A crítica
inglesa é a mais influente do mundo: disseram que Colin Davis e Simon
Rattle eram regentes – e até os alemães acreditaram.
Ouvi o causo
numa das agradáveis mesas do Petisco da Vila, meu ponto de encontro
aos domingos. A história foi contada pelo protagonista. O camarada
terminou o affair com uma dama de seios inflados e crânio vazio,
que segundo ele mentia patologicamente. Dias depois, recebeu da
inconsolável mitômana o convite para assistir ao Fantasma da Ópera
em São Paulo com todas as despesas pagas. A resposta teria sido mais ou
menos assim (leia em voz alta para obter melhor efeito): “Queria deixar
bem claro que o que me dá vontade de vomitar não é o fato da senhora me
confundir com algum gigolô que costuma freqüentar. É a suposição de que eu
estaria disposto a ouvir o Fantasma da Ópera”. Nas palavras do sedutor,
Andrew Lloyd Webber é o túmulo da música no ocidente. Como nunca mais
beberei até o próximo domingo, não me atrevo a repetir as palavras com que
endossei a assertiva. Você vai ter que se contentar com as dele.
Às vezes me
vejo pensando que não podemos perdoar aos ingleses a invenção de Lloyd
Webber, Colin Davis e Rattle. Então me lembro de que eles também
inventaram Shakespeare...
Borges escreveu
que organizar a estante de livros é também um modesto exercício de
crítica. Aplicando o mesmo princípio à minha discoteca, julguei prudente
omitir qualquer vestígio de Rattle. Vai que você me visita?
Não pude omitir
Davis por sua parceria com a orquestra mais equilibrada do mundo, a
Concertgebown de Amsterdã.
Se o DVD de
Leopold Stokovsky pela EMI tem como irreparável defeito o próprio
Stokovsky, tem também Pierre Monteux como bônus, o que justifica o
investimento. Monteux rege O Aprendiz de Feiticeiro com a
meticulosidade e precisão de quem estreou a Sagração da Primavera.
Menino, você precisa ver isso. Rattle, eu lhe asseguro, nunca viu.
O repórter para
Toscanini: “Que imagem o senhor tem diante de si quando rege a Eroica?”
Toscanini, ignorando as possibilidades retóricas e marqueteiras da
pergunta: “Allegro con brio”.
O repórter para
Otto Klemperer: “Por que o senhor só rege com partitura?” “Porque eu sei
ler música”.
O crítico Omar
Castellan, da revista Áudio & Vídeo, definiu a Filarmônica de Viena
numa frase memorável: “a mais sensual das orquestras”. O jeito inesperado
como ela reage a cada batuta não deixa mesmo dúvidas: é a fêmea da
espécie.
Um site como o
logos eletrônico é melhor do que qualquer site de mulher pelada.
Aliás, por incrível que pareça, o que se mostra aqui é em geral muito mais
barato de se manter.
Uma garota
bonita pediu a Brahms que autografasse sua sombrinha. Ele escreveu os dois
primeiros compassos do Danúbio Azul e acrescentou: “Infelizmente não é
minha”.
Uma garota não
tão bonita perguntou a Schubert: “Por que você só compõe música triste?” E
o pobre Franz respondeu: “E por acaso existe outra?”.
Um crítico
elegante poderia dizer que, apesar do som extraordinariamente cristalino e
belo que extrai do piano, Alfred Brendel é um músico desprovido de
imaginação. Eu, que sou desprovido de elegância, acho Brendel um chato.
A crítica mais
fulminante que já li foi a do insuperável mestre Mário Henrique Simonsen,
que chamou Ivo Pogorelich de “o pianista mais bonito do mundo”.
Não fique
chateado comigo se você gosta de Davis, Rattle, Stokovsky (que o Prof.
