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Existem ocasiões na
vida em que é preciso olhar para trás e deixar que a criança que você foi
aponte o caminho que você precisa seguir. Por favor, não me venha com Jung.
Estou falando de feijão com arroz. Dos momentos em que a vida exige tanta
coragem que é preciso lembrar que mesmo tendo medo de escuro você queria ser
astronauta. Que a despeito de todas as quedas, luxações, arranhões e da
aplicação sistemática, dolorosa e humilhante do Mertiolate você não desistiu
de tirar as rodinhas da bicicleta.
Em mais um ano que se
inicia proponho um retorno à infância através de um dos seus símbolos mais
ricos: as histórias em quadrinhos. Isso significa falar do maior dos seus
ícones, o Super-Homem. Que aliás, na versão cinematográfica de Richard
Donner já completou 25 anos, sendo lançado em DVD com seus dois irmãos
menores num estojo comemorativo.
Eis aí uma boa
desculpa para voltar à infância. Lembra quando você queria voar? Talvez você
ainda possa.

...E o Homem pode voar
©Ricardo Labuto Gondim
No mundo da humanidade que
vive e que sofre, e que por essas mesmas razões precisa sonhar, não parece
haver fantasia maior do que o vôo. Voar — com todos os seus significados,
com toda a sua transcendência — é a nossa suprema ambição. Falamos de Ícaro
sem mencionar Dédalo, seu pai, que constrói as asas de cera para que ambos
escapem do Labirinto de Creta. Ébrio de liberdade — ébrio de êxtase pelo vôo
— Ícaro atinge o sol, rompe as delicadas asas e afunda pesado e eterno na
voragem abismal das águas. Dédalo voa com moderação e triunfa. Escapa das
armadilhas do Labirinto, do sol e do mar, pousando sereno, incólume e
anônimo na margem oposta.
A ambição de Dédalo
não foi voar, mas escapar do Labirinto. Já a ambição de Ícaro é a nossa.
Muitas vezes não queremos ir a lugar algum. Só queremos voar.
Leonardo da Vinci é
um dos símbolos mais singelos da paixão humana pelo vôo. Durante anos
Leonardo estudou diligentemente os pássaros, deixando centenas de esboços e
dezenas de projetos de “máquinas voadoras”. Um de seus contemporâneos fez o
seguinte registro: “Como tantos outros Leonardo da Vinci também tentou voar,
mas ele igualmente fracassou. Era um magnífico pintor”.
Séculos mais tarde,
em 1902, enquanto o dirigível Número 6 de Santos Dumont era atirado
às águas da Baía de Mônaco por força do vento e de uma carga insuficiente de
gás, o mágico e ilusionista George Méliès utilizava o cinematógrafo para
fazer o Homem voar até a lua... numa bala de canhão.
Com
Méliès o cinema nos deu o vôo de Ícaro antes do 14-Bis, antes do Libélula
e antes da bélica poesia dos bi-planos frágeis e matadores. Como para o
homem imaginativo e para as crianças a realidade é um dado a ser superado,
foi preciso voar mais alto. Sem barreiras. Mas como, se o cinema está
restrito à tecnologia do seu tempo? É quando surge uma nova pista de
decolagem para Ícaro. Uma possibilidade limitada apenas pela imaginação: o “comic-book”.
A
SAGA DOS HOMENS FRÁGEIS
O comic-book — a
revista em quadrinhos — foi a grande novidade do mundo editorial da década
de 30. Agora as histórias podiam superar os limites breves e horizontais das
tiras de jornal, formando narrativas mais longas e dramáticas. Forma
ilustrada e colorida da pulp fiction, o sucesso popular do comic-book
foi imediato. E estimulou a imaginação de dois amigos de infância, o jovem
escritor Jerry Siegel e o jovem desenhista Joe Shuster. Em 1938 a dupla
criou o personagem de maior sucesso dos comic-books.
Depois de uma gênese
pouco honrosa como cruel e bizarro protagonista de uma história chamada "The
Kingdon of Super-Man” — onde exibia insuspeitados poderes mentais e uma
vontade totalmente inclinada para o mal — o Super-Homem surge como herói na
revista Action Comics Nº 1. Sucesso instantâneo. No ano seguinte ele é o
primeiro personagem a ganhar uma revista com seu próprio nome. Pouco depois
conquista a Rádio Mutual (Para o alto. E avante!), os cinemas — na
forma de desenhos de curta-metragem — e as tiras dos jornais diários.
Entre os motivos do sucesso do
personagem estavam os desenhos minimalistas e diretos de Joe Shuster,
criador da splash page, uma página inteira com um único desenho. A
invenção da splash page, possível apenas com o advento do comic-book, é
provavelmente uma conseqüência direta da triste limitação de Shuster, um
artista quase cego.
