música: argenta

16/04/13

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Trem desgovernado
A vida de Ataúlfo Argenta

©Ricardo Labuto Gondim


A locomotiva entra pesada e lenta na pequena estação de Castro Urdiales, uma vila de pescadores na costa ocidental da Cantabria. O aço geme, as rodas travam, e em meio aos vapores que se fundem ao vento talhado de sal, a velha máquina sopra o seu lamento.

O apito saúda o nascimento de Ataúlfo, filho do Sr. Juan Martin de Argenta, chefe da estação ferroviária.

É o ano de 1913. Juan está ansioso para iniciar a educação musical do menino. Músico amador, filho de músico amador, o chefe da estação quer ver o próprio filho tocar ao menos um instrumento. O destino - que irá conspirar contra a vida de Ataúlfo com a força de uma locomotiva - prega em Juan a primeira peça: estudando piano e violino, o talento musical do garoto se revela tão acima das modestas ambições do pai, que a sociedade local conspira para que Ataúlfo seja enviado ao Conservatório de Madrid.

Sonhando um futuro melhor para o filho, Juan muda-se com toda a família em 1926. Ataúlfo supera as mais dilatadas expectativas, sendo encorajado a seguir a carreira de pianista.

Juan morre no ano em que Ataúlfo completa 17 anos, deixando-lhe a responsabilidade de sustentar a família. Tocar em bares e salões não é suficiente para honrar a triste herança, e o jovem pianista se vê obrigado a abandonar o Conservatório: as magras e delicadas mãos talhadas para o piano vão empunhar pesadas ferramentas na oficina de trens do Estado.

Graças ao apoio de Juanita, noiva e colega do conservatório, Ataúlfo deixa a oficina pouco mais tarde, formando-se com êxito e aperfeiçoando a técnica na Bélgica.

Aos 22 anos, de volta à Espanha, por uma série de circunstâncias determinadas pelo desejo e pelo acaso é indicado interinamente como maestro preparador da temporada da Ópera de Madrid. O futuro esboça um sorriso... interrompido pela Guerra Civil Espanhola.

Desta vez as mãos abandonam as teclas para sintonizar os rádios do Batalhão de Transmissões de Segovia, por onde trafegam o sigilo e as estratégias. O acaso e a traição conspiram: Ataúlfo é preso sob a acusação de espionagem, e sobe ao banco dos réus para ouvir sua condenação à morte. Escapa do patíbulo e dos fuzis no último instante, quando se descobre que a acusação é falsa.

De volta aos combates, trava uma batalha particular contra o tifo, que o ataca impiedosamente. Escapa por milagre, volta à linha de frente e toca onde quer que encontre um piano, ainda que entre os escombros de uma casa dilacerada pelos bombardeios.

A devastação da Espanha exaure a Guerra e semeia a fome. Ataúlfo tem Juanita grávida do segundo filho e uma menina pequena para alimentar. Num momento de desesperança, surge o convite para sua primeira apresentação pública.

Na noite de 30 de novembro de 1939 Ataúlfo Argenta faz seu debut como pianista. No intervalo do recital, concentrando-se para dar à noite um final digno da primeira parte, recebe a trêmula visita de um mensageiro: seu filho está morto. Com lágrimas nos olhos, volta ao piano e toca as Cenas Infantis de Schumann.

Ataúlfo está a ponto de desistir de tudo quando o pianista Winfried Wolff o ouve tocar os Quadros de uma exposição de Mussorgsky, de caráter rude, minimalista e harmonicamente simples, de difícil interpretação. Admirado com a inteligência da abordagem de Argenta, Wolff convida-o a aperfeiçoar sua técnica na Alemanha, o que significa deixar Juanita e as duas filhas na incandescência fuliginosa das ruínas de Madrid. Ataúlfo hesita, Juanita o apóia, e em maio de 1941 chega ao Conservatório de Kassel.

Dezenas de esboços biográficos imprecisos alardeiam seus estudos com o grande regente Carl Schuricht, mas a verdade é mais surpreendente.

Ataúlfo conhece Carl Schuricht por ocasião do festival hispano-germânico de Bad-Elster, cerca de três meses depois de sua chegada. Schuricht assiste ao recital de Argenta, e mostra-se tão impressionado com a segurança, ímpeto e inteligência do pianista, que nele intui um regente. Apaixonado pelo piano, Ataúlfo não se mostra especialmente entusiasmado. Mas a amizade entre os dois se estreita, e Schuricht o recomenda para a Filarmônica de Berlim, a mulher da vida do ciumento e possessivo Furtwängler. Schuricht persegue sua intuição, e Ataúlfo faz seu debut como regente em 17 de maio de 1942 à frente da Orquestra da Rádio de Berlim.

