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05/09/10

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O Cristo recrucificado

©Ricardo Labuto Gondim

Ninguém olha para o céu sem fazer perguntas. E na estática transição do Ano Novo, na reverberação da noite tingida de fogo e cor, procuramos algo muito além das estrelas no ar eivado de esperança e pólvora. Na celebração melancólica e feliz — naquele instante incomensurável onde o passado e o futuro convergem — não há Homem sobre a Terra que não sonhe incinerar na vertigem dos fogos uma dor, uma infâmia ou um remorso. Nem há quem não deseje uma vida superior. Elevando os olhos para o céu, buscamos uma resposta, um sinal de que a dor há de passar, ou de que o sonho há de cumprir-se.

Às vezes a pergunta é mais densa que a voragem incandescente da noite: o Universo que do alto olha profundamente dentro de mim é obra do acaso ou existe um Criador? Estou ou não estou sozinho?

Moffat e Casalis — primeiros missionários cristãos em contato com a tribo africana dos Sotho-Tswanas — perguntaram aos nativos quem havia criado os rios, as montanhas e a savana. A resposta foi comovedora: “Não sabemos. Nossos pais dizem que encontraram as coisas assim como estão”.

No Colorado, por volta de 1864, o coronel Chivington esgotou a infâmia massacrando 125 mulheres e crianças da aldeia cheyenne do chefe Chaleira Preta. Não me atrevo a mencionar os métodos que empregou. Na vã esperança de defendê-los, um velho de 71 anos chamado Antílope Branco correu desarmado gritando aos soldados “Stop! Stop!” Conformando-se com o fim inevitável, o velho se deteve. Cruzou os braços esperando a carga que o fuzilou. Antes de expirar, Antílope Branco invocou o Grande Espírito entoando serenamente a Canção da Morte: “Nada vive muito tempo. Só a terra e as montanhas”.  

Deus, onde estás? Para além das estrelas ou dentro de nós mesmos? No Ocidente a idéia de Deus forma um campo intrínseco com o humilde carpinteiro que dividiu a História em dois momentos, antes e depois dele: Jesus de Nazaré. O Messias. O Cristo.

Diante do ano que se inicia num mundo de violências e contrastes, onde tudo se abala, debilita e deforma, onde o Deus das multidões é a preocupação incondicional com a ascese social e econômica, é oportuno discutir um significado para a vida humana, essa linha misteriosa estendida entre dois números, o nascimento e a morte. Para isso, o cinema nos oferece duas visões — duas hermenêuticas do Cristo: A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese. E O Evangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini.
 

O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS

A Versátil lançou um dos filmes mais acadêmicos e mais elaborados de Pasolini: “O Evangelho Segundo São Mateus” (Il Vangelo Secondo Matteo) de 1964. O filme, que nunca havia sido lançado em vídeo no Brasil, chega numa versão de primeira classe, totalmente restaurada e remasterizada em widescreen.

Você que experimentou a maestria com que o lendário Tonino Delli Colli tratou a cor em Era uma vez na América e O Nome da Rosa, vai entender porque o preto e branco é a escola dos grandes fotógrafos. Delli Colli encontra o ponto preciso do diafragma que permite ao sol muitas vezes inclemente do Sul da Itália tingir o céu e a película cinematográfica de um branco intenso, que reverbera duro e áspero nas paredes caiadas, nas estradas barrentas, no cascalho e nas ruínas de uma terra pobre. Em meio à tela inundada por uma luz perpétua, uma palheta infinita de tons cinzentos delineia as formas dos homens e das coisas.

Com o gênio de il maestro Tonino atrás da câmera, o gênio de Pasolini dispõe à frente dela sua mãe, usanna Pasolini, e todo um elenco de amadores. Compõe Planos Gerais amplos, renascentistas, operísticos, bruscamente alternados com Closes intensos de rostos sulcados. Em Moby Dick, Herman Melville escreveu que “nós já deciframos os hieróglifos do Egito, mas não há quem decifre o Egito no rosto de cada Homem e de cada ser”. Decifrar o Egito que a vida escava no rosto humano é uma das proezas a que se propõe Pasolini. Guiados pelo Cristo, o povo — e os indivíduos — também são protagonistas nesta obra-prima.

