áudio: cabo ultra xt

12/01/12

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Impressionistas
Cabo de caixa Absolute Acoustics Ultra XT

©Ricardo Labuto Gondim
 

Ao ouvir um sax tocando o chamado Lá Padrão - o Lá4 - você estará ouvindo a freqüência de 440Hz. Se o saxofonista subir uma oitava, a nota continuará sendo reconhecidamente um Lá - no caso, o Lá5 -, mas a freqüência será dobrada, passando à 880Hz. A freqüência da nota é chamada de “fundamental”.

Bem, ao ouvir a fundamental você identifica a nota. Mas como identifica o sax?

Sempre que uma nota é tocada, além da fundamental ouvimos uma série de outras freqüências - com valores múltiplos da fundamental - que chamamos de “harmônicos”. Como a intensidade dos harmônicos varia com o material e a forma do instrumento, ainda que toquem a mesma nota o sax e o violino têm sonoridades singulares: seus “timbres”.

Como a intensidade dos harmônicos é o que caracteriza o som peculiar de cada instrumento, podemos concluir que equalização é coisa de gente grande: sublinhando ou escamoteando freqüências sem conhecimento de causa, podemos alterar os harmônicos e adulterar os timbres.

A reprodução fiel dos harmônicos é a grandeza e o calcanhar de Aquiles da audiofilia, essa doce maldição que confundimos com um passatempo. O instrumento que você tem em casa – o sistema – não conhece violinos nem saxofones, apenas timbres.

O problema é que, de um jeito ou de outro, cada elemento do sistema impõe algum tipo de equalização.

A sonhada resposta plana - 100% plana - é um ideal platônico: nossos ouvidos não captam os sons de forma linear. Na busca de uma sonoridade de sonho, ao criar um circuito o projetista sublinha ou esmaece freqüências aqui e ali, desenhando curvas para simular uma reta. Como tudo na vida, cada alteração provoca ou determina outra, que altera o conjunto. Esta é uma das razões porque o matrimônio entre um pré sublime e um amplificador sublime pode terminar em divórcio: um casamento feliz exige compatibilidades imensuráveis.

Sendo o penúltimo elo da corrente, o cabo de caixa recebe o somatório de todos os elementos do sistema: fonte, interlink ou intelinks, integrado ou módulos de pré-amplificação e potência. Logo, a “sonoridade” vulgarmente atribuída ao cabo está saturada de elementos que lhe são estranhos - e anteriores.

Mais do que em qualquer outro produto, para tentar definir as características particulares de um cabo de caixa - que como todo cabo é uma espécie de equalizador passivo - é preciso variar os componentes do sistema, escutar e repetir infinitamente um amplo número de gravações, comparar, confirmar, negar e conceituar. O exercício demanda artigos raros na praça: tempo, mais tempo e muito tempo, paciência e perseverança.

Daí que, aplicando uma lógica de jardim da infância, podemos inferir mais um axioma do logos eletrônico:

como em qualquer sistema o estado de interdependência é irrevogável, a burlesca ambição de conceituar com nitidez as peculiaridades de um cabo de caixa está intrinsecamente destinada ao fracasso: o resultado é sempre uma “impressão”, difusa como um quadro de Monet.

Em maior ou menor grau, a Lei de Monet vale para todo e qualquer elemento de um sistema, dos spikes aos falantes. Mas no caso do cabo de caixa, que é um componente passivo, os elementos predecessores multiplicam o horror da verdade ao infinito.

O lado bom da história são os reviews de publicações do mundo inteiro. É muito divertido ver um homem aplicar uma dezena de itens de avaliação num... num... convenhamos, num pedaço de fio, e obter pontuações com variações decimais. Para justificar impressões estritamente pessoais e episódicas um homem é capaz de tudo, até mesmo fingir recorrer à ciência – ainda que de boa fé, ilusoriamente: um método, qualquer que seja ele, é um recurso muito mais disponível que a lucidez.

Em oposição à sina brumosa dos que se propõem a avaliar subjetivamente um cabo de caixa, ouço vozes se erguendo para proclamar a inevitabilidade dos osciloscópios. A questão, monsieur, é que os osciloscópios ficam no laboratório, mas quem leva o cabo pra casa sou eu. Os componentes de um sistema são projetados para serem ouvidos por homens, mulheres e (ai de mim) críticos, não para serem vistos em forma de onda. Existem equipamentos que geram gráficos medidos pela escala Richter, mas que soam aos ouvidos como rouxinóis. O laboratório é indispensável para demonstrar e explicar porque um dado equipamento funciona mal. Mas só você pode identificar o que é bom.

o produto  

Tudo isso é para tentar explicar minhas impressões subjetivas sobre a performance do cabo de caixa Absolute Acoustics Ultra em sua versão XT. O cabo, um single ended primorosamente montado, tem construção "do tipo Star Quad, com 4 veias independnetes de 13 AWG, condutores multi-stranded SPC (Surface Perfect Copper), insulators de PVC envoltos em fita protetora de TNT e capa externa de PVC HighFlex." Na versão XT (Xtreme), "agrega Silver-Over-Soldering após o processo de crimpagem de alta pressão, stoppers especiais e refinado sleeving protetor".

