
Vermelhos
©Ricardo
Labuto Gondim
VERMELHOS EM CORES
Apesar
de
suas
3
horas
de
projeção,
Doutor
Jivago (1965) é
um
filme
que
se define
em
um
único
plano,
cuja
duração
é
inferior
a
um
segundo
—
isso
mesmo:
menor
que
um
segundo.
Eis
a
cena:
no
início
do
filme
o
jovem
Yuri Jivago — médico-residente e
poeta
—
toma
um
bonde
na Moscou imperial. O
veículo
também
transporta a
beleza
serena
e
deslumbrante
de Lara, protegida da
inclemência
do
inverno
russo
por
um
cachecol
de
lã
que
revela
somente
a
primavera
em
seus
olhos.
Em
meio
aos
apertos
e sacolejos do
bonde
—
sem
que
jamais
vejam
um
ao
outro
— Yuri esbarra
em
Lara. David Lean corta
para
o
plano
da
haste
metálica
do
bonde,
que
deve
tocar
os
cabos
elétricos
que
correm
sobre
o
teto:
imediatamente
uma
centelha
resplandece
entre
a
haste
e o
cabo.
O
tempo
de
duração
do
plano
é o
rutilar
da
centelha,
nada
mais.
A
câmera
volta
ao
interior
do
bonde,
que
deixa
Lara
em
uma
rua
fria
e
operária
de Moscou.
Este
processo
de
construção
dramática
é
raro,
e
por
isso
mesmo
chamado de "genialidade":
sem
usar
uma
só
linha
de
diálogo,
sem
que
os
personagens
tivessem vislumbrado
um
ao
outro
—
ainda
que
furtivamente,
ainda
que
por
um
instante
— o
público
entende —
ou
apenas
"sente", na
medida
em
que
o
plano
fundamental
dura
apenas
uma
fração
de
segundo
—
que
o
destino
paira
sobre
as
vidas
de Yuri e Lara,
assim
como
a
energia
dos
cabos
elétricos
paira
inevitável
sobre
o
teto
do
bonde.
Que
filme.
E
como
o
público
sabe o
que
é
bom
(quem
consagrou ET, E o
vento
levou e O
Poderoso
Chefão,
hein?)
em
poucas
semanas
de
exibição
faturou
mais
de 100
milhões
de dólares, tornando-se — proporcionalmente — uma das
maiores
bilheterias
de
todos
os
tempos.
Ainda assim, o filme de David Lean foi severamente avaliado.
Quando
estreou no Brasil a
crítica
caiu de
foice
e
martelo
sobre
ele,
cega
pelo
espírito
da
década
de 1960,
quando
se acreditava
que
era
possível
fazer
Revolução
sem
fazer
Revolução.
Doutor
Jivago —
que
tem
como
pano
de
fundo
a
história
da
Revolução
Bolchevique
—
mostra
todos
os
sacrifícios
que
Os
Dez
Dias
que
Abalaram o
Mundo
impuseram ao
povo
durante
anos:
as
cidades
devastadas
pela
guerra
civil
entre
os "brancos"
monarquistas e o
exército
popular
vermelho;
o
solo
amado
da
Grande
Mãe
Rússia adubado
com
o
sangue
de
seus
filhos;
os êxodos desesperados de
um
lugar
qualquer
para
lugar
nenhum;
a
fome
socializada
em
um
país
improdutivo,
totalmente
abandonado pelas
elites
que
tudo
importavam da França.
Aliás,
as
elites
sequer
falavam russo, considerado
língua
de "mujique" (camponês);
conversavam e se correspondiam
em
francês,
e
por
isso
os
títulos
de monsieur e
madame
entre
os
personagens
mais
abastados
do
filme.

Essa
revolução
é a
tragédia
de Yuri Jivago,
que
só
queria
curar
e
amar
em
uma Rússia
que
—
para
superar
o
passado
czarista e o altíssimo
custo
humano
da
própria
Revolução
— teve
que
decretar
o
fim
dos
sentimentos,
desejos
e
vontades
pessoais.
