfonia enrolada com fita vermelha. O casal tinha me visto escrevendo vigorosamente durante o concerto e a senhora estava encantada. Muito gentil, ela se voltou para os meus amigos:
- Vocês também são músicos?
Guilherme é a simpatia em pessoa, e se permitiu um “não, madame”. Era a minha deixa, a válvula de escape oferecida pelo acaso:
- Senhora - eu disse -, eles são muito modestos. Na verdade estamos formando um trio: eu canto e eles pedem desculpas.

Todos riram. Eu, mais do que todos: o plano mirabolante dera certo. Lá estava eu, um rapaz começando a vida a quatro metros de uma mulher inatingível, uma estrela emergente do canto lírico europeu – e prestes a ser apresentado a ela numa condição absolutamente especial.

Algumas pessoas saíram do camarim e eu fui empurrado vigorosamente para dentro. A sala continuava repleta. Fernando Bicudo não se dirigiu apenas a Jadranka – que nos sorria amavelmente – mas a todos os presentes. Fez um breve e inteligente discurso onde testemunhava que a beleza e a voz do mezzo-soprano haviam inspirado um jovem compositor carioca, que lhe dedicava sua arte: a fraude assumia uma dimensão política. Jadranka nascera em Belgrado, mas Fernando discursou em português – o que me levou à conclusão de que ela falava romeno, um quase-latim. Ela apertava os olhos magníficos como se pudesse ouvir melhor. Era um encanto. Estava completamente absorvido quando fui literalmente tangido para perto dela e tragado pelas espirais de um perfume que ainda posso sentir. Jadranka abriu a partitura, passou os olhos pela introdução e foi direto buscar a linha do canto. Ela parecia verdadeiramente interessada, leu duas ou três páginas enquanto eu tentava ler o seu rosto soberbo.

No início, notei um certo estranhamento. Depois, percebi um meneio de aprovação no trecho em que surgia a melodia principal. Mas de novo o estranhamento, as sobrancelhas se crispando ligeiramente, os lábios se estreitando... E então, subitamente, um sorriso que eu jamais havia visto em nenhuma outra mulher, pois ainda não tinha vivido o suficiente. Não era um sorriso vasto nem exatamente luminoso. Mas nele encontrei uma vivacidade peculiar, firme e secreta, direta e ao mesmo tempo velada.

Jadranka tinha entendido tudo. Eu havia sido decifrado pela esfinge. Já não era mais uma fraude, mas alguém que enaltecera a mulher que ela era. Aquele era o sorriso com que uma mulher retribui algo que a lisonjeia, envaidece e a toca profundamente na sua feminilidade. Um homem pode saciar simultaneamente os instintos, desejos e sentimentos de uma mulher - e ainda assim não conquistar algo tão íntimo. Não, decididamente eu não era uma fraude, a ousadia da minha juventude havia sido premiada com... maturidade. Foi esse o presente que recebi de Jadranka.

Tenho certeza de que nada escapou ao Fernando Bicudo, que estendeu as mãos e disse:
- Agora, o beijo...

Jadranka colocou a mão num lado do meu rosto e beijou o outro. Depois, fez um gesto para que meus amigos se aproximassem e os beijou também. Fernando incentivou os aplausos, disse que voltaria logo e nos conduziu para a porta. Detive-me um instante e me voltei – ela já cumprimentava algumas pessoas, mas me olhou divertida. Fiz uma vênia imitando o que aprendera com Gary Cooper em um dos filmes de minha vida, Beau Gest. Desde menino havia esperado um momento para aquela flexão. Mas não tive coragem de colher a impressão que poderia ou não ter causado. Saí de olhos baixos.

Como o cavalheiro que era, Fernando Bicudo nos conduziu ao exato lugar onde havíamos sido apresentados. Nos abraçou francamente, segurou-me pelo braço e me deu uma tapa carinhoso no rosto:
- Tinham duzentas pessoas no palco, duas mil na platéia, mas a noite foi sua, garoto. Você nunca vai esquecer.
Sorriu, acenou e nunca mais o vimos.

 *

Saímos pelos bastidores. A chuva fina descia em espirais forjadas pela luz e pelas sombras das árvores na calçada do Teatro, suavizando a noite de verão carioca. Seguimos pela Rio Branco, ninguém disse nada até o Marcelo quebrar o silêncio muito tempo depois:
- Vocês não se sentem mais leves?
- Sim, me sinto mais leve.
- Eu também - emendou o Guilherme. Marcelo completou:
- É o “Efeito Jadranka”. Nunca mais vou lavar o rosto.

Éramos amigos dos tempos de garoto, crescemos juntos. Até hoje, quando nos reunimos, se algo de especial acontece alguém sugere o “Efeito Jadranka” – a mulher que não tive, mas que me ensinou o que buscar nas que conheci depois.

Perfumes diferentes, um mesmo sorriso.

(Para K., que quando sorri, me torna alguém melhor.)
 

     

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Este site foi atualizado em 07/12/06