cinema: coppola

05/09/10

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Labirintos e encruzilhadas

©Ricardo Labuto Gondim


Dementia 13, o primeiro filme de Francis Ford Coppola é um clássico do cinema B produzido por Roger Corman em 1963. Indispensável para os fãs do horror, do mistério e do suspense, o filme chocou os espíritos mais sensíveis de sua época por um suposto convênio com o açougue local. 

Neste trabalho de juventude podemos enxergar o diretor da trilogia de O Poderoso Chefão e Apocalipse? Onde e como se inscreve o artista?

Numa edição anterior do logos eletrônico, discutimos a obra de Ed Wood e a famigerada “mediocridade”. Agora vamos falar de Coppola – e dessa suposta forma de inteligência que denominamos “talento”.

Experimente. Você vai ler algumas verdades. E muitos sofismas.

Nebo Zoviot

Francis Ford Coppola nasceu em 7 de abril de 1939. O nascimento em Detroit foi circunstancial. O pequeno Francis cresceu no seio de uma família italiana num subúrbio de Nova Iorque. O pai, Carmine, era músico e compositor. A mãe, Italia, havia sido atriz.

O jovem Francis entrou para a Escola de Cinema da Universidade da Califórnia em 1960. No mesmo ano em que um certo Roger Corman escreveu, produziu e dirigiu em apenas dez dias uma pérola chamada "A Pequena Loja dos Horrores", que ainda deve estar disponível no jornaleiro da esquina. Um mês depois da estréia, Corman descobriu que estava ligeiramente rico.

Enquanto isso, na UCLA, o jovem Francis era um aluno esforçado como qualquer outro. Estudou no campus e em campo, trabalhando como factotum em filmes eróticos. Em 62 o universitário conheceu Roger Corman, sendo encarregado dos diálogos de A Torre de Londres, um clássico com Vincent Price. No ano seguinte, Corman comprou um filme de ficção científica soviético chamado Nebo Zowet. Sob o pseudônimo de "Thomas Colchart", Francis escreveu um novo roteiro, remontou o filme do início ao fim, mudou o título para Nebo Zoviot e convidou seu pai para escrever a música.

Corman não ficou insensível à façanha. Transformar um filme em outro através da montagem não é a mais modesta das ambições. Não que o resultado tenha sido bom, mas Corman tinha um faro excepcional para o talento, especialmente se ele fosse jovem, barato ou estivesse desempregado. Ele foi o primeiro a dar oportunidade a Peter Bogdanovich, Scorsese, Robert Towne, Joe Dante, Jack Nicholson, De Niro, Dennis Hopper e Charles Bronson... Decidido a apostar no jovem Francis, Corman deixou que ele escrevesse e dirigisse seu próprio longa-metragem.

Dementia 13 foi filmado na Irlanda no verão de 1963. Ao contrário do que dizem, o filme não foi um sucesso e Coppola continuou sendo Francis.

Ainda que veladas o talento deixa pistas?

Algumas cenas de Dementia revelam as promoções no açougue do bairro. Mas nada sugere o artista que mais tarde conquistaria 5 Oscars, 9 indicações e 2 Palmas de Ouro em Cannes. Por outro lado, o diretor estreante não caiu na burlesca tentação de ser um gênio. Ao invés de assustar o “gato” e correr atrás dele com a câmera para se mostrar “moderno” e “ousado”, Coppola filmou tudo com rigor e precisão. Criou e sustentou uma "atmosfera" excepcional, apropriando-se da melancolia da paisagem brumosa e trabalhando firmemente nos interiores.

Depois de um pesadelo – The Terror (1963) – e uma comédia – Agora você é um homem (1966) – o jovem cineasta encontrou um novo desafio: dirigir um filme de orçamento considerável – Finian's Rainbow (1968) com Fred Astaire no papel de um leprechaun (você sabe, um tipo de duende). Foi então que Coppola "aconteceu"? Não, não havia pote de ouro no fim do arco-íris e o filme fracassou na bilheteria. Não me lembro do título em português, mas vi uma vez na Sessão da Tarde – uma das tardes mais tediosas da minha vida.

Como Hollywood é um negócio, qualquer prejuízo é fatal. A carreira de Francis podia ter terminado com Finian's Rainbow, mas o jovem lutou e conquistou uma nova chance. Em 1969 ele escreveu e dirigiu um filme de orçamento modesto, The Rain People, com um elenco de excelentes atores em ascensão, James Caan e Robert Duvall. O filme é a história de Natalie Ravenna (Shirley Knight), uma dona de casa grávida que não consegue permanecer casada e põe o pé na estrada. Com uma ação forte e um argumento que na época ainda era considerado moralmente chocante, o filme foi mal de bilheteria. A crítica apontou o roteiro fraco, mas ficou vivamente impressionada com o que Coppola fez com ele. Do ponto de vista da direção, The Rain People é brilhante.