O
filme
mostra
como
a
Revolução
de
Outubro
foi
um
evento
seríssimo,
profundo,
que
tentou
criar
o
Novo
Homem
a
fórceps
— e
talvez
por
isso
mesmo
tenha fracassado
tão
tragicamente
com
a
crueldade
patológica
de Stalin.
De qualquer modo é preciso lembrar que Doutor Jivago é baseado no brilhante
romance do poeta Boris Leonidovitch Pasternak, que se retratou no jovem Yuri
com muito mais precisão do que ousou confessar. Pasternak, um poeta
romântico atormentado pelo futuro da poesia em um país saturado de valores
estritamente políticos, teve seu vasto romance censurado na Rússia em nome
do "realismo soviético". Contrabandeado para fora do país, Doutor Jivago foi
publicado na Itália em 1957. No ano seguinte Pasternak ganhou o Nobel, que
não pode receber como punição por sua ousadia.
O
romance
está impregnado
com
a
visão
crítica
de Pasternak ao
regime
que
lentamente
o esmagou. O
roteiro
de Robert Bolt,
um
dos
maiores
roteiristas
de
todos
os
tempos
(e
que
só
escreveu
sete
scripts
para
o
cinema)
dilui a
questão
política
para
dar
lugar...
aos
sentimentos
pessoais
que
o
regime
negou a
tanta
gente.
Inclusive
ao
verdadeiro
Dr. Yuri.

Nisso reside a
grandeza
de
Doutor
Jivago: o
alto
custo
do
filme
produzido
por
Carlo Ponti, rodado
em
locações
na Espanha e Finlândia
com
milhares
de
figurantes,
cenas
de
batalhas,
comboios,
êxodos, etc; a elaboradíssima
direção
de
arte;
a
fotografia
em
70 mm de Freddie Young; a celebrada
música
de Maurice Jarre; o
elenco
notável
que
inclui Julie Christie (que
nunca
esteve
tão
bonita
quanto
aqui,
interpretando Lara), Omar Sharif (que
trouxe nobreza e
dignidade
para
ao
personagem
a
despeito
de
todos
os
erros
que
Jivago comete), Rod Steiger (na
pele
de Victor Komarovsky,
um
dos
seus
maiores
papéis e
talvez
o
personagem
mais
complexo
do
filme),
Geraldine Chaplin,
Tom
Courtenay (excelente,
indicado ao Oscar de
ator
coadjuvante),
Alec Guinness, Ralph Richardson e Klaus Kinski —
pois
bem,
tudo
e
todos
estão à
serviço
do
drama.
Todos os recursos foram empregados para narrar a vida de pessoas. E em
nenhum momento essa superprodução é maior do que o menor dos personagens
cuja história ela pretende contar. Doutor Jivago — a despeito de todas as
críticas precisas ou apaixonadas que possa suscitar, e a despeito dos cinco
Oscar que conquistou — merece um lugar na sua estante. Um lugar
privilegiado, pois o que comove neste filme é a sua humanidade.
Slava, David Lean. Slava.
VERMELHOS EM PRETO E BRANCO
Há
alguns
anos
a
Continental
lançou uma
seleção
extraordinária
do
cinema
de
vanguarda
soviético.
A
série
inclui
obras
de Eisenstein, Pudovkin, Vertov e a
obra-prima
de Tarkovsky, o
tremendo
"Andrei Rublev" —
muito
bem-vindo,
mesmo
sem
pertencer
à
escola
revolucionária.
Há
quase
um
século
estes
filmes
são
dissecados nas cinematecas
mais
eruditas do
planeta.
E
também
nas
escolas
de
cinema
mais
reacionárias.
Pra
você
ter
uma
idéia,
em
1958 "O
Encouraçado
Potemkin" foi considerado "o
melhor
filme
de
todos
os
tempos"
por
117
críticos
de 26
países.
