cinema: sherlock holmes

18/02/10

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Basil Rathbone, o eterno Sherlock Holmes.

Concerto para Violino e Detetive

©Ricardo Labuto Gondim
Para Anésio Leão
 

No conto A Liga Ruiva, Mr. Sherlock Holmes resume a carreira em uma frase: “Toda a minha vida é um esforço para escapar do enfado do cotidiano”. Não é verdade que você compartilha essa ambição pelo menos uma ou duas vezes por dia? Aliás, o maior “detetive consultor e particular” de todos os tempos foi criado para que seu autor, o Dr. Arthur Conan Doyle erradicasse o tédio de um consultório oftalmológico vazio na Wimpole Street. O remédio teve largo efeito sobre gerações de leitores e espectadores de teatro e cinema, seduzidos pelas singularidades de Mr. Holmes. Você pode conferir na imperdível Coleção Sherlock Holmes da MultiMedia Group, que traz o melhor intérprete do detetive: Basil Rathbone.

Investigando os filmes da coleção e a gênese do personagem de Sir Arthur Conan Doyle, descobriremos influências indiretas – que o próprio criador desconhecia. Leia o artigo atentamente mas “nunca confie na impressão geral, concentre-se nos detalhes”. Lembre-se: “Tire o impossível, e o que restar, mesmo que improvável, é provavelmente a verdade”.

I. Allegro ma non troppo

O crime é comum. A lógica é rara.Mr, Sherlock Holmes – que já foi “derrotado quatro vezes: três vezes por homens e uma vez por uma mulher” – nasceu em 1887 no livro Um estudo em Vermelho, que narra as memórias do Dr. John Harry Watson, cirurgião assistente para o Quinto Regimento de Fuzileiros de Northumberland. Como Conan Doyle não levava sua criação muito a sério, os nove volumes do cânon têm idiossincrasias constrangedoras.

Em sua primeira aparição, Watson explica que voltou da Índia porque uma bala afegã rasgou-lhe o ombro, fraturou o osso e roçou a artéria subclávia. Em O signo dos Quatro escrito cerca de três anos mais tarde, a bala Jezail é transferida para uma “perna doente” que “doía enfadonhamente sempre que havia mudança de tempo”.

Existem contradições mais graves. Watson vai morar com Holmes no primeiro livro, mas se apaixona e casa com Mary Morstan no segundo: “Com a experiência de mulheres de tantas nações de três diferentes continentes – diz ele insinuando uma vida relativamente agitada para um vitoriano – nunca vi uma fisionomia onde transparecesse tão claramente uma natureza fina e sensível”.  Depois de seu casamento, muitas aventuras surgem a partir de visitas regulares ao amigo ou por uma convocação direta de Sherlock Holmes, incluindo O Problema Final, que culmina na morte do detetive e de seu arquiinimigo, Professor Moriarty. Mas, pouco depois da volta de Sherlock a Sra. Watson desaparece. Ficamos sem saber se lemos aventuras que aconteceram antes do casamento, se Watson enviuvou ou simplesmente se livrou da pobre Mary.

Em Seu Último Caso, Sherlock rompe um isolamento eremita “entre abelhas e livros de filosofia” numa pequena fazenda em South Downs e resolve um caso de espionagem internacional – profetizando a inevitabilidade da Primeira Grande Guerra. Essa menção à “livros de filosofia” ocupando a serena velhice de Mr. Holmes são uma novidade tardia de Doyle: segundo Watson, Sherlock era constrangedoramente inculto em tudo, exceto química e literatura sensacionalista. Já no primeiro livro ele informa que Holmes ignorava as teorias de Copérnico e a composição do sistema solar, não sabendo que a Terra girava em torno do sol. “Que importância tem isso pra mim? Se girássemos em torno da lua tal fato não faria a mínima diferença para mim ou para meu trabalho”. No fundo, o próprio doutor não é muito mais que um escritor regular de contos populares.

