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O Cinema no banco dos réus
©Ricardo Labuto Gondim
Como muitas daquelas resenhas que estão nas contracapas dos DVDs parecem ter
sido escritas por gente que não viu os filmes, o logos eletrônico
inaugura uma série de breves comentários para sugerir títulos esquecidos ou
subestimados dignos da sua atenção.
Assim, além de julgar os filmes você
também pode julgar o crítico.
Questão de Honra, de Rob Reiner
(A Few Good Men, 1992)
O tenente-advogado da marinha Dan Kaffe
(Tom Cruise) é encarregado de defender dois jovens fuzileiros acusados de
matar um companheiro na base americana de Guantanamo. As circunstâncias do
crime envolvem violência, mas a morte pode ter sido acidental. Como a
tragédia se deu sob o nariz empertigado e todo-poderoso do Coronel Nathan
Jessep (Jack Nickolson num dos seus maiores papéis), seria conveniente
estabelecer a culpabilidade dos acusados e varrer a sujeira para debaixo do
tapete. Contudo, os réus se obstinam: “somos inocentes”.
“Questão de Honra” é
uma peça em um ato arejada pelo próprio autor, Aaron Sorkin. O drama se
passava inteiramente no tribunal que ocupa cerca de 1/3 do filme. Jack
Nickolson está monumental na pele do homem cotado para ser o próximo
Secretário de Defesa. Cruise, Demi Moore, Kevin Bacon e Kiefer Sutherland
dão conta do recado. Embora o que esteja em julgamento sejam temas
fundamentais como honra, dever, lealdade e hierarquia, a empatia que o
desempenho de Cruise provoca é uma das razões do sucesso do filme.
O diretor Rob Reiner é o mesmo de “Joga
a Mamãe do Trem”, “Harry e Sally” e do notável suspense “Misery”. Aqui ele
realizou a versão moderna dos clássicos filmes de tribunal. Para marcar suas
intenções, no último plano embutiu um “The End” em antiquadas letras em
itálico. Como sabia o que estava fazendo, não tentou provar que sabia:
filmou do modo mais elegante e rigoroso possível, criando uma obra brilhante
e emocionante.
Anatomia de um Crime, de Otto
Preminger
(Anatomy of a Murder, 1959)
Otto Preminger, o diretor de "Anatomia
de um Crime", não é o que se costuma chamar de gênio. Não tem estilo
reconhecível (um Preminger's touch) nem fez filmes formalmente
notáveis. Preminger era um técnico qualificado, um tipo sem relevo. Como
então inscreveu seu nome na história do cinema americano? Gritando no set
como um possesso a ponto de fazer com que Tom Tryon trocasse a carreira de
ator pela de escritor? Não, não, foi com coragem.
Tanto em sua vida pessoal quanto nos
temas que abordou, Preminger era um homem corajoso. Ele foi o primeiro a
contratar um dos Dez de Hollywood, profissionais que a política de "Caça as
Bruxas" mandou para a cadeia. Seus filmes abordaram todo o tipo de tema,
como drogas, necrofilia e adultério – já em 1944 (Laura).
A carreira de Preminger é
extremamente irregular. Tanto é que ninguém queria produzi-lo, obrigando-o a
tornar-se um dos primeiros produtores independentes. Mas quando ele
acertava...
Anatomia de um Crime (1959) é um grande
acerto. São 160 minutos de "filme de tribunal" com pitadas de cinema noir.
Indicado aos Oscar de melhor filme, melhor ator (James Stewart), coadjuvante
(Arthur O'Connell e também George C. Scott), melhor roteiro adaptado (Wendell
Mayes), fotografia (Sam Leavitt) e montagem (Louis R. Loeffler). De quebra,
a música é de Duke Ellington, que ainda faz uma ponta. Uma narrativa de
primeira linha, com todo o suspense, drama e o "choque moral" que o filme de
tribunal exige. Uma excelente desculpa para reunir os amigos.
Bullitt,
de Peter Yates
(Bullit, 1968)
Peter Yates é um competente diretor de
segunda com alguns sucessos de bilheteria. Reunindo gente experiente como o
fotógrafo William A. Fraker, o montador Frank P. Keller (que ganhou o Oscar)
e o compositor Lalo Schifrin, transformou o roteiro meia-bomba de Alan R.
Trustman e Harry Kleiner (baseado na novela “Mute Witness” de Robert L. Pike)
num clássico do cinema policial.
