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05/09/10

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O Cinema no banco dos réus

©Ricardo Labuto Gondim


Como muitas daquelas resenhas que estão nas contracapas dos DVDs parecem ter sido escritas por gente que não viu os filmes, o logos eletrônico inaugura uma série de breves comentários para sugerir títulos esquecidos ou subestimados dignos da sua atenção.

Assim, além de julgar os filmes você também pode julgar o crítico.


Questão de Honra, de Rob Reiner
(A Few Good Men, 1992)

O tenente-advogado da marinha Dan Kaffe (Tom Cruise) é encarregado de defender dois jovens fuzileiros acusados de matar um companheiro na base americana de Guantanamo. As circunstâncias do crime envolvem violência, mas a morte pode ter sido acidental. Como a tragédia se deu sob o nariz empertigado e todo-poderoso do Coronel Nathan Jessep (Jack Nickolson num dos seus maiores papéis), seria conveniente estabelecer a culpabilidade dos acusados e varrer a sujeira para debaixo do tapete. Contudo, os réus se obstinam: “somos inocentes”.

“Questão de Honra” é uma peça em um ato arejada pelo próprio autor, Aaron Sorkin. O drama se passava inteiramente no tribunal que ocupa cerca de 1/3 do filme. Jack Nickolson está monumental na pele do homem cotado para ser o próximo Secretário de Defesa. Cruise, Demi Moore, Kevin Bacon e Kiefer Sutherland dão conta do recado. Embora o que esteja em julgamento sejam temas fundamentais como honra, dever, lealdade e hierarquia, a empatia que o desempenho de Cruise provoca é uma das razões do sucesso do filme.

O diretor Rob Reiner é o mesmo de “Joga a Mamãe do Trem”, “Harry e Sally” e do notável suspense “Misery”. Aqui ele realizou a versão moderna dos clássicos filmes de tribunal. Para marcar suas intenções, no último plano embutiu um “The End” em antiquadas letras em itálico. Como sabia o que estava fazendo, não tentou provar que sabia: filmou do modo mais elegante e rigoroso possível, criando uma obra brilhante e emocionante.


Anatomia de um Crime, de Otto Preminger
(Anatomy of a Murder, 1959)

Otto Preminger, o diretor de "Anatomia de um Crime", não é o que se costuma chamar de gênio. Não tem estilo reconhecível (um Preminger's touch) nem fez filmes formalmente notáveis. Preminger era um técnico qualificado, um tipo sem relevo. Como então inscreveu seu nome na história do cinema americano? Gritando no set como um possesso a ponto de fazer com que Tom Tryon trocasse a carreira de ator pela de escritor? Não, não, foi com coragem.

Tanto em sua vida pessoal quanto nos temas que abordou, Preminger era um homem corajoso. Ele foi o primeiro a contratar um dos Dez de Hollywood, profissionais que a política de "Caça as Bruxas" mandou para a cadeia. Seus filmes abordaram todo o tipo de tema, como drogas, necrofilia e adultério – já em 1944 (Laura).

A carreira de Preminger é extremamente irregular. Tanto é que ninguém queria produzi-lo, obrigando-o a tornar-se um dos primeiros produtores independentes. Mas quando ele acertava...

Anatomia de um Crime (1959) é um grande acerto. São 160 minutos de "filme de tribunal" com pitadas de cinema noir. Indicado aos Oscar de melhor filme, melhor ator (James Stewart), coadjuvante (Arthur O'Connell e também George C. Scott), melhor roteiro adaptado (Wendell Mayes), fotografia (Sam Leavitt) e montagem (Louis R. Loeffler). De quebra, a música é de Duke Ellington, que ainda faz uma ponta. Uma narrativa de primeira linha, com todo o suspense, drama e o "choque moral" que o filme de tribunal exige. Uma excelente desculpa para reunir os amigos.


Bullitt, de Peter Yates

(Bullit, 1968)

Peter Yates é um competente diretor de segunda com alguns sucessos de bilheteria. Reunindo gente experiente como o fotógrafo William A. Fraker, o montador Frank P. Keller (que ganhou o Oscar) e o compositor Lalo Schifrin, transformou o roteiro meia-bomba de Alan R. Trustman e Harry Kleiner (baseado na novela “Mute Witness” de Robert L. Pike) num clássico do cinema policial.

