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05/09/10

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Aforismos, desaforos e dois
anúncios classificados

©Ricardo Labuto Gondim

Versão revista e mais desaforada do
artigo publicado no Audiodicas original


Ontem tive uma noite daquelas. Voltei pra casa dizendo que “foi tudo um grande erro” e acordei repetindo que “nunca mais beberei”. Tudo começou com uma pacata e virtuosa água tônica, corrompida noventa minutos mais tarde por uma bebida de cor azulada. Uma exótica aventura etílica que alguém aprendeu a fazer num vilarejo úmido, trinta milhas ao norte de Trichinópoli. Pelo que me lembro, a mistura envolvia quase tudo que o barman tinha na prateleira e alguns derivados de petróleo. Suponho ter ouvido um gato miando desesperadamente, mas não tenho certeza. Durante os trabalhos houve um princípio de incêndio logo controlado. Como infelizmente a coqueteleira foi salva, estou aqui “fechando a conta”, pondo o cargo à disposição do Criador.

Mesmo com alguns neurônios irremediavelmente perdidos, tenho o compromisso de atualizar o site. Assim, contra minha própria vontade, sou obrigado a dividir meu mal-humor com você. Minha assistente, Miss Eleanor Ariadne Pibble irá digitá-lo, pois estou vendo todas as teclas ddoobbrraaddaass. Se algo sair errado, a culpa é dela.

A crítica inglesa é a mais influente do mundo: disseram que Colin Davis e Simon Rattle eram regentes – e até os alemães acreditaram.

Ouvi o causo numa das agradáveis mesas do Petisco da Vila, meu ponto de encontro aos domingos. A história foi contada pelo protagonista. O camarada terminou o affair com uma dama de seios inflados e crânio vazio, que segundo ele mentia patologicamente. Dias depois, recebeu da inconsolável mitômana o convite para assistir ao Fantasma da Ópera em São Paulo com todas as despesas pagas. A resposta teria sido mais ou menos assim (leia em voz alta para obter melhor efeito): “Queria deixar bem claro que o que me dá vontade de vomitar não é o fato da senhora me confundir com algum gigolô que costuma freqüentar. É a suposição de que eu estaria disposto a ouvir o Fantasma da Ópera”. Nas palavras do sedutor, Andrew Lloyd Webber é o túmulo da música no ocidente. Como nunca mais beberei até o próximo domingo, não me atrevo a repetir as palavras com que endossei a assertiva. Você vai ter que se contentar com as dele.

Às vezes me vejo pensando que não podemos perdoar aos ingleses a invenção de Lloyd Webber, Colin Davis e Rattle. Então me lembro de que eles também inventaram Shakespeare...

Borges escreveu que organizar a estante de livros é também um modesto exercício de crítica. Aplicando o mesmo princípio à minha discoteca, julguei prudente omitir qualquer vestígio de Rattle. Vai que você me visita?

Não pude omitir Davis por sua parceria com a orquestra mais equilibrada do mundo, a Concertgebown de Amsterdã.

Se o DVD de Leopold Stokovsky pela EMI tem como irreparável defeito o próprio Stokovsky, tem também Pierre Monteux como bônus, o que justifica o investimento. Monteux rege O Aprendiz de Feiticeiro com a meticulosidade e precisão de quem estreou a Sagração da Primavera. Menino, você precisa ver isso. Rattle, eu lhe asseguro, nunca viu.

O repórter para Toscanini: “Que imagem o senhor tem diante de si quando rege a Eroica?” Toscanini, ignorando as possibilidades retóricas e marqueteiras da pergunta: “Allegro con brio”.

O repórter para Otto Klemperer: “Por que o senhor só rege com partitura?” “Porque eu sei ler música”.

O crítico Omar Castellan, da revista Áudio & Vídeo, definiu a Filarmônica de Viena numa frase memorável: “a mais sensual das orquestras”. O jeito inesperado como ela reage a cada batuta não deixa mesmo dúvidas: é a fêmea da espécie.

Um site como o logos eletrônico é melhor do que qualquer site de mulher pelada. Aliás, por incrível que pareça, o que se mostra aqui é em geral muito mais barato de se manter.

