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16/04/13

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Tema e Variações: Beethoven (I)

Um auto-retrato do compositor com pinceladas dos seus
contemporâneos e desenhos de
Jarina Menezes.

Compilação do logos eletrônico

 Beethoven não seria Beethoven se, tudo o que é, não o fosse em excesso.[...]
Beethoven não encontra maneira de sair do Eu. Mas este Eu é um Universo.
Romain Rolland
 

GRAVE E AGUDO

“A música é a única, a imaterial entrada num mundo mais alto de saber de que o homem se acha rodeado - se o pode apreender”

Depois de levar às lágrimas os convivas de uma execução privada, Beethoven riu às gargalhadas:
- Sois uns néscios! Não são artistas. Os artistas são de fogo. Não choram.

Despedindo-se do amigo Schlosser:
- Fora com toda emoção: em tudo deve o homem ser firme e corajoso.

 “Quanto maior o regato, tanto mais profundo é o som”.
Nota do caderno de esboços da Heróica

Sobre o destino: “Não conseguirás dobrar-me inteiramente”.

“A melancolia, que é para mim um mal tão grande quanto a própria doença...” (1787)

“Se não fossem os meus ouvidos, já teria percorrido meio mundo”.

“Homem, ajuda-te a ti mesmo”.

“Resignação! Oh duro combate!”

“A força é a moral dos homens que se distinguem dos outros homens; é também a minha." (1800)

“Muitas vezes amaldiçoei o Criador.” (1801)

“Poucos homens, e, no exíguo número deles, nada que se faça notar... Vivo só – só.” (1812)

Não reconheço outro sinal de superioridade além da bondade.” (17 de junho de 1812)

“Que a tua surdez deixe de ser um segredo, mesmo em arte!” (escrito nos esboços do finale do Quarteto Rasumovsky em 1806)

“A nossa época precisa de espíritos fortes que fustiguem estas mesquinhas, rabugentas, sonsas e pobres alminhas humanas.” (1825)

Es muss sein!” (Tem de ser!)
Epígrafe do último movimento do Quarteto em fá maior Op.135 (1826)


Testamento de Heiligenstadt (10 de outubro de 1802)

“A alta coragem que, nos belos dias de Estio, freqüentemente me acompanhava – desapareceu...”

“Há quanto tempo que o eco profundo da verdadeira Alegria me é estranho! Oh, quando, quando, Divindade, poderei eu senti-la de novo no templo da Natureza e dos homens! – Nunca mais?... Não! – Oh, isso seria demasiado cruel”.


EDUCAÇÃO MUSICAL

Albrechtsberger e Salieri diziam que Beethoven nada lhes devia porque jamais condescendera em aceitar o que tentaram lhe ensinar. Czerny registrou que o professor Gelinek teria dito: “Satan está nesse rapaz!”

À Czerny Beethoven confessaria as falhas de sua educação musical acrescentando: “E todavia eu tinha talento para a música!”

A respeito de uma de suas obras alguém lhe disse que “as regras proíbem tal sucessão de acordes”. Beethoven respondeu:
- Eu permito-as.

Quando o jovem compositor Anton Halm enviou-lhe uma sonata, desculpou-se num bilhete pela quebra de algumas regras - tal como fizera o próprio Beethoven. Em resposta, recebeu de volta o manuscrito ainda lacrado com a seguinte nota: “Eu posso fazê-lo. O senhor não.”

Às portas da morte, disse: “Agora começo a aprender”.


CONSCIÊNCIA

Aos amigos que congratulavam sua fama prematura (fama que se constituiu muito lentamente, consolidando-se apenas na maturidade, pois Beethoven só começou a publicar aos 25 anos):
- Que disparate! Nunca pensei escrever por amor da fama e da glória. O que tenho no coração, força me é tirá-lo cá pra fora. Aí está porque escrevo.

O Barão Braun, diretor do teatro onde estreou Fidélio, reclamou que os camarotes estavam cheios, mas os lugares populares, vazios, “ao contrário [do tempo] de Mozart”. Beethoven respondeu:
- Eu não escrevo para a multidão. Escrevo para as pessoas instruídas.

Algumas semanas antes de morrer entregou a Schindler o manuscrito de “Leonora”, a primeira – e melhor – versão do Fidélio:
“De todos os meus filhos, foi ela que mais doloroso parto me custou, foi ela que mais desgostos me trouxe; e é exatamente por isso que mais lhe quero. Mais que todas, considero-a digna de ser guardada e utilizada para a ciência da Arte...”.


GOETHE

Em 1812, Beethoven tocou privadamente para Goethe. Notando que o poeta estava profundamente emocionado, disse:
- Oh! Isso é o que eu não esperava de vós, senhor [...] De vós eu não aceito isso. Quando vossos poemas me penetram o cérebro, tenho a prosápia de querer subir à mesma altura que vós...

Naquela tarde, Beethoven tomou Goethe pelo braço e levou-o a um passeio. Cruzando  com aristocratas, o poeta se desfez em mesuras. Beethoven lhe disse:
- Hã? O senhor não deve fazer isso; não é próprio de si. Deve atirar-lhes propriamente à cara com o que tem no pensamento. Do contrário, não darão por nada.

