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10/05/12

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Digressões

©Ricardo Labuto Gondim

Nova versão do artigo publicado
no Audiodicas original


Tive 5 minutos de fama quando “Aforismos, desaforos e dois anúncios classificados” foi publicado no Audiodicas original. O artigo gerou comentários no HT Forum e em duas listas de discussão. Na época, o Prof. Carlos Dantas, um dos membros mais queridos e respeitados da nossa comunidade observou que eu parecia demonstrar preconceito contra músicos ingleses. Re-visitando o artigo, confirmei a fidalguia do Prof. Dantas, pois minha impetuosa pena havia vitimado muitos outros súditos de Sua Majestade além daqueles enumerados pelo mestre. Do modo como fora escrito o texto soava claramente anglofóbico – sentimento que não poderia alimentar ainda que eu fosse francês.

Particularmente acho os ingleses um dos povos mais peculiares e surpreendentes do mundo. Conheço três casos que definem a originalidade sem igual do caráter inglês – e vou ter uma síncope se não te contar:

1. Em Macbeth, a primeira frase do protagonista é: “Nunca vi dia tão feio e tão belo”. Leia de novo. Os cinco atos da peça cabem na concisão desta frase. Em minha opinião tão pretensiosa e tão modesta, essa é a maior linha de diálogo da história do drama. E é essencialmente inglesa.

2. Construído pelo dramaturgo Richard Sheridan, o teatro de Drury Lane pegou fogo. O teatro era a grande obra de sua vida, e em meio ao desespero para evitar que a ruína de um homem contagiasse a cidade, eis que surge Sheridan com uma garrafa de conhaque na mão. Seus amigos o cercaram, instando para que não assistisse à tragédia da transformação de um sonho em cinzas. Sheridan os repreendeu: “Um cavalheiro tem todo o direito de tomar um drinque tranqüilamente a lareira”.

3. Em “A Arte de injuriar”, Borges descreve um episódio que descobriu em De Quincey. Durante uma discussão teológica ou literária, o interlocutor de um certo Dr. Henderson lhe atirou uma taça de vinho ao rosto. Como se nada tivesse acontecido, o Dr. Henderson disse: “Isto, senhor, foi uma digressão; aguardo seu argumento”.

Que outro povo na história da civilização cultivou semelhante espírito? Mas voltemos à música, tema dos “Aforismos”.

Com exceção de alguma coisa de Purcell e Elgar, gosto dos compositores ingleses... de Britten pra cá. Händel – que em 1726 corrigiu a geografia do seu nascimento e se tornou inglês – era, me perdoem, o 11 de setembro. Mas gosto muito do som aveludado e encorpado das orquestras inglesas. Gosto das Sinfônica e Filarmônica de Londres, da agora popular Royal Philharmonic, e é claro, da velha The Philarmonia Orchestra de Walter Legge.

Legge – para a turma que está começando a descobrir os clássicos – foi (juntamente com outro inglês, John Culshaw) o produtor que estabeleceu o conceito de excelência no campo da gravação de música clássica. Sua invenção mais popular foi o maestro Hebert von Karajan.

Cerca de oito meses depois do fim da II Grande Guerra, Legge criou a Philarmonia e foi à Viena buscar um regente. Ele sonhava com Furtwängler, que sonhava voltar correndo para a mulher da sua vida, a Filarmônica de Berlim. Então viu Karajan ensaiar um concerto que seria cancelado algumas horas mais tarde.

Walter Legge já tinha ouvido falar do jovem maestro, um dos garotos-propaganda do Reich. E teve o feeling de perceber que von Karajan era o anti-Furtwängler, um regente mais preocupado com as sonoridades que extraía da orquestra do que com a revelação do “espírito da música”. Falando grosso modo, o maestro era deliberadamente dionisíaco, ou seja, o instrumento perfeito para o padrão de excelência que Legge impôs à indústria do disco –  que nos anos posteriores, já de volta ao continente, Karajan continuaria a perseguir, lamentavelmente com a DG.

