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05/09/10

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Quatro pistolas para John Wayne
Pipoca e balas II

©Ricardo Labuto Gondim

No mundo ardiloso e falsamente vigilante do politicamente correto pode ser difícil falar de John Wayne. Ícone do romântico individualismo norte-americano, da coragem sem lágrimas dos pioneiros e do celebrizado “espírito da fronteira”, o ator também foi um ardente defensor da política imperial do Tio Sam, e membro ativo de duvidosas instituições de direita. Ele se chamava Marion Michael Morrison e morreu há 25 anos. Não deixou idéias nem discípulos. Só o mito da coragem, da solidão voluntária, da amizade genuinamente masculina e do cavalheirismo rústico. De Marion só restou John Wayne.

De Marion a Wayne

Entre 1925 e 1927, Marion Morrison jogou rúgbi no time da University of Southern California, que tinha como fã mais ilustre o cowboy número um da América, o superastro Tom Mix. Além de trocar ingressos de cinema por ingressos para jogos, Tom prometeu arranjar empregos de verão para alguns dos rapazes do time. Foi assim que Duke Morrison se tornou factótum da Fox, trabalhando nos bastidores antes de atingir a grandeza mitológica diante das câmaras.

Marion começou a representar pequenos papéis ainda nos anos 20. Com seu jeito franco e direto conquistou a amizade do diretor John Ford, que o recomendou para o papel principal no épico de Raoul Walsh, The Big Trail, de 1930. O filme é impressionante, tendo sido filmado num processo pioneiro de widescreen em 70mm denominado Grandeur. Ainda assim, um fracasso tão absoluto que Wayne passou os dez anos seguintes trabalhando em produções de baixíssimo orçamento, com roteiros ligeiros, diretores de segunda, elenco de terceira, cenários duvidosos, figurinos improvisados e um cheiro permanente de pólvora no ar.

A MultiMedia Group lançou quatro desses filmes dispensáveis, esquecíveis, empoeirados e absolutamente deliciosos na Coleção O Jovem John Wayne. É hora de experimentar essas obras com gosto de bala de anis.

Sonoro até certo ponto

John Wayne atuou em mais de 150 filmes e muitos estão irremediavelmente perdidos. Alguns só se preservaram na forma de videotapes que alguém telecinou para exibir na TV e esqueceu de apagar – pode ser o caso desta seleção de filmes da década de 1930. Seja como for, para produções baratas com setenta anos de idade o resultado obtido pela MultiMedia Group é muito bom.

Vale a pena mencionar que a maioria desses filmes de 60 minutos eram “parcialmente sonoros”, com diálogos, música e efeitos reduzidos ao mínimo. Na década de 1930 os filmes dos pequenos estúdios eram relegados a um mercado quase alternativo, as grandes salas de exibição pertenciam às majors como Fox e Metro  – as leis antitruste só foram surgir uma década mais tarde. Para encontrar seu lugar na sala escura, os filmes dos pequenos produtores tinham de ser compatíveis com o cinema falado – sendo exibidos antes do prato principal – e, ao mesmo tempo, serem passíveis de adaptação para salas sem sistemas de som. Fora das grandes cidades nem todos os cinemas tinham caros equipamentos de áudio instalados, seqüelas do terremoto da bolsa em 1929. O que dizer então do resto do mundo?

Por isso cada uma dessas obras tem um charme genuinamente cinematográfico. Seus realizadores mantinham a tradição do cinema mudo, contando histórias por imagens, não por palavras. Mesmo com roteiros simples, do ponto de vista fílmico as narrativas eram sofisticadas, essencialmente visuais, refletindo uma forma de trabalho e uma concepção do produto audiovisual irremediavelmente perdida. Algo que poderíamos chamar de “pureza”.

Os restauradores incluíram novos efeitos sonoros que reavivaram a pobre sonoplastia original. E introduziram música composta em sintetizadores num momento ou outro, nem chega a doer.