A primeira missão do
Super-Homem foi salvar as finanças da editora, que mais tarde se chamaria DC
Comics, e enriquecer seus acionistas. Como Siegel e Shuster haviam vendido
os direitos sobre a criação, não receberam um único dólar de royalties,
ganhando apenas o salário pela produção das aventuras.
Em 1945, Siegel
acionou a DC para tentar obter participação nos direitos do Super-Homem.
Perdeu. Seu velho e bom amigo Shuster se viu constrangido a deixar a
editora e sua criação, encerrando definitivamente a carreira em 1954, quando
já não podia enxergar os desenhos. Um pouco mais tarde Shuster tornou-se
carteiro, experimentando uma humilhação maior: sob chuva, sol ou neve,
viu-se obrigado a entregar a correspondência do prédio da DC, onde artistas
bem sucedidos e bem pagos ditavam os rumos da sua criação.
Os dois amigos
tiveram uma velhice de privações que terminou em asilos para idosos. Em
1976, com o início da produção de Superman, o filme, a DC concordou
em pagar uma pequena aposentadoria à dupla. Claro, já era um pouco tarde. E
para sublinhar esses pequenas tragédias e ironias, quero lembrar outro fato
trágico e irônico: Monsieur George Méliès, que contava histórias com
luz — como a que levou o Homem à lua numa bala de canhão — terminou seus
dias vendendo fósforos nos corredores cinzentos do metrô de Paris.
OS
PRIMEIRO VÔOS NO CINEMA
Em 1941 Super-Homem é avistado
nas telas do cinema numa série de desenhos de alta qualidade, produzidos
para a Paramount pelos célebres irmãos Fleischer. Há alguns anos, cerca de
quatro ou cinco episódios acompanharam o seu jornal de domingo numa versão
VHS destinada às crianças. Talvez você tenha esse tesouro em casa.
Em 1948 surge um
seriado para cinema de 15 episódios, Superman, estrelado por Kirk
Alyn. Como Alyn quase ganhou asas de anjo de verdade tentando voar através
de cabos, foi substituído nas cenas de vôo por um — como direi sem chocar? —
desenho animado (Para o alto. E avante!). Alyn e este efeito bizarro
foram mantidos no seriado seguinte, Atom Man Vs. Superman, de 1950,
também em 15 episódios.
Em 1951 é a vez de
George Reeves subir aos céus do estrelato com “Superman and Mole Men",
um genuíno longa-metragem de 67 minutos de duração. Segundo a lenda, o
piloto da série de TV de 104 episódios exibida entre 1952 e 1957. Na
verdade, temendo que nenhum canal de TV se interessasse pela série, os
produtores conceberam o filme para cinema como um produto alternativo. Um
"plano B" realizado em apenas 11 dias. Só então a equipe se entregou ao
verdadeiro objetivo, rodar 24 episódios de 30 minutos em 12 semanas de
trabalho. Mais tarde alguns episódios de TV fizeram o caminho inverso.
Compilados em grupos de três, geraram quatro ou cinco filmes para cinema.
George Reeves
protagonizou o vôo inaugural do Super-Homem. Em Superman and Mole Men
o herói voa “de verdade” pela primeira vez, auxiliado pelos milagres da
retroprojeção, dos cicloramas motorizados com céus pintados artesanalmente,
e pela boa-vontade do público.
SUPER-HOMEM PARA SEMPRE
Quase 30 anos depois de sua
última aterrissagem, os produtores Alexander e Ilya Salkind tiveram a idéia
de fazer o Homem de Aço voltar a voar. O que tinham em mente não era
exatamente um vôo de primeira classe. Estava mais para bala de canhão. Pai e
filho tinham resolvido o principal desafio técnico do filme — o vôo — sem
consultar um único especialista: depois de saltar para ganhar impulso e os
céus, o ator seria substituído por — como direi sem chocar? — um desenho
animado. Para o alto. E avante!
Apresentado à dupla,
o diretor Richard Donner percebeu imediatamente que, contra todas as
aparências, os Salkind não eram capitalistas selvagens que só pensavam em
dinheiro; ele percebeu que os Salkind eram capitalistas selvagens que
pensavam em dinheiro e na qualidade do projeto — sinônimo de mais dinheiro.
Tudo era uma questão
de diálogo e Donner sabia que seria ouvido. Em 1975 ele tinha dado um show
de direção de atores com “Sarah T. — Retrato de uma alcoólatra adolescente”.
Em 1976, um show de direção de público com “A Profecia”, movimentado filme
de horror que o transformou no jovem-diretor-sensação-do-momento.
