cinema: ed wood

05/09/10

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Pesadelo e Êxtase

©Ricardo Labuto Gondim
 

A esfera de líquido amniótico se rompeu, e pela convulsão ou pela lâmina você chegou ao mundo. Foi um milagre. E uma conquista. Tudo começou quando 500 milhões de espermatozóides jorraram num oceano viscoso e ácido. Quinhentos milhões de possibilidades de existir, mas apenas uma de ser você.

Com 2,7 milésimos de milímetro os gametas nadaram contra a corrente numa velocidade equivalente a 1.800 metros por minuto. Gradativamente foram aniquilados pela exaustão, pela corrosão do ácido ou pela reação letal das células do sistema imunológico. Ao fim da jornada no interior da trompa, os sobreviventes se depararam com uma esfera flutuante, um planeta encouraçado 85 mil vezes maior que eles mesmos. Aos milhares, seduzidos pela química do planeta, se arrojaram contra a superfície secretando uma enzima para romper a blindagem. Depois de vinte minutos de assédio um único vencedor penetrou o óvulo, implodindo a própria cabeça para derramar a informação genética do pai e fundi-la com o material genético da mãe.

A fusão foi o instante do seu nascimento: você é o vencedor, o conquistador do planeta.

Nove meses mais tarde rompeu-se o oceano materno, e um gesto inflexível causou a dor que transformou um peixe num homem. Foi assim para todos: para Michelangelo, que pintou o Juízo; e para Hitler, que tentou consumá-lo. Foi assim para Orson Welles e para Edward Davis Wood Jr., considerado por muitos o pior cineasta de todos os tempos.

Antes de tornar-se o personagem enriquecido pela inteligência, pela originalidade e pela sensibilidade do diretor Tim Burton, Ed Wood viveu no tempo, no espaço e na própria carne a forma de amor mais burlesca e patética da experiência humana: a paixão por uma arte que se é incapaz de dominar. Este é o tema deste artigo: algo que diz respeito aos quase sete bilhões de espermatozóides vitoriosos que caminham sobre a Terra.

AS TRAIÇÕES DA MUSA

Jorge Luis Borges declarou que Ernest Hemingway “acabou se matando porque descobriu que não era um grande escritor. Isso o salva, em parte”. Cínica, cruel, a asserção remete diretamente ao caso da “orgulhosa, desmazelada e grotesca” senhorita Fanny Price, personagem de Servidão Humana, o romance semi-autobiográfico de Somerset Maugham.

Para manter-se em Paris, freqüentar as aulas de pintura e comprar tintas e telas, a senhorita Price alimentava-se exclusivamente de leite e pão. Fanny era péssima pintora e não conseguia vender um só quadro. Mas como a maioria dos artistas, confiava cegamente no próprio talento. Um dia o leite secou. No outro, já não havia pão. A moça resistiu à fome o quanto pôde. Mas como disse um dos personagens do livro, “a gente só pinta por não poder deixar de fazê-lo”.  Incapaz de abandonar os pincéis, Fanny abandonou a vida. Enforcou-se no “acanhado sótão com teto inclinado” onde devia três meses de aluguel.

Atormentado pela morte da moça, o jovem protagonista Philip Carey arrasta seu professor, o puído monsieur Foinet ao quarto onde mora. Mostra suas telas e faz a pergunta mais corajosa da vida do artista: tenho ou não tenho talento? Foinet é implacável: “Não vejo talento em nada do que me mostrou. Vejo indústria e inteligência. Nunca passará de medíocre”. E completa: “Reúna toda a sua coragem e tente a sorte noutra coisa qualquer. Parece duro, mas ouça: daria tudo no mundo para que alguém me tivesse dado esse conselho quando eu tinha a sua idade, e para tê-lo aceito”. Carey aceita o conselho, troca os pincéis pela pena e se torna Somerset Maugham, um dos romancistas mais bem sucedidos e subestimados do século XX.

A exemplo da senhorita Fanny Price, Ed Wood jamais duvidou do próprio talento. Ao contrário, alardeava aos quatro ventos a multiplicidade dos seus dons: Eddie foi diretor, roteirista, ator, dublê, produtor, editor, fotógrafo, operador de câmera, dramaturgo, romancista e outras coisas sobre as quais falaremos mais tarde. Não foi a toa que era totalmente identificado com um dos ícones do seu tempo: o cidadão Orson Welles.

