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05/09/10

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Consertos para a juventude

©Ricardo Labuto Gondim

Versão revista do artigo publicado
no Audiodicas original


Juro que tentei evitar, mas não consegui: em 2007 fui obrigado a completar 41 anos. Em vão fatiguei os curandeiros e esgotei a ciência. Cheguei a escrever ao Prefeito sugerindo atrasar os relógios um ano ou dois no horário de verão. Não adiantou, as pessoas andam muito intolerantes hoje em dia. Mas estou em forma, e ainda tenho bastante cabelo no lado direito. Corre o boato de que continuo bonito e é verdade, eu mesmo espalhei.

Desse estado irreversível que poderia levar um homem mais fraco ao desespero inferi algumas virtudes. Umas três. Estou me tornando mais tolerante, brando e concentrado. No meu aniversário ganhei um estojo de 6 DVDs com os melhores momentos da Hebe Camargo. Assisti tudo, incluindo os extras. E para elevar essa serenidade ao paroxismo, encomendei a coleção dos melhores momentos do Clodovil. Só não li Paulo Coelho porque sou um homem cético e não acredito que aquelas bobagens tenham sido escritas.

Em compensação tenho ouvido música de compositores com os quais sempre tive dificuldade.

Se quisesse escrever uma frase de efeito, cederia à minha inclinação pela hipérbole para dizer que “a música é o seu intérprete”. Eis a tese: a música só existe em Ato e a partitura é Potência. Antítese: a Potência antecede necessariamente ao Ato e é intrínseca a ele. Síntese: minha hipérbole é uma falácia, mas eleva o intérprete à mesma estatura do compositor.

Venho confirmando o postulado todos os dias, exceto às quintas (na quinta eu jogo biriba e bafo-bafo). Descobri intérpretes reveladores de obras que antes não me interessavam. Como a música de Franz Liszt.

Na minha modestíssima opinião, Liszt foi um mal compositor. O problema? A submissão do pathos ao virtuosismo – o drama ultrajado pela exibição. Isso tem a ver com o Franz pessoa física, muito mais interessante que o Liszt pessoa jurídica.

Franz foi um jovem invulgarmente bonito, abastado, que dividiu seus lençóis com algumas das beldades mais fascinantes da época. Como pianista era um virtuose – mas havia outros tão brilhantes quanto ele. Então, um dia, Franz viu Paganini tocar.

Paganini dominava tão extraordinariamente o violino que transformava recitais em espetáculos acrobáticos. Foi um gênio do marketing. Ao contrário de Liszt, era minuciosamente feio, e sublinhava seus traços caricaturais com um desmazelo cuidadosamente estudado. Antes de se apresentar numa cidade mandava espalhar boatos de que tinha um pacto com o demônio, e que nos teatros X e Y havia causado fenômenos sobrenaturais. Alguns incidentes eram “verdadeiros”: Paganini costumava limar três cordas do violino para que rebentassem ao longo da execução, tocando as peças mais difíceis numa corda só. Numa dessas ocasiões a corda dilacerada chicoteou-lhe o rosto, e o sangue que envernizou o instrumento poliu o brilho da sua lenda.

Na verdade Paganini foi um homem humilde, que passou a vida inteira estudando e praticando. E não fazia distinção entre pessoas: detinha-se diante de um cigano na praça ou de um colega concertista com a mesma atenção respeitosa. Existem muitas histórias sobre ele e uma delas é especialmente bonita: havia um célebre professor de violino que não recebia ninguém, recusava alunos as dúzias e só mantinha dois ou três pupilos por vez. Paganini recorreu a todos os seus conhecidos até que um deles conseguiu promover o encontro com o tal professor - que se recuperava de uma grave enfermidade. Enquanto aguardava na sala de estar, Paganini encontrou um manuscrito aberto na estante de música e tocou a primeira leitura. Foi imediatamente chamado ao quarto do convalescente, que havia escrito a peça – tão difícil que ele mesmo não conseguia tocá-la. “Não tenho mais nada a lhe ensinar", disse o professor. "O senhor está pronto.”

Paganini nunca se considerou “pronto”. E praticava todos os dias, interminavelmente.

O belo e jovem Franz enxergou muito além do circo que Paganini promovia. Compreendeu que o violinista era o arauto de uma nova era, que impunha ao intérprete a ilimitada devoção ao seu instrumento. Assim, propô-se o desafio de se tornar o Paganini do piano. Como resultado obteve a si mesmo, o lendário Liszt, que consertou sua frívola juventude com uma devoção tão fervorosa que de sedutor transfigurou-se em abade.

A questão é que para provar que você é um Paganini é preciso dar cambalhotas e fazer malabarismos – o que Liszt praticou à exaustão. Sua música é brilhante – mas brilhante é o atributo das superfícies; sob ela, Brahms e eu não conseguimos enxergar nada além do vazio. Outro problema, a meu ver, é a verborrágica retórica do criador do “poema sinfônico”.