Seu
diretor,
o
camarada
Sergei Mikhailovich Eisenstein, recebeu da
Continental
um
tratamento
diferenciado, ganhando uma
coleção
exclusiva
das
suas
obras
mais
importantes:
Outubro,
O
Encouraçado
Potemkin, A
Greve,
Alexander Nevsky e Ivan o
terrível
partes
I e II.
Cada
filme
tem
um
caráter
notável,
precioso,
particular,
imperecível.
A
GREVE
—
Primeira
obra
de Eisenstein, "A
Greve"
introduz todas as
sementes
estilísticas
que
germinaram e floresceram
nos
seus
filmes
posteriores.
Em
sua
autobiografia,
Eisenstein diz
que
se
trata
de "uma
típica
'primeira-obra', exaltada e
belicosa,
como
eu
era
naqueles
anos."
Na
verdade
o
filme
é
muito
mais
que
isso.
Eisenstein
era
um
homem
radicalmente
culto,
preocupado
em
sistematizar
as
bases
teóricas das
suas
concepções
dramáticas (leia
aqui).
Essas
teorias,
inicialmente
elaboradas no
contexto
teatral,
foram
ousada
e
conscientemente
aplicadas ao
cinema:
"em
mim
existe
em
alto
grau
a
paixão
e a
ferocidade
do
jovem
tigre
que,
criado
com
o
leite
do
teatro,
experimenta
de
repente
o
sangue
da
liberdade
cinematográfica."
Durante as filmagens Eisenstein se portou como um menino autoritário,
exigindo meios técnicos muito acima dos recursos financeiros do que já então
(1924/25) era uma superprodução: 49.000 metros de película impressa para uma
metragem definitiva de 2.000 mil metros; 11.000 mil figurantes...
Falando resumidamente, "A Greve" é a antítese de "Cidadão Kane":
enquanto o filme de Orson Welles é a epítome da linguagem cinematográfica, o
filme de Eisenstein é a ação violenta, sanguinária e metafórica contra todas
as convenções dessa mesma linguagem. Imperdível.
O
ENCOURAÇADO
POTEMKIN —
tudo
o
que
você
ouviu
falar
desse
filme
é
verdade.
Ao assisti-lo, reparando na
quantidade
absurda
de
planos
da
montagem
dialética
de Eisenstein,
você
não
vai
acreditar
que
ele
foi
inteiramente
realizado
em
três
meses, incluindo duas
semanas
de
montagem.
O
curioso
é
que,
na
gloriosa
noite
da
estréia
no
Teatro
Bolshói
em
21 de
novembro
de 1925, os
quase
200
planos
dos
últimos
10
minutos
do
filme
estavam colados
com
cuspe...
e foram projetados
sem
arrebentar.
Pouca
gente
sabe,
mas
o
negativo
com
a
montagem
original
do "Potemkin" foi destruído na Alemanha. A
versão
que
conhecemos
hoje
é a
versão
restaurada e sonorizada de 1950,
com
a
trilha
musical do
compositor
Edmund Meisel substituída
por
clássicos
russos,
com
ênfase
na V Sinfonia
de Shostakovich. Ao
contrário
de "Que
Viva
México",
prudentemente
omitido da
coleção,
essa
restauração
foi celebrizada. O
filme
ainda
guarda
o
rigor
da
estrutura
em
5
atos
(base
da
dramaturgia
de Shakespeare) e o
diálogo
que
a
montagem
estabelece
entre
drama,
metáforas
visuais,
proclamações revolucionárias e
você.
Quem
ainda
não
viu o Potemkin deve
transformar
o
encontro
com
o
filme
numa
ocasião
solene.
Desligue a
campainha
e os
telefones.
Prepare-se
para
um
impacto
que
vai
mudar
a
concepção
que
você
tem do
que
é
cinema.
Imperdível.
OUTUBRO
— O
filme
é
baseado
em
"Os
Dez
dias
que
abalaram o
mundo",
do
jornalista
norte-americano
John Reed,
cuja
biografia
você
viu
em
"Reds".