Embora a Inglaterra tivesse os virtuoses para formar um timaço como a Philarmonia, note que o técnico Walter Legge foi buscar seu homem do outro lado do Canal da Mancha. Por quê? Porque na época, os maestros ingleses pertenciam a segunda e terceira divisões. As orquestras inglesas tornavam-se verdadeiramente grandes nas mãos dos regentes continentais. As exceções – o Zico e o Pelé do podium britânico – eram Sir Thomas Beecham e John Barbirolli, homens com caráter de ferro, impossíveis de serem controlados.

O ponto é este. Se marketing e avidez podem impor ou tentar impor a mediocridade abissal de Simon Rattle – com embalagens cintilantes, vídeos que nada acrescentam à música e áudio em Technicolor – o talento autêntico eleva nomes como Pinnock, Gardiner, Hogwood e Norrington muito acima de seu conterrâneo mais famoso.

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Pretendendo ter demonstrado que não sofro de audioanglofobia, me apresso em dizer que o meu problema com Brendel é de outra espécie. Não tem nada a ver com a sua fleuma, mas com sua perfeição. Aquele som inimitável, puro e cristalino se derrama das mãos de um pianista imaculadamente asséptico e preciso... mas que se recusa a interpretar, atado ao metrônomo como um Prometeu em sua rocha. As sonatas de Beethoven são conflitos, combates e asperezas que a lógica matemática de Brendel acaba por apaziguar. Em sua versão original os Quadros de uma exposição são a música de um bárbaro ébrio e minimalista; com Brendel, uma visita tediosa ao museu. Seu Mozart é impecável, sem dúvida. Mas Géza Anda – e aqui a comparação é inevitável – há muito revelou a madrugada de um refinado Sturm und Drang nas obras do moço triste e conturbado que foi Mozart. Uma percepção que não escapou a Haydn, que tratava o jovem Mozart como mestre. Num certo sentido, Gulda parece ter partido das revelações de Anda para caminhar numa direção nova e igualmente enriquecedora.

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John Barbirolli – que pessoalmente acredito ser um dos gigantes da história do podium – era um homem austero. Mas Sir Thomas Beecham, o fundador da Royal Phillarmonic era terrivelmente espirituoso. Certa vez, regendo Sibelius, numa tensa pausa antes do ataque poderoso dos metais o trompete entrou um tempo antes. Em pleno concerto Beecham gritou para o músico: “Thank you, Sir”.

Quando algum regente de reputação internacional vinha reger em Londres, Beecham copiava o programa e marcava um concerto da sua RPO para a noite seguinte, ou apenas alguns dias mais tarde. Depois de executar uma daquelas passagens difíceis que davam o tom da execução, virava-se para a platéia e gritava: “Viram como é que se faz?”

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Beecham nasceu em berço esplêndido numa família de tradição. Ainda adolescente, demonstrando inteligência e erudição precoces, encontrou em seu pai a atenção e o poder que determinaram seu futuro. Enquanto a nossa burguesia presenteia seus filhos com festas babilônicas regadas a champanhe do melhor e cortesãs travestidas de “modelos”, o pai de Beecham contratou uma pequena orquestra de câmara para o filho. O conjunto se reunia na propriedade da família uma ou duas vezes por mês para que o garoto se tornasse o grande regente que foi. Ouça Haydn e a Sinfonia Fantástica com Beecham. Ouça a sua celebrizada VII de Beethoven, miraculosa e áspera, que vai te fundir com solda elétrica à poltrona com a mesma intensidade da sublime versão de Carlos Kleiber, que nos dá vontade de dançar.

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Deixa eu abrir outro parêntese: se você tem o livro “O Mito do Maestro”, escrito por um dos piores súditos de Sua Majestade, o crítico Norman Lebrecht (pois aquilo é um tratado de maledicências que se desvia do podium para a calúnia em nível pessoal), esqueça tudo o que leu sobre Beecham. O autor fala da briga de Beecham com o pai – que o teria deserdado – para explicar duzentas páginas depois que o maestro só tornou a ópera popular na Inglaterra graças à ajuda do velho – que inclusive financiou a Salomé de 1910.