A trilha sonora inclui Bach, Mozart, Prokofiev, Webern e ritmos populares, provocando muitas vezes o distanciamento crítico. O figurino é pobre, estilizado e belo. Sem efeitos, a paisagem austral da Itália se transforma na Palestina que o Jesus concentrado de Enrique Irazoqui percorre para anunciar o Reino dos Céus. 

O roteiro do próprio Pasolini é uma adaptação compacta e fiel do texto bíblico. É também um autêntico produto cinematográfico. Na seqüência de abertura ele descreve o drama da gravidez de Maria e a íntima reação de José sem usar uma só palavra — as imagens dizem tudo. Há um momento belíssimo nesta seqüência, quando imediatamente depois de abandonar Maria, José se depara com um animado grupo de crianças. Pasolini monta a seqüência de forma a revelar a dolorosa conclusão de José sobre o episódio — que eu não vou revelar aqui para que você experimente aquela emoção que só existe nas grandes obras cinematográficas.

O roteiro de Pasolini é um dos enigmas do filme. Por que um Marxista ateu, homossexual e marginal se debruçou com tanta fidelidade sobre o mais judaizante e austero dos Evangelhos, a ponto de conquistar o reconhecimento da Igreja Católica, o prêmio especial do Júri do Festival de Veneza e três indicações ao Oscar?

A Vida Segundo Pasolini

O DVD do Evangelho traz o ótimo documentário Pier Paolo Pasolini. Você vai descobrir muitas coisas sobre o artista. Mas não tudo. Pasolini começou como professor de línguas romanas numa escola do interior, onde se envolveu num escândalo de corrupção de menores que lhe custou a reputação, o emprego e um processo. Convertendo-se ao romance e à poesia, conquistou a admiração de Alberto Moravia, criando uma nova reputação como autor de talento. Mais tarde, como notável roteirista. Finalmente, como cineasta genial.

Resolvendo disputas intelectuais com os punhos, volta e meia tornando-se “hóspede” do Estado, assumindo publicamente uma conduta sexual escandalosa, assaltando um posto de gasolina, entrando em conflito com os companheiros do Partido, colecionando processos e fazendo declarações impiedosas sobre a Itália — às vezes com intolerável lucidez — tornou-se também uma figura indesejável e muitas vezes temida. Em 1975 foi brutalmente assassinado por um rapaz de 17 anos a quem pagava por sexo. O alívio que sua morte causou em alguns círculos intelectuais e políticos cunhou o termo “assassinato cultural”. 

A pergunta se mantém: quais as razões de Pasolini para rodar um filme religioso de modo tão “ortodoxo”? A resposta é simples: uma compaixão autêntica, sentida e verdadeira pelos pobres. E a descoberta de valores “marxistas” no Evangelho. Isso mesmo: a suposta visão socialista que a crítica atribui ao filme, antes de pertencer a Pasolini pertence ao discurso de Mateus.

O Sermão de Mateus

É quase um consenso entre os exegetas que o Evangelho de Mateus tenha sido escrito na cidade de Antioquia ao longo dos anos 80 da nossa era. Os teólogos de matriz progressista desconhecem quem é o “Mateus” autor do texto. Sua “biografia” incluída no DVD não tem o menor fundamento histórico. As peculiaridades do texto original e seu caráter judaizante — citando o Antigo Testamento cerca de 60 vezes para demonstrar que Jesus é o Messias esperado — indicam que o autor do Evangelho era provavelmente um escriba judeu-cristão helenista, de fala e cultura gregas. Um erudito que dominava a Bíblia hebraica em sua versão grega, a Septuaginta. Que buscava, justamente, romper os laços com o fundamentalismo judaico preservando a continuidade com o Antigo Testamento.