No ano seguinte o sucesso veio inesperadamente. Coppola dividiu o Oscar de melhor roteiro com Edmund H. North por Patton. Como o Oscar é o Oscar, em uma só noite  Francis tornou-se Francis Ford Coppola, conseguindo a indicação para dirigir um filme cujo tema sempre o atraiu: O Poderoso Chefão. Aí sim, "aconteceu".

O Poderoso de Hollywood

O Chefão é uma obra-prima e os DVDs da Trilogia também, com ótima qualidade de imagem, som e extras que você não pode deixar de assistir. Da sombria fotografia de Gordon Willis – preservada na transferência para o meio digital – à música imperecível de Nino Rota, tudo funciona. A direção do elenco é extraordinária. Você não vê um desfile de atores e atrizes de primeira grandeza, mas uma família italiana, quase como a de Coppola. Gente de verdade, que nasceu e cresceu na mesma casa.

É importante fazer justiça a Mario Puzo: a estrutura do filme inteiro já estava no livro. Todos os flashbacks, todas as montagens paralelas foram orquestradas por esse grande e subestimado escritor, autor de um romance extraordinário chamado "A Guerra Suja", e do roteiro de Superman, a melhor adaptação cinematográfica que os quadrinhos jamais tiveram. Entretanto, poucas vezes uma obra saiu do papel para a tela conjugando fidelidade e vitalidade tão perfeitamente como em O Poderoso chefão. O encontro de Puzo e Coppola é um dos momentos capitais da indústria.

A carreira de Coppola continuou a ascender com A Conversação (1974), primeiro indício do fascínio que a tecnologia exerce sobre ele. Filme modesto, simples de filmar, diametralmente oposto ao Chefão, A Conversação é a forma que Coppola encontrou para aniquilar quaisquer hesitações da crítica em reconhecer seu domínio completo da narrativa cinematográfica.

Em seguida – contrariando todas as expectativas da época – surge O Poderoso Chefão II (1974), medindo-se ombro a ombro com o primeiro e lhe trazendo o merecido Oscar de melhor diretor. O que fazer depois disso? O que parecia impossível, um marco ainda maior: Apocalypse Now (1979). O filme da década de 70. Uma das maiores e mais difíceis realizações cinematográficas de todos os tempos.

O Apocalipse e suas variantes

Tudo o que se escreveu sobre Apocalipse ainda é pouco – e provavelmente é tudo verdade. Martin Sheen teve um ataque cardíaco enquanto Marlon Brando tinha ataques histéricos; os acidentes foram incorporados à rotina; a água para revelar os negativos teve que ser importada em navios-tanque; o orçamento saltou de 5 para 12 milhões, e como não existem problemas que não possam ser aperfeiçoados, subiu para 31 milhões; um circuito interno de TV foi instalado para a direção das cenas com helicópteros; toneladas de explosivos foram transportados e implantados em plena selva; cenários gigantescos foram erguidos no meio do nada; a senhora Coppola, temendo que o marido estivesse louco, fugiu para os EUA; como ele realmente estava, largou a filmagem no meio, pegou um avião e trouxe a mulher de volta.

Coppola desceu ao inferno e voltou com os Oscars de fotografia para Vittorio Storaro, montagem para Richard Marks e seis indicações. Mas não conquistou o Oscar de direção, dado a Robert Benton pelo lacrimogêneo Kramer x Kramer (intencionalmente ou não, em sua última visita ao Brasil Coppola comentou que perdeu para o Bob Fosse de All That Jazz, o que seria muito mais honroso).

Jorge Luis Borges disse que O Coração das Trevas – a obra de Conrad que gerou o roteiro de Apocalipse – é "o mais intenso relato de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu". Com base nesta obra-prima indiscutível, Coppola e seu co-roteirista John Mills produziram uma nefasta orgia de sangue e trevas, com todas as liberdades, perversidades e visões lisérgicas da geração pós 68, inaceitáveis e inconcebíveis pelos leitores do século XIX. Na novela de Conrad o narrador não descreve o que ouviu no seu encontro com o senhor Kurt (no filme, coronel Kurt); descreve as impressões e sensações que o encontro lhe causou. O horror é apenas sugerido, mas o Apocalipse de Coppola disseca o horror. Não porque o Vietnã tenha sido mais brutal do que o domínio belga no Congo. Não foi. A diferença é que Coppola não hesitou em praticar seu passatempo favorito: provocar choques morais e correr grandes riscos.

Em sua célebre seqüência de abertura, o Soldado Ryan de Spielberg explora o horror físico da guerra. Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick, mostra uma esperança de transcendência brotando da contemplação do horror espiritual da guerra. Apocalipse descreve a guerra que se trava nos recessos mais profundos do espírito humano: de como o coração do Homem se inclina para o mal; de como o Homem pode ansiar pelo mal quando experimenta o horror verdadeiro; de como o Homem, imerso no horror, corre o risco sem retorno de enxergar uma pureza insondável e consistente no mal. Essa pureza – cruel, diabólica – é em nós que ela existe: há um limite para o que podemos suportar sem romper com o que chamamos de humanidade. Se ultrapassarmos este ponto, nos tornamos mais do que monstros: nos tornamos a própria encarnação do mal.

