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10/05/12

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Vermelhos

©Ricardo Labuto Gondim


VERMELHOS EM CORES

Apesar de suas 3 horas de projeção, Doutor Jivago (1965) é um filme que se define em um único plano, cuja duração é inferior a um segundo isso mesmo: menor que um segundo.

Eis a cena: no início do filme o jovem Yuri Jivago — médico-residente e poeta toma um bonde na Moscou imperial. O veículo também transporta a beleza serena e deslumbrante de Lara, protegida da inclemência do inverno russo por um cachecol de que revela somente a primavera em seus olhos. Em meio aos apertos e sacolejos do bonde sem que jamais vejam um ao outro — Yuri esbarra em Lara. David Lean corta para o plano da haste metálica do bonde, que deve tocar os cabos elétricos que correm sobre o teto: imediatamente uma centelha resplandece entre a haste e o cabo. O tempo de duração do plano é o rutilar da centelha, nada mais. A câmera volta ao interior do bonde, que deixa Lara em uma rua fria e operária de Moscou.

Este processo de construção dramática é raro, e por isso mesmo chamado de "genialidade": sem usar uma linha de diálogo, sem que os personagens tivessem vislumbrado um ao outro ainda que furtivamente, ainda que por um instante — o público entende — ou apenas "sente", na medida em que o plano fundamental dura apenas uma fração de segundo que o destino paira sobre as vidas de Yuri e Lara, assim como a energia dos cabos elétricos paira inevitável sobre o teto do bonde.

Que filme. E como o público sabe o que é bom (quem consagrou ET, E o vento levou e O Poderoso Chefão, hein?) em poucas semanas de exibição faturou mais de 100 milhões de dólares, tornando-se — proporcionalmente — uma das maiores bilheterias de todos os tempos.

Ainda assim, o filme de David Lean foi severamente avaliado.

Quando estreou no Brasil a crítica caiu de foice e martelo sobre ele, cega pelo espírito da década de 1960, quando se acreditava que era possível fazer Revolução sem fazer Revolução. Doutor Jivago — que tem como pano de fundo a história da Revolução Bolchevique mostra todos os sacrifícios que Os Dez Dias que Abalaram o Mundo impuseram ao povo durante anos: as cidades devastadas pela guerra civil entre os "brancos" monarquistas e o exército popular vermelho; o solo amado da Grande Mãe Rússia adubado com o sangue de seus filhos; os êxodos desesperados de um lugar qualquer para lugar nenhum; a fome socializada em um país improdutivo, totalmente abandonado pelas elites que tudo importavam da França. Aliás, as elites sequer falavam russo, considerado língua de "mujique" (camponês); conversavam e se correspondiam em francês, e por isso os títulos de monsieur e madame entre os personagens mais abastados do filme.

Essa revolução é a tragédia de Yuri Jivago, que queria curar e amar em uma Rússia que para superar o passado czarista e o altíssimo custo humano da própria Revolução — teve que decretar o fim dos sentimentos, desejos e vontades pessoais. O filme mostra como a Revolução de Outubro foi um evento seríssimo, profundo, que tentou criar o Novo Homem a fórceps — e talvez por isso mesmo tenha fracassado tão tragicamente com a crueldade patológica de Stalin.

De qualquer modo é preciso lembrar que Doutor Jivago é baseado no brilhante romance do poeta Boris Leonidovitch Pasternak, que se retratou no jovem Yuri com muito mais precisão do que ousou confessar. Pasternak, um poeta romântico atormentado pelo futuro da poesia em um país saturado de valores estritamente políticos, teve seu vasto romance censurado na Rússia em nome do "realismo soviético". Contrabandeado para fora do país, Doutor Jivago foi publicado na Itália em 1957. No ano seguinte Pasternak ganhou o Nobel, que não pode receber como punição por sua ousadia.

O romance está impregnado com a visão crítica de Pasternak ao regime que lentamente o esmagou. O roteiro de Robert Bolt, um dos maiores roteiristas de todos os tempos (e que escreveu sete scripts para o cinema) dilui a questão política para dar lugar... aos sentimentos pessoais que o regime negou a tanta gente. Inclusive ao verdadeiro Dr. Yuri.