Em O Intérprete Grego Sherlock Holmes resume sua origem: “Meus antepassados pertenciam à nobreza do campo e parecem ter levado a existência natural aos de sua classe. Ainda assim, minha inclinação está nas veias e talvez tenha sido herdada de minha avó, que era irmã de Vernet, o artista francês. A arte no sangue é capaz de assumir as mais estranhas formas”. E acrescenta que Mycroft, seu irmão sete anos mais velho possui as mesmas capacidades de dedução e observação que ele, mas de modo ainda mais acentuado. A questão é que enquanto Holmes é um homem de ação, Mycroft “não tem ambição nem energia”. Já a energia sem limites de Holmes gerou o diálogo mais divertido do cânon. Em A Aventura da Pedra Mazarin, o jovem Billy – assistente de Holmes provisoriamente admitido depois do casamento de Watson – conta que o patrão estava muito envolvido num caso quando a governanta e senhoria, Sra. Hudson perguntou a que horas ele gostaria de jantar: “As sete e meia, depois de amanhã”.

Atribuindo detalhes curiosos, atrozes ou banais ao seu bem humorado personagem, Doyle criou um homem de carne e osso, levando centenas de pessoas a escreverem para o número 221B de Baker Street em busca de ajuda. Em O Caso da Caixa de Papelão, por exemplo, Holmes conta que comprou seu Stradivarius de 500 guinéus por 55 xelins em Jew Broker’s, Tottenham Court Road. Em A Aventura do Priory School descobrimos que ele tem conta na filial da Rua Oxford do Capital and Counties Bank. No Caso do Pé do Diabo confessa que nunca amou. Em O Cão dos Baskerville resume seus hábitos simples: “Um pedaço de pão e um colarinho limpo: o que mais um homem pode querer?”

II. Larghetto

O capítulo primeiro de O Signo dos Quatro se intitula “A Ciência de deduzir”. Tem início com Sherlock Holmes injetando cocaína em solução de sete por cento, droga que consumia três vezes ao dia em períodos de inação. A justificativa para o ato autodestrutivo era a de que não podia viver “sem ocupação cerebral” num mundo “triste, horrendo e inútil”.  Drogado, comenta que o único ponto digno de interesse na narrativa de Um Estudo em vermelho é o curioso raciocínio analítico dos efeitos pelas causas, através do qual desvendou tudo.

O caráter mais emblemático de Holmes, o método analítico (fusão pós-kantiana de empirismo e Sir Arthur Conan Doyle racionalismo) é justamente o ponto mais controverso de sua gênese. Num texto publicado no semanário britânico Tit-Bits, Doyle conta que “a idéia do detetive foi-me sugerida por um professor com quem estudei em Edinburgh, e em parte pelo detetive de Edgar Allan Poe, que, afinal de contas, seguia a linha de todos os outros detetives que já apareceram na literatura”.

Afinal de contas Doyle se equivocou: o detetive de Poe, Monsieur Auguste Dupin não seguia a linha de nenhum outro detetive da literatura, embora, como veremos, fosse totalmente baseado no personagem de um autor francês – o que justificaria sua nacionalidade e a ambientação em Paris das três únicas histórias que protagonizou. M. Dupin é o espinho irremovível na garganta de Doyle. No mesmo texto ele disse: “De brincadeira, portanto, comecei a arquitetar uma história dotando meu detetive de um sistema científico, de modo a fazê-lo deduzir tudo logicamente. Intelectualmente isso já fora feito antes por Edgar Allan Poe com M. Dupin, mas o ponto em que Holmes diferia de Dupin era que possuía uma enorme base de conhecimento exato a recorrer em conseqüência de sua educação científica”.

Veja, Watson: estamos sendo investigados!Uma vez mais Doyle se equivocou, pois a distinção entre o Holmes “científico” e o Dupin “filosófico” só existiu em sua imaginação. Tanto é que, para desvendar os crimes da rua Morgue Dupin recorreu a uma descrição anatômica particular num livro científico de Cuvier. Por sua vez, em O Caso da caixa de papelão, A Aventura dos homenzinhos dançantes e O Paciente interno, Doyle reproduziu a cena em que Dupin segue o raciocínio mental do seu companheiro – uma tentativa de justificar a implausível diferença dos métodos. Nada querendo dever a um suposto rival, Doyle não enxergou a diferença insofismável dos personagens: o caráter divertido e enérgico de Holmes em oposição à perpétua melancolia de Dupin. Filho de ilustre família arruinada por uma corrente de adversidades, Dupin ficara reduzido a tal pobreza “que a energia do seu caráter sucumbira, fazendo com que renunciasse às suas ambições mundanas e ao desejo de refazer os seus bens”. Ao contrário de Holmes, “os livros constituíam seu único luxo”.   

