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cinema: terror e êxtase |
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05/09/10 |
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O Ouvido na trevas ©Ricardo Labuto Gondim Os filmes que vamos assistir são o pretexto para uma experiência melômana. Com Nosferatu (1922) e Dracula (1931) vamos transformar uma sessão de DVD num pequeno evento musical. A despeito da unidade em torno da mítica figura do vampiro, as duas obras reúnem semelhanças extraordinárias, surpreendentes, que se manifestam muito mais no campo estético do que na esfera temática. Mesmo que os filmes de horror não sejam o seu forte, dê uma chance ao texto. Nós vamos visitar Reinhardt, Brecht, Nikisch, Klemperer, Rutheford, Muller, Remarque, Mann e a belíssima Louise Brooks: o cinema e a música são sempre as melhores desculpas para se falar dos mais diversos assuntos, como, por exemplo, o Universo. Acho que você vai gostar do passeio. Especialmente porque no artigo existem pequenas coisas que se encaixam e produzem uma tremenda organicidade. E eu não fiz um esforço deliberado para produzir isso.
Foi a vida. NOSFERATU, 1922
Imagine que você convida a turma para assistir ao DVD do
Parsifal. Você liga o power e — puf! — a grade da válvula do
canal esquerdo desaba graciosamente no fundo cristalino do tubo de vácuo.
Você não sofreu nada com a sobrecarga da rede. Mas adeus reunião. Como
sempre existe alguém capaz de levar o horror desse tipo de ocorrência a um
paroxismo, aquele seu amigo incapaz de reconhecer a diferença entre um
Audiopax e um rádio de pilha vai gritar do fundo da sala: — Não tem problema
não, a gente escuta a música “de um lado só”. Aí em São Paulo conheci um empresário do ramo audiófilo que vendeu três sistemas caríssimos para o mesmo sujeito: o camarada se divorciava e — pimba! — a primeira coisa que o advogado da ex-mulher exigia era o equipamento de som que ela nem sabia ligar. Mesmo que o sujeito amasse mais o som do que a esposa, não é isso uma forma vulgar de vingança? Lei não é justiça. É lei. Como dizia Cícero, “vivemos na escravidão da lei para sermos livres”. Mas como pode um escravo ser livre?
Isso mesmo, eu disse “chantagem”. Canalhas profissionais se aproveitavam da lei para extorquir pessoas que, em outras circunstâncias, seriam consideradas irrepreensivelmente honestas. Lembre-se que cerca de 20 anos antes — e 20 anos naquele tempo não representavam a eternidade de hoje em dia — mesmo com o chamado “culto ao homossexualismo” em moda, John Sholto Douglas, oitavo marquês de Queensberry, descrito pelo próprio filho como um “monstro desumano, louco furioso, perseguidor da esposa e terror dos filhos”, usara de sua influência junto ao Império para condenar Oscar Wilde a três anos de trabalhos forçados. O pecado de Wilde? Enamorar-se de Alfred Douglas, o Bosie, filho do marquês. Se tivesse se apaixonado por seu requisitado fornecedor de sedas Wilde teria sido condenado? Até a sua revogação, o parágrafo 175 impôs a Murnau uma conduta ambivalente. Não que a sociedade de então fosse puritana. Ao contrário. Lembro-me, ainda que nebulosamente, de uma carta de Alban Berg para sua noiva onde o compositor se mostrava fascinado pela personalidade da melhor amiga de sua irmã, uma prostituta. A Primeira Grande Guerra havia gerado uma Europa individualista, niilista, mas com uma ânsia legítima e pura pela vida. A juventude angustiada pelo trágico presenciado in loco — revivido através das cruas e precisas descrições de Erich Maria Remarque — queria renovar o mundo. Meu avô dizia que o impacto da obra de Remarque fora tão intenso, que se acreditava que jamais haveria outra guerra depois da publicação de Nada de Novo na Frente Ocidental. Vou te contar uma coisa surpreendente: Paris nos anos 20 era — além da esfera das artes plásticas — uma lenda. Tudo que se dizia estar acontecendo em Paris na época acontecia em Berlim. Havia Reinhardt, Piscator e Brecht. Havia Arthur Nikisch e, logo depois, Furtwängler na Filarmônica; Erich Kleiber na Staatskapelle; Bruno Walter na Staatsoper; Klemperer na Krolloper. Havia discussões sobre as descobertas de Rutheford sobre a desintegração do átomo, sobre as mutações por radiação de Muller e os primeiros experimentos em química macromolecular. Havia Rilke e Mann, muito ativos, e traduções das belíssimas obras de Fitzgerald.
