cinema: super-homem

05/09/10

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Existem ocasiões na vida em que é preciso olhar para trás e deixar que a criança que você foi aponte o caminho que você precisa seguir. Por favor, não me venha com Jung. Estou falando de feijão com arroz. Dos momentos em que a vida exige tanta coragem que é preciso lembrar que mesmo tendo medo de escuro você queria ser astronauta. Que a despeito de todas as quedas, luxações, arranhões e da aplicação sistemática, dolorosa e humilhante do Mertiolate você não desistiu de tirar as rodinhas da bicicleta.

 

Em mais um ano que se inicia proponho um retorno à infância através de um dos seus símbolos mais ricos: as histórias em quadrinhos. Isso significa falar do maior dos seus ícones, o Super-Homem. Que aliás, na versão cinematográfica de Richard Donner já completou 25 anos, sendo lançado em DVD com seus dois irmãos menores num estojo comemorativo.

 

Eis aí uma boa desculpa para voltar à infância. Lembra quando você queria voar? Talvez você ainda possa.

 

...E o Homem pode voar

 ©Ricardo Labuto Gondim

No mundo da humanidade que vive e que sofre, e que por essas mesmas razões precisa sonhar, não parece haver fantasia maior do que o vôo. Voar — com todos os seus significados, com toda a sua transcendência — é a nossa suprema ambição. Falamos de Ícaro sem mencionar Dédalo, seu pai, que constrói as asas de cera para que ambos escapem do Labirinto de Creta. Ébrio de liberdade — ébrio de êxtase pelo vôo — Ícaro atinge o sol, rompe as delicadas asas e afunda pesado e eterno na voragem abismal das águas. Dédalo voa com moderação e triunfa. Escapa das armadilhas do Labirinto, do sol e do mar, pousando sereno, incólume e anônimo na margem oposta.

 

A ambição de Dédalo não foi voar, mas escapar do Labirinto. Já a ambição de Ícaro é a nossa. Muitas vezes não queremos ir a lugar algum. Só queremos voar.

 

Leonardo da Vinci é um dos símbolos mais singelos da paixão humana pelo vôo. Durante anos Leonardo estudou diligentemente os pássaros, deixando centenas de esboços e dezenas de projetos de “máquinas voadoras”. Um de seus contemporâneos fez o seguinte registro: “Como tantos outros Leonardo da Vinci também tentou voar, mas ele igualmente fracassou. Era um magnífico pintor”.

 

Séculos mais tarde, em 1902, enquanto o dirigível Número 6 de Santos Dumont era atirado às águas da Baía de Mônaco por força do vento e de uma carga insuficiente de gás, o mágico e ilusionista George Méliès utilizava o cinematógrafo para fazer o Homem voar até a lua... numa bala de canhão.

 

Acidente com o N. 6 de Santos Dumont.Com Méliès o cinema nos deu o vôo de Ícaro antes do 14-Bis, antes do Libélula e antes da bélica poesia dos bi-planos frágeis e matadores. Como para o homem imaginativo e para as crianças a realidade é um dado a ser superado, foi preciso voar mais alto. Sem barreiras. Mas como, se o cinema está restrito à tecnologia do seu tempo? É quando surge uma nova pista de decolagem para Ícaro. Uma possibilidade limitada apenas pela imaginação: o “comic-book”.

 

A SAGA DOS HOMENS FRÁGEIS

 

O comic-book — a revista em quadrinhos — foi a grande novidade do mundo editorial da década de 30. Agora as histórias podiam superar os limites breves e horizontais das tiras de jornal, formando narrativas mais longas e dramáticas. Forma ilustrada e colorida da pulp fiction, o sucesso popular do comic-book foi imediato. E estimulou a imaginação de dois amigos de infância, o jovem escritor Jerry Siegel e o jovem desenhista Joe Shuster. Em 1938 a dupla criou o personagem de maior sucesso dos comic-books.

 

Depois de uma gênese pouco honrosa como cruel e bizarro protagonista de uma história chamada "The Kingdon of Super-Man” — onde exibia insuspeitados poderes mentais e uma vontade totalmente inclinada para o mal — o Super-Homem surge como herói na revista Action Comics Nº 1. Sucesso instantâneo. No ano seguinte ele é o primeiro personagem a ganhar uma revista com seu próprio nome. Pouco depois conquista a Rádio Mutual (Para o alto. E avante!), os cinemas — na forma de desenhos de curta-metragem — e as tiras dos jornais diários.

 

Entre os motivos do sucesso do personagem estavam os desenhos minimalistas e diretos de Joe Shuster, criador da splash page, uma página inteira com um único desenho. A invenção da splash page, possível apenas com o advento do comic-book, é provavelmente uma conseqüência direta da triste limitação de Shuster, um artista quase cego.