Nisso reside a grandeza de Doutor Jivago: o alto custo do filme produzido por Carlo Ponti, rodado em locações na Espanha e Finlândia com milhares de figurantes, cenas de batalhas, comboios, êxodos, etc; a elaboradíssima direção de arte; a fotografia em 70 mm de Freddie Young; a celebrada música de Maurice Jarre; o elenco notável que inclui Julie Christie (que nunca esteve tão bonita quanto aqui, interpretando Lara), Omar Sharif (que trouxe nobreza e dignidade para ao personagem a despeito de todos os erros que Jivago comete), Rod Steiger (na pele de Victor Komarovsky, um dos seus maiores papéis e talvez o personagem mais complexo do filme), Geraldine Chaplin, Tom Courtenay (excelente, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), Alec Guinness, Ralph Richardson e Klaus Kinski — pois bem, tudo e todos estão à serviço do drama.

Todos os recursos foram empregados para narrar a vida de pessoas. E em nenhum momento essa superprodução é maior do que o menor dos personagens cuja história ela pretende contar. Doutor Jivago — a despeito de todas as críticas precisas ou apaixonadas que possa suscitar, e a despeito dos cinco Oscar que conquistou — merece um lugar na sua estante. Um lugar privilegiado, pois o que comove neste filme é a sua humanidade.

Slava, David Lean. Slava.


VERMELHOS EM PRETO E BRANCO    
    

alguns anos a Continental lançou uma seleção extraordinária do cinema de vanguarda soviético. A série inclui obras de Eisenstein, Pudovkin, Vertov e a obra-prima de Tarkovsky, o tremendo "Andrei Rublev" — muito bem-vindo, mesmo sem pertencer à escola revolucionária.

quase um século estes filmes são dissecados nas cinematecas mais eruditas do planeta. E também nas escolas de cinema mais reacionárias. Pra você ter uma idéia, em 1958 "O Encouraçado Potemkin" foi considerado "o melhor filme de todos os tempos" por 117 críticos de 26 países. Seu diretor, o camarada Sergei Mikhailovich Eisenstein, recebeu da Continental um tratamento diferenciado, ganhando uma coleção exclusiva das suas obras mais importantes: Outubro, O Encouraçado Potemkin, A Greve, Alexander Nevsky e Ivan o terrível partes I e II. Cada filme tem um caráter notável, precioso, particular, imperecível.

 

A GREVE Primeira obra de Eisenstein, "A Greve" introduz todas as sementes estilísticas que germinaram e floresceram nos seus filmes posteriores. Em sua autobiografia, Eisenstein diz que se trata de "uma típica 'primeira-obra', exaltada e belicosa, como eu era naqueles anos."

Na verdade o filme é muito mais que isso. Eisenstein era um homem radicalmente culto, preocupado em sistematizar as bases teóricas das suas concepções dramáticas (leia aqui). Essas teorias, inicialmente elaboradas no contexto teatral, foram ousada e conscientemente aplicadas ao cinema: "em mim existe em alto grau a paixão e a ferocidade do jovem tigre que, criado com o leite do teatro, experimenta de repente o sangue da liberdade cinematográfica."

Durante as filmagens Eisenstein se portou como um menino autoritário, exigindo meios técnicos muito acima dos recursos financeiros do que já então (1924/25) era uma superprodução: 49.000 metros de película impressa para uma metragem definitiva de 2.000 mil metros; 11.000 mil figurantes... 

Falando resumidamente, "A Greve" é a antítese de "Cidadão Kane": enquanto o filme de Orson Welles é a epítome da linguagem cinematográfica, o filme de Eisenstein é a ação violenta, sanguinária e metafórica contra todas as convenções dessa mesma linguagem. Imperdível.  

 

O ENCOURAÇADO POTEMKIN tudo o que você ouviu falar desse filme é verdade. Ao assisti-lo, reparando na quantidade absurda de planos da montagem dialética de Eisenstein, você não vai acreditar que ele foi inteiramente realizado em três meses, incluindo duas semanas de montagem. O curioso é que, na gloriosa noite da estréia no Teatro Bolshói em 21 de novembro de 1925, os quase 200 planos dos últimos 10 minutos do filme estavam colados com cuspe... e foram projetados sem arrebentar.  