Em A Tela Demoníaca (editora Paz e Terra e Instituto Goethe com esmerada tradução de Lúcia Nagib) Lotte Eisner ensaia dezenas de definições para o Expressionismo, a manifestação apocalíptica das ambivalências e inquietações do povo alemão. Uma expressão do Grübelei, a eterna atração pelo obscuro, pelo vago, pelo indeterminado, pela especulação obsessiva. O expressionista não vê, tem visões. Mas lembre-se: o visível não existe. O que existe é a visão interior do visível. O expressionismo é, por um lado, o subjetivismo levado ao paroxismo. Por outro, a afirmação granítica do Eu, a afirmação da minha visão. Interpondo um véu entre si mesmo e o mundo, o expressionista busca uma arte abstrata para expressar a alma das coisas. A despeito da popularidade de Fritz Lang, Murnau é o expoente expressionista. Nele, a visão cinematográfica não resulta de uma “estilização” artificial como em Lang e Wiene. Nas palavras de Lotte Eisner, Murnau “criou as imagens mais estupendas, mais arrebatadoras da tela alemã” porque é um diretor cinematográfico. Murnau criou uma possibilidade de perfeição audiovisual que você pode experimentar num DVD de primeira classe: NOSFERATU, UMA SINFONIA DO HORROR (Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens), terceiro volume da série de expressionistas alemães lançados pela Continental.
Enfim, você vai ver um cinema experimental, onde um cineasta atormentado e dividido expressa uma dolorosa complexidade íntima — num mundo estranho, fantasmagórico, assombrado por um demônio bizarro, portador da peste, que afirma sua individualidade rompendo com as leis da natureza enquanto vaga em busca de amor. Um mundo onde as angústias da vida se materializam em arte: Nosferatu é acima de tudo uma obra criada para causar medo; uma obra criada, justamente, para aperfeiçoar o horror da vida humana. Nosferatu é a versão do roteirista Henrik Galeen para Dracula, novela do irlandês Bram Stoker. Contratados por Albin Grau, produtor da companhia Prana-Film, Galeen e Murnau adaptaram o texto livremente, transferindo a ação de Londres para a Bremen de 1838, ano em que a cidade foi historicamente assolada pela peste. Os nomes dos personagens foram alterados. Dracula transformou-se no conde Graf Orlock, magnificamente interpretado pelo misterioso ator Max Schreck. Mesmo dando ao livro seus devidos créditos, Albin Grau não comprou os direitos da obra. A bela viúva de Stoker, Florence — uma mulher de espírito notável que ironicamente fora noiva de Oscar Wilde durante três anos — acionou a Prana–Film sob o amparo da Sociedade Britânica de Autores. Em 1925 todas as cópias de Nosferatu foram condenadas à destruição. Após a morte de Florence em 1937, cópias sobreviventes surgiram nos E.U.A. e na Europa. A cópia do DVD da Continental é excelente, totalmente restaurada, apresentando o filme em todas as suas cores. Sim, eu disse cores. No tempo do cinema mudo as cópias eram tingidas para produzir efeitos cromáticos: amarelo em paisagens ensolaradas, azul e vermelho em paisagens noturnas, etc. Como se o filme precisasse de ajuda para causar medo, incluíram uma trilha sonora abominável, executada em sintetizadores. Não me dei ao trabalho de procurar qualquer nota sobre a origem da partitura. Esqueça. Assista ao filme com uma trilha alternativa executada no CD player. Tire o ouvido das trevas. Aqui vão algumas sugestões: Concerto para Orquestra, de Bártok; Noite Transfigurada, de Schöenberg; Metamorfoses e Morte e Transfiguração, de Richard Strauss; Concerto para violino e Suíte Lulu, de Alban Berg; Nona Sinfonia de Bruckner; Sagração da Primavera e Pássaro de Fogo, de Stravinsky; e o disco que Karajan gravou com obras de Webern (Passacalha op.1, Cinco movimentos op.5, Seis peças para Orquestra op.6 e Sinfonia op.21).