A história você já viu: o tira honesto e
irrepreensível tem que bancar a ama-seca de um criminoso que prometeu
dedurar até a mãe no tribunal. Como o camarada é assassinado, o policial se
torna suspeito de corrupção. Ou resolve o caso, ou paga o pato. Não tendo
muito que contar, Yates se concentrou em Steve McQueen para moldar um
anti-herói bem ao gosto da época: lacônico, seguro, controlado, e que depois
de um dia duro de trabalho tem que dormir com Jaqueline Bisset (um trabalho
sujo, mas alguém tinha que fazê-lo).
A grande atração do filme é uma
histórica seqüência de perseguição automobilística, filmada quase que em
tempo real com dezenas de câmeras espalhadas pela montanha-russa urbana de
São Francisco. McQueen, é claro, dispensou o dublê. Além de ter mais de dez
minutos de ação, quando a perseguição esquentar você não ouvirá uma única
nota musical: só os roncos dos motores V8.
O Advogado
do Diabo, de Taylor Hackford
(The Devils Advocate, 1997)
O Advogado do Diabo é um fenômeno
curioso: foi um fracasso nos E.U.A. e um sucesso estrondoso no Brasil.
Assista e você vai entender porquê.
Na superfície, O Advogado é um
filme de horror que mostra o maligno no pleno exercício da sua
especialidade, a sedução pela mais burlesca das paixões humanas: a vaidade
(“Por mais firme que esteja, um homem é somente vaidade”). Se você supera as
aparências, descobre que o filme é uma sofisticada alegoria: como a Justiça
não é uma questão de direito, mas uma questão de Lei, o roteiro se debruça
sobre uma ética peculiar e uma certa “amoralidade” que pairam sombrias e
tentadoras sobre o nobre exercício da advocacia. Em dado momento, o diabo
vivido por Al Pacino exclama: —Existem mais estudantes de direito do que
advogados no mundo. Este século é meu. Eu venci!
O elenco é excelente: Al Pacino, Keanu
Reeves, a estonteante Charlize Theron (que você viu lá em cima), Jeffrey
Jones e Craig T. Nelson. A filmografia do diretor Taylor Hackford (La Bamba)
não prometia um filme tão bom. Se você não gosta de filmes de horror, ponha
as bobagens de lado e penetre a seríssima discussão da obra, que tem
excelentes seqüências de tribunal.
Todos os
Homens do Presidente, de Alan J. Pakula
(All The President’s Men, 1976)
Baseado no livro de Carl Bernstein e Bob
Woodward, o roteiro de William Goldman (que ganhou o Oscar) é espetacular:
conta passo a passo uma história que todos conhecem (Watergate e a renúncia
de Nixon) e ainda assim você não consegue levantar para fazer xixi. Como? É
simples: narrando uma apuração jornalística nos moldes de uma investigação
policial (como John Huston fez em “Freud Além da Alma”, transformando um
médico no detetive do inconsciente).
A direção de Alan J. Pakula é simples e
precisa. Em alguns momentos ele até consegue fazer Robert Redford parecer
convincente. Com Dustin Hoffman o trabalho foi obviamente mais fácil. O
único senão do DVD é a má qualidade da cópia em tela cheia, que deveria ser
investigada pelo Congresso.
O Siciliano,
de Michael Cimino
(The Sicilian, 1987)
Como o astro do filme é o biscate
Christopher Lambert – que não lê roteiros, só extratos bancários – o filme
já pode ter passado por suas mãos sem despertar interesse. Embora a Cineart
Pictures tenha destruído a bela fotografia de Christian Sebaldt (masterizando
um DVD com qualidade inferior ao VHS), ainda assim vale a pena.
O filme é a história verídica de
Salvatore Giuliano, bandido e líder popular que na década de 1940 enfrentou
a Máfia, a Igreja e o Estado para separar a Sicília da Itália. Como o
roteiro é uma adaptação muito fiel da obra de Mario Puzo, o drama é narrado
com ritmo, verdade e humanidade. Michael Cimino dirige com segurança,
fazendo aqui e ali algumas concessões bem ao gosto do público médio – a pior
delas, naturalmente, escalar Christopher Lambert. Se te serve de consolo, o
elenco traz ainda o excelente John Turturro, Terence Stamp, o subestimado e
notável Joss Ackland e a sensualidade charmosa e loura de Bárbara Sukowa.
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