O Evangelho de Mateus é a Boa Nova para os que têm fome e sede de justiça. Seu “Sermão da Montanha” — magistralmente filmado por Pasolini através de cortes e fades que separam e sublinham as sentenças de Jesus sem comprometer a fluência do discurso literário e fílmico — pois bem, esse Evangelho define a prática cristã. Da compaixão que Jesus demonstra em seu discurso nasce a missão fundamental dos cristãos e da Igreja. Em resumo, este é um Evangelho eminentemente prático, onde todos os discursos são seguidos de ações concretas de humildade, fraternidade e justiça.

Nas palavras de um dos expoentes da teologia latino-americana, Pablo Richard, “A Igreja só pode entender e interpretar um Evangelho quando é capaz de vive-lo” (RIBLA, n.º 27, Editora Vozes). Este é o sermão de Pasolini. Que a Itália católica e o mundo cristão cumpram esse Evangelho dos humildes, dos pobres de espírito, dos “pequeninos”. Como as exigências do texto em muitos momentos são excessivamente severas, o cumprimento “radical” do Evangelho é virtualmente impossível. Mas Pasolini assume essa dificuldade adotando a mesma perspectiva de Mateus, que sublinha a figura mais humana do Novo Testamento: Pedro. Homem de fé insípida e poderosa, corajoso e covarde, forte e fraco, impetuoso e apático, Pedro é um homem como qualquer outro. E tendo negado Jesus três vezes, jamais desistiu de ser cristão.


A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO

Em 1905, no seu filme Vie du Christ, o diretor Victorin Jasset adotou uma posição audaciosa e original para a câmera, mostrando o ponto de vista do Cristo no alto da cruz. Oitenta e três anos depois, em A Última Tentação de Cristo Martin Scorcese adotou praticamente o mesmo ponto de vista — fazendo a câmera precipitar-se com o crucificado subitamente levantado pelos legionários de Roma. Assim, criou um dos movimentos de câmera mais chocantes da história do cinema.

A Última Tentação é um dos títulos mais vigorosos de Scorsese. É também o mais polêmico. Sua exibição foi censurada em diversas cidades dos Estados Unidos. Países de maioria cristã como o Brasil também cogitaram sua proibição. A situação foi tão grave que Scorsese se desculpou publicamente, reafirmando a origem católica e alegando que não pretendia atacar a fé de ninguém. 

Ainda bem que não queria pois, "sem querer", de um só golpe engastou um cravo enferrujado por dois mil anos de controvérsias nos três pilares da fé cristã: renegou a Trindade, a Encarnação do Verbo e a Ressurreição. O curioso é que o público em geral não se mostrou chocado, acreditando que a obra é a tentativa de ressuscitar o Jesus histórico ou de humanizar o Cristo. Não é nem uma coisa nem outra. Mas o público, especialmente em nosso país tão sincrético, interpretou a obra a partir da crença de que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus. Viram o filme com óculos embaçados por uma hermenêutica enganosa. Como veremos adiante, é justamente o uso de lentes mais nítidas que irão consagrar ao filme valores insuspeitados.

Do ponto de vista cinematográfico a obra de Scorcese é um modelo de virtudes. A fotografia de Michael Ballhaus mostra ruas estreitas, barrentas e sufocantes com uma palheta limitada, oposta à tradição do Technicolor de Cecil B. De Mille. A interpretação do elenco e os diálogos são ostensivamente anacrônicos. Os atores conversam às margens do Jordão como se estivessem numa esquina de Manhattan. Ao contrário do que possa parecer, os anacronismos são deliberados e garantem a vitalidade do filme. Jesus é Willem Dafoe e Judas é Harvey Keitel. Dafoe é um grande ator mas sua escolha foi severamente criticada, pois não guarda qualquer semelhança com o Jesus apolíneo que os pintores do Renascimento inventaram. Peter Gabriel criou uma partitura de forte caráter étnico numa concepção arrojada. A música se integra ao filme com precisão, estabelecendo a atmosfera exigida pelo drama já nos créditos de abertura.

Chegamos ao roteiro de Paul Schrader, que já havia trabalhado com Scorsese em Taxi Driver (1976), O Touro Indomável (1980), e escrito e dirigido uma obra-prima: Mishima (1985). Crítico e roteirista brilhante, Schrader foi criado em severo lar calvinista, sendo a escolha apropriada para debruçar-se sobre "A Última Tentação", livro do grego Nikos Kazantzakis.