Momentos depois encontraram a imperatriz seguida por duques e membros da corte. Beethoven disse a Goethe:
- Conserve seu braço no meu! Eles é que devem afastar-se para nos deixar passar, não nós.

Goethe desvencilhou-se de Beethoven e perfilou-se à beira do caminho. Beethoven arrojou-se e passou entre os príncipes. Todos se afastaram e o cumprimentaram como a um amigo. O compositor apenas tocou a aba do chapéu, avançou e ficou à espera do poeta:
- Esperei-vos porque vos honro e prezo como mereceis; mas vós deste-lhes demasiada honra!

Durante o passeio, Goethe revelou-se cansado dos cumprimentos que lhe dirigiam os passantes. Beethoven respondeu:
- Não faça V. Exa. caso; é talvez para mim!

Mais tarde, Beethoven escreveu a Bettina Brentano sobre o encontro, detendo-se na reação emocionada de Goethe à sua interpretação ao piano: “A emoção é própria das “frauenzimmer” , perdoe-me [numa tradução de sentido, “coisa de mulher”]. Ao homem deve a música chispar o espírito com fogo.”

Em 1822 – dez anos depois do passeio – Beethoven lembraria de Goethe com carinho: “a paciência que o grande homem teve comigo, pois já não conseguia ouvir-lhe direito... Como me senti feliz! Por ele, me deixaria matar dez vezes”.


SONATAS

“2 de junho – O final, sempre mais simples – do mesmo modo, toda a música para piano – Deus sabe porque minha música para piano continua a causar-me a pior impressão, especialmente quando é mal tocada.”
Anotação nos rascunhos do segundo final de “Leonora” em 1804

Depois de concluída a mais eufórica e ao mesmo tempo menos apaixonada de suas sonatas (em ré maior, Op. 28, “Pastoral”), diz a Krumpholz:
- Não estou satisfeito... Preciso achar outro caminho...

Interrogado por Schindler sobre o sentido das sonatas Op. 31 no. 2 e Apassionata, Beethoven respondeu:
- Leia a “Tempestade” de Shakespeare.


BEETHOVEN e o piano

Czerny escreveu que Beethoven era particularmente admirável no legato, e que tratava o piano como órgão em direta oposição à execução refinada, pinçada e fragmentada de Mozart – e contra os maiores pianistas de seu tempo. A informação colide contra o requinte que consagrou muitos intérpretes de Beethoven no último século, e nos leva a questionar certas interpretações “autênticas”.

“Consoante conselho e desejo de Beethoven, [o célebre construtor Streicher] renunciou à moleza de tecla dos outros instrumentos vienenses, que cedem com demasiada facilidade e ressaltam ruidosamente, dando aos seus teclados mais resistência e elasticidade, de sorte  que o virtuose que confere às suas execuções energia e sentido seja mais senhor da tecla, abaixada ou levantada, para manter o som e para o prolongar. Deste modo, conferiu aos seus instrumentos um maior e mais variado caráter. Todo virtuose que não busca unicamente o brilho superficial da execução aprecia-los-á mais do que qualquer outro instrumento”.
Observações de Reichhardt em visita à Beethoven no inverno de 1808-1809


O MELÔMANO

“Era difícil, se não impossível, ler-lhe na expressão [quando ouvia uma performance musical] algo que significasse aprovação ou desencanto; permanecia sempre o mesmo, aparentemente frio e retraído nos seus juízos. Lá dentro, o espírito trabalhava sem trégua; o invólucro animal era como um mármore sem alma.”
Seyfried, nos primeiros anos de 1800

“Era aberto e tolerante nas discussões. Do que não lhe agradava, ria-se a bom rir...”
Seyfried

Kloeber, que pintou-lhe um retrato em 1818, observou Beethoven em muitos dos seus concentrados devaneios: “Haviam-me prevenido de nunca lhe dirigir a palavra quando assim o visse, porque [ele] seria extremamente desagradável”.


Episódios

“Meteria-a numa redoma para que nenhuma aragem indigna a tocasse”, disse Beethoven a respeito da princesa Lichnowsky. Anos mais tarde, a princesa invocou a memória da mãe de Beethoven para impedi-lo de arremessar à lareira o manuscrito de Fidélio depois do fracasso de 1805. Gravemente doente, a princesa o conjurou “a não deixar perecer sua maior obra”. Beethoven respondeu soluçando:
- Farei tudo o que quiser de mim...  por amor de si... por amor de minha mãe.

Alguns meses depois, indignado com uma palavra dita ao acaso pelo príncipe – que teria ferido os brios da sua independência -, estilhaçou o busto de Lichnowsky e bateu a porta. Nunca mais reviu qualquer membro da família, e enviou a seguinte nota em resposta aos apelos do nobre: “Príncipe, o que sois devei-lo ao acaso do nascimento; o que eu sou, devo-o a mim mesmo. Príncipes há vários e havê-los-á aos milhares. Beethoven só existe um.”

 

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Este site foi atualizado em 14/02/12