Simonsen chamava de “maestro de Hollywood”) e Brendel. Digo isso porque
amo Schnabel, Solomon, Curzon, Anda, Mengelberg, Weingartner, Mitropoulos,
Toscanini, Barbirolli, Ansermet, Monteux e muitos outros intérpretes que a
maioria das pessoas não conhece porque só existem em gravações
comprometidas pelo tempo. A Quarta de Mahler com Mengelberg, por exemplo,
é insuperável – mas tem som de 1940.
Quem assistiu à
série The Music of man de Yehudi Menuhin (no Brasil, A Magia da
Música), deve lembrar-se da ira do célebre violinista profissional e
regente amador contra Glenn Gould. O episódio mostra Gould “regendo” o
engenheiro de gravação durante a seção de mixagem dos cinco ou seis
microfones que usou para gravar o piano. O que Menuhin chamou de
“falsificação” eu chamo de “integridade”. Gould entendeu que uma gravação
é uma gravação. Em sua busca obsessiva pela clareza, abdicou de tudo. Até
mesmo do realismo (e às vezes, da beleza de som).
Falando em
gravações, alguns engenheiros conseguem fazer com que o Steinway se
pareça com um piano. Pelo sim, pelo não, Gulda não arriscou e ficou com o
Börsendorfer.
É incrível como
as fofocas correm. Volta e meia um crítico escreve sobre a discussão
pública entre Glenn Gould e Bernstein antes da execução do Concerto n. 1
de Brahms em 6 de abril de 1962. É mentira, não houve discussão alguma.
Bernstein expôs seu assombro diante da interpretação do pianista ao mesmo
tempo em que lhe fez um elogio retórico – ainda assim, deselegante.
Depois, Gould entrou sem dizer nada, sentou ao piano e juntos fizeram uma
interpretação de beleza inquietante. Moral da história: poucas vezes no
mundo da música um artista aceitou a oposição do outro com a nobreza
fidalga – silenciosa e ao mesmo tempo eloqüente – de Glenn Gould naquela
noite imperecível.
Ironicamente, a
última gravação da vida de Glenn Gould foi sua estréia como regente. Ele
dirigiu O Idílio de Siegfried na versão original que Cosima ouviu
em seu aniversário (Wagner não pôs uma orquestra debaixo da janela dela,
mas apenas 13 músicos). Isso diz muito sobre uma obra geralmente
subestimada. Disponível em CD, a gravação de Gould diz muito mais.
Existem dois
tipos de fagote: o francês, que tem som de violoncelo, e o alemão, que tem
som de fagote. Eu não sei o que isso significa, mas deve significar alguma
coisa.
Posso sugerir a
gravação de uma música sublime e subestimada? Ok, mas vou sugerir assim
mesmo. Experimente a Sinfonia n° 2 de Rachmaninov. Na versão de André
Previn (Great Recordings of the Century, EMI Classics), o raríssimo
e oportuno encontro da melomania com a audiofilia. Uma performance
estupenda com som seco, preciso e claro. Na versão da Royal Philharmonic –
que custa dez reais na padaria da esquina – outra experiência maravilhosa.
Ouvi a última
versão da Primeira Sinfonia de Brahms com Celibidache, que é um concerto
para tuberculose e orquestra. Cheguei à seguinte conclusão: no dia em que
os engenheiros de som gravarem as orquestras com a mesma qualidade com que
gravam as tosses, a audiofilia estará concluída.
Há muitos anos
li no Jornal do Brasil a entrevista de um engenheiro de gravação,
aposentado, que havia trabalhado com os gigantes da regência. Ele
confessou que nunca entendeu o que os maestros – especialmente Karajan –
queriam dizer quando lhe pediam um “som 3D”. “Só conheço dois tipos de
som: o alto e o baixo. O resto eu nunca escutei”. Pessoalmente, acho que
acústica e engenharia de gravação são ciências tão refinadas e complexas,
que sobre muitos dos êxitos que conhecemos pairam as obras do acaso e da
Providência.
