cinema: dogma

05/09/10

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Relojoeiro

©Ricardo Labuto Gondim
Para Alexandre Montoro


Escrevendo sobre cinema invariavelmente me concentro nos aspectos da realização, da forma e do conteúdo do filme. Tento sublinhar o que torna um título digno do que você tem de mais precioso e escasso: o tempo. Deliberadamente evito me deter no argumento.

Se você é um dos meus treze leitores permanentes, deve ter reparado que – mesmo quando levo um filme ao microscópio – reduzo a narração da história à sua expressão elementar, pois um dos prazeres da vida é assistir a um bom filme pela primeira vez. A experiência da descoberta – esta é a palavra – é tão memorável quanto as imagens. E sendo uma arte centenária, o cinema nos legou um populoso acervo de grandes obras.

Infelizmente, com os custos de produção acima do Everest, o número de títulos produzidos é cada vez menor. Para os homens de Wall Street – pois Hollywood é somente uma legenda – investir quinhentos milhões de dólares num filme-fliperama é mais seguro do que gastar vinte milhões numa comédia de Woody Allen. Antes, a receita de um filme se consumava na bilheteria. Hoje, a bilheteria cobre o valor do produto e a fortuna indispensável à publicidade. O lucro está no vídeo doméstico, ardilosamente aperfeiçoado na era do DVD: a indústria nos rebaixou de despreocupados clientes de locadoras a ávidos acumuladores de títulos – que irão todos para o lixo assim que surgir um novo formato.

Só pra constar, nada contra o cinema-fliperama, o cinema-pipoca. Da minha escrivaninha vejo na estante “King Kong contra Godzilla” ao lado de “Ran”. Eu amo cinema. E exatamente por amá-lo é que defendo a validade essencial de todos os filmes, mesmo os ruins. Mas o cinema de entretenimento contemporâneo está se transformando num clube cada vez mais exclusivo, e infelizmente mal freqüentado. Imagine então o destino de um artista autêntico, que queira contar uma história difícil, áspera, dramática e moralmente chocante. Sim, ainda existem cavaleiros andantes. Um dos mais arrojados é Lars von Trier.

Você deve ter lido nos jornais a respeito do Dogma 95, o manifesto de quatro diretores dinamarqueses – von Trier,  Soren Kragh-Jacobsen, Thomas Vinterberg e Kristian Levring – que se insurgiu contra as “vanguardas” e o cinema “antiburguês”. Sabe como é: em arte é preciso ser radical. Se a idéia é épaté les bourgeois, vamos épaté todo mundo.

Elegendo o cinema como instrumento e vítima de uma autofagia de caráter democrático, os cineastas estabeleceram dez mandamentos reunidos no chamado Voto de Castidade. A idéia é tornar a realização de um filme possível aos cidadãos do planeta com acesso a uma câmera de vídeo. Viu “Guerra nas Estrelas - Episódio III”? É vídeo digital de alta-resolução. O Dogma propõe o uso de qualquer câmera, mesmo aquela na vitrine da esquina. Como é preciso muito mais para fazer um filme, o manifesto propõe o menos. Seus autores desmontaram os incontáveis elementos da linguagem cinematográfica, guardaram o indispensável, e em oposição à Hollywood ofereceram a alternativa da modéstia. Cai a estética de shopping center do cinema moderno, sobem o roteiro e o elenco para o primeiro plano. Você vai entender correndo os olhos pelo Voto de Castidade:

Eu juro me submeter às determinações redigidas abaixo, e confirmadas pelo Dogma 95:

1. As filmagens devem ser feitas em locação. Objetos de cena e cenários não devem ser utilizados (caso um objeto específico seja necessário para a história, a locação do filme deve ocorrer onde este se encontra).

2. O som não deve ser produzido em separado das imagens, ou vice-versa (a música não deve ser utilizada a menos que seja onde a cena está sendo filmada).

3. A câmera deve ser de mão. Qualquer movimento obtido com as mãos é permitido (a filmagem não deve ser feita a partir de onde a câmera está, mas sim onde a ação acontece, de fato).

4. O filme deve ser em cores. Não é aceito o uso de luz especial (caso haja pouca luz para exposição, a cena deve ser cortada ou uma lâmpada simples deve ser acoplada à câmera).