 

A primeira missão do Super-Homem foi salvar as finanças da editora, que mais tarde se chamaria DC Comics, e enriquecer seus acionistas. Como Siegel e Shuster haviam vendido os direitos sobre a criação, não receberam um único dólar de royalties, ganhando apenas o salário pela produção das aventuras.

 

Em 1945, Siegel acionou a DC para tentar obter participação nos direitos do Super-Homem. Perdeu. Seu velho e bom amigo Shuster se viu constrangido a deixar a editora e sua criação, encerrando definitivamente a carreira em 1954, quando já não podia enxergar os desenhos. Um pouco mais tarde Shuster tornou-se carteiro, experimentando uma humilhação maior: sob chuva, sol ou neve, viu-se obrigado a entregar a correspondência do prédio da DC, onde artistas bem sucedidos e bem pagos ditavam os rumos da sua criação.

 

Os dois amigos tiveram uma velhice de privações que terminou em asilos para idosos. Em 1976, com o início da produção de Superman, o filme, a DC concordou em pagar uma pequena aposentadoria à dupla. Claro, já era um pouco tarde. E para sublinhar esses pequenas tragédias e ironias, quero lembrar outro fato trágico e irônico: Monsieur George Méliès, que contava histórias com luz — como a que levou o Homem à lua numa bala de canhão — terminou seus dias vendendo fósforos nos corredores cinzentos do metrô de Paris.

 

OS PRIMEIRO VÔOS NO CINEMA

 

Em 1941 Super-Homem é avistado nas telas do cinema numa série de desenhos de alta qualidade, produzidos para a Paramount pelos célebres irmãos Fleischer. Há alguns anos, cerca de quatro ou cinco episódios acompanharam o seu jornal de domingo numa versão VHS destinada às crianças. Talvez você tenha esse tesouro em casa.

 

Em 1948 surge um seriado para cinema de 15 episódios, Superman, estrelado por Kirk Alyn. Como Alyn quase ganhou asas de anjo de verdade tentando voar através de cabos, foi substituído nas cenas de vôo por um — como direi sem chocar? — desenho animado (Para o alto. E avante!). Alyn e este efeito bizarro foram mantidos no seriado seguinte, Atom Man Vs. Superman, de 1950, também em 15 episódios.

 

Em 1951 é a vez de George Reeves subir aos céus do estrelato com “Superman and Mole Men", um genuíno longa-metragem de 67 minutos de duração. Segundo a lenda, o piloto da série de TV de 104 episódios exibida entre 1952 e 1957. Na verdade, temendo que nenhum canal de TV se interessasse pela série, os produtores conceberam o filme para cinema como um produto alternativo. Um "plano B" realizado em apenas 11 dias. Só então a equipe se entregou ao verdadeiro objetivo, rodar 24 episódios de 30 minutos em 12 semanas de trabalho. Mais tarde alguns episódios de TV fizeram o caminho inverso. Compilados em grupos de três, geraram quatro ou cinco filmes para cinema.

 

George Reeves protagonizou o vôo inaugural do Super-Homem. Em Superman and Mole Men o herói voa “de verdade” pela primeira vez, auxiliado pelos milagres da retroprojeção, dos cicloramas motorizados com céus pintados artesanalmente, e pela boa-vontade do público.

 

SUPER-HOMEM PARA SEMPRE

 

Quase 30 anos depois de sua última aterrissagem, os produtores Alexander e Ilya Salkind tiveram a idéia de fazer o Homem de Aço voltar a voar. O que tinham em mente não era exatamente um vôo de primeira classe. Estava mais para bala de canhão. Pai e filho tinham resolvido o principal desafio técnico do filme — o vôo — sem consultar um único especialista: depois de saltar para ganhar impulso e os céus, o ator seria substituído por — como direi sem chocar? — um desenho animado. Para o alto. E avante!

 

Apresentado à dupla, o diretor Richard Donner percebeu imediatamente que, contra todas as aparências, os Salkind não eram capitalistas selvagens que só pensavam em dinheiro; ele percebeu que os Salkind eram capitalistas selvagens que pensavam em dinheiro e na qualidade do projeto — sinônimo de mais dinheiro.

 

Tudo era uma questão de diálogo e Donner sabia que seria ouvido. Em 1975 ele tinha dado um show de direção de atores com “Sarah T. — Retrato de uma alcoólatra adolescente”. Em 1976, um show de direção de público com “A Profecia”, movimentado filme de horror que o transformou no jovem-diretor-sensação-do-momento.