Donner foi inflexível
e demonstrou aos produtores que o sucesso do filme dependia inteiramente da
credibilidade do vôo do Super-Homem. Era por isso que as pessoas pagariam o
ingresso: elas também queriam voar.
Foi assim que o
projeto cresceu. Milhares e milhares de dólares foram investidos na pesquisa
de soluções para o vôo. O processo mais utilizado é o mesmo de Star Wars:
uma câmera controlada por computador evolui sobre um ator semi-imóvel,
pendurado contra um fundo verde ou azul. Cristopher Reeve voou mais rápido
que uma bala. Voou como Ícaro.
Certos espíritos
penetrantes ridicularizaram as variações de cor no uniforme do herói em
algumas cenas de vôo, dizendo que a produção revelou o filme em laboratórios
diferentes. É verdade, os defeitos existem. Mas a despeito destas e outras
limitações, Superman continua voando há 25 anos no céu de brigadeiro
do que há de mais puro em você e em mim. Existe uma nova versão, Superman
Returns (2006) de Bryan Singer, com Brandon Routh envergando a capa.
Um filme divertido, bem realizado mas, infelizmente, sem a mesma poesia.
O filme de Richard
Donner com Cristopher Reeve é um épico autêntico. A versão em DVD trás cenas
inéditas e o segundo disco traz os bastidores da saga. Lembre-se apenas que
o making of não é um documentário, é uma peça publicitária.
O desenho de produção
de Superman é de um dos melhores projetistas que Hollywood já teve,
John Barry, que morreu vítima de meningite no ano seguinte ao lançamento do
filme. A antológica marcha do herói e o delicado tema para a impetuosa Lois
Lane são do mestre John Willians. O roteiro é uma obra poética escrita por
Mario Puzo e burilada com a colaboração de quatro especialistas. Puzo, autor
de O Poderoso Chefão e de um denso e belíssimo romance chamado A
Guerra Suja, constrói o filme bloco por bloco, meticulosamente. Prepara
a primeira intervenção do Homem de Aço criando uma das maiores progressões
dramáticas da história do cinema, recompensada por uma seqüência de ação
extraordinária, onde não faltam o humor, a beleza e a poesia.

O elenco é estelar:
Marlon Brando, Gene Hackman, Ned Beatty, Glenn Ford, Trevor Howard, Margot
Kidder, Valerie Perrine, Maria Schell, Terence Stamp, Susannah York e é
claro, Cristopher Reeve, que encarna em sua beleza toda a ingenuidade e
bondade que se espera do Superman. E aqui chegamos ao ponto que me
levou a escrever o artigo.
Em 1995 Reeve sofreu
um acidente num torneio de equitação. A queda do cavalo esmagou as duas
primeiras vértebras da sua coluna cervical, sua beleza, sua carreira, a
capacidade de respirar, de mover-se, de tocar e de ser apenas um homem.
Foram nove anos de lutas até que em 10 de outubro de 2004, aos 52 anos,
Cristopher Reeve voltou para Krypton. O acidente que o deixou tetraplégico
revelou ao mundo sua verdadeira identidade: Reeve era mesmo o Homem de Aço.
Mesmo aprisionado em
kryptonita do pescoço para baixo, o Super-Homem continuou produzindo,
dirigindo, atuando, presidindo sua fundação de pesquisas para o tratamento
de lesões medulares da espinha dorsal, e enfrentando a oposição ao uso das
células-tronco liderada pelo vilão mais poderoso da Terra, George W. Bush, o
campeão de uma das mais disformes expressões da estupidez humana: o
fundamentalismo cristão norte-americano, que tenta empurrar Jesus para a
direita de Hitler e Gêngis Khan.
Como o Super-Homem é
aquele que voa, que nunca desiste de voar, era necessário que Cristopher
Reeve escapasse aos grilhões da Terra e se elevasse num vôo de paz infinita:
sua coragem foi uma vitória sobre a morte.
Pensando em Reeve,
lembro-me do carteiro Shuster, entregando estufados saldos bancários e
cartões de Natal nas dependências de um império que poderia ser seu.
Lembro-me de Méliès vendendo fósforos num metrô repleto de cartazes do
cinema que ele praticamente inventou.
Shuster continuou entregando seus pacotes, Méliès continuou vendendo seus
fósforos, Reeve lutou até o fim. Estes homens provam que o Super-Homem
existe. E não é difícil encontrá-lo. Deve haver algum aí mesmo na sua
cidade, no seu bairro, no seu escritório. Talvez ele esteja lendo o logos
eletrônico neste exato momento, hein? É fácil identificá-lo. Super-Homem
é aquele que voa. Que jamais desiste de voar.
Feliz 2007. Para o alto. E avante!

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