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cinema: bang-bang |
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05/09/10 |
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Pipoca e balas ©Ricardo Labuto Gondim Acenda a fogueira, muchacho, vamos falar de westerns e “faroestes”. Ponha o café no fogo ou derrame um trago de uísque na caneca de estanho. E mantenha os ouvidos abertos: os comanches podem estar espreitando. WESTERN: ORIGEM DA LINGUAGEM CINEMATOGRÁFICA Os primeiros filmes eram rigidamente “teatrais”. As cenas seguiam os mesmos critérios de tempo contínuo do teatro – princípio, meio e fim – com a câmera invariavelmente imobilizada no ponto de vista da platéia. Na tela a porta se abria, o médico austero e barbudo entrava carregando a valise, constatava a morte da mocinha tuberculosa, balançava a cabeça vertiginosamente, caminhava grave e pesado até a porta, lançava um último olhar ao aniquilado amante da finada e fechava a porta atrás de si. Não havia interrupções, abreviações, elipses ou ações paralelas.
A linguagem cinematográfica nasceu com o western. E The Great Train Robbery lançou alguns dos elementos dramáticos mais comuns do gênero: o trem em movimento tomado de assalto, o roubo, a perseguição e o confronto final. O resto é História. Em maior ou menor grau o western influenciou todas as cinematografias mundiais e foi ciclicamente realimentado por elas. Os jidai-geki de Kurosawa, por exemplo, foram confessadamente influenciados pelos westerns de Ford. Em contrapartida, Yojimbo ganhou uma versão à bolonhesa dirigida por Sergio Leone (Por um Punhado de Dólares), enquanto Os Sete Samurais gerou Sete Homens e um destino de John Sturges. A forma elíptica dessa linha de influências justifica uma afirmação decisiva: sinônimo de western, John Ford é um dos mais influentes cineastas de todos os tempos. NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS
No roteiro de Dudley Nichols – baseado numa história de Ernest Haycox (Stage to Lordsburg) que plantou no solo ácido do oeste um argumento do requintado Guy de Maupassant (Boule de Suif) – um banqueiro ladrão, um vendedor de uísque puritano, um médico alcoólatra, uma prostituta da fronteira, uma genuína dama do Sul grávida, um jogador profissional de ares aristocráticos e um vaqueiro vingativo com a cabeça a prêmio (John Wayne) lotam a diligência e enfrentam índios sedentos de sangue, suas próprias misérias, preconceitos e toda mesquinhez e grandeza de que o ser humano é capaz. No Tempo das Diligências foi desmontado, dissecado e radiografado em todas as escolas de cinema do mundo. Grande parte da obra se passa audaciosamente onde nenhum filme jamais esteve, o espaço claustrofóbico e oscilante do interior da carruagem. O indispensável duelo final é uma elipse: ao invés de uma montagem progressiva repleta de cortes convergindo para o fim inevitável, o diretor leva a câmera para o saloon, onde você e os freqüentadores ouvem apenas a detonação irreversível dos revólveres. O extraordinário é que, embora parecesse insuperável, No Tempo das Diligências caiu ligeiramente para segundo plano quando, quase 20 anos depois, seu diretor filmou uma das maiores obras cinematográficas de todos os tempos... “MEU NOME É FORD, DIRIJO WESTERNS” Ao contrário do que diz a lenda, John Ford não era irlandês: John (ou Sean) Augustine Feeney nasceu no Maine em 1895. Seus pais eram da costa da Irlanda mas só se conheceram nos Estados Unidos. Reservado em sua vida pessoal, Ford mentia sistematicamente aos jornalistas: “A verdade da minha vida é comigo. Não se metam”.
