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Ooooooh-ohohohooo-hohohoho!
©Ricardo Labuto Gondim
Pode gritar também: nosso herói está de volta. A Warner lançou um
estojo de três DVDs com os seis filmes de Tarzan produzidos pela MGM,
estrelados por Johnny Weissmuller e (suspiro) Maureen O'Sullivan.
Calma, homem, os DVDs não vão fugir. Antes de sair do logos eletrônico
e correr para o cipó mais próximo, dê uma olhada neste artigo: você vai
descobrir que a criação de Tarzan também foi uma grande aventura.
Vocação para a ruína
Os primeiros 36 anos na vida de Edgard Rice Burroughs foram uma sucessão de
fracassos. Nascido em Chicago em 1875, Burroughs freqüentou meia dúzia de
escolas públicas e particulares antes de se
formar na
Academia Militar de Michigan. Não conseguindo designação para um posto em
nenhuma unidade militar – nem mesmo na China – esgotou seus tediosos dias de
caserna no 7º. Batalhão de Cavalaria dos Estados Unidos. Quando finalmente
deu baixa ainda era um simples praça.
Casando em 1900 com Emma Centennia Hulbert, em vão tentou manter-se em
dezoito empregos diferentes antes de arriscar alguns empreendimentos
comerciais que faliram um após o outro. Onze anos depois teve que empenhar o
relógio para alimentar a família. Como todas as coisas possíveis haviam sido
tentadas, o impossível foi o que restou. Homem inclinado aos devaneios da
imaginação, tendo inclusive cometido alguns poemas, Burroughs decidiu
experimentar suas possibilidades como escritor. Sem dinheiro para comprar
papel, redigiu a primeira história no verso das folhas timbradas de algumas
das empresas que faliu. Hoje, o conto Uma Princesa de Marte é
aclamado como um dos pontos de partida da ficção-científica no século XX.
O trabalho seguinte, um pretensioso drama histórico repleto de minúcias
tediosas foi rejeitado. Abatido, esgotado, Burroughs ia desistir da carreira
literária quando recebeu dos seus editores a célebre carta de uma única
linha: “Coragem – não desista!”. Foi quando escreveu Tarzan dos
Macacos.
O Rei das Livrarias
Publicado em 1912 numa revista de ficção barata, Tarzan foi um
sucesso instantâneo. O saldo para Burroughs foi de apenas setecentos
dólares, e ele ainda teve de passar os dois anos seguintes
procurando
um editor que ousasse reunir em livro uma história previamente publicada
numa revista popular. Finalmente a editora A. C. McClurg & Company
apostou nas aventuras do homem-macaco – o best-seller de 1914.
Burroughs enriqueceu os editores, ganhou o seu quinhão e conquistou a
tranqüilidade necessária para dar vazão a uma imaginação ilimitada.
Seguiram-se dezenas de aventuras sobre o planeta Vênus, westerns,
comentários sociais, contos policiais, odisséias lunares e subterrâneas,
tudo narrado por um estilo literário intenso, de rara beleza. Ao todo foram
mais de cem livros, doze dedicados a Tarzan.
Em 1918 Tarzan dos Macacos chegou ao cinema com Elmo Lincoln no papel
principal, sendo o primeiro filme da História a obter renda bruta acima de
um milhão de dólares. Hoje, a filmografia de Tarzan tem mais de cinqüenta
títulos.
O Rei das Cinematecas
Burroughs costumava ridicularizar os filmes na medida em que enriquecia com
eles, lamentando a grotesca caricatura da sua criação eternizada em
celulóide por Hollywood. O rústico e gutural primata das telas nada tem a
ver com o brilhante, heróico e nobre adônis da literatura. Na última cena do
livro Tarzan dos Macacos, Tarzan esconde o telegrama que confirmava
sua ascendência nobre,
e que restituiria ao seu domínio o dilatado castelo de Greystoke com todas
as maravilhas inseparáveis da sua heráldica – e também as promessas
inconfessáveis da soberba beleza de Jane. Para felicidade de pessoas que
aprendera a amar, a tudo renuncia com uma frase de efeito extraordinário: “O
telegrama diz que devo voltar à África. Minha mãe era uma macaca. E eu
jamais soube quem era meu pai”. De volta à África, o Tarzan literário
exerceu total domínio e justiça num cenário onde a imaginação revogou a
geografia: à seca planície da savana Burroughs acrescentou florestas densas
e milenares, cordilheiras escarpadas mais altas que o Kilimanjaro, abismos
infinitos, vales férteis, pântanos sulfurosos, cavernas secretas, povos
ancestrais e civilizações avançadas.