Na ânsia de afirmar de modo supostamente “irrefutável” a controvertida tese de que Karajan foi nazista por convicção e não por oportunismo, Lebrecht cortou uma floresta inteira para explicar – com pormenores supostamente técnicos – a metodologia “nazista” de iluminação que o maestro usou em seus filmes.

A questão não tem nada a ver com ideologia, mas com a inteligência e o brilhantismo do fotógrafo de Karajan, Ernst Wild. Os televisores da década de 1970 tinham baixíssima “latitude”, que é a distância entre o branco e o preto (ou – grosseiramente falando – pouca sutileza nas gradações entre as cores e uma simulação de preto ridícula). Ora, Karajan era um homem vestido de pingüim cercado por cem outros pingüins contra um fundo em trevas. Wild inteligentemente fotografou os filmes em cores com a mais brilhante e atilada técnica do cinema em preto e branco. O alo de luz em volta do regente – que lastreou o oportunismo de Lebrecht – é chamado de “luz de recorte”, algo difícil de se obter com aquela definição tão frontal sem deixar a luz irromper lente adentro (é um contra-luz). Por isso, nos filmes de Karajan da década de 1970, raramente uma das 15 câmeras se move.

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A última descoberta de Lebrecht – divulgada em recente entrevista à revista Veja – é a de que Mozart não foi um compositor dado a inovações. Confesso que quando me explicaram isso há uns 25 anos – quando eu tinha 15 – também sofri um choque.

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Buscar a polêmica pela polêmica: que ambição mais modesta. 

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Mas voltemos à música, que não melhora a índole de ninguém, mas que propõe melhorias, propõe.  

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Beecham teve vários predecessores em sua ousadia de falar à platéia durante um concerto. O caso mais célebre a velha guarda conhece. Aconteceu com Hans Richter, que estreou O Anel do Nibelungo. Certa vez, por um gesto impreciso seu alguns músicos precipitaram um tutti. Quem freqüenta salas de concerto já viu isso acontecer várias vezes, e é mesmo uma ocorrência muito triste. Mas, poxa, isso faz parte da música em ato. Um concerto não é um disco gravado, re-gravado, editado e polido até aquele grau inumano de perfeição que, receio, a gente adora. Pois bem, Richter parou a orquestra, virou-se para a platéia, disse que o erro tinha sido dele, pediu desculpas e foi aplaudido de pé. Agradeceu e recomeçou a música.

O que mais podia fazer?

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Em algum lugar aí em cima disse que Karajan deu prosseguimento ao ideal de perfeição em gravações que aprendeu com Legge. A questão é que Karajan buscava em toda e qualquer partitura a Beleza em seu sentido mais amplo – o que incluía também a beleza de som. Músicas simples e desprezadas como as Czardas do balet Coppelia, por exemplo, eram tratadas como sinfonias de Mahler. Regendo Coriolano, a impressão que sem tem é que as cordas da Filarmônica de Berlim não eram um naipe, mas um único e preciso instrumento. No ardente Coriolano de Furtwängler não existia nem sombra daquela massa de veludo compactado. Mas em compensação há um sentindo universal de tragédia, algo impossível de ser descrito em palavras porque está muito além delas.

Karajan foi um grande regente, mas seu tempo está passando. Um público cada vez mais informado lança um olhar crítico sobre suas interpretações. Quando eu era garoto ele era uma referência em Beethoven. Hoje seu Beethoven não sobrevive, especialmente depois das versões com instrumentos autênticos que demonstram – mais do que nunca – que a última preocupação do velho Ludwig van era a Beleza. Karajan buscava a “fluidez” na Tradição de Arthur Nikisch, enquanto Beethoven tem de ser necessariamente articulado.