Imensamente alto, cego de um olho e relativamente surdo, o
homem era mesmo um osso duro. Católico, conservador, democrata e
anticomunista obstinado. Mas embora se posicionasse um pouco mais à direita
do que se poderia esperar de um homem razoável, Ford deu um célebre exemplo
de coragem em plena Era McCarthy. No livro Hollywood (Editora
Brasiliense, 1988), Joseph Mankiewicz narra a história com riqueza de
detalhes ao crítico Michel Ciment. Em 1950 Mankiewicz era o presidente da
Associação dos Diretores. Terminando de filmar A Malvada, foi passear
na Europa. Alimentada simultaneamente pela prosperidade e pela tensão do pós-guerra, a caça às bruxas transformava cada cidadão num comunista se ele – como disse Mankiewicz – “não se mostrasse mil por cento pró-americano”. Não foi por acaso que nesta época surgiram westerns emblemáticos: Matar ou Morrer, de Fred Zinnemann (1952), Os Brutos também Amam, de George Stevens (1953), e a obra-prima de Ford, Rastros de Ódio (1956), todos disponíveis em DVD. Como florestas inteiras foram cortadas para que esses filmes fossem analisados, vamos falar brevemente sobre eles. MATAR OU MORRER
Além da extraordinária atuação de Cooper, os pontos altos do filme são a fotografia em preto e branco contrastado, seco e sem filtros de Floyd Crosby, escolhido a dedo pelo diretor por ser um documentarista. Crosby iluminou tudo com uma luz frontal que ameaça queimar a película quando o relógio bate as doze; a celebrada e premiada música de Dimitri Tiomkin, que todo mundo gosta, menos eu; a montagem espetacular de Elmo Williams, que sincroniza o drama com os relógios que pontuam todo o filme; e é claro, a direção requintada do mestre Fred Zinnemann, que nem é preciso comentar. OS BRUTOS TAMBÉM AMAM
Shane é protagonista de uma aventura grandiosa, do fim do seu estilo de vida e da extinção do próprio western, que para George Stevens já estava esgotado. Essa visão pessimista foi confirmada na década seguinte pelo sucesso dos spaghetti westerns de Sergio Leone, que trocou o herói com profundidade psicológica – que já não atraía o público – pelo laconismo descomplicado, simples e pragmático do anti-herói. Por outro lado, confirmando a vitalidade cíclica do gênero, Clint Eastwood refilmou Shane em 1985 (O Cavaleiro Solitário) e o magnífico Os Imperdoáveis em 1992, também influenciado por George Stevens. RASTROS DE ÓDIO
Uma das grandezas do filme é o modo como John Ford narra questões vitais sem utilizar uma só linha de diálogo. Por exemplo: os homens da região vêm pedir a ajuda de Ethan para perseguir o bando de renegados que roubou algumas cabeças de gado. O líder dos fazendeiros é o Capitão Reverendo Samuel Clayton, que no momento está em primeiro plano tomando uma xícara de café diante da mesa. Atrás dele, em segundo plano, Martha, a esposa do irmão de Ethan, vai buscar a túnica do cunhado. Ela abraça e acaricia a lã da túnica suavemente, olhando com intensidade para Ethan. Samuel Clayton sabe que os dois estão ali mas mantém os olhos fixos à frente, sem se mover. Então você entende: Martha amava Ethan, mas casou com seu irmão. Clayton sabe disso, e por pura nobreza não se volta para trás. Sabe que aquele amor jamais será consumado e não quer embaraçar ou comprometer os dois. BONANZA Falamos de westerns notáveis e cerebrais mas não podemos esquecer dos “faroestes”. Se antes falamos de balas, agora vamos falar de pipoca: a Multimedia Group lançou uma série de 4 DVDs imperdíveis, com 12 episódios de uma das séries de TV de maior sucesso em todo mundo: Bonanza.
Criada pelo roteirista e produtor David Dortort, a série foi lançada com três propósitos claramente definidos: primeiro, financiar o champanhe e o caviar dos produtores; segundo, mostrar cowboys de sólida formação moral combatendo a maldade deste mundo de lágrimas e lutando por justiça numa terra selvagem; terceiro, estimular a venda de televisores coloridos (a RCA gerou a NBC). Não por acaso Bonanza foi o primeiro seriado exibido em cores no Brasil, com transmissões experimentais em NTSC pela TV Tupi de São Paulo ainda em 1963! Dos 12 episódios selecionados pela Multimedia Group, 10 são de 1960, 2 de 1961. A série ainda estava fresquinha e já contava com o interesse de diretores excepcionais como Jacques Tourneur (Cat People, 1942), e jovens talentos como Robert Altman. A seleção reflete o caráter eclético da série, com histórias que vão da comédia ao drama, da aventura ao suspense. Do ponto de vista técnico o material é um pouco desigual. A qualidade do som oscila do ótimo ao regular. O Volume 1 tem um problema de autoria, com os episódios começando depois do prólogo (é preciso retroceder a imagem por alguns segundos). De qualquer forma, para uma série de TV com mais de 40 anos o resultado é bom, e o lançamento, um marketing corajoso da empresa. Eu, que assistia Bonanza no colo de meu avô, revi os episódios de Bonanza Collection com meu filho no colo.
Juro, hombre, não chorei. |
Este site foi atualizado em 31/12/06