cinema: o buraco negro

05/09/10

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O Cinema a beira do abismo

©Ricardo Labuto Gondim
 

Certamente poucos leitores assistiram a O Buraco Negro, um fracasso de bilheteria que tragou vinte milhões de dólares dos estúdios Disney. Contando uma história de ficção científica que oscila entre o épico e o singelo, o filme é uma realização desastrosa. Centenas de páginas na Internet dissecam suas imperfeições evidentes. A questão é: por quê?

Por que os fãs de ficção científica do mundo inteiro perdem tempo criticando um filme que supostamente deveria ser esquecido?

Por que me dei ao trabalho de escrever este artigo?

No Rastro do Cometa

Lançado em 1979 – apenas dois anos depois do sucesso mundial de Guerra nas Estrelas The Black Hole foi visto como a solução apressada e oportunista da Disney para explorar o súbito interesse do público pelas odisséias espaciais. A acusação é injusta: o plano de um autêntico filme de ficção pelos estúdios Disney começou em fevereiro de 1974. O título provisório de Space Station-One foi mantido durante toda a produção como designação interna do projeto.

O argumento de Bob Barbash, Jeb Rosebrook e Richard Landau é uma pequena jóia: a nave de exploração Palomino está há 18 meses no espaço procurando sinais de vida extraterrestre. Em lugar de bactérias ou emissões de rádio – em lugar de qualquer indício de vida ou  inteligência – encontra a monumental Cygnus, nave de pesquisas desaparecida há vinte anos. Como o gigantesco esquife de um titã, a Cygnus se mantém a uma distância segura e constante de um buraco negro, que por pouco não desintegra a Palomino, Ernst Borgnine, Robert Foster, Anthony Perkins, Joseph Bottoms, Yvette Mimieux e o esférico robô V.I.N.cent. Precisando de uma base para reparos inadiáveis, a Palomino pousa na Cygnus. Logo descobrimos que a nave é habitada pelo lendário Dr. Hans Reinhardt (Maximilian Schell), pelo prodigioso robô Maximilian e por um pelotão de andróides. O resto da tripulação morreu ou desapareceu no espaço. Aperfeiçoando os mistérios que assombram a nave, o Dr. Reinhardt propõe um desafio: que a tripulação do Palomino o acompanhe numa jornada através do buraco negro. Como diz o slogan do filme, “a jornada começa onde tudo acaba”.

Este argumento rico em possibilidades foi parcialmente desperdiçado no roteiro final de Jeb Rosebrook e Gerry Day. O problema – que obviamente deve mais aos produtores do que aos roteiristas – é a indefinição quanto a natureza do drama, que tenta ser simultaneamente uma história para crianças e adultos. Como resultado, não é nem uma coisa nem outra.

Se o “vermelho” robô Maximilian é uma criação monstruosa – que conquistou para a Disney a primeira classificação de censura em sua história – o pequeno V.I.N.cent é a versão metálica daquelas corujas sábias e prudentes dos desenhos do estúdio; enquanto as seqüências envolvendo os mistérios da nave estão carregadas de uma atmosfera sombria e opressiva, as cenas de combate têm ação incipiente, coreografias primárias e efeitos sonoros de videogame; se por um lado somos hipnotizados por uma espécie de funeral conduzido por andróides, temos que aturar as acrobacias de V.I.N.cent numa “sala de recreação para robôs”. Em seus 98 minutos o filme mistura o gótico e o kitsch, como em A Bela Adormecida e Cinderela.

Até a trilha de John Barry cambaleou: o excelente tema do buraco negro, uma célula breve, dissonante e circular modulada em intervalos distantes, convive com um tema “heróico” tocado em piano – e em “câmera lenta”. 

Já que as crianças não toleram o ritmo dilatado do veterano diretor de TV Gary Nelson, cabe aos adultos separar o joio do trigo ignorando as peripécias de desenho animado e preservando a perturbadora atmosfera de horror gótico – uma das razões de permanência do filme.

O Céu de Lona

Para fazer uma nave decolar em 1979 só havia três métodos: recorrer à NASA, usar linhas de nylon ou o sistema Dykstraflex, a primeira câmera controlada por computador. O processo era o seguinte: você colocava a maquete da nave contra um fundo azul. A nave permanecia imóvel enquanto a câmera evoluía sobre ela de modo a simular a vertigem do vôo. Mais tarde o azul era removido oticamente para dar lugar ao espaço sideral.