Em 1919 Burroughs resgatou o relógio e comprou a propriedade do General
Harrison Gray Otis na Califórnia, quase tão grande quanto a África da sua
imaginação. Deu-lhe o nome de Tarzana. Ali, escreveu prodigiosamente
e dirigiu a internacional Edgar Rice Burroughs Inc. Com o ataque a
Pearl Harbor em 1941, apresentou-se como voluntário e foi enviando ao
Pacífico Sul: o mais idoso, teimoso e temerário correspondente de guerra dos
Estados Unidos foi obrigado a voltar para casa depois de sofrer uma
série de ataques cardíacos. Acabado, passou o resto de seus dias numa casa
modesta, em Encino, Califórnia. Morreu em 1950. Suas cinzas foram levadas de
volta a Tarzana, e em respeito à sua vontade, sepultadas num túmulo sem
marca.
Um especialista em Burroughs, Henry Hardy Heins, sugere que a última linha
da última história de Tarzan “poderia ser considerada uma despedida
inconsciente do próprio autor”. A linha diz: "Graças a Deus por tudo".
A Dinastia do Celulóide
O primeiro Tarzan do cinema, Elmo Lincoln, um gigante em sua época,
inaugurou a tradição cinematográfica de dar o papel do homem macaco a homens
de peito largo e encéfalo estreito, embora Lincoln não correspondesse
exatamente a essa imagem: aos 19 anos parecia ter 50.
Os produtores
nunca entenderam que o trunfo do Tarzan literário era a inteligência
superior. Sem ela, e sem o amor de Kala, a macaca, não teria sobrevivido a
uma infância povoada de perigos mortais (é verdade que nossas crianças,
abandonadas nas selvas das cidades enfrentam horrores maiores). Para
derrotar Kershak e cingir-se rei dos antropóides, Tarzan usou a astúcia e
uma faca. Levado para Londres, o herdeiro de Lorde Greystoke rapidamente se
adaptou aos costumes da vida moderna e aos anacronismos da sociedade
inglesa, entrando em perfeita harmonia com o mundo que mais tarde recusou.
Considerado o Tarzan definitivo, Johnny Weissmuller não rompeu a tradição
atlética. Aliás, foi eleito para o papel por força dela: campeão olímpico de
natação era o homem talhado para exibir força e protagonizar pioneiras cenas
aquáticas.
A Grande Depressão
Produzidos na década de 1930, os filmes de Tarzan da MGM entretinham
multidões ao mesmo tempo em que apregoavam a ideologia da “vida simples” a
um povo sem escolhas e sem esperança, aniquilado pela Grande Depressão.
Alardeavam também a ideologia da família-feliz-estilo-comercial-de-margarina
numa das sociedades mais violentas do mundo – como era a sociedade
norte-americana no tempo em que o homem mais famoso do país se chamava Al
Capone.
No limiar dos anos 40, quando a MGM perdeu interesse pela série,
Weissmuller continuou atuando
em filmes de
Tarzan e Jim das Selvas para o produtor Sol Lesser da RKO.
Infelizmente, sem o brilho ditado por Irving Thalberg – o senhor da MGM
que produziu pessoalmente Tarzan o Filho das Selvas (1932) para
elevar o padrão da série – e sem a beleza irlandesa de Maureen O'Sullivan,
que em 1936 se retirou por seis anos para cuidar da família que formou com o
diretor John Farrow. Isso explica a súbita extinção da tanga a partir de A
Fuga de Tarzan – que o próprio Farrow ajudou a escrever.
Maureen O'Sullivan teve uma carreira mais longa que Weissmuller. Mesmo
enfrentando a concorrência de outra beldade irlandesa, Maureen O'Hara,
O'Sullivan atuou como atriz principal em produções menores e como atriz
secundária em grandes produções. Em 1986 representou a mãe de sua própria
filha, Mia Farrow, em Hannah e Suas Irmãs, do genro Woody Allen.
Weissmuller protagonizou muitos filmes de aventura em produções cada vez
mais baratas. Seu último filme foi uma esquecível comédia produzida em 1970.
Morreu no México aos 79 anos gritando em noites insones acreditando que era
mesmo o Tarzan.