Existem poemas sinfônicos maravilhosos, como os Ma Vlast de Smetana. Mas se para alguns compositores o poema sinfônico é lírico, nas mãos do seu criador é enciclopédico. A Batalha dos hunos, por exemplo, começa bem. Você nem precisa fechar os olhos para ver Átila usurpar o porte de Marte, tendo “a seus pés a Fome, a Espada e o Incêndio, como cães atados”. Liszt pinta um retrato impetuoso e temerário do líder de um império afogado em sangue, chamado em sua época de “o flagelo do mundo”.

Deixe o seu Tio Ricardo resumir a história para quem não viu o filme – ou fez gazeta justamente nessa aula: no verão do ano 452, Átila invadiu a península itálica e avançou até Mântua. Como a queda de Roma era iminente, três embaixadores foram enviados ao seu encontro, entre eles o Papa Leão I. Ninguém conhece o teor das conversações, mas o fato é que o huno recuou. Para os cristãos, as beatíficas palavras de Leão I produziram o milagre que a história desmentiu: a peste que assolava a península causou mais estragos às hordas de Átila do que as espadas dos guerreiros vencidos.

Como a poesia nada deve à História, Liszt descreveu musicalmente o encontro, empurrando a serena oratória do Papa em Mântua para muito além das fronteiras do tédio. O resultado é o mesmo que se obtém quando um compositor dispõe o coração adiante do cérebro: música ruim.

Então ouvi com Scherchen.

Hermann Scherchen foi um regente essencialmente preocupado com o aspecto subjetivo das obras que interpretava. Isso fica claro na gravação de um ensaio da V de Beethoven disponível em CD. O maestro se detém numa longa preleção do ethos que descobriu na partitura – o que, no fundo, é perda de tempo: saber o que Beethoven queria dizer além das notas não vai afetar a técnica de arco do violoncelista na terceira fila da Orchestra della RT della Svizzera Italiana, da qual Scherchen extraiu um som insuspeitado. Francamente, o violoncelista teria gostado mais se o maestro explicasse como desejava a articulação do célebre contraponto do III movimento. Cerrando as fileiras de uma orquestra, o músico não é um intérprete, mas o instrumento do intérprete que se ergue no podium. Ele já tem problemas demais para materializar os pontinhos pretos em sons, tendo que realizar as orientações expressivas e técnicas do regente. Ocupar-se com tudo isso e filosofar ao mesmo tempo é demais para um só homem.

Scherchen extraía de qualquer orquestra exatamente o que queria. E se fosse necessário provocar o ouvinte para lançar uma nova luz à obra que interpretava, fazia-o sem pudor ou hesitação. A Eroica que gravou com a Opera Estatal de Viena é monumental. Sua V de Mahler, um colosso marcial e ligeiro como uma carga de cavalaria. Na VI ele se superou, trocando a ordem dos movimentos internos e cortando repetições que julgou desnecessárias (sei que é heresia, mas particularmente adorei o resultado).

Para Liszt o maestro encontrou uma solução simples, óbvia, e por isso mesmo velada a muita gente. Em lugar de escamotear as minúcias da retórica lisztiana, sublinhou-as. Tornou a música tão objetiva, tão expressiva e tão evidente... que até eu entendi. A partir dessa compreensão tardia, passei a ouvir a música de Liszt com “novos olhos”, e agora me vejo engatinhando em suas obras. Foi assim que cheguei à Sinfonia para o Fausto, que me atraía pelo tema e me repelia por seu discurso.

A sinfonia Fausto é na verdade um conjunto de três poemas sinfônicos (Fausto, Gretchen e Mefistófeles) articulados entre si por um desenvolvimento programático simples e direto. Procurei com Scherchen, não encontrei; escutei com Horenstein, mas não “ouvi”; descobri com Ataúlfo Argenta, me apaixonei (leia mais aqui).

A sinfonia Fausto não é uma grande música. Não é nem mesmo uma sinfonia no sentido “tradicional”. Mas é, de fato, uma obra muito expressiva em sua pintura de caracteres. Confesso que ainda ouço o retrato de Gretchen com esforço e desconforto, mas resisto à tentação de apertar a setinha do controle remoto. A despeito do que me foi revelado, continuo achando Liszt um compositor menor. O que me empolgou até agora não me envolveu na sua totalidade. Mas os momentos de fulgor – os lampejos da autêntica beleza – me estimulam a continuar tateando.

Já escalamos o Everest e descemos a Fossa das Marianas. Numa Terra sem fronteiras, Franz Liszt ainda é um mistério para mim. É uma dádiva completar 41 anos e poder vibrar com a descoberta de coisas belas e empolgantes, que me são novas. Como a música de um libertino húngaro que virou clérigo.

Eis o conserto da minha enferrujada juventude. Já estou me sentindo um garoto.

Para ler mais:
Maquinista: o guia introdutório para as gravações de Ataúlfo Argenta
Trem desgovernado: a vida de Ataúlfo Argenta

 

     

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Este site foi atualizado em 17/07/07