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O Cinema a beira do
abismo
©Ricardo Labuto Gondim
Certamente poucos
leitores assistiram a O Buraco Negro, um fracasso de bilheteria que
tragou vinte milhões de dólares dos estúdios Disney. Contando uma história
de ficção científica que oscila entre o épico e o singelo, o filme é uma
realização desastrosa. Centenas de páginas na Internet dissecam suas
imperfeições evidentes. A questão é: por quê?
Por que os fãs de
ficção científica do mundo inteiro perdem tempo criticando um filme que
supostamente deveria ser esquecido?
Por que me dei ao
trabalho de escrever este artigo?
No Rastro do Cometa
Lançado em 1979 –
apenas dois anos depois do sucesso mundial de Guerra nas Estrelas –
The Black Hole foi visto como a solução apressada e oportunista da
Disney para explorar o súbito interesse do público pelas odisséias
espaciais. A acusação é injusta: o plano de um autêntico filme de ficção
pelos estúdios Disney começou em fevereiro de 1974. O título provisório de
Space Station-One foi mantido durante toda a produção como designação
interna do projeto.
O argumento de Bob
Barbash, Jeb Rosebrook e Richard Landau é uma pequena jóia: a nave de
exploração Palomino está há 18 meses no espaço procurando sinais de vida
extraterrestre. Em lugar de bactérias ou
emissões de rádio – em lugar de
qualquer indício de vida ou inteligência – encontra a monumental Cygnus,
nave de pesquisas desaparecida há vinte anos. Como o gigantesco esquife de
um titã, a Cygnus se mantém a uma distância segura e constante de um buraco
negro, que por pouco não desintegra a Palomino, Ernst Borgnine, Robert
Foster, Anthony Perkins, Joseph Bottoms, Yvette Mimieux e o esférico robô
V.I.N.cent. Precisando de uma base para reparos inadiáveis, a Palomino pousa
na Cygnus. Logo descobrimos que a nave é habitada pelo lendário Dr. Hans
Reinhardt (Maximilian Schell), pelo prodigioso robô Maximilian e por um
pelotão de andróides. O resto da tripulação morreu ou desapareceu no espaço.
Aperfeiçoando os mistérios que assombram a nave, o Dr. Reinhardt propõe um
desafio: que a tripulação do Palomino o acompanhe numa jornada através do
buraco negro. Como diz o slogan do filme, “a jornada começa onde tudo
acaba”.
Este argumento rico
em possibilidades foi parcialmente desperdiçado no roteiro final de Jeb
Rosebrook e Gerry Day. O problema – que obviamente deve mais aos produtores
do que aos roteiristas – é a indefinição quanto a natureza do drama, que
tenta ser simultaneamente uma história para crianças e adultos. Como
resultado, não é nem uma coisa nem outra.
Se o “vermelho” robô
Maximilian é uma criação monstruosa – que conquistou para a Disney a
primeira classificação de
censura em sua história – o pequeno V.I.N.cent é a versão metálica daquelas
corujas sábias e prudentes dos desenhos do estúdio; enquanto as seqüências
envolvendo os mistérios da nave estão carregadas de uma atmosfera sombria e
opressiva, as cenas de combate têm ação incipiente, coreografias primárias e
efeitos sonoros de videogame; se por um lado somos hipnotizados por uma
espécie de funeral conduzido por andróides, temos que aturar as acrobacias
de V.I.N.cent numa “sala de recreação para robôs”. Em seus 98 minutos o
filme mistura o gótico e o kitsch, como em A Bela Adormecida e
Cinderela.
Até a trilha de John
Barry cambaleou: o excelente tema do buraco negro, uma célula breve,
dissonante e circular modulada em intervalos distantes, convive com um tema
“heróico” tocado em piano – e em “câmera lenta”.
Já que as crianças
não toleram o ritmo dilatado do veterano diretor de TV Gary Nelson, cabe aos
adultos separar o joio do trigo ignorando as peripécias de desenho animado e
preservando a perturbadora atmosfera de horror gótico – uma das razões de
permanência do filme.
O
Céu de Lona
Para fazer uma nave
decolar em 1979 só havia três métodos: recorrer à NASA, usar linhas de nylon
ou o sistema Dykstraflex, a primeira câmera controlada por computador. O
processo era o seguinte: você colocava a maquete da nave contra um fundo
azul. A nave permanecia imóvel enquanto a câmera evoluía sobre ela de modo a
simular a vertigem do vôo. Mais tarde o azul era removido oticamente para
dar lugar ao espaço sideral.
A Disney não aceitou
o valor exorbitante e as extensas obrigações contratuais que a Industrial
Light & Magic de George Lucas impôs pelo uso do equipamento. Diante da
inflexibilidade da ILM, o estúdio convocou sua aclamada divisão de
engenharia para desenvolver uma versão proprietária do sistema, o A.C.E.S. (Automated
Camera Effects System), que se mostrou radicalmente superior a Dykstraflex.
