
A Tesoura
de Eisenstein
©Ricardo
Labuto Gondim
Há um velho anúncio das máquinas de escrever Olivetti impresso no coração
dos cinéfilos da geração mais antiga. Sob a foto de uma saudosa e macia
Studio 46, o texto diz que "Esta é a primeira máquina que você precisa para
fazer cinema".
Não posso imaginar ilustração mais precisa para o cinema de vanguarda
soviético.
Insuflados
pelo espírito revolucionário de 1917, os cineastas da escola soviética
tinham a habilidade – e muitas vezes a prudência - de politizar cada
processo fílmico. Tudo se traduzia em artigos, panfletos ou manifestos,
escritos antes ou depois da produção. Um bom exemplo é "Alexander Nevsky",
primeiro filme sonoro de Eisenstein. Não pense você que o diretor se
contentou em utilizar o som de modo antinatural em diversas seqüências. Não
senhor, ele teve de redigir o "Manifesto do Assincronismo", também assinado
por Pudovkin e Alexandrov.
Com toda essa literatura de próprio punho, é fácil falar dos métodos de
montagem de Eisenstein, um teórico compulsivo. Mas por que falar
especificamente da montagem? Porque ela é o grande agente expressivo dos
ideais da vanguarda soviética. Especialmente quando se utiliza do Efeito
Kulechov.
UMA BREVE HISTÓRIA DA MONTAGEM
Era uma vez um americano chamado Edwin S. Porter. O Mr. Porter era o
legítimo imitador de Méliès, um francês que havia descoberto que além de
registrar o trem chegando na estação e operários saindo da fábrica, o cinema
também podia contar histórias. No filme "O Grande roubo do trem" (1903),
Porter incluiu a imagem de um ladrão apontando o revólver para a tela... em
primeiro plano. Tremenda inovação. Até então a tela do cinema reproduzia o
palco dos teatros, único ponto de vista que os cineastas se atreviam a
adotar.
Surge então um cavalheiro chamado David W. Griffith, que tem uma idéia que
não havia ocorrido a Mr. Porter: utilizar o primeiro plano dramaticamente,
isto é, inserido ao longo do filme como elemento narrativo (em Porter o
primeiro plano era só um efeito). Foi assim que surgiu a montagem
cinematográfica, a única forma que a humanidade dispõem para ter domínio
sobre o tempo.
Enquanto isso, na velha Rússia, um teórico do cinema chamado Kulechov fez
sua experiência mais célebre. Em um curta experimental ele mostrou:
1. a face do ator Mosjoukine;
2. depois, a imagem de um prato de sopa;
3. de novo Mosjoukine;
4. agora, um caixão de criança;
5. Mosjoukine uma vez mais;
6. e finalmente a imagem de uma mulher seminua em pose
provocante.
Os que viram essa pequena seqüência foram unânimes em destacar a grande
atuação de Mosjoukine, capaz de expressar fome, dor e desejo como nenhum
outro. O problema é que os três planos do ator eram rigorosamente o mesmo,
extraído de um filme de Geo Bauer. O que o público via não estava exatamente
na tela, mas era sugerido pela montagem.
O
que Eisenstein fez com a descoberta - o efeito Kulechov - é a tônica do
cinema de vanguarda soviético. E com base em seus próprios escritos, podemos
nos debruçar sobre alguns dos conceitos que o cineasta formulou.
MONTAGEM MÉTRICA
- é quando os planos (imagens) de uma seqüência têm a mesma
duração. A tensão é criada quando você encurta o tempo de permanência dos
planos - mantendo a mesma proporção para todos.
MONTAGEM RÍTMICA
- acredite se quiser, mas a famosa seqüência das escadarias
de Odessa (O Encouraçado Potemkin) é montada metricamente. Para alterar o
ritmo da seqüência, Eisenstein joga com o movimento no interior dos planos:
primeiro você vê as botas dos soldados marchando de modo preciso, implacável
e inalterável; depois surge a multidão caótica, em desespero, rolando
escadas abaixo.
Montagem Tonal
- é quando o plano sugere sua própria duração, como na
seqüência do nevoeiro do "Potemkin". A plasticidade das imagens determinou
sua permanência na tela.
Com base no conceito da montagem tonal, a turma da semiótica formulou a
teoria dos "pontos informacionais": o tempo de permanência da imagem deve
ser proporcional à quantidade de "informações" no interior do plano, o que
inclui a própria qualidade do "suporte". Falando grosso modo, o tempo
de permanência do plano também dependeria de sua definição. Essa e outras
teses bizarras estavam em voga em 1968, ano dos lançamento de “2001, Uma
odisséia no espaço” de Stanley Kubrick, e de “O Bebê de Rosemary” de Roman
Polanski.
Polanski
criticou os longos planos de 2001 e o ritmo dilatado do filme por via
indireta, louvando as virtudes incontestáveis do editor de Rosemary, o
grande Sam O’Steen. Segundo ele, 2001 parecia um filme muito mais longo que
o seu, embora só tivesse cerca de 13 minutos a mais.
Se considerasse a teoria dos pontos informacionais, Kubrick poderia
argumentar que 2001 havia sido fotografado com negativo de 65 mm contra o 35
mm tradicional de Rosemary. Sua resposta, contudo, foi mais simples e sábia:
“o tempo de duração de um plano é o tempo que eu determinar”.
MONTAGEM HARMÔNICA
- essa é difícil de entender. O próprio Eisenstein comentou
que a descoberta da montagem harmônica é posterior à sua realização.
Felizmente, posso tornar a explicação clara como água: assim como a montagem
rítmica nasce do movimento no interior dos planos da montagem métrica, a
montagem harmônica nasce dos conflitos verificados entre os planos da
montagem rítmica. É como na música: do "som" central adicionam-se
"harmônicas superiores" e "inferiores" nem sempre audíveis.
Eu não disse? Claro como água.
MONTAGEM INTELECTUAL
- basicamente é usar a montagem para fazer você pensar. Como
no efeito Kulechov, muitas vezes o que filme sugere não está nas imagens,
mas na mente do espectador. A diferença é que é preciso fazer um esforço
consciente para montar o quebra-cabeça.
Um exemplo feijão com arroz está nas estátuas de leões deitados mostrados no
Potemkin. Depois da imagem dos canhões disparando, os leões surgem de
pé. Cabe a você julgar se os leões representam o Império do Czar Nicolau II
alerta em 1905 (ano da rebelião histórica do Potemkin) ou se foram
despertados para lutar bravamente na revolução de outubro de 1917.
MONTAGEM VERTICAL
- a partir de 1938 Eisenstein acrescenta dois novos elementos à
montagem. Agora não são somente a duração dos planos e seus contrastes
internos que estabelecem o ritmo da ação: o som e a cor passam a ser
manipulados com a mesma intenção. E você pode conferir o resultado na
segunda parte de Ivan o Terrível.
A seguir, “Vermelhos: em cores e em preto & branco”.