Kazantazakis, Cristo e o Anticristo

Nascido em 1883 no seio da Igreja Ortodoxa Grega, Kazantzakis foi uma alma atormentada. Um homem de fé imprecisa movido pela mais profunda compaixão pelos injustiçados do mundo. Foi também um caso clássico da fantasia do “Romance de Família” de Freud e Otto: o pequeno Nikos substituiu a figura do pai monolítico e brutal pela tenra figura do avô materno. Para que você tenha uma idéia, no tempo da ocupação turca o capitão Michelis obrigou o filho de sete anos a beijar os pés dos cadáveres de três mártires da resistência que pendiam do plátano na praça da aldeia. “Olhe muito bem — disse o capitão. — Que enquanto você viver, estes enforcados jamais desapareçam da sua memória. Quem os matou? A Liberdade, bendita seja ela.”

Já do avô, com quem se “encontrou” no fim da vida num belíssimo sonho relatado em “Cartas a El Greco”, dizia que “foi o primeiro a me fazer desejar não mais morrer para que meus mortos não morressem”. Como para Freud a religião é a saudade do pai e da experiência do “amparo” que este devia proporcionar na infância, não é difícil entender porque a vida de Kazantzakis foi um mortificado exemplo de “dualismo”, de extrema ambivalência entre razão e fé, religião e cepticismo, sensualidade e ascetismo. Kazantzakis conseguia negar o interesse de Deus pela humanidade ao mesmo tempo em que afirmava serem pecaminosas as relações com mulheres!

Na juventude, em vão se fatigou buscando Deus e o sentido da vida nas estantes da biblioteca da Universidade de Atenas, de onde foi expulso na mesma cerimônia em que recebeu um prêmio literário. A busca prosseguiu numa peregrinação que o levou por toda Grécia, aos monastérios do monte Atos, ao Santo Sepulcro, à Itália e finalmente à Paris. Na Biblioteca Sainte-Geneviéve, em lugar do Cristo encontrou o Anticristo de Nietzsche.

Aqui é preciso abrir um parêntese: a hermenêutica, a visão de Kazantzakis sobre Nietzsche, não tem nada a ver com os equívocos que a tirania medíocre e cruel do Nazismo espremeu desta obra, mas com outro equívoco mais ou menos aceitável que pretende vincular o autor do Zaratustra ao socialismo de Marx. Em se tratando de Nietzsche, tais equívocos são ocorrências banais. Sua obra é excessivamente original e radical, seduzindo incoformistas à direita e à esquerda. A filosofia da religião de Nietzsche amorteceu o sentimento de culpa latente de Kazantzakis, que cresceu cevado de ortodoxia oriental. Para Nietzsche, a religião nasce do sentimento de fraqueza do ser humano e da tentativa de escapar ao sofrimento.  Em sua concepção, a Igreja impõe um sentido para a vida num Universo de ficção “dualista”, dividido entre bem e mal, matéria e espírito, corpo e alma. Só que para Nietzsche não há sentido. Se houver, nós é que devemos procurá-lo sem esperar que Deus o revele. Por isso a morte de Deus: a vida precisa ter um sentido sem Ele.

Segundo o próprio Kazantzakis, a descoberta do Zaratustra foi o seu "instante decisivo". A esperança do fim das ambivalências que o mortificavam, o fim do “dualismo”.  Como Bergson defendia idéias semelhantes em Paris, Nikos uniu o bem e o mal numa só entidade, a vida, concluindo que o Cristo não lhe traria respostas.

Kazantzakis pensou ter abandonado o dualismo que jamais o abandonou: este é o próprio tema de sua obra.

Em A Última Tentação ele discute a dupla natureza do Cristo, simultaneamente Homem e Deus. Tanto o livro quanto o roteiro de Paul Schrader só conseguem resolver a dicotomia negando a origem divina: Jesus é um homem atribulado por uma visão pessoal da fé em conflito com as exigências da ortodoxia judaica. Um homem pleno de compaixão e contradições, adotado por Deus para ser Seu instrumento.