A história você já viu: o tira honesto e irrepreensível tem que bancar a ama-seca de um criminoso que prometeu dedurar até a mãe no tribunal. Como o camarada é assassinado, o policial se torna suspeito de corrupção. Ou resolve o caso, ou paga o pato. Não tendo muito que contar, Yates se concentrou em Steve McQueen para moldar um anti-herói bem ao gosto da época: lacônico, seguro, controlado, e que depois de um dia duro de trabalho tem que dormir com Jaqueline Bisset (um trabalho sujo, mas alguém tinha que fazê-lo).

A grande atração do filme é uma histórica seqüência de perseguição automobilística, filmada quase que em tempo real com dezenas de câmeras espalhadas pela montanha-russa urbana de São Francisco. McQueen, é claro, dispensou o dublê. Além de ter mais de dez minutos de ação, quando a perseguição esquentar você não ouvirá uma única nota musical: só os roncos dos motores V8.


O Advogado do Diabo, de Taylor Hackford
(The Devils Advocate, 1997)

O Advogado do Diabo é um fenômeno curioso: foi um fracasso nos E.U.A. e um sucesso estrondoso no Brasil. Assista e você vai entender porquê.

Na superfície, O Advogado é um filme de horror que mostra o maligno no pleno exercício da sua especialidade, a sedução pela mais burlesca das paixões humanas: a vaidade (“Por mais firme que esteja, um homem é somente vaidade”). Se você supera as aparências, descobre que o filme é uma sofisticada alegoria: como a Justiça não é uma questão de direito, mas uma questão de Lei, o roteiro se debruça sobre uma ética peculiar e uma certa “amoralidade” que pairam sombrias e tentadoras sobre o nobre exercício da advocacia. Em dado momento, o diabo vivido por Al Pacino exclama: —Existem mais estudantes de direito do que advogados no mundo. Este século é meu. Eu venci!

O elenco é excelente: Al Pacino, Keanu Reeves, a estonteante Charlize Theron (que você viu lá em cima), Jeffrey Jones e Craig T. Nelson. A filmografia do diretor Taylor Hackford (La Bamba) não prometia um filme tão bom. Se você não gosta de filmes de horror, ponha as bobagens de lado e penetre a seríssima discussão da obra, que tem excelentes seqüências de tribunal.


Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula

(All The President’s Men, 1976)

Baseado no livro de Carl Bernstein e Bob Woodward, o roteiro de William Goldman (que ganhou o Oscar) é espetacular: conta passo a passo uma história que todos conhecem (Watergate e a renúncia de Nixon) e ainda assim você não consegue levantar para fazer xixi. Como? É simples: narrando uma apuração jornalística nos moldes de uma investigação policial (como John Huston fez em “Freud Além da Alma”, transformando um médico no detetive do inconsciente).

A direção de Alan J. Pakula é simples e precisa. Em alguns momentos ele até consegue fazer Robert Redford parecer convincente. Com Dustin Hoffman o trabalho foi obviamente mais fácil. O único senão do DVD é a má qualidade da cópia em tela cheia, que deveria ser investigada pelo Congresso.


O Siciliano, de Michael Cimino

(The Sicilian, 1987)

Como o astro do filme é o biscate Christopher Lambert – que não lê roteiros, só extratos bancários – o filme já pode ter passado por suas mãos sem despertar interesse. Embora a Cineart Pictures tenha destruído a bela fotografia de Christian Sebaldt (masterizando um DVD com qualidade inferior ao VHS), ainda assim vale a pena.

O filme é a história verídica de Salvatore Giuliano, bandido e líder popular que na década de 1940 enfrentou a Máfia, a Igreja e o Estado para separar a Sicília da Itália. Como o roteiro é uma adaptação muito fiel da obra de Mario Puzo, o drama é narrado com ritmo, verdade e humanidade. Michael Cimino dirige com segurança, fazendo aqui e ali algumas concessões bem ao gosto do público médio – a pior delas, naturalmente, escalar Christopher Lambert.  Se te serve de consolo, o elenco traz ainda o excelente John Turturro, Terence Stamp, o subestimado e notável Joss Ackland e a sensualidade charmosa e loura de Bárbara Sukowa.
 

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Este site foi atualizado em 24/02/07