Infelizmente,
Outubro
foi rodado
em
1927,
um
ano
marcado
por
dois
acontecimentos
dramáticos:
Leon Trotsky —
um
dos
personagens
mais
extraordinários
da
revolução
socialista
de 1917 — foi
expulso
do
Partido;
usando a
situação
como
pretexto,
Stalin e
seus
pares
começaram a
chamada
"reescrita da
história".
Assim,
para
extrair
Trotsky da
memória
do
povo,
Stalin cortou 1/3 do
filme
e
ainda
visitou
pessoalmente
o
estúdio
para
eliminar
a
cena
de
um
discurso
de Lenin (900
metros
de
película
cinematográfica),
afirmando
secamente
que
"o
liberalismo
de Lenin
já
não
é
válido
hoje".
Vítima
do stalinismo,
Outubro
tornou-se
um
filme
desigual.
Ele
é
aquilo
que
Truffaut chamaria de "Um
Grande
Filme
Doente"
—
mas
ainda
que
doente,
grande:
Eisenstein queria
transformar
conceitos
intelectuais
em
“emoção”
(primeiro
plano
do
conhecimento
segundo
Platão).
Mesmo
com
o
filme
desigual,
você
vai
ver
que
ele
conseguiu.
Imperdível.
Alexander
Nevsky — Jean Mitry dizia
que
o
filme
—
primeiro
trabalho
de Eisenstein
com
o
cinema
sonoro
— é a
obra-prima
da
arte
audiovisual.
Em
alguns
momentos
as
relações
entre
som
e
imagem
atingem
extremos
de
notável
vanguardismo
e
rigor.
Alexander Nevsky tem
forte
caráter
operístico, sublinhado
pela
música
arrebatadora de Prokofiev,
que
compôs a
célebre
cantata
de
mesmo
nome
exclusivamente
para
o
filme.
Sem
dúvida,
uma das
mais
nobres
partituras
que
um
filme
já
recebeu.
Contudo,
a
música
não
o
torna
solene.
Ao
contrário,
Alexander Nevsky é uma
incrível
epopéia
de
ação
e
aventura,
descaradamente
produzida
para
alimentar
o
espírito
nacionalista do
povo
russo
ante
a
ameaça
da
invasão
nazista
—
que
infelizmente
se confirmou
mais
tarde.
Imperdível.
IVAN O TERRÍVEL I E II PARTES
— Os
últimos
25
minutos
da
segunda
parte
são
o
memorável
encontro
de Eisenstein
com
a
cor
— e
sua
utilização
mais
audaciosamente
original.
Sem
cair
em
um
simbolismo
elementar,
a
cor
torna-se uma
expressão
psicológica,
intelectual
e
dramática.
A produção é a provável tentativa de Stálin para vincular sua imagem à do
Czar Ivan IV, unificador de todas as Rússias. Mas nas entrelinhas, nas
camadas mais profundas da leitura do filme, você vai descobrir a crítica de
Eisenstein a própria Rússia stalinista.
O tempo passou. Stálin morreu. Mas obra de Eisenstein permanece viva. E
imperdível
* * *
Há
muito,
muito
mais
a
dizer
sobre
Eisenstein. Há
suas
aventuras
no México e
em
Hollywood;
partidas
de
tênis
com
Chaplin;
sua
colaboração
com
Eduard Tisse, o
grande
fotógrafo
das
suas
grandes
obras
(Eisenstein dizia
que
"Eduard Tisse
não
se importa
aonde
vai,
nem
por
que
vai,
contanto
que
vá."); há muitas outras
histórias
para
se
contar,
muitos
outros
artigos
para
se
escrever
sobre
este
grande
homem.
Vendo
seus
filmes,
você
vai
descobrir
que,
muito
mais
do
que
um
ousado
experimentador, Sergei Eisenstein
era
um
autêntico
humanista.
O
povo
—
especialmente
a
massa
empobrecida e
oprimida
— é o
seu
grande
personagem,
o
cerne
e a
razão
da
sua
obra.
Lei
mais
em
A
Tesoura
de Eisenstein.