Tem mais: pela primeira vez na história do cinema uma câmera – a Mattescan –
moveu-se sobre um matte painting. Explico: imagine que fosse preciso
mostrar um personagem descendo a escada de uma vasta sala da nave. Ao invés
de construir o cenário inteiro você só construía a escada. O resto da sala
era pintado numa placa de vidro, com um espaço “vazado” que se encaixava
perfeitamente na porção construída do cenário – ou seja, onde terminava a
escada começava a pintura. Este processo foi largamente utilizado em
sucessos como Indiana Jones e a Última Cruzada, O Retorno de Jedi
e muitos outros filmes famosos pelo uso de alta tecnologia. Como você
pode imaginar, o “encaixe” entre o vidro e a paisagem real exigia uma
imobilidade absoluta. Com a Mattescan o processo foi revolucionado da noite
para o dia, e a Disney se viu anos-luz à frente da ILM. O Michelangelo dos
mattes, Peter Ellenshaw estava afastado do cinema há dez anos quando
a Disney o convocou: dos 550 planos com efeitos visuais de O Buraco Negro,
150 incluíram mattes.

A nave Cygnus – uma
maquete de três metros e meio e 80 Kg de vidro e tubos de bronze torneados a
mão – custou 250 mil dólares. O “espaço sideral” por onde ela flutuou era
uma lona pintada pelos artistas do estúdio com nebulosas e outros corpos
celestes. A lona foi perfurada milhares de vezes com bitolas diferentes e
iluminada por trás com refletores de intensidade variável: através dos furos
surgiram estrelas cintilantes – embora elas não brilhem no vácuo. O
resultado é mais artístico e bonito que o “espaço” de muitos outros filmes
de ficção.
O grande desafio foi
a concepção do protagonista do filme.
Filmando o Invisível
Em nossos dias sabemos mais sobre buracos negros – chamados pelos
astrofísicos de BNs – do que sabiam os roteiristas do filme. Como são
“invisíveis”, a emissão de radiação ou a ausência de luz em certos pontos do
cosmos permite detectá-los. O telescópio orbital Hubble revelou que os BNs
são mais comuns do que se poderia imaginar.
Falando grosso modo, o buraco negro é o núcleo de uma estrela gigante
que esgotou seus combustíveis nucleares. Sem pressão para espargir matéria
em oposição ao peso de suas camadas externas, a estrela entra em “colapso”,
adensando-se e explodindo como “supernova”. A terrível energia liberada
concentra ainda mais a massa restante do núcleo, fundindo-o aos elementos
pesados gerados pela explosão. Convergindo para um único ponto chamado de
“singularidade”, a densidade deste corpo celeste tende ao infinito, criando
um campo gravitacional tão forte que nem mesmo a luz pode escapar – por isso
o nome de “buraco negro”.
Os BNs recentemente descobertos têm de milhões a bilhões de vezes a massa do
sol e provavelmente surgiram de um modo diferente – logo depois do Big
Bang – pela condensação dos gases e matérias que gravitavam ao redor das
galáxias em formação. Stephen Hawking postulou um terceiro tipo, jamais
detectado, que chamou de “primordial” ou “mini”, que teria sido gerado
quando o Big Bang comprimiu matéria de menor massa.
O filme da Disney não
se detém na descrição do corpo celeste. Coube ao trailer preparar as
platéias do mundo inteiro, reutilizando a seqüência em computação gráfica
dos créditos iniciais: um modelo em wireframe da curvatura do espaço
provocada pela gravidade colossal do buraco negro. O texto é uma pequena
obra-prima: “Há no cosmos, no ponto onde o tempo e o espaço convergem,
uma força inexorável. Um lugar muito além da visão do Homem, mas não do seu
alcance. O ponto mais misterioso do Universo. Capaz de tragar luz, estrelas,
planetas inteiros. Onde o aqui e o agora podem ser eternos. Agora o Homem
está prestes a explorar... O Buraco Negro. Onde nenhum filme, até hoje,
jamais ousou chegar”.
Como a gravidade
abismal do buraco negro absorve a luz e impede qualquer visão, os técnicos
da Disney construíram um tanque circular iluminado pelo alto e pelos lados,
que recebeu água adensada com tinta. Sob o impulso do hélice instalado no
tanque a mistura girou vigorosamente, sendo filmada por uma câmera de alta
velocidade. A imagem resultante foi processada através de um prisma, que
transformou o redemoinho numa elipse. Esse vórtice espetacular é o
protagonista do filme.
O Fim
Com esforço, soluções
criativas e muito dinheiro, depois de cinco anos de preparação a Disney
atingiu um resultado insatisfatório. Ainda assim, você deve ver o filme: ele
se justifica nos cinco minutos finais por uma seqüência extraordinária – ao
menos no campo das idéias e das promessas, pois mesmo o clímax não foi o que
poderia ter sido em termos visuais. Essa é a questão: o que incomoda o
público, a crítica, os cinéfilos e os fãs de ficção científica é que não
podemos assistir a O Buraco Negro sem imaginar um filme melhor; sem
enriquecê-lo com o que já vimos em outros filmes, livros, quadros... Por
outro lado, a experiência de ver o “filme que não está lá” é o que impede
O Buraco Negro de ser tragado pelo esquecimento. Vinte e cinco anos
depois de realizado o filme se mantém como a Cygnus: imóvel a beira do
abismo.
Lembre-se que a
jornada começa onde tudo acaba.

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