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05/09/10 |
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Cinema falado
©Ricardo Labuto Gondim Dizendo que o público havia deixado de “escutar os filmes”, o diretor Joseph Mankiewicz (1909 – 1993) exilou-se de sua própria arte, vinte anos antes de ser irremediavelmente aposentado pela morte. Entrevistado por um dos gigantes da crítica, o francês Michel Ciment (Hollywood, Editora Brasiliense, 1988), Mankiewicz justificou o ócio: “Se me apresentassem uma história que me interessasse, eu estaria disposto a levá-la à tela sob a condição de que o público estivesse disposto a ouvir tanto o diálogo quanto a olhar a imagem, o que eu duvido”. Não fosse a limitação do espaço, a questão se prestaria a algumas erudições. Poderíamos, por exemplo, opor a obra do “cineasta da palavra” à do “cineasta da imagem”, Alfred Hitchcock. Poderíamos tecer o paralelo entre o auto-exílio artístico de Mankiewicz – que nos privou de boas obras – e o do compositor Rossini – que nos poupou delas. Poderíamos falar da palavra, do logos, que ganha uma nova dimensão com a IX Sinfonia de Beethoven. Poderíamos discutir o comportamento do público na civilização dos ícones, grafismos e imagens. E poderíamos discutir a sofisticação narrativa do “cinema mudo” que, de tão perfeita, fez com que muitos cineastas desprezassem o advento do som ao custo da própria ruína. Poderíamos. Mas vamos deixar que três obras-primas totalmente baseadas na palavra – ai de mim!, que odeio trocadilhos – falem por si mesmas: A Malvada, do próprio Mankiewicz; Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock; e Grilhões do Passado, de Orson Welles.
Com a objetividade do distribuidor brasileiro, hoje A Malvada provavelmente receberia um título menos “sutil”: a personagem vivida por Anne Baxter (Bette Davis na verdade interpreta a "vítima") é um predador frio e calculista, que espreita e age por trás de uma face de anjo. Como a tradução do título original em inglês é Tudo sobre Eva, é natural supor que o filme seja mais ambicioso do que pretende sua versão brasileira. Eva – você sabe, aquela moça ambiciosa e descuidada que levou seu companheiro à ruína – é o arquétipo feminino por excelência. Será que o Mr. Mankiewicz era um desses cavalheiros que, em reação a um coração partido, desenvolve algum tipo de misoginia? Será que ao criar a bela senhorita Eve Harrington ele pretendia forjar um retrato de mulher – a exemplo do que fez Hitchcock em Um Corpo que cai?
Mas afinal, será que para Mankiewicz todas as mulheres são como a malvada Eve Harrington? O ponto de partida do roteiro original foi o conto "The Wisdom of Eve", de Mary Orr, que narra a história de uma dublê do teatro. Isso serviu de pretexto para que Mankiewicz levasse o teatro americano e seus personagens para a sala de dissecação. No filme, que como muitas obras do diretor começa em flash-back, assistimos à entrega do prêmio Sarah Siddons, homenagem de Mankiewicz a uma das maiores atrizes inglesas do século XVIII, cuja imagem foi eternizada por Reynolds em 1784. A partir do monólogo interior dos presentes somos convidados a uma viagem ao passado... para descobrir tudo sobre Eva.
O prêmio Sarah Siddons é uma invenção de Mankiewicz. Mas como a vida imita a
arte – e como o prestígio alcançado pelo filme foi realmente extraordinário
– o prêmio acabou instituído pela Sociedade Sarah Siddons de Chicago,
tornando-se o mais desejado pelo teatro americano depois dos Tony.
Mankiewicz, que preferia a companhia de qualquer mulher à do melhor dos homens – segundo ele, em todas as culturas a mulher é sempre mais interessante, mais profunda e mais misteriosa que seu companheiro – escolheu justamente uma figura feminina da época, a despeito do fato do célebre David Garrick ter sido um gênio ambicioso da autopromoção – o que dramaticamente seria muito mais adequado ao personagem de Eve. Portanto, a resposta à pergunta inicial – as mulheres em geral estão representadas na inescrupulosa Eve Harrington? – é um sonoro "Não!". Mankiewicz não quis fazer dela o paradigma das mulheres. O que ele quis foi desenhar o paradigma das mulheres ambiciosas, que para conquistar o lugar que desejam em uma sociedade eminentemente masculina e machista, jogam com tudo o que têm. Sem escrúpulos. E sem remorso. É isso que faz a grandeza de A Malvada. Este é um filme sobre o tema recorrente da obra de Joseph Mankiewicz: a Vontade de Poder.
"A história começa às 19:30 e termina às 21:15. Então concebi essa idéia meio louca de rodar um filme constituído de um único plano". Foi assim que Alfred Hitchcock resumiu a gênese de Festim Diabólico (Rope, 1948).
