|

Impressionistas
Cabo de caixa
Absolute Acoustics
Ultra XT
©Ricardo Labuto Gondim
Ao ouvir um sax
tocando o chamado Lá Padrão - o Lá4 - você estará ouvindo a freqüência de
440Hz. Se o saxofonista subir uma oitava, a nota continuará sendo
reconhecidamente um Lá - no caso, o Lá5 -, mas a freqüência será dobrada,
passando à 880Hz. A freqüência da nota é chamada de “fundamental”.
Bem, ao ouvir a
fundamental você identifica a nota. Mas como identifica o sax?
Sempre
que uma nota é tocada, além da fundamental ouvimos uma série de outras
freqüências - com valores múltiplos da fundamental - que chamamos
de “harmônicos”. Como a intensidade dos harmônicos varia com o
material e a forma do instrumento, ainda que toquem a mesma nota o sax e o
violino têm sonoridades singulares: seus “timbres”.
Como a intensidade
dos harmônicos é o que caracteriza o som peculiar de cada instrumento,
podemos concluir que equalização é coisa de gente grande: sublinhando ou
escamoteando freqüências sem conhecimento de causa, podemos alterar os
harmônicos e adulterar os timbres.
A
reprodução fiel dos harmônicos é a grandeza e o calcanhar de Aquiles da
audiofilia, essa doce maldição que confundimos com um passatempo. O
instrumento que você tem em casa – o sistema – não conhece violinos nem
saxofones, apenas timbres.
O problema é que, de
um jeito ou de outro, cada elemento do sistema impõe algum tipo de
equalização.
A sonhada resposta
plana - 100% plana - é um ideal platônico: nossos ouvidos não captam os sons
de forma linear. Na busca de uma sonoridade de sonho, ao criar um circuito o
projetista sublinha ou esmaece freqüências aqui e ali, desenhando curvas
para simular uma reta. Como tudo na vida, cada alteração provoca ou
determina outra, que altera o conjunto. Esta é uma das razões porque o
matrimônio entre um pré sublime e um amplificador sublime pode terminar em
divórcio: um casamento feliz exige compatibilidades imensuráveis.
Sendo o penúltimo elo
da corrente, o cabo de caixa recebe o somatório de todos os elementos do
sistema: fonte, interlink ou intelinks, integrado ou módulos
de pré-amplificação e potência. Logo, a “sonoridade” vulgarmente atribuída
ao cabo está saturada de elementos que lhe são estranhos - e anteriores.
Mais do que em
qualquer outro produto, para tentar definir as características particulares
de um cabo de caixa - que como todo cabo é uma espécie de equalizador
passivo - é preciso variar os componentes do sistema, escutar e repetir
infinitamente um amplo número de gravações, comparar, confirmar, negar e
conceituar. O exercício demanda artigos raros na praça: tempo, mais tempo e
muito tempo, paciência e perseverança.
Daí que, aplicando uma lógica de
jardim da infância, podemos inferir mais um axioma do logos eletrônico:
como em qualquer sistema o estado de interdependência é irrevogável, a
burlesca ambição de conceituar com nitidez as peculiaridades de um cabo de
caixa está intrinsecamente destinada ao fracasso: o resultado é sempre uma
“impressão”, difusa como um quadro de Monet.
Em maior ou menor
grau, a Lei de Monet vale para todo e qualquer elemento de um
sistema, dos spikes aos falantes. Mas no caso do cabo de caixa, que é
um componente passivo, os elementos predecessores multiplicam o horror da
verdade ao infinito.
O lado bom da
história são os reviews de publicações do mundo inteiro. É muito
divertido ver um homem aplicar uma dezena de itens de avaliação num...
num... convenhamos, num pedaço de fio, e obter pontuações com variações
decimais. Para justificar impressões estritamente pessoais e episódicas um
homem é capaz de tudo, até mesmo fingir recorrer à ciência – ainda que de
boa fé, ilusoriamente: um método, qualquer que seja ele, é um recurso muito
mais disponível que a lucidez.
Em oposição à sina brumosa dos
que se propõem a avaliar subjetivamente um cabo de caixa, ouço vozes se
erguendo para proclamar a inevitabilidade dos osciloscópios. A questão,
monsieur, é que os osciloscópios ficam no laboratório, mas quem leva o
cabo pra casa sou eu. Os componentes de um sistema são projetados para serem
ouvidos por homens, mulheres e (ai de mim) críticos, não para serem
vistos em forma de onda. Existem equipamentos que geram gráficos
medidos pela escala Richter, mas que soam aos ouvidos como rouxinóis.
O laboratório é indispensável para demonstrar e explicar
porque um dado equipamento funciona mal. Mas só você pode identificar o que
é bom.
o produto
Tudo isso é para
tentar explicar minhas impressões subjetivas sobre a performance do
cabo de caixa Absolute Acoustics Ultra em sua versão XT. O
cabo, um single ended primorosamente montado, tem construção
"do tipo Star Quad, com 4 veias independnetes de 13 AWG, condutores
multi-stranded SPC (Surface Perfect Copper), insulators de PVC
envoltos em fita protetora de TNT e capa externa de PVC HighFlex." Na
versão XT (Xtreme), "agrega Silver-Over-Soldering após
o processo de crimpagem de alta pressão, stoppers especiais e
refinado sleeving protetor".