O MESTRE, O DISCÍPULO E O ABISMO ENTRE OS DOIS

Concebido no Rio de Janeiro durante uma viagem de férias, Orson Welles chegou ao mundo e à elegante Park Avenue de Kenosha, Wisconsin, em 6 de maio de 1915. Era filho do inventor da lâmpada de carbureto, que deplorava a Arte, e de uma pianista sofisticada, que a amava profundamente. Segundo a lenda difundida por seu pediatra e mentor, Dr. Maurice (Dadda) Bernstein, aos 18 meses o pequeno Orson teria lhe dito: “A vontade de tomar remédio é uma das principais características que distinguem o homem dos animais”. A frase não chega a ser um modelo de retórica, mas se você considerar a idade do orador... Welles observaria mais tarde: “A palavra gênio foi a primeira coisa que me lembro que cochicharam no meu ouvido quando ainda choramingava no berço, de modo que só descobri que não era quase ao entrar na velhice”.

Em Poughkeepsie, Nova Iorque, 1924 – nove anos depois do pequeno Orson nascer para a alegria de seus pais – o pequeno Edward Davis Wood Jr. nasceu causando algumas decepções. Sua mãe queria uma filha, e a exemplo da mãe de Oscar Wilde – de quem ela provavelmente jamais ouviu falar – passou a vestir o garoto com roupas de menina. Crescendo, Ed tornou-se travesti, embora não fosse homossexual.

Orson Welles desembarcou em Hollywood quinze anos depois, em 1939. Na bagagem trouxe o sucesso da versão “antilhana” do Macbeth de Shakespeare –  concebida, na verdade, por Virginia, sua primeira mulher – e a perplexidade de uma nação inteira, ludibriada pelo susto marciano de A Guerra dos Mundos. De cinema não trouxe nada. Nem mesmo interesse por algo que reduzia a mero instrumento técnico para o registro da realidade. Um meio de levantar recursos para financiar produções teatrais.

Mas algo inesperado aconteceu.

A RKO designou uma moça chamada Miriam Geiger para ministrar um curso intensivo de cinema ao jovem senhor Welles. Especialmente inteligente, a senhorita Geiger improvisou um manual com fotos que ilustravam as possibilidades da linguagem cinematográfica. Além disso, programou exibições privadas de filmes que considerou indispensáveis, como o expressionista O Gabinete do Dr. Caligari e o contemporâneo No Tempo das diligências, que Orson reviu quarenta vezes.  Foi assim que, na visão de Barbara Leaming, sua melhor biógrafa, Welles concebeu a idéia de “fazer uma obra que chamasse deliberadamente a atenção para o seu próprio estilo. Queria que o público raciocinasse sobre o ato de assistir na mesma proporção que ele, Orson, vinha fazendo nestas últimas semanas. Fascinado pela maneira do cinema contar histórias, quis dividir essa fascinação com o público, fazer um filme sobre esse tema” (Orson Welles, uma biografia, L&PM Editores, 1987). Por influência das “aulas” e da “apostila” da senhorita Geiger, o primeiro filme de Welles, Cidadão Kane (1941), é a síntese da linguagem cinematográfica aplicada ao roteiro excepcional de Herman Mankiewicz. Mais tarde, Orson justificaria sua obra-prima com surpreendente humildade, afirmando que ela é o resultado de sua “ignorância e inocência”.

Ignorância e inocência nunca faltaram a Ed Wood, que jamais produziu obras-primas. Aliás, enquanto a paixão de Welles pelo cinema nasceu da visão de obras vigorosas, luminosas e transcendentes, a de Eddie nasceu aos sete anos de idade assistindo ao Drácula com Bela Lugosi (1931), esplendidamente fotografado por Karl Freund e grosseiramente dirigido por Tod Browning.

Wood chegou a Hollywood em 1947. No ano seguinte conseguiu filmar um curta chamado “Crossroads of Laredo”, que não teve dinheiro para sonorizar. Sua estréia no longa-metragem se deu em 1951 com The Sun was setting, que ele escreveu, produziu e dirigiu. Em 1953, surgiu como ator no western Crossroad Avenger, também escrito e dirigido por ele. Quem viu Ed Wood (1994), de Tim Burton nunca ouviu falar destes filmes ruins e convencionais como milhares de outros totalmente esquecidos. Se podemos falar de um Ed Wood’s touch – definido pelo adágio “isso é tão ruim que é bom” – vamos encontrá-lo em suas obras mais “pessoais”: Glen ou Glenda? (1953), Jail Bait (1954), A Noiva do Monstro (1955) e Plan 9 From Outer Space (1959), escritos, dirigidos, produzidos e eventualmente interpretados por Edward D. Wood Jr.  Todos disponíveis no Brasil pela Continental.