Esses dados relativamente simples - elevados à monumentalidade pelo caráter onomatopaico da língua de Shakespeare - estão no site do fabricante. Se tudo isso é audível ou não, francamente, não me importa saber: não posso exibir credenciais para discutir o tema, e sou daqueles que acham o bolo de chocolate muito mais atraente que a receita.

Além disso, tenho algo muito interessante para dividir com você.

O cabo havia sido amaciado durante três piedosas semanas no sistema de um amigo arqui-solidário. Segundo ele, ainda era preciso queimar mais, de modo que instalei o cabo para ouvir música sem grandes esperanças.

Toquei a Sinfonia de Paul Dukas na versão meramente correta e bem gravada de Slatkin (RCA, 20 BIT). A música começa com um acorde breve na orquestra. Os violinos atacam o primeiro tema, esboçam o desenvolvimento e formam a base para que as madeiras exponham o segundo motivo. Essa longa frase nas cordas soou atipicamente “fosca” na versão “Ultra XT” – e isso, rapaz, foi muito bom.

As freqüências fundamentais de um violino - ou seja, o espectro em que é possível afinar o instrumento - vão de 196Hz à 3120Hz. Os harmônicos, praticamente tão extensos quanto os pratos de uma bateria, vão de 4KHz a 15KHz. Daí que - para uma massa de audiófilos cujo nome é multidão - uma orquestra ao vivo pode soar decepcionante: em casa, o compromisso de um sistema costuma ser com a beleza, enquanto o único compromisso de um violino é ser um violino; em casa, através de um sistema de áudio, os harmônicos costumam receber mais luz do que deveriam, envolvendo a fundamental com um manto levemente cintilante - uma aura de brilho que pode vir a ser doce, é verdade, mas completamente irreal. Se eu tivesse que descrever a sonoridade de um naipe de violinos para um surdo, diria que ela é ligeiramente fosca e ligeiramente brilhante - simultaneamente.

No momento da audição essa reprodução atípica e levemente pálida me intrigou. Foi então que as trompas soaram com todo brilho.

A trompa é um instrumento híbrido, capaz de simular madeiras mais veladas - a exemplo do fagote ou do corne-inglês num registro bem grave - ou assumir o seu destino de metal fulgurante. Estudei trompa durante um ano e meio e sempre tive a impressão de que, quando o instrumento é tocado para brilhar, os harmônicos soam quase tão nítidos quanto a fundamental, estabelecendo uma aura de vibração metálica em torno de cada nota.

Depois de ouvir uma longa frase fosca nas cordas, a súbita erupção da vibração luminosa das trompas me surpreendeu. Falando grosso modo, foi como se o Ultra XT fosse um cabo “inteligente”, e soubesse que os violinos deveriam soar ligeiramente velados naquela frase enquanto as trompas deveriam cintilar. Incrível e inesperado.

DESEMPENHO

Nas semanas seguintes confirmei a clareza meridiana e a aristocrática correção de timbres do Ultra XT. Mesmo em condições condenadas ao desequilíbrio, o cabo mostrou-se irrepreensivelmente equilibrado: musical, mas sem coloração; transparente e analítico, mas sem frieza; aberto e contido ao mesmo tempo.

Experimentei o Ultra XT em três modelos de caixa diferentes: EVO III, LandoAPX Prexis 216 (ainda em teste) e numa velha e multicolorida Technics de três vias, que emite agulhas em lugar de agudos. Todas apresentaram resultados estruturalmente semelhantes.

Escutei todo o tipo de música, do trio de Dvořáck às sinfonias de Mahler. De Chet Baker à Diana Krall. De The Doors à Madeleine Peyroux, passando por Eagle-Eye Cherry. Ouvi e repeti muitas faixas e trechos, fatiguei a vizinhança e as visitas. Utilizei gravações antiquadas e de referência, CDs e discos de vinil.

Nenhuma faixa de freqüências recebeu privilégios. Do contrabaixo ao flautim, todas as camadas de instrumentação se mostraram presentes, claras e articuladas. Órgãos pareciam descer mais e subir mais em execuções musicais, transparentes e emocionantes.

SÍNTESE

A transparência de timbre, o equilíbrio e a musicalidade do Ultra XT são altamente recomendadas aos que desejam estabelecer as mesmas condições em seus sistemas de áudio.

Mesmo com um acabamento soberbo, o Ultra é um cabo de caixa intermediário na linha da Absolute Acoustics, tendo ainda três irmãos mais velhos. Isso é bom pra nós dois: na configuração que experimentei, a de 2.4 metros, o par custa cerca de R$600,00. Sim, monsieur: R$.

Devo acrescentar que os adjetivos que empreguei para descrever o Ultra brotaram de sua musicalidade, e não de um preço tentador. O que está em jogo não é a relação custo versus benefício, mas a performance de um produto que é um modelo de maturidade da indústria brasileira de áudio. Um cabo de caixa qualificado por seus atributos para impressionar qualquer ouvinte.
 

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Este site foi atualizado em 13/08/09