 

Donner foi inflexível e demonstrou aos produtores que o sucesso do filme dependia inteiramente da credibilidade do vôo do Super-Homem. Era por isso que as pessoas pagariam o ingresso: elas também queriam voar.

 

Foi assim que o projeto cresceu. Milhares e milhares de dólares foram investidos na pesquisa de soluções para o vôo. O processo mais utilizado é o mesmo de Star Wars: uma câmera controlada por computador evolui sobre um ator semi-imóvel, pendurado contra um fundo verde ou azul. Cristopher Reeve voou mais rápido que uma bala. Voou como Ícaro.

 

Certos espíritos penetrantes ridicularizaram as variações de cor no uniforme do herói em algumas cenas de vôo, dizendo que a produção revelou o filme em laboratórios diferentes. É verdade, os defeitos existem. Mas a despeito destas e outras limitações, Superman continua voando há 25 anos no céu de brigadeiro do que há de mais puro em você e em mim. Existe uma nova versão, Superman Returns (2006) de Bryan Singer, com Brandon Routh envergando a capa. Um filme divertido, bem realizado mas, infelizmente, sem a mesma poesia.

 

O filme de Richard Donner com Cristopher Reeve é um épico autêntico. A versão em DVD trás cenas inéditas e o segundo disco traz os bastidores da saga. Lembre-se apenas que o making of não é um documentário, é uma peça publicitária.

 

O desenho de produção de Superman é de um dos melhores projetistas que Hollywood já teve, John Barry, que morreu vítima de meningite no ano seguinte ao lançamento do filme. A antológica marcha do herói e o delicado tema para a impetuosa Lois Lane são do mestre John Willians. O roteiro é uma obra poética escrita por Mario Puzo e burilada com a colaboração de quatro especialistas. Puzo, autor de O Poderoso Chefão e de um denso e belíssimo romance chamado A Guerra Suja, constrói o filme bloco por bloco, meticulosamente. Prepara a primeira intervenção do Homem de Aço criando uma das maiores progressões dramáticas da história do cinema, recompensada por uma seqüência de ação extraordinária, onde não faltam o humor, a beleza e a poesia.

 

 

O elenco é estelar: Marlon Brando, Gene Hackman, Ned Beatty, Glenn Ford, Trevor Howard, Margot Kidder, Valerie Perrine, Maria Schell, Terence Stamp, Susannah York e é claro, Cristopher Reeve, que encarna em sua beleza toda a ingenuidade e bondade que se espera do Superman. E aqui chegamos ao ponto que me levou a escrever o artigo.

 

Em 1995 Reeve sofreu um acidente num torneio de equitação. A queda do cavalo esmagou as duas primeiras vértebras da sua coluna cervical, sua beleza, sua carreira, a capacidade de respirar, de mover-se, de tocar e de ser apenas um homem.  Foram nove anos de lutas até que em 10 de outubro de 2004, aos 52 anos, Cristopher Reeve voltou para Krypton. O acidente que o deixou tetraplégico revelou ao mundo sua verdadeira identidade: Reeve era mesmo o Homem de Aço.

Mesmo aprisionado em kryptonita do pescoço para baixo, o Super-Homem continuou produzindo, dirigindo, atuando, presidindo sua fundação de pesquisas para o tratamento de lesões medulares da espinha dorsal, e enfrentando a oposição ao uso das células-tronco liderada pelo vilão mais poderoso da Terra, George W. Bush, o campeão de uma das mais disformes expressões da estupidez humana: o fundamentalismo cristão norte-americano, que tenta empurrar Jesus para a direita de Hitler e Gêngis Khan.

Como o Super-Homem é aquele que voa, que nunca desiste de voar, era necessário que Cristopher Reeve escapasse aos grilhões da Terra e se elevasse num vôo de paz infinita: sua coragem foi uma vitória sobre a morte.

Pensando em Reeve, lembro-me do carteiro Shuster, entregando estufados saldos bancários e cartões de Natal nas dependências de um império que poderia ser seu. Lembro-me de Méliès vendendo fósforos num metrô repleto de cartazes do cinema que ele praticamente inventou.

Shuster continuou entregando seus pacotes, Méliès continuou vendendo seus fósforos, Reeve lutou até o fim. Estes homens provam que o Super-Homem existe. E não é difícil encontrá-lo. Deve haver algum aí mesmo na sua cidade, no seu bairro, no seu escritório. Talvez ele esteja lendo o logos eletrônico neste exato momento, hein? É fácil identificá-lo. Super-Homem é aquele que voa. Que jamais desiste de voar.

Feliz 2007. Para o alto. E avante!


 

     

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Este site foi atualizado em 25/12/06