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Infelizmente, no auge da sua carreira Karajan trocou a divina acústica da Jesus Christuskirche pela Phillarmonie, a sala de sua orquestra em Berlim cuja acústica deficiente aperfeiçoou os horrores das gravações da DG. Além da má captação do som, suponho que a DG comprimia a dinâmica dos registros com muito mais pressão que as outras gravadoras (recurso indispensável para manter obras extensas nos dois lados de um único LP). MAS, seja feita justiça, as deficiências da DG faziam parte da sua personalidade. A gravadora tinha princípios, um conceito particular de sonoridade que permeia os registros de Bhöm, Giulini, Jochum e todas as suas estrelas.

A questão da personalidade é fundamental. Antigamente, quando você comprava uma gravação Columbia, Decca, DG ou RCA sabia exatamente que tipo de som poderia obter. Hoje a DG é só uma marca, um instrumento do marketing. Embora dos anos de 1990 pra cá o selo tenha lançado gravações espetaculares, tornou-se uma espécie de Kinder Ovo capaz de conter surpresas muito desagradáveis.

Felizmente, mal ou bem outras companhias perseguem o ideal da personalidade sonora. Como a Telarc (a meu ver, deploravelmente opulenta e irreal), Bis (que nunca me impressionou e que não consegue fazer jus ao som espetacular da OSESP), a refinada Chandos e a sublime Denon. A própria Naxos se esforça para estabelecer um padrão, embora seus produtores se encontrem gravando em Estocolmo na terça-feira e em Sumatra na quinta de manhã. Mesmo assim, ainda que sejam de um modo geral “peculiares’, a Naxos impõe equilíbrio e clareza em suas gravações.

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Outra virtude da Naxos é provar de modo irrefutável que a grandeza não é privilégio de alguns poucos nomes ilustres. Exemplifico: Bela Drahos, que gravou sinfonias de Haydn e Beethoven com uma orquestra de câmara criada exclusivamente para os registros. Se depois de ouvir a IX do Drahos você ainda insistir em Beethoven com Rattle e Abbado eu não vou ficar de mal, mas nós vamos passar a conversar sobre outros temas. Como a torrefação do alcaçuz com manteiga de iaque, ou a aplicação de tecnologia militar contra o poodle dodecafônico da minha vizinha.  

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Sabe por que existem tantos kapellmeister sem nada de novo a dizer vendendo discos aos milhões quando o som é bom? Sabe por que certos espíritos penetrantes escrevem que só ouvem música clássica gravada de um certo tempo pra cá? Porque não gostam ou não sabem ouvir música, só equipamentos.

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Ouvi novamente a VII de Bruckner com Rattle e Birmingham. No desenvolvimento do primeiro movimento Ratlle descobriu o que ninguém sabia: Bruckner é o inventor do baião. Sim, eu também fiquei surpreso. Jamais teria imaginado que o baião é tão vienense quanta a valsa.

É um prodígio, esse menino.

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Mas nossa época não é uma era de mediocridade, existem muitos, mas muitos Eleitos caminhando sobre a Terra. E se há um músico da nova geração capaz de me perturbar é o pianista Lang Lang. O rapaz tem a maior qualidade que um artista pode ter: a coragem. Virtuosismo, amigão, é figurinha fácil, uma ocorrência banal. Mesmo Idil Biret, recordista das gravações da Naxos – que a meu ver é a pior pianista do mundo – é uma virtuose. Mas coragem é o que transforma um prestidigitador de teclados de alto nível num artista genuíno.

Lang Lang só tem dois tipos de interpretação: as sublimes e as espetacularmente péssimas, pois a queda do artista é diretamente proporcional à sua estatura. Veja Furtwängler, por exemplo: seu Don Giovanni é a pior gravação já realizada de uma ópera de... Wagner; um dos maiores equívocos interpretativos do século XX – que não é de modo algum medíocre. Aliás, mostre-me um intérprete que nunca teve um fracasso e eu te mostrarei o medíocre – alguém que só atua em segurança.

