|

Relojoeiro
©Ricardo Labuto Gondim
Para Alexandre Montoro
Escrevendo sobre cinema invariavelmente me concentro nos aspectos da
realização, da forma e do conteúdo do filme. Tento sublinhar o que torna um
título digno do que você tem de mais precioso e escasso: o tempo.
Deliberadamente evito me deter no argumento.
Se você é um dos meus treze leitores permanentes, deve ter reparado que –
mesmo quando levo um filme ao microscópio – reduzo a narração da história à
sua expressão elementar, pois um dos prazeres da vida é assistir a um bom
filme pela primeira vez. A experiência da descoberta – esta é a palavra – é
tão memorável quanto as imagens. E sendo uma arte centenária, o cinema nos
legou um populoso acervo de grandes obras.
Infelizmente, com os custos de produção acima do Everest, o número de
títulos produzidos é cada vez menor. Para os homens de Wall Street – pois
Hollywood é somente uma legenda – investir quinhentos milhões de dólares num
filme-fliperama é mais seguro do que gastar vinte milhões numa comédia de
Woody Allen. Antes, a receita de um filme se consumava na bilheteria. Hoje,
a bilheteria cobre o valor do produto
e a fortuna indispensável à
publicidade. O lucro está no vídeo doméstico, ardilosamente aperfeiçoado na
era do DVD: a indústria nos rebaixou de despreocupados clientes de locadoras
a ávidos acumuladores de títulos – que irão todos para o lixo assim que
surgir um novo formato.
Só pra constar, nada contra o cinema-fliperama, o cinema-pipoca. Da minha
escrivaninha vejo na estante “King Kong contra Godzilla” ao lado de “Ran”.
Eu amo cinema. E exatamente por amá-lo é que defendo a validade essencial de
todos os filmes, mesmo os ruins. Mas o cinema de entretenimento
contemporâneo está se transformando num clube cada vez mais exclusivo, e
infelizmente mal freqüentado. Imagine então o destino de um artista
autêntico, que queira contar uma história difícil, áspera, dramática e
moralmente chocante. Sim, ainda existem cavaleiros andantes. Um dos mais
arrojados é Lars von Trier.
Você deve ter lido nos jornais a respeito do Dogma 95, o manifesto de quatro
diretores dinamarqueses – von Trier, Soren Kragh-Jacobsen, Thomas
Vinterberg e Kristian Levring – que se insurgiu contra as “vanguardas” e o
cinema “antiburguês”. Sabe como é: em arte é preciso ser radical. Se a idéia
é épaté les bourgeois, vamos épaté todo mundo.
Elegendo o cinema como
instrumento e vítima de uma autofagia de caráter democrático, os cineastas
estabeleceram dez mandamentos reunidos no chamado Voto de Castidade. A idéia
é tornar a realização de um filme possível aos cidadãos do planeta com
acesso a uma câmera de vídeo. Viu “Guerra nas Estrelas - Episódio III”? É
vídeo digital de alta-resolução. O Dogma propõe o uso de qualquer câmera,
mesmo aquela na vitrine da esquina. Como é preciso muito mais para fazer um
filme, o manifesto propõe o menos. Seus autores desmontaram os incontáveis
elementos da linguagem cinematográfica, guardaram o indispensável, e em
oposição à Hollywood ofereceram a alternativa da modéstia. Cai a estética de
shopping center
do cinema
moderno, sobem o roteiro e o elenco para o primeiro plano. Você vai entender
correndo os olhos pelo Voto de Castidade:
“Eu juro me submeter às determinações redigidas
abaixo, e confirmadas pelo Dogma 95:
1. As filmagens devem ser feitas em locação. Objetos de cena
e cenários não devem ser utilizados (caso um objeto específico seja
necessário para a história, a locação do filme deve ocorrer onde este se
encontra).
2. O som não deve ser produzido em separado das imagens, ou
vice-versa (a música não deve ser utilizada a menos que seja onde a cena
está sendo filmada).
3. A câmera deve
ser de mão. Qualquer movimento obtido com as mãos é permitido (a filmagem
não deve ser feita a partir de onde a câmera está, mas sim onde a ação
acontece, de fato).
4. O filme deve ser em cores. Não é aceito o uso de luz
especial (caso haja pouca luz para exposição, a cena deve ser cortada ou uma
lâmpada simples deve ser acoplada à câmera).
5. É proibido o uso de efeitos a partir de lentes e filtros.
6. O filme não deve conter ações superficiais (não deve haver
assassinatos, armas, etc.).
7. São proibidas alienações temporais e geográficas (o que
significa dizer que o filme acontece aqui e agora).
8. Não são aceitos filmes de gênero.
9. O filme deve ser no formato acadêmico de 35mm.
10. Não deve haver créditos para o diretor.
Ademais, eu, como diretor, juro conter o gosto pessoal. Não
sou um artista. Juro evitar a criação de uma "obra", uma vez que considero o
instante como sendo o mais importante do todo. Meu maior objetivo é colocar
em vigor a verdade de meus personagens e cenário. Juro fazer isso de todos
os modos possíveis, abdicando de noções de gosto e considerações estéticas.
Nestes termos, eu faço meu voto de castidade".
Copenhagen, 13 de Março de 1995. Em nome do Dogma 95.”
Ao Dogma não faltaram detratores, que denunciaram o manifesto como uma
manobra para persuadir o público a aceitar roteiros finamente estruturados
embrulhados em papel jornal. Num certo sentido é verdade: o Dogma é uma
estratégia inteligente para justificar produções – ou a ausência de produção
no sentido tradicional – num mercado dominado pelo Império; o embasamento
teórico e acadêmico para lutar contra velhas teorias e contra o próprio
academicismo; a nova edição de uma estética inventada por Rossellini e
esgotada por Glauber Rocha.
A inviolável castidade do Voto foi rompida por todos os filmes que o Dogma
produziu. Em “Dançando no Escuro” (2000) Lars von Trier ensaiou um musical.
O interessante é que a obra foi aclamada como o exemplo perfeito daquilo que
destrói: as convenções do melodrama. Narrando os sacrifícios de uma operária
condenada à cegueira para salvar o filho, condenado à hereditariedade, o
filme explora todos os recursos lacrimogêneos já inventados pela dramaturgia
de botequim. Milhões de espectadores se emocionaram, só os mais duros de
coração enxergaram o perverso deboche. Com a lente de uma DV-Cam saturada de
ácido, von Triers experimentou com sucesso uma proeza só destinada aos
grandes diretores: a direção de público. Fez o mundo chorar com o drama mais
barato de todos os tempos. Levou as platéias à catarse para denunciar a
pieguice insofismável de cada um de nós. Riu da audiência, da crítica – e do
cinema. Absolutamente brilhante.