Uma garota bonita pediu a Brahms que autografasse sua sombrinha. Ele escreveu os dois primeiros compassos do Danúbio Azul e acrescentou: “Infelizmente não é minha”.

Uma garota não tão bonita perguntou a Schubert: “Por que você só compõe música triste?” E o pobre Franz respondeu: “E por acaso existe outra?”.

Um crítico elegante poderia dizer que, apesar do som extraordinariamente cristalino e belo que extrai do piano, Alfred Brendel é um músico desprovido de imaginação. Eu, que sou desprovido de elegância, acho Brendel um chato.

A crítica mais fulminante que já li foi a do insuperável mestre Mário Henrique Simonsen, que chamou Ivo Pogorelich de “o pianista mais bonito do mundo”.

Não fique chateado comigo se você gosta de Davis, Rattle, Stokovsky (que o Prof. Simonsen chamava de “maestro de Hollywood”) e Brendel. Digo isso porque amo Schnabel, Solomon, Curzon, Anda, Mengelberg, Weingartner, Mitropoulos, Toscanini, Barbirolli, Ansermet, Monteux e muitos outros intérpretes que a maioria das pessoas não conhece porque só existem em gravações comprometidas pelo tempo. A Quarta de Mahler com Mengelberg, por exemplo, é insuperável – mas tem som de 1940.

Quem assistiu à série The Music of man de Yehudi Menuhin (no Brasil, A Magia da Música), deve lembrar-se da ira do célebre violinista profissional e regente amador contra Glenn Gould. O episódio mostra Gould “regendo” o engenheiro de gravação durante a seção de mixagem dos cinco ou seis microfones que usou para gravar o piano. O que Menuhin chamou de “falsificação” eu chamo de “integridade”. Gould entendeu que uma gravação é uma gravação. Em sua busca obsessiva pela clareza, abdicou de tudo. Até mesmo do realismo (e às vezes, da beleza de som).

Falando em gravações, alguns engenheiros conseguem fazer com que o Steinway se pareça com um piano. Pelo sim, pelo não, Gulda não arriscou e ficou com o Börsendorfer.

É incrível como as fofocas correm. Volta e meia um crítico escreve sobre a discussão pública entre Glenn Gould e Bernstein antes da execução do Concerto n. 1 de Brahms em 6 de abril de 1962. É mentira, não houve discussão alguma. Bernstein expôs seu assombro diante da interpretação do pianista ao mesmo tempo em que lhe fez um elogio retórico – ainda assim, deselegante. Depois, Gould entrou sem dizer nada, sentou ao piano e juntos fizeram uma interpretação de beleza inquietante. Moral da história: poucas vezes no mundo da música um artista aceitou a oposição do outro com a nobreza fidalga – silenciosa e ao mesmo tempo eloqüente – de Glenn Gould naquela noite imperecível.

Ironicamente, a última gravação da vida de Glenn Gould foi sua estréia como regente. Ele dirigiu O Idílio de Siegfried na versão original que Cosima ouviu em seu aniversário (Wagner não pôs uma orquestra debaixo da janela dela, mas apenas 13 músicos). Isso diz muito sobre uma obra geralmente subestimada. Disponível em CD, a gravação de Gould diz muito mais.

Existem dois tipos de fagote: o francês, que tem som de violoncelo, e o alemão, que tem som de fagote. Eu não sei o que isso significa, mas deve significar alguma coisa.

Posso sugerir a gravação de uma música sublime e subestimada? Ok, mas vou sugerir assim mesmo. Experimente a Sinfonia n° 2 de Rachmaninov. Na versão de André Previn (Great Recordings of the Century, EMI Classics), o raríssimo e oportuno encontro da melomania com a audiofilia. Uma performance estupenda com som seco, preciso e claro. Na versão da Royal Philharmonic – que custa dez reais na padaria da esquina – outra experiência maravilhosa.

Ouvi a última versão da Primeira Sinfonia de Brahms com Celibidache, que é um concerto para tuberculose e orquestra. Cheguei à seguinte conclusão: no dia em que os engenheiros de som gravarem as orquestras com a mesma qualidade com que gravam as tosses, a audiofilia estará concluída.