Em DVD, na versão REDUX, essa jornada ao coração das trevas ganhou 49 minutos adicionais. E a recuperação das cores e sombras das visões extraordinárias de Coppola, forjadas numa época em que o cinema era feito lá fora, com suor e sangue, e não em salas refrigeradas com poltronas macias e softwares de última geração.

O Poderoso Chefão I e II, Apocalipse: Coppola era o Midas do celulóide. Nos anos 80 vieram O Fundo do Coração (1982), O Selvagem da Motocicleta (1983 – vendido em DVD pelo seu jornaleiro numa cópia excelente), Cotton Club (1984), Peggy Sue, seu passado a espera (1986), Jardins de Pedra (1987 – disponível em DVD) e Tucker, um homem e seu sonho (1988). O último foi um sucesso restrito. O resto, uma coleção de fracassos comerciais e, às vezes, de crítica. Coppola perdeu tudo que tinha. E também perdeu Gio, seu filho, num acidente de barco em 1986.

Onde estava o gênio na década de 80?

Billy Wilder desafiou uma vez: "Mostre-me um homem que nunca teve um fracasso e eu lhe mostrarei um medíocre; ele não arrisca, só trabalha em segurança."

Os fracassos de Coppola são dignos da sua estatura: monumentais. O caríssimo O Fundo do Coração, por exemplo, é um filme único, ambicioso, subestimado, e só não foi o primeiro captado em vídeo porque – graças a Deus – o diretor cedeu aos suplicantes apelos do fotógrafo Vittorio Storaro minutos antes de começar a rodar. Aliás, a forma revolucionária da realização desta obra é o modelo do domínio e da notável assimilação da tecnologia por Coppola. Ele acreditava tão sinceramente no projeto que apostou nele tudo o que tinha. Vítima de sua integridade artística, faliu: Coppola experimentou gêneros opostos ou similares de acordo com sua própria vontade, nunca se submetendo à crítica ou aos caprichos do público. Por isso, tantos fracassos: ele não se deixou enganar ou seduzir pela imagem que os outros fizeram dele. Coppola jamais deixou de ser Francis, este é o seu segredo. Depois do sucesso do primeiro Chefão, ao invés de tocar um dos projetos grandiosos que a indústria lhe ofereceu, ele se trancou no estúdio para filmar o claustrofóbico A Conversação. Essa mudança de tom é uma ocorrência permanente em sua carreira – algo que sempre confundiu a crítica e o público.

Quem conhece seus filmes sabe quão diferentes são entre si. E todos, sem exceção, trazem sua marca pessoal, o Coppola's Touch: o inconformismo, a liberdade, a controvérsia e uma abordagem muitas vezes errática. Sim, o erro é parte do talento de Coppola. Ou isso não é possível?

Diante da ruína econômica e de sua tragédia pessoal, Coppola foi dado como morto para o cinema nos anos 80. E então, nos anos 90, o leão voltou a rugir com sucessos que o redimiram diante da crítica e do público: O Poderoso Chefão parte III, filme de 2 horas e 40 minutos assumidamente produzido para fazer dinheiro, e totalmente construído em linha reta para a extraordinária seqüência final; e ainda Dracula de Bram Stoker.

Seus últimos trabalhos para o cinema foram Jack (1996), um filme totalmente despretensioso, “televisivo”, com Robin Willians vivendo um garoto com envelhecimento quatro vezes mais rápido que o normal, e a versão do best-seller de John Grisham, O Homem que fazia chover (1997).

Nos últimos anos Coppola tem produzido quase que exclusivamente para a TV, onde as exigências e riscos são menores e o dinheiro é quase certo. Dizem que essa foi a estratégia para financiar o megalomaníaco Megalopolis, a história de um arquiteto que sonha construir a cidade do futuro para materializar uma utopia: que as pessoas só trabalhem no que amam fazer. Essa utopia é a própria carreira de Coppola, que só faz o que quer, mesmo quando só quer ganhar dinheiro.

A produção de Megalopolis é um mistério tão grande que justificaria outro filme. A estréia anunciada para 2004 não tem mais previsão. Dizem que o 11 de Setembro provocou uma severa revisão do roteiro e a perda de 30 horas de material da segunda-unidade, o que provavelmente é uma grande mentira para justificar atrasos injustificáveis. Fala-se cada vez menos do filme, e é possível que talvez nem exista. A única coisa certa é que, qualquer dia desses Coppola virá com algo totalmente inesperado.

Ele não tem medo.


 

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Este site foi atualizado em 11/04/07