Ed Wood Collection: The Wood’s touch

Se já em Cidadão Kane Welles revela o absoluto domínio da linguagem cinematográfica, a obra de Ed Wood demonstra que ele não sabia o que fazer com ela. Wood parecia ignorar as relações de causa e efeito entre os planos. E leis elementares da física, como as noções de tempo e espaço. Enquanto Cidadão Kane compila os recursos da arte, os filmes de Ed Wood estão repletos de enganos técnicos, incongruências, efeitos especiais “simbólicos”, ação dramática ruim e uma ingenuidade perturbadora – mas incomparavelmente divertida.

Ed Wood Collection é o pack das quatro obras fundamentais do diretor distribuído no Brasil pela Continental. Os estojos dos DVDs são de terceira. A mídia, de segunda. Mas as cópias são de primeira classe, com contraste e nitidez excepcionais. Os masters foram telecinados diretamente do negativo. Se você considerar que a película passou quase três décadas sepultada em latas antes que Wood ressuscitasse, vai concluir que está assistindo um milagre. Os bônus basicamente são textos. Mas Plane 9 from Outer Space vem com um disco extra, que traz o documentário “Discos Voadores sobre Hollywood”, homenagem à Plane 9 dirigida por Mark Carducci com quase duas horas de duração – um trabalho imperdível, concluído cerca de três anos antes de Tim Burton aperfeiçoar as histórias irrecuperáveis da vida de Eddie. Antes que você assista, ria e se emocione com este pack indispensável na estante de qualquer cinéfilo, preciso comentar os dois títulos que disputam a honra de ser “o pior filme de todos os tempos”.

Glen ou Glenda

Sob o pseudônimo de Daniel Davis, Wood interpreta um jovem heterossexual que gostava de se vestir de mulher. Mas como confessar à noiva a paixão por tecidos “suaves e fofos” como o angorá? Além de comentar os sentimentos “interiores” dos personagens, Eddie insere um narrador que descreve cenas que não couberam no cronograma de três dias de filmagem. Bela Lugosi interpreta – nas palavras de Wood – um “Deus de Ciência”, o “manipulador de fantoches” que “puxa os fios” da espécie humana. Para muitos, não há nada pior que esta obra inacreditável, autobiográfica, onde uma estrutura narrativa “elástica” ou inexistente tipicamente woodiana permite todo tipo de ação imprevisível.

Plane 9 from Outer Space

O Plano 9 do título é "ressurreição de mortos", provocada por alienígenas que invadem a Terra em discos voadores sustentados por fios visíveis e brilhantes – que você só vê se quiser. Sua missão é impedir que nossos cientistas destruam o sol. Como observou um crítico muito perspicaz, o que isso tem que ver com o "Plano 9" é um segredo que Eddie levou para o além. Há muitos elementos woodianos no filme, como a falta de conexão entre tempo e espaço: personagens numa tomada interagem com personagens em outra tomada sem qualquer conexão perceptível entre eles. A maioria das cenas ocorre num cemitério de lona e papelão. Os colaboradores habituais de Wood estão aqui, inclusive Bela Lugosi que morreu antes das filmagens começarem (não se espante, o filme de Tim Burton explicará tudo).  Morto, Lugosi ressuscitou na figura do quiroprático Tom Mason. Como não existe semelhança entre os dois, Mason passou o filme inteiro escondendo o rosto com a capa. Pelos motivos errados o filme é imperdível. E considerado por muitos como “o pior de todos os tempos”. Por muitos, não por todos.

OS PIORES DE TODOS OS TEMPOS

A paixão de Ed Wood pelo cinema é a sua grandeza, felicidade e ruína. Como um Van Gogh inspirado, mas bizarro e daltônico, sua “originalidade” só foi notada depois da lápide. O slogan do filme de Tim Burton diz que “quando se trata de filmes ruins, Ed Wood é o melhor”. Bem, o fato é que esse não é um ponto de vista unânime: rodado em 1953 – o mesmo ano de Glen ou Glenda – um filme chamado “Robot Monster” dirigido por Phil Tucker é para muitos críticos o pior filme de todos os tempos. Produzido ao custo de 16 mil dólares – incrivelmente barato mesmo em 1953 – Robot Monster foi rodado em apenas quatro dias no Bronson Canyon, leste de Los Angeles. O filme tem outras glórias além da célebre imagem de Ro-Man, o robô com fantasia de gorila, escafandro de mergulho e duas antenas de rádio. Este é o primeiro filme de ficção científica com som estereofônico – e com uma trilha excelente, composta por Elmer Bernstein. Na época do lançamento, devido à novidade do processo 3-D que o diretor não soube utilizar, Robot Monster fez mais de um milhão de dólares na bilheteria, algo com que Ed Wood jamais sonhou. Mas Phil Tucker era apaixonado por sua arte, como Van Gogh, a senhorita Fanny Price e o próprio Eddie. Segundo a lenda, os dólares lhe interessavam menos que a severidade da crítica, que aniquilou “a obra”. Vítima do pesadelo da realização – e do êxtase da criação –  Tucker teria tentado o suicídio. Se o fez, foi de modo tão desastrado quanto o filme, pois sobreviveu para fazer outros.