Lang Lang não tem medo de arriscar, nos confrontando com perspectivas inteiramente novas de obras que julgávamos esgotadas.

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Sinto falta do meu 3x1 Sharp com toca-discos Garrard e cápsula GE importados. Rapaz, aquilo tocava bonito. Mas olho meu sistema de hoje (nada muito obsceno mas afinado como um Stradivarius e perfeitamente ajustado à minha sala) e indago: por quê tenho saudades do meu 3x1?

Naquele tempo sua sonoridade me satisfazia plenamente, e minha preocupação não era como escutar, mas o quê escutar. Naquele 3x1 ouvi a IX Sinfonia de Beethoven pela primeira vez. Eu nunca tinha ouvido a IX nem pelo rádio. Comprei o álbum duplo – Bhöm com  Viena – no meu aniversário de 16 anos. Cheguei em casa, vi que estava sozinho, troquei a poltrona de lugar para formar um triângulo perfeito com as caixas, fechei a porta envidraçada da varanda do apartamento no subúrbio, cerrei as cortinas para defender o som dos vidros, baixei a alavanca do toca-discos e corri para não perder nenhum um segundo de música.

Jamais me esquecerei da sensação de esmagamento enquanto os primeiros compassos literalmente brotavam do palco do Musikverein e se erguiam, e se erguiam, e se erguiam e se erguiam diante de mim como dolmens cinzelados por um deus. Quando atingiram o céu, tempestade e fogo, maremoto e furacão. Então, tudo se precipitou num abismo, emergindo com fúria lenta e implacável imediatamente depois. 

No célebre interlúdio do primeiro movimento, quando Beethoven recapitula infinitamente a célula inicial, oito trompas desintegraram o tempo e o espaço: no andamento marcial e pesado de Bhöm vi nascer uma galáxia, vi a fusão de sóis agora mortos, vi o princípio e o fim.

Quando a música acabou eu estava com febre, e passei três dias de cama. Meu pai, que conhecia música clássica relativamente bem mas amava os mestres da MPB entendeu tudo antes de mim: “Foi o Beethoven que te derrubou. Música é coisa séria, algumas obras exigem maturidade e você é um garoto. Vai devagar.”

Nunca segui esse conselho. Mas poucas vezes voltei a me sentir tão estático – essa é a palavra em seu sentido mais profundo –, ao descobrir as obras que a humanidade gerou capazes de provocar o arrebatamento e a transcendência. Alguma vez uma obra te deixou assim? Eu já tinha lido que a IX era a peça capital na vida de Wagner e Brahms, daí a minha escolha naquele aniversário. Brahms inclusive achou que nunca mais poderia compor depois de ter ouvido a IX, que ainda é a música da minha vida. Quando meu filho era um peixe numa esfera de líquido amniótico, colocava um imenso e macio fone eletrostático Waferdale (o Velho Leão já escreveu sobre ele) na cúpula da morna catedral que o abrigava dos horrores e alegrias deste mundo.

Até os três ou quatro anos de idade, ao ouvir a IX ele dormia como um anjo.

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Como você vê a saudade do meu 3x1 é simbólica. É a saudade do que experimentei quando ouvi pela primeira vez a IV de Tchaikovsky, as sinfonias e o Réquiem Alemão de Brahms, o Réquiem de Mozart, La Péri de Dukas, a II de Mahler, a tocata Dórica de Bach, o prelúdio de O Ouro do Reno e a cena da Imolação, o Wozzeck, a fuga da 41... É por isso que mantenho diversas versões diferentes de cada peça que amo, para descobrir o novo no velho. E é por isso que busco avidamente o que não conheço: para enriquecer minha vida com o prazer da descoberta. Como a Sinfonia de Paul Dukas, as belas e antiquadas sinfonias de Arnold Bax, as obras vigorosas de Eduard Tubin, o Réquiem de Saint-Saëns, o impressionismo moderno de Toru Takemitsu e o mais que ainda não sei.

Só sei que sigo em frente.

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Este site foi atualizado em 02/12/07