Esses dados
relativamente simples - elevados à monumentalidade pelo caráter onomatopaico
da língua de Shakespeare - estão no site do fabricante. Se tudo isso
é audível ou não, francamente, não me importa saber: não posso exibir
credenciais para discutir o tema, e sou daqueles que acham o bolo de
chocolate muito mais atraente que a receita.
Além disso, tenho
algo muito interessante para dividir com você.
O cabo havia sido
amaciado durante três piedosas semanas no sistema de um amigo
arqui-solidário. Segundo ele, ainda era preciso queimar mais, de modo que
instalei o cabo para ouvir música sem grandes esperanças.
Toquei a Sinfonia de
Paul Dukas na versão meramente correta e bem gravada de Slatkin (RCA, 20
BIT). A música começa com um acorde breve na orquestra. Os violinos atacam o
primeiro tema, esboçam o desenvolvimento e formam a base para que as
madeiras exponham o segundo motivo. Essa longa frase nas cordas soou
atipicamente “fosca” na versão “Ultra XT” – e isso, rapaz, foi muito
bom.
As freqüências fundamentais de um
violino - ou seja, o espectro em que é possível afinar o instrumento - vão
de 196Hz à 3120Hz. Os harmônicos, praticamente tão extensos quanto os pratos
de uma bateria, vão de 4KHz a 15KHz. Daí que - para uma massa de audiófilos
cujo nome é multidão - uma orquestra ao vivo pode soar decepcionante: em
casa, o compromisso de um sistema costuma ser com a beleza, enquanto o único
compromisso de um violino é ser um violino; em casa, através de um sistema
de áudio, os harmônicos costumam receber mais luz do que deveriam,
envolvendo a fundamental com um manto levemente cintilante - uma aura de
brilho que pode vir a ser doce, é verdade, mas completamente irreal. Se eu
tivesse que descrever a sonoridade de um naipe de violinos para um surdo,
diria que ela é ligeiramente fosca e ligeiramente brilhante -
simultaneamente.
No momento da audição
essa reprodução atípica e levemente pálida me intrigou. Foi então que as
trompas soaram com todo brilho.
A trompa é um
instrumento híbrido, capaz de simular madeiras mais veladas - a
exemplo do fagote ou do corne-inglês num registro bem grave - ou assumir o
seu destino de metal fulgurante. Estudei trompa durante um ano e meio e
sempre tive a impressão de que, quando o instrumento é tocado para brilhar,
os harmônicos soam quase tão nítidos quanto a fundamental, estabelecendo uma
aura de vibração metálica em torno de cada nota.
Depois de ouvir uma
longa frase fosca nas cordas, a súbita erupção da vibração luminosa das
trompas me surpreendeu. Falando grosso modo, foi como se o Ultra
XT fosse um cabo “inteligente”, e soubesse que os violinos deveriam soar
ligeiramente velados naquela frase enquanto as trompas deveriam cintilar.
Incrível e inesperado.
DESEMPENHO
Nas semanas seguintes
confirmei a clareza meridiana e a aristocrática correção de timbres do
Ultra XT. Mesmo em condições condenadas ao desequilíbrio, o cabo
mostrou-se irrepreensivelmente equilibrado: musical, mas sem coloração;
transparente e analítico, mas sem frieza; aberto e contido ao mesmo tempo.
Experimentei o
Ultra XT em três modelos de caixa diferentes: EVO III,
LandoAPX Prexis 216 (ainda em teste) e numa velha e multicolorida
Technics de três vias, que emite agulhas em lugar de agudos. Todas
apresentaram resultados estruturalmente semelhantes.
Escutei todo o tipo
de música, do trio de Dvořáck às sinfonias de Mahler. De Chet Baker à Diana
Krall. De The Doors à Madeleine Peyroux, passando por Eagle-Eye Cherry. Ouvi
e repeti muitas faixas e trechos, fatiguei a vizinhança e as visitas.
Utilizei gravações antiquadas e de referência, CDs e discos de vinil.
Nenhuma faixa de
freqüências recebeu privilégios. Do contrabaixo ao flautim, todas as camadas
de instrumentação se mostraram presentes, claras e articuladas. Órgãos
pareciam descer mais e subir mais em execuções musicais,
transparentes e emocionantes.
SÍNTESE
A transparência de
timbre, o equilíbrio e a musicalidade do Ultra
XT são altamente recomendadas aos que desejam estabelecer as
mesmas condições em seus sistemas de áudio.

Mesmo com um
acabamento soberbo, o Ultra é um cabo de caixa intermediário
na linha da Absolute Acoustics, tendo ainda três irmãos
mais velhos. Isso é bom pra nós dois: na configuração que experimentei, a de
2.4 metros, o par custa cerca de R$600,00. Sim, monsieur: R$.
Devo acrescentar que os adjetivos que
empreguei para descrever o Ultra brotaram de sua musicalidade, e não
de um preço tentador. O que está em jogo não é a relação custo versus
benefício, mas a performance de um produto que é um modelo de maturidade da
indústria brasileira de áudio. Um cabo de caixa qualificado por seus
atributos para impressionar qualquer ouvinte.
|