A idéia é empoeirada. Chama-se “adocionismo”. Um conceito do fim do século II que negava o ainda incipiente dogma da Trindade, afirmando que o carpinteiro Jesus havia sido “adotado” por Deus no batismo do Jordão. Embora tivesse uma base bíblica (Jo 8,40; Mt 12,31 e Dt 18,15), o adocionismo estava em contradição com sua própria doutrina, e com o conjunto do vasto e intrincado arco da Revelação: as escrituras sagradas judaicas e os textos da nova fé. Classificado como herético em 268, o adocionismo serviu de matriz ou de elemento latente das principais heresias que surgiram entre os séculos II e IV. Desde então, no campo da heresia não há novidade. Tudo que é novo é velho.

Como explicar a dualidade do Cristo?

Kazantzakis tentou entender a dupla “natureza” de Jesus, divina e humana. Consultando a monumental “Teologia Sistemática” de Paul Tillich, um dos luminares da teologia protestante do século XX (publicado no Brasil pela Editora Sinodal e IEPG), entendemos que atribuir a Deus uma “natureza” é o mesmo que supor que Ele tem uma origem anterior à Sua existência. A própria linguagem da pergunta nega o atributo da Eternidade — nega o próprio Deus.

A Igreja discutiu a questão oficialmente do ano 325 a 451. A definição dogmática do Concílio de Calcedônia proclamou que Jesus é “Deus verdadeiro e homem verdadeiro, feito de uma alma racional e de um corpo, consubstancial ao Pai segundo a divindade, consubstancial a nós segundo a humanidade, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado...” Isso é basicamente a repetição dos Credos de Nicéia e Constantinopla, que em linguagem bem simples podem ser resumidos como sendo Jesus uma “pessoa” com (ai de nós! De volta à estaca zero) “duas naturezas”.

Santo Agostinho foi o grande sistematizador do dogma da Trindade. Mas quando lhe pediam para explicar essa teologia, ele dizia que não sabia o que era a Trindade, sabia o que ela não era. Muitos dos conflitos em torno da Trindade e da pessoa do Cristo surgiram justamente da dificuldade de elaborar uma linguagem adequada para comunicar a novidade e o escândalo da fé cristã. Paul Tillich propõe uma solução mudando o eixo do discurso. Fala de “unidade” em lugar de “dupla natureza”: “O caráter dessa unidade foi descrito em termos concretos nas histórias dos Evangelhos. Definições abstratas [...] dessa unidade são tão impossíveis quanto as investigações psicológicas sobre o seu caráter. Somente se pode dizer que é uma comunhão entre Deus e o centro de uma vida pessoal que determina todas as expressões dessa vida e resiste às tentativas de dissolvê-la, feitas pela alienação existencial”.

Tillich demonstra com erudição que estamos diante de um paradoxo insolúvel, que só pode ser compreendido ou aceito... pela fé. Ele nos pede para resumir o credo dos Sotho-Tswanas (“Não sabemos”). Ou para saltar com Indiana Jones no abismo de A Última Cruzada... onde havia uma ponte invisível aos olhos. Não existe teologia ou linguagem que possa explicitar o dogma. Só a fé — que para Tillich “é algo que nos toca incondicionalmente”. Este salto no escuro foi impossível para Kazantzakis, que morreu ateu. Excomungado pela Igreja Ortodoxa, mandou inscrever em seu túmulo: “Nada espero. Nada temo. Sou livre”. 

Tudo isso torna o filme de Martin Scorcese uma obra indispensável e inesgotável, sobre a qual há muito a dizer e discutir. Do mesmo modo que as heresias foram necessárias para que o cristianismo encontrasse sua verdadeira essência, as questões expressas por Kazantzakis, Scorcese e Paul Schrader também nos levam a buscar respostas. Ou fazer mais perguntas. Para Calvino, esse é o sentido da vida: buscar o Criador.

 

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Este site foi atualizado em 26/12/07