A Disney não aceitou o valor exorbitante e as extensas obrigações contratuais que a Industrial Light & Magic de George Lucas impôs pelo uso do equipamento. Diante da inflexibilidade da ILM, o estúdio convocou sua aclamada divisão de engenharia para desenvolver uma versão proprietária do sistema, o A.C.E.S. (Automated Camera Effects System), que se mostrou radicalmente superior a Dykstraflex. Tem mais: pela primeira vez na história do cinema uma câmera – a Mattescan – moveu-se sobre um matte painting. Explico: imagine que fosse preciso mostrar um personagem descendo a escada de uma vasta sala da nave. Ao invés de construir o cenário inteiro você só construía a escada. O resto da sala era pintado numa placa de vidro, com um espaço “vazado” que se encaixava perfeitamente na porção construída do cenário – ou seja, onde terminava a escada começava a pintura. Este processo foi largamente utilizado em sucessos como Indiana Jones e a Última Cruzada, O  Retorno de Jedi e muitos outros filmes famosos pelo uso de alta tecnologia. Como você pode imaginar, o “encaixe” entre o vidro e a paisagem real exigia uma imobilidade absoluta. Com a Mattescan o processo foi revolucionado da noite para o dia, e a Disney se viu anos-luz à frente da ILM. O Michelangelo dos mattes, Peter Ellenshaw estava afastado do cinema há dez anos quando a Disney o convocou: dos 550 planos com efeitos visuais de O Buraco Negro, 150 incluíram mattes.

A nave Cygnus – uma maquete de três metros e meio e 80 Kg de vidro e tubos de bronze torneados a mão – custou 250 mil dólares. O “espaço sideral” por onde ela flutuou era uma lona pintada pelos artistas do estúdio com nebulosas e outros corpos celestes. A lona foi perfurada milhares de vezes com bitolas diferentes e iluminada por trás com refletores de intensidade variável: através dos furos surgiram estrelas cintilantes – embora elas não brilhem no vácuo.  O resultado é mais artístico e bonito que o “espaço” de muitos outros filmes de ficção.

O grande desafio foi a concepção do protagonista do filme.

Filmando o Invisível

Em nossos dias sabemos mais sobre buracos negros – chamados pelos astrofísicos de BNs – do que sabiam os roteiristas do filme. Como são “invisíveis”, a emissão de radiação ou a ausência de luz em certos pontos do cosmos permite detectá-los. O telescópio orbital Hubble revelou que os BNs são mais comuns do que se poderia imaginar.

Falando grosso modo, o buraco negro é o núcleo de uma estrela gigante que esgotou seus combustíveis nucleares. Sem pressão para espargir matéria em oposição ao peso de suas camadas externas, a estrela entra em “colapso”, adensando-se e explodindo como “supernova”. A terrível energia liberada concentra ainda mais a massa restante do núcleo, fundindo-o aos elementos pesados gerados pela explosão. Convergindo para um único ponto chamado de “singularidade”, a densidade deste corpo celeste tende ao infinito, criando um campo gravitacional tão forte que nem mesmo a luz pode escapar – por isso o nome de “buraco negro”.

Os BNs recentemente descobertos têm de milhões a bilhões de vezes a massa do sol e provavelmente surgiram de um modo diferente – logo depois do Big Bang – pela condensação dos gases e matérias que gravitavam ao redor das galáxias em formação. Stephen Hawking postulou um terceiro tipo, jamais detectado, que chamou de “primordial” ou “mini”, que teria sido gerado quando o Big Bang comprimiu matéria de menor massa.

O filme da Disney não se detém na descrição do corpo celeste. Coube ao trailer preparar as platéias do mundo inteiro, reutilizando a seqüência em computação gráfica dos créditos iniciais: um modelo em wireframe da curvatura do espaço provocada pela gravidade colossal do buraco negro. O texto é uma pequena obra-prima: “Há no cosmos, no ponto onde o tempo e o espaço convergem, uma força inexorável. Um lugar muito além da visão do Homem, mas não do seu alcance. O ponto mais misterioso do Universo. Capaz de tragar luz, estrelas, planetas inteiros. Onde o aqui e o agora podem ser eternos. Agora o Homem está prestes a explorar... O Buraco Negro. Onde nenhum filme, até hoje, jamais ousou chegar”.

Como a gravidade abismal do buraco negro absorve a luz e impede qualquer visão, os técnicos da Disney construíram um tanque circular iluminado pelo alto e pelos lados, que recebeu água adensada com tinta. Sob o impulso do hélice instalado no tanque a mistura girou vigorosamente, sendo filmada por uma câmera de alta velocidade. A imagem resultante foi processada através de um prisma, que transformou o redemoinho numa elipse. Esse vórtice espetacular é o protagonista do filme.

O Fim

Com esforço, soluções criativas e muito dinheiro, depois de cinco anos de preparação a Disney atingiu um resultado insatisfatório. Ainda assim, você deve ver o filme: ele se justifica nos cinco minutos finais por uma seqüência extraordinária – ao menos no campo das idéias e das promessas, pois mesmo o clímax não foi o que poderia ter sido em termos visuais. Essa é a questão: o que incomoda o público, a crítica, os cinéfilos e os fãs de ficção científica é que não podemos assistir a O Buraco Negro sem imaginar um filme melhor; sem enriquecê-lo com o que já vimos em outros filmes, livros, quadros... Por outro lado, a experiência de ver o “filme que não está lá” é o que impede O Buraco Negro de ser tragado pelo esquecimento. Vinte e cinco anos depois de realizado o filme se mantém como a Cygnus: imóvel a beira do abismo.

Lembre-se que a jornada começa onde tudo acaba.

 

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Este site foi atualizado em 16/11/06