Existe, porém, uma diferença fundamental entre Ed Wood e Phil Tucker – e entre milhares de outros diretores totalmente esquecidos por força de suas incapacidades: a noção de autoria. Wood media-se ombro a ombro com seu ídolo, Orson Welles, que justamente por ser um “autor” vinte anos antes deste conceito se cristalizar, foi excluído do sistema industrial holywoodiano. Como seu colega “menos talentoso”, Welles também passou o resto da vida lutando para realizar seus filmes. Ou para terminá-los. 

ED WOOD POR TIM BURTON

Tim Burton é um dos poucos diretores do cinema americano contemporâneo que pode ser definido como “autor”. Pense em Edward Mãos de Tesoura, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça e até mesmo nos longas de animação concebidos e produzidos por ele, O Estranho Mundo de Jack e A Noiva Cadáver: poucos diretores podem se orgulhar de terem criado um estilo visual tão definido, original e “estético” – digo estético porque não vou discutir se é belo ou grotesco, embora ache A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça uma obra extraordinariamente plástica. Além disso, os personagens de Burton são tão originais quanto ele mesmo, magra e frágil mistura dos gêneros punk e dark: eles são outsiders, gente separada da sociedade humana. Em Batman, até o Bruce Wayne é alguém fora deste mundo. Edward Mãos de Tesoura é um estranho que deseja tocar os outros sem ferir – assim como Burton tenta tocar o coração do público. 

Ed Wood (1994) é disponível em DVD. O som é tão espetacular quanto a música de Howard Shore. Mas o brilho excepcional da fotografia em preto e branco de Stefan Czapsky – preservado no meu VHS importado – desapareceu. Embora livre de artefatos a imagem em widescreen é indesculpavelmente pálida e baça em algumas cenas. A compensação são os extras: relevantes, divertidos e legendados em português.

A produção custou 18 milhões de dólares, muito mais do que as obras da vida inteira de Ed Wood mas uma pechincha para os padrões de Hollywood. O filme é um duplo marco na carreira de Tim Burton: seu primeiro fracasso comercial e seu primeiro trabalho “realista”. A irrealidade necessária ao seu caráter está nas cenas dos filmes de Eddie que ele reproduz carinhosamente como se buscasse resgatar a inocência de Wood, sua trupe e sua época. A experiência o tocou tão profundamente que seu filme seguinte, Marte Ataca, é uma ficção científica típica doa anos 50 filmada com recursos tecnológicos de última geração.

Ed Wood é uma declaração de amor ao cinema em memória de um artista ingênuo e patético, que sofreu o pesadelo de não ter recursos nem talento para fazer o que mais amava, e que mesmo assim, a despeito das traições e implacabilidade da vida experimentou o êxtase da criação. Ébrio de sonhos e álcool, Edward Davis Wood Jr. morreu prematuramente em 1978, semanas depois de ser despejado do apartamento onde vivia com sua segunda mulher, que jamais o abandonou ou se casou de novo. Burton não se debruça sobre a “tragédia” porque enxergou a transcendência na história de Eddie. O roteiro escrito por Scott Alexander e Larry Karaszewski – baseado na biografia “Nightmare of Ecstasy”, de Rudolph Grey – é a sublimação do que há de poético e comovente na vida e na carreira de Ed Wood. A profunda amizade entre ele e Bela Lugosi no filme, por exemplo, é obra de ficção. Eddie admirava Lugosi – mas não se iluda, os dois só se tornaram íntimos quando já era tarde demais. O que você vê na tela é a celebração da amizade entre Tim Burton e seu mentor, Vincent Price.

A abordagem de Burton é uma lição fundamental para os sete bilhões de vencedores que caminham sobre a Terra: deixe Paris se for preciso, mas não desista de voltar; troque os pincéis pela pena, mas guarde-os imaculadamente limpos. Beethoven, que mesmo surdo não desistiu de compor, disse que “a vida só pode tornar-se bela e grande pela fantasia”. Ed Wood compreendeu essa verdade instintivamente. Por isso ele não se importa com a linha visível que sustenta o vôo do disco marciano. Essa linha é justamente o que separa o pesadelo do êxtase: Eddie fez filmes para outros sonhadores como ele. Gente que não quer enxergar a linha, só o disco. Gente que não se entrega, não se trai e não desiste de sonhar.

 

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Este site foi atualizado em 21/11/06