Há muitos anos li no Jornal do Brasil a entrevista de um engenheiro de gravação, aposentado, que havia trabalhado com os gigantes da regência. Ele confessou que nunca entendeu o que os maestros – especialmente Karajan – queriam dizer quando lhe pediam um “som 3D”. “Só conheço dois tipos de som: o alto e o baixo. O resto eu nunca escutei”. Pessoalmente, acho que acústica e engenharia de gravação são ciências tão refinadas e complexas, que sobre muitos dos êxitos que conhecemos pairam as obras do acaso e da Providência.

No Requiem de Verdi regido por Toscanini, no Tuba Mirum você pode ouvir o maestro gritando “Piu forte! Piu forte!”. Durante o broadcast, o coro atendeu o comando do maestro de modo tão eficaz que foi preciso usar o registro do ensaio – que um técnico prudente teve o cuidado de gravar.

Toscanini pediu a um soprano famoso pelo dó de peito – e pelos próprios peitos – para cantar uma dada frase assim, assim. Lá pela quarta tentativa a mulher ensaiou um protesto. O maestro desceu do pódio e apertou-lhe os “atributos”: “Ah, madame, se isso fosse cérebro!”.

Ainda Toscanini: uma diva agiu como diva durante todo o ensaio. Ao contrário do que se esperava, Toscanini não explodiu – foi até suave: “Senhora, queria lhe dizer que as estrelas estão no céu. Aqui em baixo só existem bons e maus músicos, e a senhora pertence ao grupo dos maus”.

Puccini e Toscanini brigaram. O compositor tinha por tradição enviar panetones aos amigos no Natal. Esquecendo-se da briga, a secretária mandou o acepipe para Toscanini. Quando soube, Puccini enviou um telegrama: “Panetone enviado por engano”. Toscanini respondeu: “Panetone comido por engano”. Anos mais tarde o maestro regeu a estréia de Turandot. No ponto em que o manuscrito autógrafo passava da caligrafia de Puccini para a de Alfano – que completou a obra – Toscanini calou a orquestra e voltou-se para o público do Scala de Milão: “Aqui o maestro morreu”. O público entendeu, saiu em respeitoso silêncio e voltou no dia seguinte para ouvir a conclusão da ópera.

Toscanini definia a si mesmo como um “contandino”, um camponês. Definitivamente ele não era um intelectual como Furtwängler, que vivia cercado de literatos e filósofos, ou uma personagem do jet set como Herr Karajan. Mas foi um grande homem, e na minha modestíssima opinião, o maior dos regentes. Sempre repito isso aos espíritos penetrantes que se julgam superiores porque ouvem a música que teimam em chamar de “erudita” – coisa que, aliás, não existe. Haydn, que consolidou a forma sinfônica e foi o mestre de Beethoven, era um homem ainda mais simples que Toscanini.

Numa noite dessas ouvi o prelúdio do III ato do Lohengrin e a marcha fúnebre de Siegfried com Mravinsky e São Petersburgo. Ai!, Senhor, porque eles não gravaram o Anel?

Quando ouço a Filarmônica de Berlim hoje, depois de Abbado e Rattle, descubro que Hebert von Karajan era muito maior do que pensávamos.

Karajan foi gravar o Don Quixote de Strauss com Rostropovich. Quando o violoncelo entrou, um som horrível. “Slava – perguntou Karajan – sente-se bem?” Rostropovich sorriu: “Sim, mas veja: é um cavalo muito velho o que estou montando”.

Férenc Fricsay foi um dos maiores regentes de todos os tempos, mas poucos audiófilos o conhecem. A sonoridade das suas gravações pertence ao mundo dos melômanos. Já Vaclav Neumann nos deixou excelentes gravações – e você não tem desculpa se o desconhece.

Numa tarde de verão irrepreensível em Varsóvia, o Prof. Dr. Hermann von C. Phudör, PHD, meu orientador na Universidade de Breslau (onde pesquisei as virtudes teologais do número quatro – número da perfeição de todo tetrágono), me saiu com a seguinte pérola: “—São cinco as coisas que não existem: ex-anão, ex-corno, ex-veado, filho de prostituta chamado Júnior e reviewer de áudio que não seja tratado como Herbert von Karajan, amado por metade da crítica e odiado pela outra metade”. “—Ossos do ofício”, retruquei. Reagindo com um gesto ao primarismo do meu comentário, o Dr. von C. Phudör completou: “Veja, por exemplo o Fulano da revista X, que escreve as coisas exatamente do jeito que eu penso. É um sujeito excelente, que não amiúde é tratado injustamente. Já aquele outro, o Sicrano, que só diz bobagens com que absolutamente não poso concordar, vive às expensas da mãe, cuja profissão adivinho sem esforço”. E suspirou: “—Quer saber? Ninguém entende de áudio. Só eu”.