O método dos dois detetives – a epistemologia da dedução – é único, e foi analisado maravilhosamente por Poe em Os Crimes da Rua Morgue: “As condições mentais consideradas como analíticas são, em si, pouco suscetíveis de análise. Apreciamo-las somente em seus efeitos. Delas, sabemos que são sempre, entre outras coisas, para os que as possuem em alto grau, uma fonte dos mais vivos prazeres.” Poe prossegue fazendo a distinção entre “calcular” e “analisar”, sublinhando que “observar atentamente é lembrar distintamente”. Mais: “...o homem engenhoso é sempre imaginoso, enquanto que o verdadeiramente imaginativo não deixa jamais de ser analítico”.

Assim como Holmes vive com seu amigo e biógrafo, M. Dupin vai morar com seu biógrafo à quem chama de “meu amigo” – supõe-se, naturalmente, que seja o próprio Poe, que infelizmente escreveu apenas três aventuras de Dupin, embora advirta na primeira delas que só residiu em Paris “durante a primavera e parte do verão de 18. . .”. Os contos são: Os Crimes da Rua Morgue, O Mistério de Marie Rogêt e A Carta Roubada.

Em O Nome da Rosa Umberto Eco apresenta Frei William de Baskerville, versão medieval e intelectual de Mr. Holmes, que ostenta em seu nome o claro indício de suas origens literárias. Em dado momento ele dirá ao seu futuro biógrafo, o noviço Adso de Melk: “Alguns livros falam de outros livros, meu caro Adso”. Na primeira vez em que demonstra suas capacidades – cena fundamental do livro omitida no filme – Frei William descobre a localização, as formas e o nome de Brunello, o cavalo desaparecido do abade do qual ele sequer ouvira falar. A lógica de William é impressionante, mas não saiu da imaginação de Umberto Eco: é a transcrição quase literal de uma passagem do capítulo III de Zadig ou O Destino, história oriental, um dos contos filosóficos de Voltaire. Com sua erudição incomparável, Umberto Eco poderia ter recuado à origens ainda mais remotas como, por exemplo, a maiêutica socrática. Mas não, ele entendeu que foi o filósofo francês o primeiro a descrever literariamente o método dedutivo analítico que gerou em Zadig “uma agudeza que lhe desvendava mil diferenças onde os outros nada viam além de uniformidade”.  

É possível que tenha sido a partir da leitura de Zadig que o professor e mentor de Conan Doyle, o Dr. Joseph Bell, tenha “inventado” seu método. Doyle conheceu Bell em 1876 quando ingressou na Universidade de Edimburgo. Sua descrição de Bell é exatamente a que faz de Holmes – bem diferente da aparência consagrada pelo ilustrador Sidney Paget da Strand Magazine. Foi Bell quem lhe revelou as aplicações do processo dedutivo na obtenção de diagnósticos médicos. Mais tarde, num consultório ocioso, Doyle transferiu essas virtudes da inteligência para o personagem que foi confundido com um homem de carne e osso, eclipsando o próprio autor e o resto de sua produção literária: “As coisas encontram o seu lugar no mundo, mas acredito que, se nunca tivesse tocado em Holmes, que contribuiu para obscurecer meu trabalho de nível mais alto, a minha posição na literatura seria neste momento mais destacada”. 

Para livrar-se de sua “realização literária inferior”, Doyle atirou Holmes nas cataratas Reichenbach no vale Lauterbrunnen, o lugar mais tenebroso da Suíça. A comoção foi tamanha que ele não teve alternativa senão trazê-lo de volta à vida. Inicialmente Holmes brilhou no teatro com o ator William Gillette. Depois, conquistou o cinema. 

III. Rondo (Allegro)

Reunidos em dois DVDs, a MultiMedia Group lançou quatro filmes estrelados pela dupla Basil Rathbone & Niguel Bruce.

Sherlock Holmes chegou às telas em 1922 através de um intérprete ilustre, John Barrymore. Arthur Wontner protagonizou cinco modestos filmes britânicos nos anos 30. Reginald Owen foi promovido a Holmes depois de interpretar Watson. Christopher Lee e Peter Cushing também viveram o personagem, inclusive numa clássica versão de O Cão dos Baskerville dirigida por Terence Fisher. Nos anos 80 um ator chamado Jeremy Brett estrelou uma incômoda série de televisão britânica supostamente fiel ao cânon.

