|
música: argenta |
||
05/09/10 |
|
|
©Ricardo Labuto Gondim
O apito saúda o nascimento de Ataúlfo, filho do Sr. Juan Martin de Argenta, chefe da estação ferroviária. É o ano de 1913. Juan está ansioso para iniciar a educação musical do menino. Músico amador, filho de músico amador, o chefe da estação quer ver o próprio filho tocar ao menos um instrumento. O destino - que irá conspirar contra a vida de Ataúlfo com a força de uma locomotiva - prega em Juan a primeira peça: estudando piano e violino, o talento musical do garoto se revela tão acima das modestas ambições do pai, que a sociedade local conspira para que Ataúlfo seja enviado ao Conservatório de Madrid.
Juan morre no ano em que Ataúlfo completa 17 anos, deixando-lhe a responsabilidade de sustentar a família. Tocar em bares e salões não é suficiente para honrar a triste herança, e o jovem pianista se vê obrigado a abandonar o Conservatório: as magras e delicadas mãos talhadas para o piano vão empunhar pesadas ferramentas na oficina de trens do Estado. Graças ao apoio de Juanita, noiva e colega do conservatório, Ataúlfo deixa a oficina pouco mais tarde, formando-se com êxito e aperfeiçoando a técnica na Bélgica. Aos 22 anos, de volta à Espanha, por uma série de circunstâncias determinadas pelo desejo e pelo acaso é indicado interinamente como maestro preparador da temporada da Ópera de Madrid. O futuro esboça um sorriso... interrompido pela Guerra Civil Espanhola. Desta vez as mãos abandonam as teclas para sintonizar os rádios do Batalhão de Transmissões de Segovia, por onde trafegam o sigilo e as estratégias. O acaso e a traição conspiram: Ataúlfo é preso sob a acusação de espionagem, e sobe ao banco dos réus para ouvir sua condenação à morte. Escapa do patíbulo e dos fuzis no último instante, quando se descobre que a acusação é falsa.
A devastação da Espanha exaure a Guerra e semeia a fome. Ataúlfo tem Juanita grávida do segundo filho e uma menina pequena para alimentar. Num momento de desesperança, surge o convite para sua primeira apresentação pública. Na noite de 30 de novembro de 1939 Ataúlfo Argenta faz seu debut como pianista. No intervalo do recital, concentrando-se para dar à noite um final digno da primeira parte, recebe a trêmula visita de um mensageiro: seu filho está morto. Com lágrimas nos olhos, volta ao piano e toca as Cenas Infantis de Schumann. Ataúlfo está a ponto de desistir de tudo quando o pianista Winfried Wolff o ouve tocar os Quadros de uma exposição de Mussorgsky, de caráter rude, minimalista e harmonicamente simples, de difícil interpretação. Admirado com a inteligência da abordagem de Argenta, Wolff convida-o a aperfeiçoar sua técnica na Alemanha, o que significa deixar Juanita e as duas filhas na incandescência fuliginosa das ruínas de Madrid. Ataúlfo hesita, Juanita o apóia, e em maio de 1941 chega ao Conservatório de Kassel. Dezenas de esboços biográficos imprecisos alardeiam seus estudos com o grande regente Carl Schuricht, mas a verdade é mais surpreendente.
Ataúlfo conquista prestígio e um pouco de dinheiro com recitais de piano, e reúne a família. A Alemanha está tão contaminada de virulência e horror, que ele decide voltar à Espanha em 1943. Depois de uma última apresentação em Frankfurt, o concertista perde o trem para Paris, que parte com Juanita e as meninas. É tempo de guerra. Conseguir um bilhete, embarcar e seguir por uma estrada de ferro é difícil, incerto e arriscado. Assustada, sem notícias e sem dinheiro, Juanita não abandona a Gare du Nord e durante dois dias alimenta suas filhas com a caridade dos parisienses.
Ao fim da Guerra Ataúlfo também está derrotado: depois de grandes privações o músico de 32 anos, mulher e quatro filhos sente-se novamente tentado a abandonar a carreira. Um último esforço traz a vitória: Ataúlfo conquista o posto de pianista da Orquestra Nacional de Espanha. Ao mesmo tempo, movido por circunstâncias e necessidades financeiras urgentes, funda a Orquestra da Rádio Nacional e inicia a carreira de regente.
Em poucos anos – e sem reger no centro mundial da fama e do marketing, os Estados Unidos - Argenta é medido ombro a ombro com Karajan, Celibidache e Bernstein, e elevado à condição de ídolo em cidades como Paris, Genebra e Viena. Como disse um crítico, o maestro era a síntese de “uma formação e temperamento ‘latinos’ com a compreensão do repertório germânico”. Nessa temporada de glórias, uma dolorosa tuberculose intestinal o arranca do podium.
Então, numa noite de 1958, o destino o golpeia com uma última ironia. Ataúlfo liga o carro na garagem de seu pequeno chalé na serra madrilenha e descobre um problema qualquer. Ele havia sido mecânico de trens e se distrai no que supõe ser um pequeno reparo. Neva. O frio é cortante. Distraído, abre a calefação, que suga o monóxido da descarga para o interior do veículo e sopra a vida para longe do regente. Depois de 44 anos de perseguição, a locomotiva do destino finalmente o alcançou. Apesar de toda a tragédia e adversidades em seu caminho, Ataúlfo Argenta permaneceu firme nos trilhos da sua vocação. Foram apenas dez anos sobre o podium e mais de trezentas obras no repertório, de Schumann a Schöenberg. Sua morte devastou o coração da Espanha, e foi profundamente lamentada por Karajan, Giulini e Celibidache. Neste mês de maio, na seção monumentos sonoros do logos eletrônico, você vai ler sobre algumas das grandes performances do maestro registradas em disco: no podium, Ataúlfo Argenta era o maquinista. Leia o guia das gravações de Ataúlfo Argenta em Monumentos sonoros.
|
||
Este site foi atualizado em 21/06/07