Como a mim não foram dadas orelhas invulgares do Dr. von C. Phudör, posso ser perdoado ao dizer que alguns dos CDs da Telarc – venerados por muitos audiófilos – me soam como se tivessem sido gravados nos banheiros mais amplos do mundo.

Anúncio nos classificado de um jornal popular: “vende-se tapete de nylon e lã. Faça a alegria da patroa. Enfeite sua casa com um tapete mais fácil de lavar. Tratar com Ricardo: (21)8618-4267”.

O mesmo tapete num site ou revista de áudio: “vendo tapete audiófilo. Pêlos em liga especial de nylon de última geração em paralelo com fios de lã de bois almiscarados tosquiados na primavera. Permite a absorção linear dos graves e a dispersão uniforme dos agudos. Padronagem neutra. Fácil manutenção. Gondim (21) 8618-4267”.

Depois de gravar seu ciclo de Beethoven na década de 1970, Karajan foi descansar nos Alpes. Ouvindo as prensagens de teste do material mixado, telefonou para a DG: “—Sinto muito, senhores, mas teremos de refazer tudo desde o princípio”. Os engenheiros e a direção da gravadora entraram em pânico, aquilo ia custar uma fortuna. Quando o maestro voltou de férias, levaram-no ao estúdio e imploraram para que ouvisse outra vez – e ele achou perfeito. Karajan decifrou o mistério: a altitude dos Alpes havia alterado sua pulsação. Segundo ele, os tempos da música têm relação direta com o ritmo cardíaco do regente. A Fundação Karajan pôs-se a estudar cientificamente o fenômeno sob o escárnio da imprensa, que chamou a pesquisa de “diletantismo”. Muito inadvertidamente, os resultados explicaram porque três maestros morreram regendo Tristão e Isolda, dois deles praticamente no mesmo compasso.

Muitos anos antes, Toscanini intuitivamente havia compreendido a questão, acelerando seus tempi na medida em que envelhecia. Por isso, ao contrário dos outros regentes, as gravações finais de Toscanini são consideravelmente mais rápidas que as primeiras. E também por isso é preciso avaliar com muito cuidado as teses de Celibidache.

Existe um mito sobre o tempo da música com Celibidache, mito que o próprio maestro ajudou a propalar. Jovem, Celibidache foi um homem invulgarmente bonito, oriental de bronzeado mediterrâneo, emplumado no pódio por uma indisfarçável hipertrofia do eu. Francamente, tinha mais aparência do que valor. Mas o talento estava lá: por volta dos quarenta anos revelou-se um regente muito maior do que prometia sua frívola juventude – uma espécie de Henrique V da música. Em idade avançada, sua perspectiva da noção de tempo mudou – mais por defeito da velhice do que por virtude de sua filosofia zen-budista da regência. Seus tempi dilatados – que vão muito bem em Bruckner, mas que podem ser constrangedores em Brahms e são inaceitáveis em Beethoven – tendem ao extraordinário. Qualquer trechinho de transição numa música qualquer soa enorme, grandioso, monolítico... Aqui, meu caro, há sabedoria: não existe material mais humano que o material de trabalho do regente. Ele é a voz de Deus e daquela Humanidade profunda que arde em cada um de nós. Mas na medida em que ele mesmo tende à Eternidade, tende também à monumentalidade. Penso que isso acontece porque no maestro – e também em você e em mim – existe uma centelha do Sagrado... que em certa fase da vida sente a nostalgia do infinito.

Viu? O mal-humor passou. Que Deus nos abençoe – e nos permita muitas audições.

Os aforismos continuam em Digressões. Os "causos", em Graves & Agudos.
 

     

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Este site foi atualizado em 21/11/07