Quatro Pistolas

A Coleção O Jovem John Wayne apresenta três “fitas” de 1934 e uma de 1937.  As de 34 são:

Fronteira da Lei (The Trail Beyond), de Robert N. Bradbury. Dois aventureiros numa jornada ao Noroeste encontram o mapa que pode levá-los a uma mina de ouro. Encontram também um sujeito que obviamente vai ambicionar o mapa, tornando a viagem mais difícil do que antes. Viu? Mapas, minas de ouro, gente ruim e inescrupulosa: o que mais você pode querer?

Coração de Aço (Blue Steel), de Robert N. Bradbury. Yucca City foi ilhada por mal-feitores. Enquanto a comida e a munição se esgotam, um bando de foras-da-lei tenta expulsar o povo da região. O que pretendem? Quem está no comando? Calma, hombre, não entre em pânico: podemos contar com John Wayne para enfrentar os facínoras, restabelecer a ordem e – se ela não ousar interpor-se entre ele e seu cavalo – beijar a mocinha.

O Cavaleiro Solitário (Randy Rides Alone), de Harry L. Fraser. Após entrar num salão repleto de gente morta, John Wayne é acusado de assassinato. Para provar sua inocência, safar-se da forca e cumprir uma missão secreta, infiltra-se entre os verdadeiros assassinos e disputa um arriscado jogo de gato e rato. A história envolve o temível corcunda conhecido como “Matt o Calado”. Vai dizer que você não ficou doido para ver um filme que tem um corcunda que se chama Matt o Calado?

O filme de 37 é Jornada para o Oeste (Born to The West), de Charles Barton. John Wayne é um rapaz de má fama que se diz regenerado. Ele estava a caminho de Idaho quando chega ao Wyoming e encontra um primo com sua encantadora namorada. Sim, hombre, ele decide ficar. Dá pra imaginar o que virá a seguir? Mantenha a pistola carregada.

O que aconteceu a Duke

Não importa o que você faça, quando se tem talento ele está sempre lá. Em 1939 John Ford tirou Wayne do mundo da produção em série e o fez estrelar uma de suas obras-primas, No tempo das Diligências, um dos filmes mais importantes da história do cinema – sobre o qual você já leu no logos eletrônico. A obra de Ford impeliu Wayne para o topo da cadeia alimentar de Hollywood.

Em 1941 Wayne foi dispensado do serviço militar devido a problemas de saúde contra os quais lutou a vida inteira. O milagre do cinema transformou o homem de saúde frágil num soldado heróico e durão, que poderia mostrar-se compassivo desde que fosse absolutamente necessário.

Terminada a Guerra, Howard Hawks enfatizou o lado voluntarioso do personagem que era o próprio Wayne, trocando heroísmo por obsessão em Rio Vermelho (1948). Esse aprofundamento deu relevo aos recursos dramáticos do ator, que se superou nas mãos de Ford em Forte Apache (1948).

Para os críticos, a única preocupação de Wayne nos anos 50 e 60 foi encher o cofre. O homem não recusou papéis, interpretando até mesmo o imperador mongol Genghis Khan (O Conquistador, 1956). Seja como for, entre uma barbaridade e outra – em meio ao lixo e ao dinheiro – muitas jóias saltaram das mãos de Ford e Hawks para o colo de Wayne. No próprio ano de 1956 ele protagonizou Rastros de Ódio, a obra-prima de Ford, considerado um dos dez melhores filmes de todos os tempos.

Embora tenha conquistado o Oscar de Melhor Ator de 1969 por True Grit, de Henry Hathaway, o melhor desempenho em sua fase final foi justamente em seu último filme, que ironicamente no Brasil se chamou O Último Pistoleiro (The Shootist, 1976): a história de um matador profissional agonizante, que sente a aproximação inexorável da morte quando só há pouco passou a vislumbrar um significado para a vida. John Wayne, que também agonizava consumido pelo câncer, representou o personagem com absoluta simplicidade, transformando um filme despretensioso numa pequena obra-prima.
 

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Este site foi atualizado em 15/02/07