Os
Herdeiros do Grito
Depois de Weissmuller outros Tarzan herdaram o grito imortal, reproduzido em
filmes com Lex Barker, Gordon Scott, Denny Miller, Jock Mahoney e Mike
Henry. Ron Ely assumiu o papel na longa série de TV filmada no México. A
série mais recente não teve repercussão. O retorno ao cinema foi com o belo
Greystoke, A lenda de Tarzan, de Hugh Hudson, e na versão fliperama da
Disney que lançou novas luzes sobre outros mitos: os mestres da
ilustração Burn Hogarth e Frank Frazetta, que inspiraram os desenhistas do
estúdio.
A Série da MGM
O que você vai ver no estojo da Warner:
Tarzan o Filho das Selvas
(Tarzan The Ape
Man, 1932) de D. W. S. Van Dyke – O primeiro filme da série é narrado
sob a perspectiva da senhorita Jane Parker. Não há menção às origens de
Tarzan, nenhum personagem parece estranhar que um homem branco de olhos
verdes more num condomínio de chimpanzés e imensos antropóides. Como o
público já conhecia a genealogia de Lorde Greystoke através dos livros,
quadrinhos, rádio e do próprio cinema, os roteiristas omitiram diálogos
supostamente desnecessários em prol da ação contínua. A única distensão na
sucessão de desafios e ameaças é o ousado interlúdio romântico entre Jane e
o homem-macaco. Depois de entregar a Tarzan sua inviolável e ansiosa
virtude-inglesa-padrão-1932, Jane se declara “muito feliz e sem
arrependimento”.
A Companheira de Tarzan
(Tarzan and His
Mate, 1934) de Cedric Gibbons – O filme tem as virtudes de uma época
mais honesta e romântica, quando o cinema era feito em locação ou estúdios,
não em
salas refrigeradas com computadores de última geração. Combinando diversos
tipos de efeitos,
Gibbons – que não era diretor profissional, mas desenhista de
produção – gerou seqüências
espetaculares,
como a luta de Tarzan contra o crocodilo colossal e o ataque do rinoceronte.
Mauren O´Sullivan evoluindo linda e nua (isso mesmo, rapaz, sem roupa
e sem silicone) num balé aquático então, nem se fala.
A Fuga de Tarzan
(Tarzan Escapes, 1936) de Richard Thorpe – Compilando seqüências
inteiras dos dois filmes anteriores, A Fuga é desigual, ligeiro e
delicioso. Você visitará a mansão de Tarzan numa árvore do mesmo condomínio
dos Flinstones, que incorpora todas as facilidades da vida moderna: elevador
movido a elefante, ventilador de teto movido à macaca e ovos gigantescos no
café da manhã. Como convém a uma senhora comprometida com o roteirista do
filme, um short comportado preserva Jane dos olhares dos garotos de
outrora e dos marmanjos de hoje. O final tem mais mortes do que Tito
Andrônico, a peça mais sanguinária de Shakespeare.
O Filho de Tarzan
(Tarzan Finds a Son, 1939) de Richard Thorpe – O cinema transfere
para Boy a origem literária de Tarzan. O menino e não o senhor das selvas
passa a ser o descendente da aristocrática Casa dos Greystoke. Assim,
parentes distantes e ambiciosos tentarão levá-lo de volta à civilização com
a cumplicidade inesperadamente traiçoeira de Jane. O filme tem a agilidade
típica do cinema de aventuras dos anos 30, com paroxismos sucessivos. A
seqüência submarina entre Tarzan, Boy e o elefante lembra um comercial de
refrigerante filmado mais de 50 anos depois.
O
Tesouro de Tarzan
(Tarzan’s Secret Treasure, 1941) de Richard Thorpe – Descobrindo ouro
na piscina natural da família, Boy é acometido por um súbito interesse pela
civilização inspirado pela língua comprida de Jane. O resultado é a invasão
do paraíso. A grandiosa seqüência final é apocalíptica: envolve uma manada
de elefantes, grandes crocodilos, dezenas de canoas, centenas de figurantes
e cenas subaquáticas.
Tarzan contra o Mundo
(Tarzan’s New York Adventure, 1942) de Richard Thorpe – Boy é seqüestrado
para domar animais num circo. Tarzan e Jane deixam a selva africana para
resgatá-lo da selva de aço e concreto nova-iorquina. Uma celebração do
estilo de vida de Tarzan para encerrar a série da MGM.
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