Ataúlfo conquista prestígio e um pouco de dinheiro com recitais de piano, e reúne a família. A Alemanha está tão contaminada de virulência e horror, que ele decide voltar à Espanha em 1943. Depois de uma última apresentação em Frankfurt, o concertista perde o trem para Paris, que parte com Juanita e as meninas.

É tempo de guerra. Conseguir um bilhete, embarcar e seguir por uma estrada de ferro é difícil, incerto e arriscado. Assustada, sem notícias e sem dinheiro, Juanita não abandona a Gare du Nord e durante dois dias alimenta suas filhas com a caridade dos parisienses.

Na extensa noite do segundo dia, o apito de um trem inesperado desembarca uma esperança na plataforma. Entre a multidão amorfa e apressada, Ataúlfo se destaca no fraque desolado da apresentação em Frankfurt. Caminha angustiado quando se depara com a família correndo ao seu encontro.

Ao fim da Guerra Ataúlfo também está derrotado: depois de grandes privações o músico de 32 anos, mulher e quatro filhos sente-se novamente tentado a abandonar a carreira. Um último esforço traz a vitória: Ataúlfo conquista o posto de pianista da Orquestra Nacional de Espanha. Ao mesmo tempo, movido por circunstâncias e necessidades financeiras urgentes, funda a Orquestra da Rádio Nacional e inicia a carreira de regente.

A pequena orquestra toca praticamente todos os dias. Em cerca de um ano o jovem maestro acumula experiência e reputação, gravando inclusive uma versão madura da Eroica. Então, negando-se a colaborar numa “depuração política" dos membros da orquestra, dissolve o conjunto. Com o apoio do Marques de Bolarque, funda a Orquestra de Câmara de Madrid que se apresenta por todo o país, consolidando a fama nacional de Ataúlfo Argenta. Já em 1947 é nomeado regente titular da Orquestra Nacional de Espanha, fazendo seu debut internacional com a Orquestra Sinfônica de Londres.

Em poucos anos – e sem reger no centro mundial da fama e do marketing, os Estados Unidos - Argenta é medido ombro a ombro com Karajan, Celibidache e Bernstein, e elevado à condição de ídolo em cidades como Paris, Genebra e Viena. Como disse um crítico, o maestro era a síntese de “uma formação e temperamento ‘latinos’ com a compreensão do repertório germânico”.

Nessa temporada de glórias, uma dolorosa tuberculose intestinal o arranca do podium.

Passam-se seis meses de profundo sofrimento, durante os quais é perseguido e atacado por denunciar o atraso da música espanhola como conseqüência do seu isolamento internacional. Argenta é tão caluniado que chega a pensar em exílio. Mas tendo vencido a tuberculose, encontra-se moralmente fortalecido, aceitando o convite para reger uma turnê estadunidense com a grande Orquestra da Suisse Romande - que acena com a titularidade. Ao mesmo tempo chegam convites para gravar o ciclo das sinfonias de Brahms com a Filarmônica de Viena, e o de Beethoven com a Filarmônica de Israel.

Então, numa noite de 1958, o destino o golpeia com uma última ironia.

Ataúlfo liga o carro na garagem de seu pequeno chalé na serra madrilenha e descobre um problema qualquer. Ele havia sido mecânico de trens e se distrai no que supõe ser um pequeno reparo. Neva. O frio é cortante. Distraído, abre a calefação, que suga o monóxido da descarga para o interior do veículo e sopra a vida para longe do regente.

Depois de 44 anos de perseguição, a locomotiva do destino finalmente o alcançou.

Apesar de toda a tragédia e adversidades em seu caminho, Ataúlfo Argenta permaneceu firme nos trilhos da sua vocação. Foram apenas dez anos sobre o podium e mais de trezentas obras no repertório, de Schumann a Schöenberg. Sua morte devastou o coração da Espanha, e foi profundamente lamentada por Karajan, Giulini e Celibidache.

Neste mês de maio, na seção monumentos sonoros do logos eletrônico, você vai ler sobre algumas das grandes performances do maestro registradas em disco: no podium, Ataúlfo Argenta era o maquinista.

Leia o guia das gravações de Ataúlfo Argenta em Monumentos sonoros.

     

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Este site foi atualizado em 21/06/07