O cadáver é escamoteado em um baú sobre o qual são dispostas as delicadas iguarias de um coquetel seleto e íntimo. Os convidados são o pai, a tia, a ex-noiva e um desafeto do próprio finado. E ainda Rupert Cadell (James Stewart), o professor da Universidade que os inspirava com idéias sobre a superioridade de alguns poucos eleitos sobre a massa indistinta e vulgar da humanidade. Tentando conquistar a admiração do professor, os assassinos pouco a pouco sugerem o crime. É tudo um jogo. O drama acontece num cenário totalmente interligado: as salas de estar, jantar e a cozinha do vasto apartamento nova-iorquino do casal de homossexuais. No teatro a história se desenrola em 105 minutos. No filme, em 88. Para dar expressão cinematográfica à ação dramática contínua, Hitchcock imaginou o filme como um plano-seqüência. Naquela época uma câmara podia suportar película para 10 minutos de filmagem. Assim, Hitchcock planejou ações contínuas de 10 minutos. Antes que a película se esgotasse, a câmera seria rigidamente imobilizada. Recarregada, continuaria a rodar do ponto em que parou e o espectador não notaria a interrupção.
Hitchcock dizia que Festim Diabólico era "uma experiência desculpável" na medida em que refutava suas próprias teorias de montagem. Festim é o balé de uma câmara enorme, pesada, que desliza sobre um piso especialmente instalado para absorver vibrações e ruídos. Uma câmara que luta com ânsia para sugerir os pontos de vista e o ritmo que só a montagem pode estabelecer. Essa luta é o ponto nevrálgico do filme. Enquanto os dois jovens assassinos disputam uma partida macabra com o professor Cadell, a pesada câmara de Hitchcock disputa mobilidade contra seu próprio peso e tamanho. Mais ainda: luta contra as “leis” da montagem cinematográfica estabelecidas por Edwin S. Porter, Griffith, Eisenstein, Fritz Lang e pelo próprio Hitchcock. Claro que Hitchcock vence – por quê você acha que o filme saiu em DVD 50 anos depois de seu lançamento? Mas o espectador mais atento vai perceber que, por mais de uma vez, Hitchcock traiu a técnica e o desafio à que se impôs. Existem cortes ao longo do filme, suavizados pela técnica do montador William H. Ziegler, ignorado pelo público e pela crítica que insiste em alardear a experiência radical do filme. Uma experiência que, no sentido radical, não aconteceu.
Não foi fácil chegar ao resultado que você vai assistir. Festim Diabólico custou 1 milhão e meio de dólares, dos quais 300 mil só para James Stewart. Fora os dias de leitura do texto e ensaios com os atores, foram gastos 10 dias de ensaio com a câmera. Depois, 18 dias de filmagem que se traduzem em pelo menos 6 dias de trabalho inútil – sem contar os nove dias de refilmagem devido à cor excessivamente alaranjada do céu nas primeiras cenas. Todas as paredes do cenário eram móveis. Todos os móveis tinham rodinhas. Tudo – inclusive os atores – era deslocado para posições precisas, marcadas com giz no chão, em momentos específicos do texto igualmente numerado. Para efeito de perspectiva, a Nova Iorque que se vê através das janelas é uma maquete 3 vezes maior que o cenário do apartamento.
Lançado em 1955, "Mr. Arkadin" (no Brasil, "Grilhões do Passado") foi saudado pela crítica do New York Times como sendo "do princípio ao fim, a obra de um homem de gênio flagrante para o cinema". É. Escrito e dirigido por Orson Welles com base em seu próprio romance, o drama é superlativo. A narrativa também é excepcional e tem muitos pontos em comum com Cidadão Kane. Só pra te dar um gostinho, o primeiro plano do filme é um monomotor em pleno vôo... sem piloto. Exatamente como Guy – ou como o repórter de "Kane" – somos incitados a investigar o enigma (outra questão a ser investigada é a má qualidade do DVD da Continental. Infelizmente, a única versão disponível no país).
Na opinião de Orson a obra foi arruinada, tornando-se mera sombra da "melhor história cinematográfica que já inventei em minha vida.” Quem é fã de DVD e já viu algumas das "versões do diretor" sabe que isso não é necessariamente verdade. Durante as filmagens Welles mudava tudo a toda hora. Na opinião de Robert Arden, ator que interpreta Guy, na medida em que redigia o roteiro Orson perdia o interesse por ele, tendo de buscar novas soluções dramáticas, novas versões do que ele mesmo escrevera. As mudanças causavam discrepâncias em relação ao material filmado previamente, e eram resolvidas com dublagens nem sempre perfeitas.
Essa elaboração sutil transformou frases em formas rítmicas. E mesmo quem
não domina a língua inglesa pode perceber o recurso se – como sonhava
Mankiewicz – escutar o filme. |
Este site foi atualizado em 09/02/07