5. É proibido o uso de efeitos a partir de lentes e filtros.

6. O filme não deve conter ações superficiais (não deve haver assassinatos, armas, etc.).

7. São proibidas alienações temporais e geográficas (o que significa dizer que o filme acontece aqui e agora).

8. Não são aceitos filmes de gênero.

9. O filme deve ser no formato acadêmico de 35mm.

10.  Não deve haver créditos para o diretor.

Ademais, eu, como diretor, juro conter o gosto pessoal. Não sou um artista. Juro evitar a criação de uma "obra", uma vez que considero o instante como sendo o mais importante do todo. Meu maior objetivo é colocar em vigor a verdade de meus personagens e cenário. Juro fazer isso de todos os modos possíveis,  abdicando de noções de gosto e considerações estéticas. Nestes termos, eu faço meu voto de castidade".

Copenhagen, 13 de Março de 1995. Em nome do Dogma 95.”

Ao Dogma não faltaram detratores, que denunciaram o manifesto como uma manobra para persuadir o público a aceitar roteiros finamente estruturados embrulhados em papel jornal. Num certo sentido é verdade: o Dogma é uma estratégia inteligente para justificar produções – ou a ausência de produção no sentido tradicional – num mercado dominado pelo Império; o embasamento teórico e acadêmico para lutar contra velhas teorias e contra o próprio academicismo; a nova edição de uma estética inventada por Rossellini e esgotada por Glauber Rocha.  

A inviolável castidade do Voto foi rompida por todos os filmes que o Dogma produziu. Em “Dançando no Escuro” (2000) Lars von Trier ensaiou um musical. O interessante é que a obra foi aclamada como o exemplo perfeito daquilo que destrói: as convenções do melodrama. Narrando os sacrifícios de uma operária condenada à cegueira para salvar o filho, condenado à hereditariedade, o filme explora todos os recursos lacrimogêneos já inventados pela dramaturgia de botequim. Milhões de espectadores se emocionaram, só os mais duros de coração enxergaram o perverso deboche. Com a lente de uma DV-Cam saturada de ácido, von Triers experimentou com sucesso uma proeza só destinada aos grandes diretores: a direção de público. Fez o mundo chorar com o drama mais barato de todos os tempos. Levou as platéias à catarse para denunciar a pieguice insofismável de cada um de nós. Riu da audiência, da crítica – e do cinema. Absolutamente brilhante.

Agora vou recomendar um filme excepcional, que trai ainda mais as convenções do Dogma: Dogville (2003).

Eis o drama: em Dogville, a menor cidade do Colorado,  vivem Lauren Baccal, Harriet Anderson, Jean-Marc Barr, Blair Brown, Ben Gazzara, Philip Baker Hall, Siobhan Fallon e um narrador em off, John Hurt. Um certo Thomas Edson (Paul Bettany), jovem idealista de ruminados pensamentos éticos e morais convence a sofrida população local a abrigar uma fugitiva – uma escultura em marfim chamada Nicole Kidman (que aos 35 anos amadurecia para a verdadeira beleza). O propósito de Tom é mais americano do que torta de maçã: lutar pelo bem-comum e pelo país naquela perspectiva peculiar que funde Aristóteles com Walt Disney. Queria te contar mais, mas também tenho princípios – no caso, o princípio deste artigo, o meu dogma.

Von Triers realizou o filme num estúdio sem cenários. A topografia local é pintada no chão como uma planta-baixa. Só existem adereços, como portas sem paredes, paredes sem portas, alguns móveis, arbustos e veículos.

Você vai estranhar no início, pois é realmente desconcertante. Os primeiros vinte minutos são minuciosamente teatrais, com elenco hesitante e gestos exagerados. Mas pouco a pouco você vai esquecer que o cenário não existe à força do tremendo roteiro do próprio von Trier. E também à força da direção dos atores e atrizes, que se afina progressiva e implacavelmente pelas mãos de um mestre absoluto da linguagem. Nada é casual. Tudo é estudado, preciso como um bom relógio – e absolutamente controlado.

Quando o filme terminar você vai querer chamar Lars von Trier de gênio. Não se acanhe: é  um gênio consumado.
 

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Este site foi atualizado em 18/01/07