Algum tempo antes, em 1927, um filme chamado “O Cantor de Jazz” fizera enorme sucesso em Nova Iorque, ficando conhecido como o primeiro filme sonoro da história. Não é. Primeiro, porque o cinema sempre foi “sonoro”. As grandes salas dispunham de conjuntos ou pequenas orquestras, e as mais modestas tinham ao menos um pianista. Segundo, porque já então os grandes estúdios testavam o “cinema falado” em todo o país, experimentando dezenas de processos técnicos diferentes. Terceiro, o filme não é exatamente “falado”. O processo escolhido — Vitaphone — utilizava discos de 78 rotações hesitantemente sincronizados ao longo da projeção. Excetuando as canções, em The Jazz Singer só existem dois breves momentos de diálogos. No cinema falado — e nas boas histórias — estava a chance de sobrevivência da indústria. Em 1930 os sistemas de som com base em discos representavam 95% das produções de Hollywood. Já existiam mais de 200 processos diferentes no mercado. Dois estavam se consolidando: o Photophone da RCA e o sistema de densidade variável da Western Eletric.
Por que contratar um elenco mexicano ao invés de dublar o filme? Porque ninguém sabia trabalhar com o som, tanto no sentido técnico quanto dramático. Dublar o filme era praticamente impossível. Dublar o filme de modo aceitável era definitivamente impossível. Editar a trilha era uma operação tão complexa, com resultados tão minuciosamente ruins, que alguns diretores preferiam levar uma orquestra para o estúdio e executar a música incidental no momento da filmagem. Por isso, Dracula é um filme sem música, excetuando a abertura e uma ou duas incursões do tema romântico de O Lago dos Cisnes. Ai de nós! Algum espírito penetrante, pleno de sabedoria e sutilezas românticas, estabeleceu um paralelo entre a busca de amor de Dracula e a busca do príncipe Siegfried no balé de Tchaikovsky — o que foi mesmo que eu disse sobre aperfeiçoar o horror da vida humana? Depois de muitas aventuras que eu vou contar num outro dia, Bela Lugosi foi para o estúdio recebendo US$ 3.500 dólares por sete semanas de trabalho, valor já então considerado baixo. Só os direitos de filmagem — negociados pelo próprio Lugosi — haviam estufado a bolsa de Florence Stoker com quarenta mil dólares.
Mas eu prometi uma experiência melômana, não foi? Pois bem: o
DVD da Universal traz uma trilha alternativa com som de alta qualidade,
composta em 1999 por Philip Glass e executada pelo Kronos Quartet. Bernard Herrmann escreveu a trilha de Psicose só para cordas por uma simples razão: do contrabaixo ao violino, ele explorou todas as nuances que na tela iam do preto ao branco. Creio que Glass tenha escolhido um quarteto de cordas pelo mesmo motivo. Até porque Dracula é, ao seu modo, um Kammerspielfilm, um “ambiente” adequado à música de câmara. As sonoridades, especialmente as texturas do Kronos Quartet, estabelecem uma profunda unidade com o filme.
Quer saber? Glass compôs uma trilha muito bonita. |
Este site foi atualizado em 31/12/06