Agora vou recomendar um filme excepcional, que trai ainda mais as convenções
do Dogma: Dogville (2003).
Eis o drama: em Dogville, a menor cidade do Colorado, vivem Lauren Baccal,
Harriet Anderson, Jean-Marc Barr, Blair Brown, Ben Gazzara, Philip Baker
Hall, Siobhan Fallon e um narrador em off, John Hurt. Um certo Thomas Edson
(Paul Bettany), jovem idealista de ruminados pensamentos éticos e morais
convence a sofrida população local a abrigar uma fugitiva – uma escultura em
marfim chamada Nicole Kidman (que aos 35 anos amadurecia para a verdadeira
beleza). O propósito de Tom é mais americano do que torta de maçã: lutar
pelo bem-comum e pelo país naquela perspectiva peculiar que funde
Aristóteles com Walt Disney. Queria te contar mais, mas também tenho
princípios – no caso, o princípio deste artigo, o meu dogma.

Von Triers realizou o filme num estúdio sem cenários. A topografia local é
pintada no chão como uma planta-baixa. Só existem adereços, como portas sem
paredes, paredes sem portas, alguns móveis, arbustos e veículos.
Você vai estranhar no início, pois é realmente desconcertante. Os primeiros
vinte minutos são minuciosamente teatrais, com elenco hesitante e gestos
exagerados. Mas pouco a pouco você vai esquecer que o cenário não existe à
força do tremendo roteiro do próprio von Trier. E também à força da direção
dos atores e atrizes, que se afina progressiva e implacavelmente pelas mãos
de um mestre absoluto da linguagem. Nada é casual. Tudo é estudado, preciso
como um bom relógio – e absolutamente controlado.
Quando o filme terminar você vai querer chamar Lars von Trier de gênio. Não
se acanhe: é um gênio consumado.
|