No Requiem de
Verdi regido por Toscanini, no Tuba Mirum você pode ouvir o maestro
gritando “Piu forte! Piu forte!”. Durante o broadcast, o coro
atendeu o comando do maestro de modo tão eficaz que foi preciso usar o
registro do ensaio – que um técnico prudente teve o cuidado de gravar.
Toscanini pediu
a um soprano famoso pelo dó de peito – e pelos próprios peitos – para
cantar uma dada frase assim, assim. Lá pela quarta tentativa a mulher
ensaiou um protesto. O maestro desceu do pódio e apertou-lhe os
“atributos”: “Ah, madame, se isso fosse cérebro!”.
Ainda
Toscanini: uma diva agiu como diva durante todo o ensaio. Ao contrário do
que se esperava, Toscanini não explodiu – foi até suave: “Senhora, queria
lhe dizer que as estrelas estão no céu. Aqui em baixo só existem bons e
maus músicos, e a senhora pertence ao grupo dos maus”.
Puccini e
Toscanini brigaram. O compositor tinha por tradição enviar panetones aos
amigos no Natal. Esquecendo-se da briga, a secretária mandou o acepipe
para Toscanini. Quando soube, Puccini enviou um telegrama: “Panetone
enviado por engano”. Toscanini respondeu: “Panetone comido por engano”.
Anos mais tarde o maestro regeu a estréia de Turandot. No ponto em que o
manuscrito autógrafo passava da caligrafia de Puccini para a de Alfano –
que completou a obra – Toscanini calou a orquestra e voltou-se para o
público do Scala de Milão: “Aqui o maestro morreu”. O público entendeu,
saiu em respeitoso silêncio e voltou no dia seguinte para ouvir a
conclusão da ópera.
Toscanini
definia a si mesmo como um “contandino”, um camponês. Definitivamente ele
não era um intelectual como Furtwängler, que vivia cercado de literatos e
filósofos, ou uma personagem do jet set como Herr Karajan. Mas foi
um grande homem, e na minha modestíssima opinião, o maior dos regentes.
Sempre repito isso aos espíritos penetrantes que se julgam superiores
porque ouvem a música que teimam em chamar de “erudita” – coisa que,
aliás, não existe. Haydn, que consolidou a forma sinfônica e foi o mestre
de Beethoven, era um homem ainda mais simples que Toscanini.
Numa noite
dessas ouvi o prelúdio do III ato do Lohengrin e a marcha fúnebre
de Siegfried com Mravinsky e São
Petersburgo. Ai!, Senhor, porque eles não gravaram o Anel?
Quando ouço a
Filarmônica de Berlim hoje, depois de Abbado e Rattle, descubro que Hebert
von Karajan era muito maior do que pensávamos.
Karajan foi
gravar o Don Quixote de Strauss com Rostropovich. Quando o violoncelo
entrou, um som horrível. “Slava – perguntou Karajan – sente-se bem?”
Rostropovich sorriu: “Sim, mas veja: é um cavalo muito velho o que estou
montando”.
Férenc Fricsay
foi um dos maiores regentes de todos os tempos, mas poucos audiófilos o
conhecem. A sonoridade das suas gravações pertence ao mundo dos melômanos.
Já Vaclav Neumann nos deixou excelentes gravações – e você não tem
desculpa se o desconhece.
Numa tarde de
verão irrepreensível em Varsóvia, o Prof. Dr. Hermann von C. Phudör, PHD,
meu orientador na Universidade de Breslau (onde pesquisei as virtudes
teologais do número quatro – número da perfeição de todo tetrágono), me
saiu com a seguinte pérola: “—São cinco as coisas que não existem:
ex-anão, ex-corno, ex-veado, filho de prostituta chamado Júnior e
reviewer de áudio que não seja tratado como Herbert von Karajan, amado
por metade da crítica e odiado pela outra metade”. “—Ossos do ofício”,
retruquei. Reagindo com um gesto ao primarismo do meu comentário, o Dr.
von C. Phudör completou: “Veja, por exemplo o Fulano da revista X, que
escreve as coisas exatamente do jeito que eu penso. É um sujeito
excelente, que não amiúde é tratado injustamente. Já aquele outro, o
Sicrano, que só diz bobagens com que absolutamente não poso concordar,
vive às expensas da mãe, cuja profissão adivinho sem esforço”. E suspirou:
“—Quer saber? Ninguém entende de áudio. Só eu”.
