música: o eleito

05/09/10

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O Eleito

©Ricardo Labuto Gondim


Dos multifacetados subúrbios do Rio, Pilares é dos mais cinzentos. O bairro sofre de uma imobilidade no tempo que uma ou outra fachada mais arrojada é incapaz de alterar. O néon, o vidro e o aço escovado das franquias cosmopolitas são como invasões alienígenas numa arquitetura de cinema B. Existe uma escola de samba, a Caprichosos, mas a quadra está isolada sob o viaduto que leva o bairro para longe. Sua via principal, a Avenida João Ribeiro corteja de um lado o muro cimentado e áspero da estrada de ferro; do outro, ruas que formam um labirinto de tobogãs.

Não pense você que Pilares é triste. É apenas cinza. Qualquer lugar é bom para se viver quando nele você tem raízes, de modo que a melancolia é invisível pelo lado de dentro.

Saindo para caminhar numa manhã qualquer, deixei outro subúrbio para trás, o Lins, um bairro mais verde, de gente gorda. Pilares era só uma passagem numa jornada ambiciosa que deveria durar três repetições do CD no meu tocador portátil. Volta e meia passo por ali buscando outros subúrbios, pois sou louco por eles. Gosto da arquitetura, dos relevos e da cor local – mesmo que essa cor seja o cinza. Não importa aonde eu vá, o subúrbio carioca não sai de mim, e por isso nunca me preocupei em sair dele. Neste país ou em qualquer outro, por onde quer que eu ande nunca me afasto de casa.

Naquele dia em Pilares, disposto a variar a paisagem tomei um caminho que me pareceu um atalho perfeitamente lógico. Mas a lógica é uma abstração do pensamento enquanto a geografia é um evento mais concreto. Perdi-me muito rapidamente, o que não chega a constituir novidade.

Numa viagem de ultraleve que fiz ao Nordeste com meu irmão piloto (leia os relatos aqui) percorri 1.895 milhas debaixo de imprecações. O comandante ficou chocado ao descobrir que seu irmão mais velho não sabia dialogar com mapas. Francamente, qualquer idiota pode ler um mapa – mas se o idiota que lê o mapa não tem senso de direção a coisa pode desandar. Em minha defesa quero dizer que acho mapas graficamente feios e dispersivos, exceto os dos séculos XV e XVI (por sua beleza e, justamente, por sua imprecisão, que obedece muito mais à imaginação expansionista e às superstições dos cartógrafos europeus que aos rigores da bússola).

Viu? Já me dispersei: o que tem a ver um mapa de latitudes hipotéticas com estar perdido na concretude cor de chumbo de Pilares? Acho que estou tentando dizer que não me importa extraviar-me quando saio a caminhar, pois caminho justamente para deixar que os pensamentos se mesclem, diluam e se refrigerem entre mil e uma esquinas. E como estava no ponto mais alto de uma hiperbólica ladeira – o topo de uma encruzilhada entre quatro ruas de paralelepípedos – não me preocupei: para onde decidisse vagar, bastava descer.

Foi quando ouvi a voz de Franz Peter Schubert.

No volume baixo em que habitualmente ouço música, os fones do discman são muito mais a proteção contra as buzinas e acelerações do trânsito do que uma ameaça aos meus tímpanos. Naquela elevação silenciosa ouvi sem esforço a aproximação de Schubert. Entrecortado e vacilante, é verdade – mas autêntico. Tirei os fones e confirmei, era a sinfonia n. 2.

A música vinha através de uma janela que antes teve a cor da copa das árvores e agora, a dos troncos. Era uma casa de esquina, acanhada, enrugada, com uma entrada lateral que se estendia ao longo de um corredor estreito e cimentado para desaguar num quintal de terra. Aproximei-me como um ladrão do portão de ferro batido. O som era agradável, com aquele frescor que costuma soprar do vácuo das válvulas. Notei pelo canto do olho uma senhora baixa e fornida subindo a rua com duas sacolas de compras. Voltei-me para confirmar que ela caminhava em minha direção. Sorri:

– Bom dia, senhora. Estou curtindo a música.
– O senhor gosta de música clássica?
– Ôh...
– O meu marido é quem gosta. Espera um instantinho que eu vou chamar ele.

Com uma agilidade impressionante para uma mulher de 60 e poucos anos que havia acabado de escalar um Everest, a senhora desapareceu dentro da casa. Um instante depois um sorriso irrompeu no corredor, seguido por um senhor pequeno e magro que devia andar pelos 70 e poucos.

– Bom dia, senhor – cumprimentei. – Estava aqui ouvindo o Schubert.
– Como é que o senhor fala?
– Desculpe?
– O nome do compositor: como é que o senhor fala?
– Schubert.
– Eu pensei que fosse “Schubér” – disse ele com um sotaque inquinado de francês.

Em dois minutos de prosa me vi sentado no sofá do seu Martinez enquanto “D. Ilna com n” coava o café. A sala era decorada com uma simplicidade delicada. Uma das paredes estava inteiramente tomada por prateleiras de madeira escura sustentadas por cavaletes de metal em forma de X. “Minha filha bolou e mandou fazer pra mim”, disse ele. O resultado era sóbrio e original, colorido pelas lombadas dos estojos de LPs com os selos mais célebres do mundo: Decca e London, EMI e Angel, Mercury, Columbia e, é claro, DG. Um monumento à saudade e à nostalgia.

Deixe-me resumir a história de um autêntico melômano narrada entre duas xícaras de bom café: durante quase três décadas seu Martinez foi ascensorista num dos edifícios mais austeros do Centro do Rio. Um dia, ganhou de um advogado com escritório no prédio uma fita-cassete lacrada, um presente que o doutor lhe repassou sem ter tido sequer a curiosidade de abrir. Seu Martinez apaixonou-se pelo Concerto n. 29 de Mozart e nunca mais deixou de ouvir música. Como não ligava para o CD, na medida em que os disquinhos prateados com leitura a raio laser foram se tornando banais, estojos suntuosos que ele jamais poderia comprar foram brotando nos balcões dos sebos: assim formou-se a aristocrática discoteca que dominava a sala.

O café quente refrescou o andante molto mosso da Pastoral de André Cluytens. Estávamos sentados de frente para uma “vitrola” em forma de móvel, uma Philips valvulada da década de 60 com um “olho mágico” verde. Se não me engano, uma FR680 com controles de tonalidade em forma de estrela na base do grande dial de vidro negro. O desenho do braço do toca-discos lembrava a nave de um filme de Flash Gordon com Buster Crabbe. O som tinha graves macios e agudos limitados. Mas era tão gostoso e envolvente de se ouvir que não busquei nada além de música. Seu Martinez tinha poucas versões de uma mesma obra, e uma variedade de títulos tão extensa e eclética que me fez corar.

Alternamos música, café e conversa por mais de duas horas. Fiquei de voltar qualquer dia desses, que é o jeito carioca de marcar encontros destinados ao acaso. O fato é que eu queria realmente voltar, mas não consegui. A rua desapareceu como se não existisse. Em vão percorri as ladeiras de Pilares em busca da encruzilhada com a casa enrugada e estreita. Receio – como quem teme o inexplicável – que ela seja uma ilusão, e que o encontro com o seu Martinez na imobilidade cinzenta de Pilares não passe de um sonho. Ainda assim alimento esperanças. Em algum lugar deve haver um mapa impreciso e belo indicando a casa do homem que ouvia música. Sei que o cruzamento é quádruplo - mas o caminho é um só.

Se não posso achar a casa, talvez ainda possa encontrar o mapa.
 

     

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Este site foi atualizado em 09/01/08