Para os fãs mais ortodoxos de Holmes – incluindo este crítico – Basil Rathbone (1892-1967) é a materialização do personagem de Conan Doyle. A ironia é que embora tenha sido educado na Inglaterra, Rathbone era sul-africano e conhecido no mundo inteiro como o “vilão de Hollywood”. Seu parceiro, Nigel Bruce (1895-1953), embora nascido no México durante uma viagem de férias é que era um inglês legítimo. A dupla estreou em 1939 na quarta versão para o cinema de O Cão dos Baskerville, uma produção da Fox de primeira classe. Com roteiro relativamente fiel à novela original, Rathbone passou a maior parte do tempo fora da tela, pedindo uma agulha para injeção de cocaína na última cena. O sucesso foi imediato, levando à produção de As Aventuras de Sherlock Holmes no mesmo ano, numa produção bem cuidada e fiel ao espírito das histórias de Sir Arthur. 

Três anos depois, um novo estúdio chamado Universal assumiu os direitos do personagem. A idéia era: produzir filmes baratos utilizando material de arquivo e concentrando a ação em poucos cenários; trocar a Inglaterra vitoriana de Holmes por uma Londres em tempo de Guerra; fazer a dupla estrelar histórias inéditas, parcialmente inspiradas nas novelas e contos de Doyle.

Essa “linha de produção” gerou 12 filmes entre 1942 e 1946. Inicialmente eles foram repudiados pela crítica, pois não resistiam a uma comparação com a atmosfera e o requinte das produções da Fox. Mais sábio, o público imediatamente reconheceu as virtudes da série.

Embora não fosse exatamente um artista, mas o profissional com competência para trabalhar com prazos curtos e pouco dinheiro, o diretor e produtor Roy William Neill era um excelente diretor de atores. Os diálogos não tinham o brilho, o ritmo e o humor de Conan Doyle, mas os desafios de Mr. Holmes eram rigorosamente construídos. Os roteiros incluíam a célebre frase jamais escrita por Doyle: “Elementar, meu caro Watson”. As atrizes eram mulheres lindíssimas, sem exceção. O elenco de apoio era escolhido a dedo, tendo eventualmente Mary Gordon como a Sra. Hudson e Dennis Hoey como um atrapalhado Inspetor Lestrade. Os vilões foram recrutados entre os piores elementos de Hollywood: gente como George Zucco, Lionel Atwill e Henry Daniell. Acima de tudo, os filmes se apoiavam no magnetismo pessoal de Basil Rathbone e no Watson atrapalhado de Nigel Bruce. Parafraseando o crítico norte-americano Leonard Maltin, eles nunca falharam na missão de entreter.

No primeiro volume a MultiMedia Group reuniu Sherlock Holmes e a arma secreta, um dos filmes mais populares da dupla, que lança Mr. Holmes no coração da Segunda Guerra. E também A Mulher de Verde, interpretada pela estonteante Hillary Brooke numa trama que envolve o arquiinimigo de Holmes, Professor Moriarty. No segundo volume temos Melodia Fatal (originalmente Dressed to Kill), um drama delicioso e irregular. E ainda Noite Tenebrosa, aventura cuja concentração em um trem lembra o início da fase americana de Hitchcock. Todos imperdíveis.

As cópias utilizadas não são as melhores que eu já vi. Os DVDs têm alguns artefatos e grãos indesejáveis que o preto e branco revela facilmente. O som é nítido e claro. A autoração do software é simples e elegante. Considerando que os filmes tem 60 anos e não são clássicos “universais”, mas obras cultuadas por um público restrito, estou feliz com minha coleção. Mais ainda: em nome dos fãs brasileiros de Sherlock Holmes – que têm um encontro permanente no site www.sherlockbrasil.hpg.ig.com.br do jovem Graciliano Camargo – quero cobrar da MultiMedia Group os outros filmes da dupla. A Universal produziu 12. Vocês só lançaram 4. Logo, faltam 8. Elementar.

 

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Este site foi atualizado em 01/01/10