Como a mim não
foram dadas orelhas invulgares do Dr. von C. Phudör, posso ser perdoado ao
dizer que alguns dos CDs da Telarc – venerados por muitos
audiófilos – me soam como se tivessem sido gravados nos banheiros mais
amplos do mundo.
Anúncio nos classificado de um jornal popular:
“vende-se tapete de nylon e lã. Faça a alegria da patroa. Enfeite sua
casa com um tapete mais fácil de lavar. Tratar com Ricardo:
(21)8618-4267”.
O mesmo tapete num site ou revista de áudio:
“vendo tapete audiófilo. Pêlos em liga especial de nylon de última
geração em paralelo com fios de lã de bois almiscarados tosquiados na
primavera. Permite a absorção linear dos graves e a dispersão uniforme
dos agudos. Padronagem neutra. Fácil manutenção. Gondim (21)
8618-4267”.
Depois de
gravar seu ciclo de Beethoven na década de 1970, Karajan foi descansar nos
Alpes. Ouvindo as prensagens de teste do material mixado, telefonou para a
DG: “—Sinto muito, senhores, mas teremos de refazer tudo desde o
princípio”. Os engenheiros e a direção da gravadora entraram em pânico,
aquilo ia custar uma fortuna. Quando o maestro voltou de férias,
levaram-no ao estúdio e imploraram para que ouvisse outra vez – e ele
achou perfeito. Karajan decifrou o mistério: a altitude dos Alpes havia
alterado sua pulsação. Segundo ele, os tempos da música têm relação direta
com o ritmo cardíaco do regente. A Fundação Karajan pôs-se a
estudar cientificamente o fenômeno sob o escárnio da imprensa, que chamou
a pesquisa de “diletantismo”. Muito inadvertidamente, os resultados
explicaram porque três maestros morreram regendo Tristão e Isolda,
dois deles praticamente no mesmo compasso.
Muitos anos
antes, Toscanini intuitivamente havia compreendido a questão, acelerando
seus tempi na medida em que envelhecia. Por isso, ao contrário dos
outros regentes, as gravações finais de Toscanini são consideravelmente
mais rápidas que as primeiras. E também por isso é preciso avaliar com
muito cuidado as teses de Celibidache.
Existe um mito
sobre o tempo da música com Celibidache, mito que o próprio maestro ajudou
a propalar. Jovem, Celibidache foi um homem invulgarmente bonito, oriental
de bronzeado mediterrâneo, emplumado no pódio por uma indisfarçável
hipertrofia do eu. Francamente, tinha mais aparência do que valor. Mas o
talento estava lá: por volta dos quarenta anos revelou-se um regente muito
maior do que prometia sua frívola juventude – uma espécie de Henrique V da
música. Em idade avançada, sua perspectiva da noção de tempo mudou – mais
por defeito da velhice do que por virtude de sua filosofia zen-budista da
regência. Seus tempi dilatados – que vão muito bem em Bruckner, mas
que podem ser constrangedores em Brahms e são inaceitáveis em Beethoven –
tendem ao extraordinário. Qualquer trechinho de transição numa música
qualquer soa enorme, grandioso, monolítico... Aqui, meu caro, há
sabedoria: não existe material mais humano que o material de trabalho do
regente. Ele é a voz de Deus e daquela Humanidade profunda que arde em
cada um de nós. Mas na medida em que ele mesmo tende à Eternidade, tende
também à monumentalidade. Penso que isso acontece porque no maestro – e
também em você e em mim – existe uma centelha do Sagrado... que em certa
fase da vida sente a nostalgia do infinito.