Pouca gente sabe, mas o negativo com a montagem original do "Potemkin" foi destruído na Alemanha. A versão que conhecemos hoje é a versão restaurada e sonorizada de 1950, com a trilha musical do compositor Edmund Meisel substituída por clássicos russos, com ênfase na V Sinfonia de Shostakovich. Ao contrário de "Que Viva México", prudentemente omitido da coleção, essa restauração foi celebrizada. O filme ainda guarda o rigor da estrutura em 5 atos (base da dramaturgia de Shakespeare) e o diálogo que a montagem estabelece entre drama, metáforas visuais, proclamações revolucionárias e você.  

Quem ainda não viu o Potemkin deve transformar o encontro com o filme numa ocasião solene. Desligue a campainha e os telefones. Prepare-se para um impacto que vai mudar a concepção que você tem do que é cinema. Imperdível

 

OUTUBRO — O filme é baseado em "Os Dez dias que abalaram o mundo", do jornalista norte-americano John Reed, cuja biografia você viu em "Reds". Infelizmente, Outubro foi rodado em  1927, um ano marcado por dois acontecimentos dramáticos: Leon Trotsky — um dos personagens mais extraordinários da revolução socialista de 1917 — foi expulso do Partido; usando a situação como pretexto, Stalin e seus pares começaram a chamada "reescrita da história". Assim, para extrair Trotsky da memória do povo, Stalin cortou 1/3 do filme e ainda visitou pessoalmente o estúdio para eliminar a cena de um discurso de Lenin (900 metros de película cinematográfica), afirmando secamente que "o liberalismo de Lenin não é válido hoje".

Vítima do stalinismo, Outubro tornou-se um filme desigual. Ele é aquilo que Truffaut chamaria de "Um Grande Filme Doente" — mas ainda que doente, grande: Eisenstein queria transformar conceitos intelectuais ememoção” (primeiro plano do conhecimento segundo Platão). Mesmo com o filme desigual, você vai ver que ele conseguiu. Imperdível.

 

Alexander Nevsky — Jean Mitry dizia que o filme primeiro trabalho de Eisenstein com o cinema sonoro — é a obra-prima da arte audiovisual. Em alguns momentos as relações entre som e imagem atingem extremos de notável vanguardismo e rigor.

Alexander Nevsky tem forte caráter operístico, sublinhado pela música arrebatadora de Prokofiev, que compôs a célebre cantata de mesmo nome exclusivamente para o filme. Sem dúvida, uma das mais nobres partituras que um filme recebeu. Contudo, a música não o torna solene. Ao contrário, Alexander Nevsky é uma incrível epopéia de ação e aventura, descaradamente produzida para alimentar o espírito nacionalista do povo russo ante a ameaça da invasão nazista que infelizmente se confirmou mais tarde. Imperdível.

 

IVAN O TERRÍVEL I E II PARTES — Os últimos 25 minutos da segunda parte são o memorável encontro de Eisenstein com a cor — e sua utilização mais audaciosamente original. Sem cair em um simbolismo elementar, a cor torna-se uma expressão psicológica, intelectual e dramática.

A produção é a provável tentativa de Stálin para vincular sua imagem à do Czar Ivan IV, unificador de todas as Rússias. Mas nas entrelinhas, nas camadas mais profundas da leitura do filme, você vai descobrir a crítica de Eisenstein a própria Rússia stalinista.

O tempo passou. Stálin morreu. Mas obra de Eisenstein permanece viva. E imperdível

 

* * *

muito, muito mais a dizer sobre Eisenstein. Há suas aventuras no México e em Hollywood; partidas de tênis com Chaplin; sua colaboração com Eduard Tisse, o grande fotógrafo das suas grandes obras (Eisenstein dizia que "Eduard Tisse não se importa aonde vai, nem por que vai, contanto que vá."); há muitas outras histórias para se contar, muitos outros artigos para se escrever sobre este grande homem. Vendo seus filmes, você vai descobrir que, muito mais do que um ousado experimentador, Sergei Eisenstein era um autêntico humanista. O povo especialmente a massa empobrecida e oprimida — é o seu grande personagem, o cerne e a razão da sua obra.

Lei mais em A Tesoura de Eisenstein.
 

 

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Este site foi atualizado em 25/09/11