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música: conserto com s |
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05/09/10 |
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Consertos para a juventude
©Ricardo Labuto Gondim
Em compensação tenho ouvido música de compositores com os quais sempre tive dificuldade. Se quisesse escrever uma frase de efeito, cederia à minha inclinação pela hipérbole para dizer que “a música é o seu intérprete”. Eis a tese: a música só existe em Ato e a partitura é Potência. Antítese: a Potência antecede necessariamente ao Ato e é intrínseca a ele. Síntese: minha hipérbole é uma falácia, mas eleva o intérprete à mesma estatura do compositor. Venho confirmando o postulado todos os dias, exceto às quintas (na quinta eu jogo biriba e bafo-bafo). Descobri intérpretes reveladores de obras que antes não me interessavam. Como a música de Franz Liszt. Na minha modestíssima opinião, Liszt foi um mal compositor. O problema? A submissão do pathos ao virtuosismo – o drama ultrajado pela exibição. Isso tem a ver com o Franz pessoa física, muito mais interessante que o Liszt pessoa jurídica. Franz foi um jovem invulgarmente bonito, abastado, que dividiu seus lençóis com algumas das beldades mais fascinantes da época. Como pianista era um virtuose – mas havia outros tão brilhantes quanto ele. Então, um dia, Franz viu Paganini tocar.
Na verdade Paganini foi um homem humilde, que passou a vida inteira estudando e praticando. E não fazia distinção entre pessoas: detinha-se diante de um cigano na praça ou de um colega concertista com a mesma atenção respeitosa. Existem muitas histórias sobre ele e uma delas é especialmente bonita: havia um célebre professor de violino que não recebia ninguém, recusava alunos as dúzias e só mantinha dois ou três pupilos por vez. Paganini recorreu a todos os seus conhecidos até que um deles conseguiu promover o encontro com o tal professor - que se recuperava de uma grave enfermidade. Enquanto aguardava na sala de estar, Paganini encontrou um manuscrito aberto na estante de música e tocou a primeira leitura. Foi imediatamente chamado ao quarto do convalescente, que havia escrito a peça – tão difícil que ele mesmo não conseguia tocá-la. “Não tenho mais nada a lhe ensinar", disse o professor. "O senhor está pronto.” Paganini nunca se considerou “pronto”. E praticava todos os dias, interminavelmente. O belo e jovem Franz enxergou muito além do circo que Paganini promovia. Compreendeu que o violinista era o arauto de uma nova era, que impunha ao intérprete a ilimitada devoção ao seu instrumento. Assim, propô-se o desafio de se tornar o Paganini do piano. Como resultado obteve a si mesmo, o lendário Liszt, que consertou sua frívola juventude com uma devoção tão fervorosa que de sedutor transfigurou-se em abade.
Existem poemas sinfônicos maravilhosos, como os Ma Vlast de Smetana. Mas se para alguns compositores o poema sinfônico é lírico, nas mãos do seu criador é enciclopédico. A Batalha dos hunos, por exemplo, começa bem. Você nem precisa fechar os olhos para ver Átila usurpar o porte de Marte, tendo “a seus pés a Fome, a Espada e o Incêndio, como cães atados”. Liszt pinta um retrato impetuoso e temerário do líder de um império afogado em sangue, chamado em sua época de “o flagelo do mundo”. Deixe o seu Tio Ricardo resumir a história para quem não viu o filme – ou fez gazeta justamente nessa aula: no verão do ano 452, Átila invadiu a península itálica e avançou até Mântua. Como a queda de Roma era iminente, três embaixadores foram enviados ao seu encontro, entre eles o Papa Leão I. Ninguém conhece o teor das conversações, mas o fato é que o huno recuou. Para os cristãos, as beatíficas palavras de Leão I produziram o milagre que a história desmentiu: a peste que assolava a península causou mais estragos às hordas de Átila do que as espadas dos guerreiros vencidos. Como a poesia nada deve à História, Liszt descreveu musicalmente o encontro, empurrando a serena oratória do Papa em Mântua para muito além das fronteiras do tédio. O resultado é o mesmo que se obtém quando um compositor dispõe o coração adiante do cérebro: música ruim. Então ouvi com Scherchen.
Scherchen extraía de qualquer orquestra exatamente o que queria. E se fosse necessário provocar o ouvinte para lançar uma nova luz à obra que interpretava, fazia-o sem pudor ou hesitação. A Eroica que gravou com a Opera Estatal de Viena é monumental. Sua V de Mahler, um colosso marcial e ligeiro como uma carga de cavalaria. Na VI ele se superou, trocando a ordem dos movimentos internos e cortando repetições que julgou desnecessárias (sei que é heresia, mas particularmente adorei o resultado). Para Liszt o maestro encontrou uma solução simples, óbvia, e por isso mesmo velada a muita gente. Em lugar de escamotear as minúcias da retórica lisztiana, sublinhou-as. Tornou a música tão objetiva, tão expressiva e tão evidente... que até eu entendi. A partir dessa compreensão tardia, passei a ouvir a música de Liszt com “novos olhos”, e agora me vejo engatinhando em suas obras. Foi assim que cheguei à Sinfonia para o Fausto, que me atraía pelo tema e me repelia por seu discurso.
A sinfonia Fausto não é uma grande música. Não é nem mesmo uma sinfonia no sentido “tradicional”. Mas é, de fato, uma obra muito expressiva em sua pintura de caracteres. Confesso que ainda ouço o retrato de Gretchen com esforço e desconforto, mas resisto à tentação de apertar a setinha do controle remoto. A despeito do que me foi revelado, continuo achando Liszt um compositor menor. O que me empolgou até agora não me envolveu na sua totalidade. Mas os momentos de fulgor – os lampejos da autêntica beleza – me estimulam a continuar tateando. Já escalamos o Everest e descemos a Fossa das Marianas. Numa Terra sem fronteiras, Franz Liszt ainda é um mistério para mim. É uma dádiva completar 41 anos e poder vibrar com a descoberta de coisas belas e empolgantes, que me são novas. Como a música de um libertino húngaro que virou clérigo. Eis o conserto da minha enferrujada juventude. Já estou me sentindo um garoto.
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Este site foi atualizado em 17/07/07